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29.9.11

PELÁGIO e a reconquista cristã

Mais ou menos no início do oitavo século depois de Cristo , por volta do ano 711, a Península Ibérica foi invadida por hordas de muçulmanos , comandadas por Tarik ibn-Ziyad, o que levou os visigodos cristãos que viviam na Ibéria a recuar para norte, principalmente para as Astúrias que, pelas suas características de altas montanhas escarpadas, colocava grandes dificuldades ao domínio muçulmano. O período entre os anos 711 e 1492 , foi palco da recristianização da região, ocorrendo ,por isso, longo processo de lutas contra os muçulmanos, É durante esta fase que se dá o aparecimento do Reino de Portugal e de diversos outros na Península Ibérica. Chamamos Reconquista Cristã ao movimento cristão que visava à recuperação pelos Visigodos cristãos das terras perdidas para o islamismo .
Os muçulmanos não conseguiam ocupar a região montanhosa das Astúrias onde resistiam muitos visigodos e foi aí que surgiu Pelágio (ou Pelaio) que se pôs à frente dos refugiados, iniciando imediatamente um movimento de guerrilha..A guerrilha tinha, como já dissemos, um objectivo: reapoderarem-se das suas terras e de tudo o que nelas existia. .
Vamos então falar de Pelágio .
Pelágio, ou Pelayo, foi o fundador do Reino das Astúrias e o seu primeiro rei entre 718 e 737.
Dom Pelágio, juntamente com outros nobres Visigodos foram presos em 716, por ordem de Munuza, o governador muçulmano das Astúrias, e enviados para a sede do reino, em Córdova.
Pelágio conseguiu fugir, e voltou para as Astúrias refugiando-se nas montanhas de Cangas de Onis. Em 718, D. Pelágio reuniu um grupo de seguidores e iniciou a resistência ao invasor islamita, inicialmente com escaramuças contra pequenos destacamentos militares das povoações e, mais tarde, em luta aberta.
Em 722, o wali Ambasa enviou um grande contingente militar contra os resistentes de Pelágio. Este acabou por vencer nas altas montanhas de Covadonga. Esta batalha é considerada como o ponto de partida da reconquista cristã.
Após esta vitória, o povo asturiano uniu-se e rebelou-se provocando muitas baixas entre os mouros. O governador, Munuza, organizou outra força para confrontar o exército rebelde. mas Pelágio venceu novamente e Munuza morreu. Pelágio foi aclamado rei e fundou então o Reino das Astúrias instalando a, sua corte em Cangas de Onís.
Com o reino consolidado, D. Pelágio, veio a falecer de morte natural em Cangas de Onís, no ano 737. Foi sepultado na igreja de Santa Eulália de Abamia, próxima a Covadonga que ele havia fundado. Nesta igreja ainda existe o dólmen sob o qual ele foi inicialmente sepultado. Posteriormente seus restos foram trasladados por Alfonso X para o Santuário de Covadonga. ( ver foto ao lado) De sua mulher Gaudiosa, teve Fávila, seu sucessor no trono, e Ermesinda, que viria a desposar D. Afonso I, de Astúrias, filho de Pedro, duque da Cantábria. As altas montanhas desta zona asturiana são designadas de PICOS DA EUROPA.

4.7.11

VIRIATO





Muito se tem escrito sobre Viriato, um herói ibérico nascido quase dois séculos antes do aparecimento do cristianismo e celebrado quer em Portugal quer em Espanha.
A península Ibérica , no tempo da colonização romana , era designada de Hispânia e ocupada por vários povos como Galaicos, Asturianos, Cantábricos, Bascos, Lusitanos , Celtas , Celtiberos e outros mais.
Ora acontece que no ano 150 antes de Cristo. o governador Romano da Hispânia Ulterior, Sérvio Galba decidiu trair os Lusitanos com quem havia feito um pacto de não agressão e a promessa de lhes dar terras para cultivarem . Desta forma concentrou os Lusitanos em determinada zona, dividiu-os em três grupos e depois destes entregarem as armas mandou as legiões romanas atacá-los. A maioria foi morta e outra parte escravizada. Um pequeno grupo conseguiu escapar e nele encontrava-se Viriato, então com vinte anos, que reunindo todos eles iniciou uma guerra de guerrilha contra Sérvio Galba,
Não se sabe se Viriato era um lusitano nascido a norte ou a sul do rio Tejo, nem tão pouco quem era a sua família . Sabe-se apenas que era pastor, habituado á vida simples e difícil das serras. Decidido a vingar a morte do seu povo, instala-se na zona montanhosa e daí faz a guerrilha pois as rugosidades e asperezas das serras eram um refúgio, onde os grandes e pesados exércitos romanos se tornavam inoperacionais.
Perante este facto os romanos tudo faziam para aí os confinar, sem tentar atacá-los directamente.
Viriato era generoso para com os seus seguidores, distribuindo o produto dos saques de acordo com a valentia demonstrada no ataque ás guarnições romanas. Terá desposado Tongina ,filha única de Astolpas, um rico proprietário da região Bética , e fugido com ela para as montanhas, continuando a luta.
Dez anos após o início da guerrilha , Viriato faz um tratado de paz com Roma e por ele é reconhecido como Amicus populi romani (amigo do povo romano). Por este tratado é considerado Dux dos Lusitanos , isto é, rei dos lusitanos.
No ano 139 aC é assassinado por dois dos seus lugares tenentes , ao que consta aliciados pelo general romano Cepião. Consta que quando os assassinos se dirigiram a Cepião para receber a recompensa este, antes de os mandar degolar, terá dito: Roma não paga a traidores.
Viriato terá tido um grande funeral como rei dos Lusitanos , queimado o seu corpo numa pira durante dois dias com danças guerreiras á sua volta e honras dos romanos . Com a sua morte cessa a oposição a Roma e a Hispânia volta a ser parte do Império Romano.

24.12.10

ESCRIBAS


Podemos dizer que um escriba é todo aquele que escreve, isto é, todo aquele que utilizando símbolos , transmite manualmente uma mensagem. Ainda nos nossos dias há escribas , só que lhe chamamos escriturários.
No antigo Egipto, um escriba era uma importante figura na administração a nível civil, militar e religioso, pois a maioria dos egípcios não sabia ler nem escrever e quando precisava redigir ou ler um documento via-se obrigada a pagar o serviço de um escriba. Ser escriba não era tarefa fácil pois eram necessários cerca de 12 anos para que alguém estivesse em condições de ler e escrever os cerca de 700 hieróglifos que eram usados 1500 anos antes de Cristo e os estudos podiam começar aos quatro anos de idade. A habilidade para escrever garantia uma posição superior na sociedade e a possibilidade de progresso na carreira.. Um texto destinado a instruir os escribas, usado durante o Império Novo, garantia:
Seja um escriba. Isso o salvará da labuta e o protegerá de todo tipo de trabalho .Será poupado à enxada e ao alvião, de forma que não terá que carregar cestas. Ficará livre de manipular o remo e será poupado de todo tipo de sofrimento.
Mas então a escrita no Egipto era uma coisa assim tão difícil para que o escriba fosse tão considerado ?
Há cerca de 3000 anos , os Egípcios desenvolveram uma forma de escrever assente em vários pictogramas (imagens figurativas que representam coisas), mas também em fonogramas (símbolos que representam sons) . Meticulosamente gravados, os hieróglifos associavam, os símbolos fonéticos às imagens de objectos reais comuns, como plantas ,animais ,barcos, etc. A precisão e a minúcia da execução estavam ligadas também ao uso simbólico das cores. Escrevia-se da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita e também na vertical. A direcção da leitura era indicada pela direcção do olhar de certos símbolos que representavam homens ou animais. Este sistema de escrita recebeu a designação de "hieroglífica" (do grego hieros que significa sagrado, e ghyhhein que significa gravar) e foi criado para descrever os rituais religiosos , as comemorações de acontecimentos militares e, em última instância, até servir como agradecimento a um governante por qualquer dádiva. A escrita hieroglífica era utilizada nos documentos da vida pública e nas inscrições mais importantes. Mais tarde (cerca de 2400 AC) e por comodidade no dia-a-dia, os Egípcios desenvolveram uma forma simplificada de hieróglifos. É escrita hierática (cursiva) utilizada pelos sacerdotes nos textos sagrados ,e está adaptada ao movimento da pena molhada em tinta sobre o papiro macio. Para economizar tempo e esforço cada sinal hieroglífico foi esquematizado e até aparecem ligados entre si para que a mão não se levantasse. Escrevia-se da direita para a esquerda. Mas a dada altura, também a hierática deixou de responder à procura e exigências do quotidiano. Foi então que no Egipto se idealizou a escrita demótica (designada, então, a "escrita do povo"), por volta de 500 anos antes da nossa era, sendo que esta constituía uma redução da hierática que, por si só e como dissemos atrás, já era uma redução da hieroglífica. Relativamente ao suporte onde eram escritos, há a registar uma evolução desde o hieróglifo ao demótico, e que vai desde as inscrições de objectos em barro cozido, passando pelas pinturas nas paredes dos templos e das câmaras funerárias, em pedra e madeira, culminando com a utilização do papiro nos manuscritos. Efectivamente, o papiro – invenção atribuída ao povo egípcio –, foi o material mais importante para o segundo sistema de escrita, a partir das plantas que cresciam nas margens do rio Nilo. Estamos a falar das plantas papiros que cresciam nas terras pantanosas da foz do Nilo e cujos caules chegavam a ter quatro metros de altura, caules esses que eram cortados e justapostos às camadas numa superfície lisa, sendo que sobre a última camada era colocada uma pesada pedra lisa com a finalidade de fazer compressão dos caules . A pressão exercida fazia com que a seiva e a humidade das plantas, em contacto com a água, produzissem uma espécie de substância gelatinosa, que colava umas camadas às outras. Uma vez secas, as "folhas" eram postas em pilha e banhadas em azeite, ao que se seguia a tarefa de as alisar com a ajuda de uma pedra ( ágata).Mais tarde, os Romanos introduziram neste processo uma inovação que resultaria numa melhor qualidade do produto final: a aplicação de cola de amido para unir as fibras e assim neste papel se escreveu até ao nosso século XVIII.
A substituição do papiro pelo pergaminho teve lugar quando os Fenícios deixaram de exportar as folhas de papiro para a Ásia. O pergaminho era obtido a partir das peles de animais (como as ovelhas e as cabras), depois de esticadas, secas e polidas, após um banho em cal, por forma a evitar o mau cheiro. Já secas, as peles eram esfregadas dos dois lados com ajuda de argila e pedra-pomes. Este novo processo de obtenção de material para escrita tinha a vantagem de ser mais duradouro e de permitir a reunião das várias folhas em formato de livro, mas é destronado com o aparecimento do papel o que acontece em 1800 d. C.
Voltando ao assunto do tema, o escriba foi um aliado do Faraó e por isso as célebres estátuas de escribas sentados, com um rolo de papiro sobre os joelhos, são o melhor reflexo do seu estatuto social. Organizavam-se em torno de uma hierarquia de directores no cimo da qual se encontrava o visir, mão direita do Faraó. Que se tenha conhecimento não existiram escribas do sexo feminino, embora certas filhas de escribas tenham aprendido a ler e a escrever, mas foi muito raro. Hoje sabemos o nome de muitos escribas pois assinaram documentos ; é o caso de Pentaur, autor do célebre poema da batalha de Qadesh para glória de Ramsés II; é o caso de Imhotep, construtor da pirâmide de Saqqara ou ainda o de Amenhotep, filho de Hapu, visir de Amenhotep III.

18.11.10

LINHAS DE TORRES

Certamente já ouviu falar das “linhas de torres” ( correctamente deveria ser “linhas de Torres Vedras “) , relacionadas com as tropas invasoras de Napoleão Bonaparte . Estas invasões francesas ocorreram entre 1807 e 1811 porque Portugal não acatou a ordem de Napoleão de fechar os seus portos à navegação inglesa, com quem ele estava em guerra. Devido à recusa portuguesa, a França invadiu Portugal, com o apoio de dois corpos de exército espanhóis, tendo o corpo de exército francês, comandado pelo general Junot, entrado em Lisboa em 30 de Novembro 1807, obrigando a Família Real e o Governo a irem para o Brasil Os abusos, as injustiças, os roubos e os massacres perpetrados pelas forças de ocupação francesas, levaram a revoltas em Portugal nos princípios de Junho de 1808, encorajadas pelas revoltas espanholas que tinham eclodido uns dias antes. A Inglaterra ajuda-nos militarmente, travam-se batalhas que acabam com Junot a assinar um tratado de amnistia que lhe permite retirar do país.
“E se eles voltam?” era o dilema português, após Junot ser expulso em Agosto de 1808. E eles voltaram! O resultado foi a mais curta invasão napoleónica, comandada pelo general Soult em que a violência do confronto foi característica dominante. Mas invadir Portugal pelo Norte, tendo o Porto como objectivo intermédio, revelou‑se um erro, só possível de explicar pela ignorância relativamente ao temperamento dos Portugueses, o apego à sua terra e a relutância em colaborar com intrusos ostensivos além também da ignorância francesa pela orografia, pelo clima e pelos recursos alimentares e de alojamento da região nortenha.
Assim o Exército «galego» de Soult que tinha Lisboa como objectivo final, não foi sequer capaz de se aguentar no Douro. A acção dos Fronteiros de Chaves e a reconquista desta vila por Francisco da Silveira deram um contributo defensivo inestimável, parando o abastecimento do exército francês. Desta forma as forças anglo-lusas comandadas pelo general Arthur Wellesley e pelo marechal Beresford voltam a vencer e Soult retira. Mas Napoleão era teimoso !
Como diz a professora universitária Cristina Clímaco “ Face à iminência de uma 3ª invasão pelas tropas de Napoleão, Wellington elaborou em 1810 um plano de defesa de Portugal assente em 3 pontos: a edificação de uma linha de fortificações a norte da península de Lisboa - as Linhas de Torres Vedras -, a retirada da população da Beira e da Estrema­dura para a retaguarda das fortificações, e a destruição de todos os meios de subsistências e de meios de produção que pudessem permitir às tropas francesas subsistirem na região. Wellington contava para o sucesso do seu plano com o nacionalismo do povo português ao qual pediu o sacrifício de se arruinar e de arruinar o país para o salvar das garras da águia francesa.” Assim à força de braços, voluntariamente umas vezes, outras forçada , a população construiu 152 fortificações com 523 bocas de fogo, ao longo de uma centena de quilómetros , tudo no mais absoluto sigilo e em tempo “record”.
Montes de terra, árvores derrubadas, pedra, argamassa e alguma madeira eis o sistema de fortificações de campanha mais eficiente da história militar, pois era difícil prever por onde Napoleão iria invadir Portugal e era necessário proteger Lisboa e o seu excelente porto de mar. Para tal são projectadas três linhas de defesa a norte de Lisboa que reforçam os obstáculos naturais do terreno e permitem controlar os acessos. Estes trabalhos parece terem sido iniciados a 3 de Novembro de 1809, sob orientação de Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso.
A primeira linha , vulgarmente conhecida como segunda, vai de Ribamar à Povoa de Santa Iria , controla os desfiladeiros de Mafra, Montachique e Via Longa , pois se apoia na artilharia instalada nas serras de Chipre, Fanhões e Serves bem como no cabeço de Montachique, Como estas linhas têm um flanco direito de fraca resistência ao inimigo é criada uma outra linha 13 quilómetros mais a norte , a primeira , que vai desde Alhandra à foz do rio Sizandro, em Torres Vedras. Os flancos frágeis destas linhas eram reforçados por flotilhas de navios ingleses , autênticas batarias moveis de artilharia. Curioso é referir que, para além dos fortins , obras hidráulicas foram usadas na defesa pois ao serem inundadas as lezírias, desde Alverca até ao norte de Alhandra , o exército francês não podia passar. Para que tal acontecesse no tempo seco, foram construídos diques sucessivos ao longo do rio Sizandro, diques estes protegidos pela artilharia colocada na margem esquerda. Tudo isto construído no maior secretismo.
Quando as tropas francesas do general Massena chegam às linhas, em 11 de Outubro de 1810, deparam-se com estas fortificações de campanha , bem guarnecidas de artilharia. o exército aliado situado numa posição impenetrável e um terreno despovoado e não cultivado.
As linhas de Torres Vedras não são fortificações contínuas , pelo contrário, são posições separadas umas das outras, mas ligadas na retaguarda por estradas militares ; só os seus pontos importantes são fortificados .A maioria são. como dissemos, pequenos postos de artilharia de defesas precárias em madeira e terra. (ver foto do início do texto) A ideia é não acontecer uma grande batalha onde os franceses ganhariam por serem tropa altamente treinada, mas sim flagelar constantemente e em diversos pontos o inimigo, desgastando-o e desmoralizando-o dado estar a actuar numa zona de terra queimada desde Coimbra até Torres Vedras. A partir de Almeida (distrito da Guarda) onde começa a 3ª invasão francesa , Massena encontra um país silencioso . Um ofício de 23 de Setembro de 1810 dirigido ao Estado maior Francês diz o seguinte : “ Atravessamos um deserto, nem uma alma se encontra, tudo foi abandonado. Os ingleses levam a sua barbárie até ao fuzilamento do pobre que permanecesse em sua casa, mulheres , crianças e idosos ,todos fogem, não se encontra um guia em nenhum lado.” A população é obrigada a esconder ou destruir os produtos das colheitas que não consegue transportar consigo, a deixar as suas casas e a refugiar-se no interior das linhas. Tudo para privar o inimigo de recursos, obrigando-o a morrer de fome , já que os franceses tinham por norma abastecer-se localmente. A 4 de Março de 1811 os franceses retiram e começa assim o declínio do império de Napoleão.
Como curiosidade referimos : Participaram na obra mais de 150.000 camponeses que foram recrutados ao longo de um ano. O êxodo maciço da população forçado a viver a sul das linhas foi de cerca de 200.000 pessoas . As equipas trabalhavam em grupos de 1.000 a 1.500 homens , coordenados por um oficial engenheiro inglês e 150 capatazes. As várias fortificações foram ocupadas por 25.000 milícias e 11.000 ordenanças portuguesas, 8.000 espanhóis e 2500 fuzileiros navais ingleses. Como tropas regulares estavam 34.000 britânicos e 24.500 soldados portugueses. É incrível como isto não transpirou para o inimigo. O exército anglo-luso instalou-se nas linhas entre 9 e 11 de Outubro de 1810. No dia 11 todas as tropas encontravam-se ao abrigo deste sistema defensivo. As tropas de milícias e também de ordenanças guarneceram as diferentes obras de defesa e aí receberam treino de manobras defensivas. As tropas do exército anglo-luso foram utilizadas como uma força móvel e não como guarnição às posições defensivas. Desta forma, estariam sempre disponíveis para se movimentarem para qualquer ponto das linhas onde a ameaça francesa viesse a colocar em perigo a integridade da defesa. Tendo em consideração os eixos segundo os quais um eventual ataque por parte dos franceses seria mais provável e mais perigoso, Wellington dispôs o seu exército, com excepção da 3ª Divisão (Picton), em dois blocos: um em frente ao Sobral, entre Monte Agraço e Runa; o outro, na região de Alhandra. O quartel-general de Wellington ficou colocado na Quinta do Barão de Manique e o de Beresford no Casal Cochim, em Pêro Negro
Para que as linhas de defesa funcionassem na perfeição o exército aliado tinha de poder acorrer rapidamente a qualquer posição que estivesse a ser atacada pelos franceses. Para tal eram necessárias estradas militares mas também comunicações muito rápidas de instruções e ordens de batalha . Desta forma foi montado na serra do Socorro ( Mafra) um telégrafo de sinais (bandeiras e balões coloridos) que permitia transmitir para oito fortes onde também havia mastros de sinais . Assim as fortificações das linhas de Torres e os seus flancos ,comunicavam entre si, mas também com os navios ingleses fundeados no Tejo e na costa . As mensagens eram em código previamente estabelecido e muito simples, pois bastava transmitir um número que correspondia a uma determinada situação. A foto que se segue mostra a reconstituição de um desses postos telegráficos .

14.4.10

HISTÓRIAS DO EGIPTO

Quando, em 1490 antes de Cristo, Tutemosis II morreu sem deixar descendência masculina da sua união com a esposa real que era a sua meia irmã Hatshepsut, entrou em cena o único filho varão do soberano e de uma concubina de nome Isis e que ficou conhecido como Tutemosis III. Como este herdeiro do trono era uma criança , o clero, a nobreza e o exército apoiaram uma regência de Hatshepsut durante a infância do seu sobrinho e enteado. A regência acabou por durar vinte e dois anos , pois rapidamente se tornou num reinado a dois, entre tia e sobrinho, terminando apenas em 1468 aC, com a morte de Hatshepsut. Sabe-se que Hatshepsut sempre teve um papel preponderante na governação, embora o soberano fosse Tutemosis III, de tal forma que no sétimo ano de regente se faz coroar faraó (rei), adoptando título real e até passou a usar a barba postiça. Tal só foi possível com a concordância do poderoso clero de Amon que a rainha protegia e favorecia enormemente .
Este caso estranho de dois faraós a compartilhar o poder está representado no templo de Karnak em que se vêem os dois a fazer oferendas na barca de Amon a quando do regresso da famosa expedição que Hatshepsut enviara ao país de Punt (Somália) em busca de incenso , mirra e outros produtos exóticos.
A rainha também concedeu à sua filha primogénita os atributos dos príncipes herdeiros e é possível que Tutemosis III tenha casado com filhas da soberana e que uma delas, Neferuré tenha sido a mãe do futuro faraó Amenhotep II.
Preparado desde muito cedo para a guerra, Tutemosis III comandou efectivamente o exército e seguiu numa expedição contra a Núbia que se havia rebelado e retomando o controlo das minas do Sinai, expulsando os beduínos. Este facto está recordado , sem esquecer a rainha, numa estela que diz :….. No ano 16, sob a majestade do rei do Alto e Baixo Egipto Maatkare ( Hatshepsut)…….e sob a majestade de Menkhepene (Tutemosis) que viva , seja estável e duradouro ,o rei pôs-se à cabeça dos seus soldados ….. Com a morte da rainha começa o governo a solo de Tutemosis III, então com 34 anos de idade , tendo desenvolvido uma campanha expansionista em 17 acções militares . Assim incluiu nas suas fronteiras a Núbia, a Líbia, Síria e Chipre. Segundo os relatos dos seus generais , além de grande estratega, conseguiu a submissão dos príncipes dos territórios conquistados sem recorrer a actos de crueldade para com eles. Tutemosis III mandou construir o seu templo funerário em Deir el-Bahari, entre os templos de Mentuhotep II e de Hatshepsut. O templo, descoberto em 1962, não possui a grandiosidade do templo da madrasta.
Tutemosis III foi enterrado no Vale dos Reis. À semelhança do que aconteceu com outros túmulos este também foi alvo de pilhagens. As suas paredes encontram-se decoradas com figuras esguias, pintadas a negro e vermelho sobre um fundo cinzento que pretendia simular o aspecto de um papiro, encontrando-se nelas a versão mais completa do Livro de Amduat que fornecia ao faraó defunto um mapa do mundo dos mortos e feitiços protectores e a versão mais antiga que se conhece da Litania de Rá. A sua múmia foi encontrada em 1889 num estado danificado no "esconderijo" de Deir el-Bahari, para onde tinha sido transladada pelos sacerdotes da XXI dinastia que pretendiam proporcionar-lhe uma maior segurança e consequentemente garantir a vida eterna ao faraó.
Voltemos um pouco atrás nesta história e vejamos o ardil montado por Hatshepsut para conseguir convencer o clero de que , embora mulher, podia ser faraó. Nas paredes do seu templo , em Deir el-Bahari, está representado o episódio que relata a sua concepção e o seu nascimento.
A mãe de Hatchepsut, Ahmose, encontra-se no palácio real. O deus Amon- observa-a e, depois de consultar um conselho composto por doze divindades, decide que chegou a altura de gerar um novo faraó. O deus toma a aparência do rei Tutmosis I, que a encontra adormecida no quarto. A rainha Ahmose acorda ao sentir o perfume que emana do corpo do esposo e o Deus Amon mostra-se em toda sua plenitude. Ahmose, cai aos prantos de emoção pela grandiosidade do Deus. O casal une-se sexualmente e depois Amon-Rá informa que a filha que nascerá da união dos dois, governará o Egipto em todas as esferas de poder do palácio.
Apesar de não concordarem, os sacerdotes foram obrigados a legitimar a história, pois viviam bem e com muitas mordomias, principalmente por causa das doações que a rainha lhes fazia . Acreditaram que se o Deus Amon não ficasse satisfeito com as decisões da rainha, o Egipto sofreria com pragas e colheitas ruins. Mas parece que o deus Amon estava de acordo com as ideias de Hatshepsut, pois ela governou num período de muita prosperidade e tranquilidade. Ontem como hoje ,o clero submete-se ao poder instituído desde que obtenha regalias.
Alguns anos após a morte o seu nome foi apagado de monumentos e outros documentos não se sabendo onde se encontra a sua múmia, embora haja notícias que a mesma foi identificada . Sobre este último ponto não encontramos fontes credíveis.

24.3.10

O ALÉM DOS EGIPCIOS

Para os egípcios , a morte era a separação das cinco partes que constituíam o ser humano ; três estavam directamente ligadas ao físico e eram o khet (corpo), o shut (sombra) e o ren (nome) ; a duas imateriais seriam o Ka, uma ínfima porção da energia universal cósmica que a pessoa recebia ao nascer e desaparecia com a morte e o ba que poderíamos designar como a personalidade. O nome, atribuído ao nascer, ,era muito importante, pois ele tinha de ser reconhecido e recordado na outra vida . Um dos piores castigos que um egípcio podia sofrer era apagarem-lhe o nome de documentos ou de outro qualquer local pois cairia no esquecimento eterno . A sombra era a imagem do lado negativo do indivíduo enquanto vivente. Como as referidas cinco partes deveriam voltar a juntar-se no Além , uma série de procedimentos teriam de ser executados logo a seguir ao óbito. A preservação do corpo era imprescindível, daí terem de o mumificar. O processo mais perfeito demorava 70 dias e era realizado em fases bem diferenciadas. A mumificação dependia do dinheiro que os familiares do defunto podiam pagar; na realidade havia três qualidades de embalsamamento e só os ricos acediam ao mais elaborado. Os mais pobres tinham de contentar-se com uma limpeza abrasiva das entranhas e a um banho com uma solução de carbonato de sódio para desidratar o corpo mumificando-o. Um tratamento médio consistia em injectar óleo de cedro no abdómen, e o corpo lavado com carbonato de sódio. Passados alguns dias ao retirar-se o óleo de cedro este arrastava consigo os órgãos internos desfeitos e o corpo era enfaixado. Junto à múmia eram colocados amuletos e recitadas fórmulas mágicas para a preservação do corpo.
No caso dos ricos, o corpo era primeiro purificado lavando-o com água fresca perfumada e pelos orifícios nasais era retirada a maior quantidade possível de massa encefálica . Através de um incisão no lado esquerdo do cadáver eram retiradas as vísceras que se embalsamavam em separado e posteriormente guardadas em vasos especiais (vasos canopos) . Esvaziado o corpo este era lavado com vinho de palma e especiarias e recheado com mirra , incenso , carbonato de sódio e perfumes. De seguida era coberto de carbonato de sódio durante 36 dias. Passado este tempo o corpo era retocado e pintado para melhorar o aspecto ; assim o golpe lateral por onde tinham retirado as vísceras era disfarçado com uma camada de cera ou com uma placa de ouro e todos os orifícios naturais tamponados com uma resina. Os dedos eram cobertos com grandes dedais para não se desfazerem. Terminada esta cosmética o corpo era enfaixado numa operação dupla com ligaduras de linho. Após tudo isto fazia-se o funeral. Este consistia numa procissão solene em que o cadáver era levado num andor , por vezes em forma de barca, sob uma cobertura colorida, Uma parelha de bois levava o caixão juntamente com uma caixa onde iam os vasos canopo que continham as vísceras e um enigmático tekenu . Um sacerdote abria o cortejo oferecendo libações e incenso; seguiam-no os familiares e os amigos , as carpideiras e outros sacerdotes menores. Também eram transportados os objectos pessoais do falecido tais como móveis , vestidos, jóias ,perfumes, armas, comida e bebidas e até estatuetas de criados que se transformariam em seres reais no Além, tudo para que nada faltasse ao defunto na outra vida. Para que o falecido pudesse ressuscitar era necessário ainda despertar os sentidos o que era realizado numa complexa cerimónia , conhecida como abertura da boca . Esta cerimónia era presidida pelo filho herdeiro que a oficiava como sacerdote, coberto por uma pele de felino, No fim deste longo e complexo ritual a múmia era finalmente colocada no sarcófago e o túmulo selado

1.3.10

POMPEIA cidade dos prazeres

Em 21-4-08, publiquei, na etiqueta História , uma mensagem intitulada POMPEIA..auge e morte que hoje vou completar sob outro aspecto. A julgar pelo elevado número de esculturas e pinturas da deusa Vénus , a vida diária dos habitantes de Pompeia estava presidida pelo prazer. O jogo, a bebida e o amor eram prazeres a que os pompeianos se entregavam em banquetes particulares nas tabernas que acolhiam os ociosos bebedores ou os viciados jogadores e que podiam degenerar em orgias. O mesmo acontecia nos bordeis oficiais ou clandestinos.
Aos homens residentes em Pompeia agradava organizar, em suas casas, ceias em que os convidados eram servidos em louça luxuosa. Geralmente, um banquete de requinte disponibilizava sete pratos aos convidados do evento. Pastas, cogumelos e frutos do mar temperados integravam as entradas que aguçavam os sentidos dos convidados. Para o prato principal era indispensável a escolha de uma bela carne acompanhada por frutas, molhos e cebolas que sustentavam a variada gama de sabores a serem degustados. No fim, a sobremesa do banquete era composta por frutas, bolos quentes e flores. Na sala, o triclinium era mobilado com três leitos onde se recostavam três convivas . Naquela época comer deitado era um acto que evidenciava condição social abastada. Apenas os menos afortunados e os escravos comiam sentados. Não podemos esquecer que esses banquetes também se transformavam em grandes orgias onde os prazeres carnais também eram excessivamente consumidos. Para animar o evento, músicos mostravam suas habilidades tocando a lira, a chitara, castanholas de origem hispânica e tambores importados do norte da África. O cordax era uma das danças eróticas que despertavam a paixão entre os convidados. Nesse momento, a festa alcançava o seu auge. Com esta agitação toda, um grande banquete exigia que o seu responsável contasse com um grande número de escravos. Normalmente, eles tinham a função de trocar os recipientes com água quente para lavar as mãos, espantar as moscas da comida e, em alguns casos, eram também utilizados como objectos sexuais dos convidados da festa. Quando a festa era de facto luxuosa, alguns escravos eram especialmente designados para acompanhar os convidados no retorno a casa. Além disso eram usados trajes específicos, bem como elaborados penteados e joias. O afresco que apresentamos a seguir, encontrado em Pompeia, mostra o ambiente : à esquerda , um escravo ajuda a descalçar um convidado , enquanto na direita um outro escravo ampara outro convidado que acabou de vomitar para poder continuar a comer e a beber. Em alguns locais havia salas próprias para vomitar.
Os pompeianos eram viciados no jogo dos dados como é comprovado pelo grande número destes objectos que foram encontrados nas escavações arqueológicas A imagem seguinte mostra uma pintura mural na parede de uma taberna e onde são retratados dois jogadores em plena partida . Uma inscrição na parede regista o caso de um indivíduo que ganhou 850 denários , o equivalente ao soldo de um legionário durante quatro anos .
Em Pompeia abundam pinturas de tema sexual. Na sua maioria aparecem em lugares associados à prostituição, como sejam tabernas, termas ou bordeis , embora também tenham aparecido em quartos escondidos de casas particulares. Nesta cidade a prostituição era uma actividade comum, aceite pela sociedade, comentada até mesmo em grafites nos muros. Os grafites faziam a propaganda! Consignavam os preços e as especialidades sexuais das mulheres. Graças a estes grafites, os arqueologos que estudam Pompéia descobriram que a prostituição era praticada até em reservados restaurantes, como complemento à refeição.
Um dos elementos característicos da paisagem urbana da cidade eram as tabernas, cerca de 200, o que dava uma média de uma por cada 60 habitantes , crianças e escravos incluídos . Isto pode ser explicado pelo elevado número de marinheiros e mercadores que constituíam uma grande população flutuante . Também se pensa que muitas tabernas seriam locais de venda de produtos comestíveis , como legumes, frutos secos, e guisados , estes confeccionados numa cozinha à parte . Estas tabernas, vendessem elas só vinho ou também comida, abriam directamente para a rua. Tinham grandes vasilhas embutidas em buracos no balcão. Há quem pense que por baixo havia brasas para manter os alimentos e as bebidas quentes.
Os bares não tinham bancos e os clientes enquanto bebiam garatujavam as paredes. Numa dessas paredes foi encontrado escrito um duelo amoroso entre dois homens que se apaixonaram por Íris , a escrava da mulher do taberneiro. Em raras tabernas haveria bancos e mesas , onde se poderiam sentar uma vintena de pessoas. Pompeia possuía ainda um teatro, um auditório para actuações musicais, e um anfiteatro onde cabia toda a população para assistir a corridas , jogos e lutas de gladiadores. Assim se pode comprovar que Pompeia era uma cidade de prazeres.

11.1.10

CORSÁRIOS



Começamos por dizer que corsários e piratas não são bem a mesma coisa , embora os efeitos nos navios mercantes fossem idênticos devido aos saques e mortandade cometidos. Já Nelson , o célebre almirante inglês do século XIX, assegurava que os corsários não eram melhores que os piratas, mostrando assim o desprezo que os marinheiros profissionais sentiam por estes marinheiros que saqueavam navios inimigos com autorização do rei do seu país. A razão da existência de corsários deve-se ao facto do corso ser mais rentável para um Estado do que ter uma força naval organizada que, a ser criada, seria sustentada permanentemente pelos cofres desse Estado. Espanha ,França e Inglaterra tiveram os seus corsários, para além da marinha de guerra. Os corsários, desde o início, foram uma arma barata e eficaz, não só pelos prejuízos que causavam no comércio rival mas também pelos ganhos que propiciavam os saques e os pedidos de resgate sobre os barcos aprisionados e suas tripulações . No entanto, tudo o que fosse para além de causar estragos no comércio rival era considerado pirataria e susceptível de ser castigado, inclusive com a forca. Como uma coisa é o que está acordado e outra é a realidade, muitas vezes as acções corsárias eram mais de pirataria , com destruição e barcos e crueldade escusada. Nos séculos XVI e XVII, os corsos nos mares Mediterrãnico, Cantábrico e Antilhas eram feitos por barcos pequenos, muitas vezes sem grande artilharia, muito úteis na procura e perseguição dos navios mercantes dos outros países, o que exigia barcos leves e velozes. Os corsários usavam como armamento pistolas, mosquetes, espadas e punhais e o seu único pensamento era o saque e posterior partilha. O grande problema de quem comandava estes barcos corsários era a disciplina , já que os tripulantes eram recrutados em meios problemáticos das grandes cidades de Londres e Marselha. Para combater a indisciplina , os capitães aplicavam uma lei não escrita mas por todos aceite. Vejamos alguns exemplos: se um marinheiro se amotinava devia ser isolado e emplumado antes de ser abandonado numa ilha deserta ;se um homem desembainhava um punhal com intuito de ameaçar um companheiro,eram-lhe cravadas as mãos no mastro com o dito punhal, esperando que ele se soltasse sozinho; se fumasse antes do pôr do sol levava três chicotadas ; o que assassinasse um companheiro era atado ao cadáver e atirado ao mar. Dentro deste código de conduta dos corsários, o que estava destinado aos tripulantes e passageiros dos barcos aprisionados? Os passageiros considerados ricos eram mantidos para resgate ,mas turcos, mouros e mouriscos podiam ser vendidos como escravos. O resto da tripulação deveria ser desembarcada num porto amigo, logo que possível . Só em caso de necessidade absoluta se podia completar a tripulação com prisioneiros. Os barcos corsários tinham um comandante absoluto ,o capitão, escolhido pelo armador; seguiam-se o imediato e o mestre da fragata que governava a marinhagem. Como postos intermédios existiam o mestre das rações, o mestre dos apetrechos, o piloto, o contra mestre e o condestável. Havia também artilheiros,carpinteiros ,cirurgiões e por vezes um padre, num universo de cerca de cinquenta pessoas.

Ressalvando a abordagem e a luta que se seguia , o momento mais delicado da vida de um corsário era o julgamento do corso . Era um julgamento autêntico de primeira instância ,com escrivão e assessores e que servia para avaliar se o barco corsário actuara segundo as leis do mar e, por tanto, se o espólio obtido podia dar-se como bom e ser repartido. O julgamento era efectuado em terra, com a presença do capitão corsário e dos prisioneiros a quem era atribuído um defensor. Todos eram ouvidos sob juramento e a sentença decretada em 24 horas . Qualquer das partes podia recorrer da sentença para um tribunal superior, o Conselho de Guerra , que ditava a sentença final com possibilidade de um só recurso, o que era muito raro. Se o resultado era a favor dos corsários eles repartiam entre si o espólio; se era a favor dos prisioneiros , estes tinham direito a receber o que lhes fora roubado e uma indemnização pelos danos sofridos.

Se bem que no final do século XIX o corso tenha terminado devido a acordos internacionais que regem a navegação, no início do nosso século, na região da Somália,ele existe, mais parecendo pirataria e por isso combatido pela marinha de guerra de vários países, incluindo Portugal.

21.11.09

SACERDOTES EGIPCIOS

A civilização egípcia ,uma das mais antigas, sempre mostrou práticas religiosas, primeiro animistas (5.000 anos antes de Cristo) tendo depois evoluído para uma espiritualidade repleta de deuses. Esta nova espiritualidade mantinha vestígios anímicos, uma vez que esses deuses eram divindades antropomórficas , ou seja, tinham elementos humanos e animais As primeiras referências a sacerdotes do Egipto datam da Primeira e Segunda Dinastias, 3.000 anos antes de Cristo, embora as inscrições que a eles aludem sejam meros títulos honoríficos que não permitem determinar, em rigor, as suas funções. Do Império Antigo existem já mais informações , sabendo-se que os sacerdotes principais eram escolhidos entre os familiares do Rei (Faraó) ou pessoas muito próximas dele. Os sacerdotes constituíam uma casta previligiada que ia obtendo cada vez mais poder mas não chegando a acumular grandes riquezas. A partir da quinta dinastia (2494- 2345 aC) com a construção de grandes templos consagrados a Rá, o deus Sol, a classe sacerdotal ganhou independência e influência.Esta influência foi aumentando nas dinastias que se seguiram, chegando a haver 80.000 sacerdotes no templo de Amon, em Karnak, no tempo de Ramsés III. Devemos esclarecer que eram consideradas sacerdotes todas as pessoas que trabalhavam no templo e que a sua actividade nada tinha de semelhante com a dos clérigos das actuais religiões ocidentais. Aquelas pessoas eram, na realidade, servos do Deus e, consoante as habilitações que possuíam , assim estavam destinadas a tarefas específicas. Se sabiam ler e escrever, iriam interpretar textos, escrever documentos etc; outros praticavam observação astronómica e definiam calendários de colheitas; outros ainda dedicavam-se á medicina preparando medicamentos,fazendo sangrias ,criando elixires ,exorcismos etc; outros eram guardas e assim por diante. Os servidores do Deus podiam casar e ter outras profissões sem incompatibilidade com o serviço do templo. Existia entre esses sacerdotes ou servidores uma hierarquia que determinava a que lugares no templo poderiam ter acesso. O clero egípcio estava organizado segundo uma rígida estrutura piramidal em que no vértice estava o Faraó como sumo-sacerdote de todo o país e de todos os deuses. Dele dependiam os corpos sacerdotais dos diferentes templos e deuses. Os corpos sacerdotais eram chefiados pelos sumo sacerdotes que tomaram designações diferentes ao longo dos tempos e consoante os lugares de culto. Como exemplo citamos o que se passava com o templo de Amon ,em Karnak,com os seus 80.ooo servidores: O Sumo-sacerdote ou Primeiro Servidor era nomeado pelo Faraó que delegava nele o privilégio de ser o Deus encarnado, isto depois de ouvido o oráculo. Não esqueçamos que o Faraó era considerado o Deus encarnado. O Primeiro Servidor do Deus era assistido por um Alto Clero que com ele podia aceder às zonas mais sagradas do templo. Este Alto Clero era ainda constituído por um Segundo,Terceiro e Quarto Servidores do Deus e tinha por missão o governo do templo, dirigir os trabalhadores e controlar todas as propriedades e terras que o santuário possuísse. Estes quatro dignitários eram apoiados por numeroso pessoal auxiliar tal como mordomos,secretários,escribas,guardas ,criados e serviçais indiferenciados. Existia também um Baixo Clero formado por sacerdotes puros, ou uab que se ocupavam do ritual diário e carregavam a "Barca Divina" nas procissões .Tinham também uma hierarquia que passava pelo Director, Supervisor e Grande Sacerdote Uab, a que se acrescentavam os sacerdotes horários ,sacerdotes horóscopos , sacerdotes músicos e sacerdotes auxiliares com diferentes funções no templo. Neste imenso pessoal existiam também mulheres cuja actividade era a música e a dança para deleite do Deus, leia-se do Faraó. À cabeça deste clero feminino estava a Raínha ou uma filha solteira do Faraó,consideradas a Esposa do Deus ou Divina Adoradora ; seguiam-se a Supervisora do Harém (equivalendo ao 2º Servidor do Deus) que verdadeiramente dirigia a área feminina ; a Mãe do Deus e a Ama do Deus , formando todas elas o Alto Clero Feminino. No Baixo Clero encontravam-se as sacerdotisas puras , as cantoras de Amon, as músicas, as bailarinas e as leigas. Na foto abaixo vemos a raínha Nefertite (1ª Servidora) em ritual de oferenda ao Deus .Os Sacerdotes não pregavam os dogmas religiosos entre a população e os templos não eram lugares de culto público ,sendo o acesso a eles reservado ao clero. O culto ao Deus era realizado três vezes ao dia : ao amanhecer, ao meio dia e ao anoitecer. O Faraó ou o Sumo Sacerdote , por sua delegação, quebrava o selo da capela e abria o armário sagrado onde se encontrava a imagem mais sagrada do Deus , iniciando-se o ritual de a alimentar,lavar, vestir. pintar e adornar com jóias , como se fosse um ser vivo. É isto que podemos observar abaixo, na pintura de um papiro que passamos a descrever: O Sacerdote, com a máscara de Deus chacal Anúbis , segura a múmia enquanto , do outro lado,um outro vestindo a pele de leopardo e acolitado por mais dois , realizam os rituais atrás citados.



Os Sacerdotes Puros , antes de iniciarem o serviço diário, deviam banhar-se em água fria do Nilo e depilar cuidadosamente todo o corpo para evitar transportar os piolhos para o templo. Como se pode ver na foto de uma estela em madeira estucada e pintada , o sacerdote músico apresenta a cabeça rapada.


Como já referimos os templos não eram locais de livre acesso público pois o povo não era digno de ter contacto directo com a divindade. As procissões, quando a barca com o sacrário era carregada aos ombros dos sacerdotes puros , constituíam o único momento em que a população poderia admirar a imagem da divindade. Em geral os templos tinham como acesso a avenida processional ladeada de esfinges,com cabeças humanas ou de carneiros, tendo junto ao peito a imagem do faraó construtor.Na entrada do templo sobressaíam duas altas torres, de paredes inclinadas . Passadas estas chegava-se a um pátio aberto, cercado de colunas, cujo formato era inspirado em motivos vegetais como feixes de papiros e flores de lótus , claramente visíveis nos capiteis. Desse pátio passava-se a uma sala de colunas , totalmente coberta que dava acesso ao santuário principal do templo. Os templos compreendiam áreas contíguas com um lago sagrado usado nos rituais, casas dos servos do Deus , oficinas de artistas e artesãos , escritórios dos escribas e dos mordomos, celeiros ,etc, tudo isto cercado por uma muralha , fazendo do templo e anexos uma cidade autêntica. Os templos que, como já tinhamos dito, eram detentores de vastas propriedades onde trabalhavam agricultores e pastores, garantiam assim os víveres necessários para a sobrevivência de todo o pessoal. Os alimentos (carnes,leite,cerveja, vinho, pão diverso,óleo, fruta, legumes,vestuário ,etc)eram dados como ofertas que depois de consagradas nos altares laterais do templo iam para as dispensas para posterior distribuição pelos servos do Deus num processo chamado "reversão das oferendas".Estes celeiros eram tão grandes que podiam alimentar anualmente cerca de 30000 pessoas.

1.9.08

A ROTA DA SEDA

Quem diria que a larva de um simples insecto, cuja espécie é classificada cientificamente de Bombyx mon, fosse originar uma tão grande revolução comercial entre o oriente e o ocidente, isto há 4.000 anos. As larvas ,oriundas das centenas de ovos postos pelo insecto, alimentando-se constantemente de folhas de amoreira , têm um período de vida de 40 dias findo os quais constroem casulos onde se encerram para se transformarem em novos insectos. É destes casulos, construídos durante três dias e três noites que se retira a seda. Cada casulo é formado por um único fio de material proteico fabricado pelas glândulas salivares da larva (bicho da seda). Este fio de baba , com cerca de 1200 metros, solidifica instantaneamente em contacto com o ar, podendo ser retirado se colocarmos o casulo intacto em água a ferver. Hoje, como no passado, um tecido de seda natural é um luxo pese embora o produto já não ser exclusivo da longínqua e interdita China, como acontecia na dinastia HAN. Segundo registos da época ,a seda além de macia e bonita tinha poderes mágicos contra a chuva e trovoadas. Para chegar á Europa, fazia um longo percurso terrestre, de cerca de 6.000 kms, entre Chang' an (capital do país na dinastia Tang) e Constantinopla no Maditerrânio. Este trajecto, longo e difícil, atravessava montanhas, desertos, oásis, ás vezes a altitudes superiores aos 2.500 metros, era feito em caravanas de camelos e foi designado de Rota da Seda, embora outros produtos como pérolas e pedras preciosas fossem também comercializadas. A viagem durava cerca de um ano e estava sujeita aos ataques de salteadores. Havia a possibilidade de transporte marítimo desde Cantão até ao mar Mediterrânio, passando pelo sul da Índia e da Península Arábica, mas embora mais rápida e com maior volume de carga, estava contudo sujeita a tempestades, naufrágios e pirataria. O caminho terrestre não era um único havendo, em algumas zonas, alternativas para evitar assaltos ou situações climáticas adversas. A seda que já conhecida na China 2000 anos antes de Cristo, começou a ser usada na Europa só nos últimos dois séculos ,antes da nossa era. O segrêdo do seu fabrico manteve-se muito bem guardado até ao século VI; parece que, por esta altura, alguém terá trazido, ás escondidas ,alguns bichos da seda para a Europa e aqui reproduziram-se tanto que acabaram com o monopólio da China. A rota da seda, importante sobre o ponto de vista comercial, influenciou também a maneira de pensar e a cultura dos povos por onde passou, muito especialmente no aspecto religioso, pois com os comerciantes viajavam monges ,soldados e aventureiros. Desta forma expandiu-se o Budismo e o Islãmismo até terras orientais da China. Quando os países da Europa já tinham a sua própria produção de seda, o comércio com a Ásia virou-se para as especiarias e daí uma luta pelo controlo das rotas marítimas, terminando o interesse pela rota terrestre. Importante para o crescimento da rota marítima foi o feito dos portugueses ao descobrir o caminho marítimo para a Índia através do cabo da Boa Esperança , o que evitava os ataques de piratas . A paixão pela legendária Rota da Seda mantem-se ainda hoje com exploradores, geógrafos e aventureiros a percorre-la , agora em caravanas de camiões com telefone de satélite, GPS, e outras comodidades modernas. Existem muitas lendas em torno do fabrico da seda: uma delas diz-nos que foi descoberta ,por acaso, por uma raínha chinesa que, quando tomava chá sob uma amoreira, um casulo de bicho da seda terá caído na sua chávena de chá a ferver e , desta forma, soltou o fio de seda. O processo para desmanchar o casulo ainda continua hoje a ser o mesmo,isto é, mergulhá-los em água a ferver. Na China a deusa da seda é a imperatriz Hsi Ling Shi que teria inventado o tear. A figura ao lado é uma antiga pintura chinesa em um biombo, onde se observa um recipiente cheio de casulos em água a ferver e um tambor para enrolar o fio de seda que se vai soltando dos casulos.

22.8.08

OS CELTAS NOSSOS ANTEPASSADOS



Não se pode falar de uma raça, nem sequer de um povo, talvez de várias tribos aparentadas com usos comuns. Oriundos do norte da Europa, passaram os Pirineus em direcção á Península Ibérica por volta do ano 900 A.C., fixando-se no norte da Ibéria . Se durante 200 anos Celtas e Iberos praticamente se ignoraram, a partir do ano 700 A.C , começaram a misturar-se dando origem aos Celtiberos . Eram agricultores e pastores, mas também possuiam armas metálicas como lanças, espadas, machados, escudos ,capacetes e couraças. Eram politeístas adorando os seres da natureza, principalmente as árvores, daí que muitos dos nossos apelidos sejam Pereira, Nogueira,Pinheiro, Oliveira,Castanheira, etc. O chefe religioso era o druída, mistura de mago e curandeiro, conhecedor das estrelas e da natureza. Altos e fortes eram cultos, pois gostavam do canto dos poetas e faziam artesanato artístico. Homens e mulheres prendiam os longos cabelos penteados com alfinetes de ouro, prata ou bronze, consoante as posses. Da sua passagem deixaram numerosos vestígios, como os que encontramos no nosso país nas regiões de xisto e granito. São restos de construções, normalmente circulares que muitos associam a " povoados fortificados ", embora a maioria fossem simples locais de habitação , característicos da Idade do Ferro e denominados de castros. Os castros, tomam a designação de citânias quando de maiores dimensões e habitados permanentemente, como é o caso da citânia de Briteiros. Invariavelmente localizados no cimo dos montes permitiam um controlo táctico dos campos agrícolas em redor. Nestes montes havia sempre fontes,poços ou cursos de água o que lhes permitia resistir em caso de cerco. Um castro típico possui duas a três muralhas de defesa e dentro as casas de três a cinco metros, na maioria circulares, feitas de pedra solta e terra, com telhado cónico de colmo suspenso por um pilar central de madeira.

A distribição das casas dentro do castro é alinhada, revelando já uma organização. Alguns historiadores afirmam que alguns castros são da idade do bronze e do Neolítico, anteriores aos Celtas terem vindo para a península Ibérica. Os Romanos destruiram muitos castros,devido á feroz resistência dos povos castrejos á sua ocupação, embora outros fossem aproveitados e aumentados como cidades romanas. A zona castreja encontra-se, para além da Galiza espanhola, na região entre os rios Douro e Minho, nos concelhos de Caminha, Cerveira, Valença, Coura, Viana do Castelo,Ponte de Lima e Esposende. As citânias mais conhecidas são as de Sanfins, Briteiros, Bagunte, Alvarelho e ainda a cividade de Terroso.


Dissemos atrás que muitos dos castros celtas foram aproveitados pelos romanos que os modificaram. É o caso da citânia de Briteiros descoberta ,em 1875, pelo arqueólogo Martins Sarmento.É um povoado da Idade do Ferro, situado no monte de S. Romão, freguesia de Briteiros, concelho de Guimarães. Possui três muralhas de dois metros de largura e cinco metros de altura; as casas são circulares e de origem céltica pela sua disposição e desenhos decorativos. A influência da romanização neste povoado é evidenciada pelas inscrições latinas, moedas, cerâmica, vidros ,etc. Como testemunho da antiguidade da citânia de Briteiros estão os achados de instrumentos de pedra neolíticos ou de bronze. Por outro lado, as mamoas e as gravuras rupestres , nas proximidades , mostram a existência de uma cultura anterior á romana. A citânia deve ter sido abandonada no séc III D.C. Das mamoas falaremos mais adiante pois ainda há que dizer dos castros e para isso vamos aproveitar o que já foi estudado sobre a cividade de Terroso . Erigida no monte da Cividade (Póvoa de Varzim) fica a 5 kms da costa o que possibilitava o comércio com o Mediterrâneo. Terá sido construída entre os anos 900 e 800 AC, como consequência de deslocação de populações da planície litoral . A cividade foi erguida a 152 metros de altitude o que permitia uma excelente posição de vigilância sobre a região. As três cinturas de muralhas eram compostas de grandes blocos de pedra sem argamassa e a altura dependia do relêvo. Nas zonas de fácil acesso as muralhas eram altas e largas enquanto nas zonas de declive eram mais simples. As habitações estavam agrupadas em núcleos com algumas casas possuindo um átrio. Os núcleos familiares eram compostos por quatro a cinco divisões circulares que abriam para um pátio central.Os núcleos eram separados por arruamentos estreitos que dividiam o povoado em quatro partes sendo, cada uma delas, composta por 4 a 5 núcleos familiares. A população cultivava trigo , cevada e fava e pastoreava vacas, ovelhas, porcos e cavalos. Estando perto do mar alimentavam-se também de lapas , mexilhões e ouriços do mar.. Cremavam os mortos depositando as cinzas em pequenas fossas circulares, dentro e fora do povoado. Vejamos agora as mamoas,também elas ligadas ao rito funerário. O nome deriva dos romanos que deram o nome de mammulas ás pequenas elevações de terreno parecidas com os seios de uma mulher. As mamoas ou tumuli eram edificações artificiais de pedra e areia com a finalidade de proteger o dólmen, cobrindo completamente a câmara mortuária e o corredor, quando este existia. A mamoa, ao esconder e proteger a sepultura dava-lhe, ao mesmo tempo, uma certa monumentalidade.Também é possível que tivesse servido de rampa para o transporte da pedra que servia de tampa da câmara mortuária. Em Portugal as mamoas estão normalmente dispostas em grupo, ocupando zonas planas que não serviam para a agricultura, ou á beira de caminhos. Estas sepulturas megalíticas monumentais deviam ser de antepassados importantes ou de suas relíquias ,pois os mortos comuns não eram assim enterrados. Estes monumentos funerários devem ter tido um significado simbólico importante que desconhecemos. Encontramos dólmens desde o fim do quinto milénio antes de Cristo até ao fim do terceiro milénio AC..Estes monumentos pré-históricos são também conhecidos por antas, arcas ou orcas. A anta ou dólmen escondido debaixo de uma colina artificial (mamoa) era como um útero abrigado do olhar, onde se colocavam relíquias no interior da terra. Podemos imaginar que para os Celtas essa deposição de relíquias funerárias seria como que o regresso de um humano ao útero do ventre materno da Terra Mãe. Julga-se que a origem mais remota dos Celtas esteja em povos de origem Indo-Europeia, já que a língua usada tem muitas semelhanças com duas daquela zona.Terminamos este apontamento sobre os celtas mostrando moedas por eles utilizadas e o vestuário branco de um druída. Para os mais pequenos talvez uma leitura do Asterix e do Obelix podesse ilustrar a vida destes povos cujo sangue nos corre nas veias, mesmo que em pequena percentagem.


21.6.08

D. LUISA DE GUSMÃO

Luisa Francisca de Gusmão,nascida em 1613, na localidade de San Lucar de Barrameda, filha do 8º duque de Medina Sidónia -Espanha- casou ,aos vinte anos, com o Duque de Bragança que viria a ser o nosso rei D. João IV. Na altura, o reino de Portugal estava sob domínio espanhol, e parece que este casamento fazia parte de um plano do conde-duque de Olivares, primeiro-ministro do Rei Filipe IV de Espanha ( Filipe III de Portugal).

Pensava o ministro que, com este casamento, o duque de Bragança ,ao sentir-se ligado á grande casa de Medina-Sidónia, não cedesse aos rogos dos fidalgos portugueses que desejavam a independência e o duque para rei. O plano do primeiro-ministro falhou com a conjura de 1640, pois a nova duquesa de Bragança que também tinha sangue português (pelo lado da sua avó Ana da Silva Mendonça, descendente de D.Afonso Henriques),apoiou a política do marido e te-lo-ia incitado a aceitar a coroa do Reino de Portugal. Desta posição firme da duquesa, surgiu a crença popular de que ela , quando consultada pelo marido sobre a conjura, teria proferido as seguintes frases: antes morrer reinando que servindo ou mais vale uma hora raínha ,do que duquesa toda a vida .Verdade ou não,D. Luisa Francisca , a partir do momento em que o marido foi aclamado Rei, comportou-se sempre como raínha de Portugal, pensando e agindo como uma portuguesa.

( célebre quadro da aclamação de D.João IV em 1640)

Após a aclamação de D.João IV, instalou-se em Lisboa com os filhos vivendo para a sua educação, sendo regente do Reino sempre que o rei se dirigia para a fronteira, em luta com os de Espanha.Em 1656, morria D.João IV e D. Luisa de Gusmão assume de novo a regência, dada a menoridade do filho Afonso VI, então com 13 anos. O filho primogénito D. Teodósio já tinha falecido em 1653. Não foi uma regência fácil, pois para além da guerra com Espanha, os Holandeses atacavam o império português da Ásia e Brasil.Por outro lado, o filho tinha capacidades mentais diminuídas e as conspirações palacianas eram muitas. Sob sua regência, Portugal travou duas batalhas decisivas : a das linhas de Elvas, em 1659, libertando a cidade do cerco espanhol, e a do Ameixial em 1663. Do seu casamento com D.João IV nasceram sete filhos dos quais perdeu quatro: D.Ana, D. Joana:D. Manuel e D. Teodósio. Dos restantes,a D. Afonso VI que, como dissemos ,tinha atraso mental, foi-lhe retirado o título de rei e a mulher ,pelo irmão Pedro que reinou como Pedro II. D. Catarina casou com Carlos II de Inglaterra, casamento que visou uma aliança com aquele país, para combatr espanhois e holandeses Enquanto Afonso VI esteve no trono, o reino foi governado por D .Luis de Vasconcelos e Sousa, 3º conde de Castelo Melhor, que obrigou a regente a abandonar o Paço e a recolher ao covento das Carmelitas Descalças, em Xabregas, tendo aí falecido em1666. Actualmente jaz no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

19.5.08

F O M E

Agora que tanto se fala em biocombustível, paira de novo,sobre o mundo globalizado, o espectro da fome. Dir-se-à que as" fomes "são tão antigas como o Homem ; que existiam no tempo dos Romanos, ou que na China são vulgares, como o são na India,desde a idade média : que África sempre teve fomes devastadoras, mesmo no período colonial e pós -independência, com casos mediáticos como Etiópia, Congo, Zimbabwé ou Darfur. Nem sempre foram causadas pela natureza, com pragas ou secas, mas pelo homem e por motivos políticos. Só no séc.XX, na Ucrânia por ordem de Stalin: na Grécia e Polónia sob ocupação Nazi; no Camboja sob o regime de Pol Pot ; na China com o " salto em frente" de Mao-Tsé-Tung , houve fomes provocadas. Vejamos alguns destes casos : Após a morte de Lenin, e depois de desembaraçar-se dos seus rivais, Stalin empreendeu, em 1929, um projecto gigantesco denominado 1º Plano Quinquenal. Este era um pacote de medidas, com duração de cinco anos, que conferia ao Estado o controlo absoluto da economia. O objectivo era transformar a URSS, até aí país de economia agro-pecuária, numa potência industrial. O plano começou com a colectivização das terras desapossando os seus proprietários. Na Ucrânia, conhecida como celeiro da Europa, houve forte oposição a esta medida que Stalin reprimiu com violência brutal ; houve fusilamentos, torturas e deportações para a Sibéria, onde os presos trabalhavam em condições infra-humanas. Dez milhões de Ucranianos foram despojados das suas terras e como Stalin exigira ao país ,uma quota de alimentos mais alta que o habitual, provocou, em 1933,uma fome em que morreram 7 milhões de ucranianos. O desespero foi tal que comiam folhas de árvores, cães , gatos , ratazanas e até cadáveres humanos .

Hitler, na sua ambição e levado por ideias genocidas, causou a morte pela fome a milhões de pessoas, no gueto de Varsóvia, na Grécia ocupada e durante o cerco de Leningrado, isto sem esquecer os campos de concentração para os judeus. Na China, entre 1958 e 1961, milhões morreram de fome, consequência das ideias de Mao e do seu plano totalitário comunista, tal como no Cambodja, de 1975 a 1979, durante o sangrento regime dos Kemeres vermelhos liderados por Pol Pot. Estes líderes comunistas inspiraram-se , de certo modo, em Stalin e na sua obsessão de reformar a sociedade sem ter em conta as vidas humanas. Na Etiópia, a fome é um fenómeno recorrente: nos finais do século XIX , uma fome ,provocada pela seca, durou 4 anos e foi acompanhada de epidemias de tifo, cólera e varíola; no século xx, entre 1973 e 1974, faleceram 200.000 etíopes devido a falta de alimentos, crise que, por ser mal gerida, levou a um golpe de estado que derrubou o imperador Hailé Sellasié.Nos nossos dias, são os senhores tribais da guerra que continuam a provocar a fome nesta região. Na década de 80 , vinte países africanos perderam as suas colheitas devido a uma scca que reduziu ao mínimo rios e lagos, provocando um milhão de mortos. A tomada de consciência da comunidade internacional, para estes casos,foi incentivada por iniciativas como o famoso Live Aid protagonizado por cantores e grupos rock. Só o envio massiço de alimentos conseguiu travar a calamidade.

Em 2008, o desvio de culturas cerealíferas para produzir biodiesel e a especulação de preços a esse facto associada, estão a provocar um crescente receio de fome a nível mundial e, neste caso, só o homem é culpado. Há pouco tempo, o Banco Mundial revelou que a crise de alimentos já está a afectar 100 milhões de pessoas, mas, se não for encontrada uma solução rápida, o número poderá atingir 300 milhões. Qualquer leigo na matéria sabe de três soluções para debelar o problema : 1º-Em vez de só enviar alimentos aos países pobres, devem ser fornecidas sementes de elevada produção e melhores fertilizantes. Esta política permitiu ao Malawi duplicar a produção em três anos. 2º- Acabar com o subsídio ao milho para o biodiesel, pois existem plantas não alimentares que servem para o mesmo fim. 3º- A construção de reservatórios de água, nos países mais afetados pelas secas, pode fazer a diferença num ano pouco pluvioso. A ideia de um fundo para tal fim já existe, mas ainda não saiu do papel.

10.5.08

INCÊNDIO DE ROMA

A cidade de Roma, no ano 64 DC , era imponente e tinha começado a ser reconstruída, alguns anos antes, pelo imperador Augusto. Como dizem os historiadores, tinha recebido de Júlio César uma Roma de adobe ,para a transformar numa cidade de mármore, com o levantar de templos, teatros, aquedutos e termas ,bem como abrindo praças e mercados. Augusto criara também um enorme corpo de bombeiros como resposta a um dos grandes pesadelos da cidade , os incêndios. Cidade nascida sem planificação, o seu crescimento foi caótico, século após século, com bairros desordenados, fétidos, ruidosos ,de casas empilhadas e ruas perigosas. O excesso incontrolado da população fazia com que roubos e outros delitos fossem banais, acrescidos de incêndios devidos ao amontoado de casas em madeira. Um pequeno lume , para lá de uma cozinha ,ou uma lâmpada de azeite que não fora apagada, podiam provocar um incêndio e destruir bairros inteiros.O corpo de bombeiros,formado por 600 escravos, não tinha mãos a medir, numa cidade onde havia 100 pequenos incêndios diários.Poucos anos depois ,o número de bombeiros e vigilantes era de 7000,organizados por bairros, mas o perigo de incêndios continuava. Meio século após a morte de Augusto, já com Nero no poder, tudo continuava na mesma na administração e vida diária até que, um grande incêndio, tudo mudou. Parece que o fogo começou de maneira acidental, na noite de 18 para 19 de Julho , em artigos inflamáveis do mercado junto ao Circo Máximo, onde se praticavam corridas de carros. Favorecidas pelo descampado do terreno, o calor do verão e os ventos de sudeste, as chamas propagaram-se ás habitações vizinhas. Os bombeiros do bairro mobilizaram-se com rapidez, mas nada puderam fazer quando as chamas atingiram as insulae, casas de vários pisos , ligadas umas ás outras e construídas com interiores de madeira. O incêndio expandiu-se em várias direcções, subiu os montes Palatino e Célio, devorando as elegantes casas senatoriais ; uma língua de fogo atingiu o porto fluvial, tomando novo alento ao encontrar os armazéns cheios de lenha e azeite. Em pouco tempo toda a cidade ardia, até mesmo os bairros mais distantes ; a confusão era enorme e a população que tentava fugir para os campos ,acabava por se ver rodeada de chamas, sem fuga possível. O fogo extinguiu-se ao fim de seis dias e sete noites mas, quando tudo parecia ter terminado, novo incêndio que durou três dias, apareceu no sector Emiliano, uma zona onde se haviam demolido muitos edifícios para travar o incêndio inicial. Embora com menos mortes, os danos foram maiores, destruindo templos e monumentos. Quando tudo terminou , Roma era uma cidade fumegante com milhares de mortos e três quartos da sua área reduzida a cinzas. Arderam mais de 4.000 insulae e 132 casas aristocráticas. Ninguém se livrou da catástrofe : os prejudicados iam desde as classes humildes e média, até á cúpula da Roma imperial. Ouro, jóias, documentos, mobiliário e outros bens, tudo desaparecera e com isso um dos pilares da economia romana. Ora, aquando do incêndio, o imperador Nero estava muito mal visto, não só pelas suas excentricidades, mas também pelo assassinato de cidadãos ricos afim de ficar com os bens e encher os cofres do Estado e, desta forma, poder distribuir dinheiro e alimentos pela plebe, tornando-se popular. Mas os "patrícios " também sabiam jogar sujo: aproveitando o incêndio, fizeram correr o boato de que este fora ordem de Nero. Como os romanos começaram a dar crédito ao rumor, Nero tratou de desviar as atenções, atribuindo o incêndio aos cristãos, vistos como sectários, supersticiosos e imorais. Presos alguns cristãos influentes, após tortura, confessaram ser os autores do incêndio e daí a feroz perseguição aos cristãos por parte dos romanos . Quando começou o incêndio, Nero estava em Anzio e é pouco provável que,ao chegar á cidade, se tivesse posto a tocar lira e a cantar a ruína de Troia, enquanto observava Roma a arder.

É que a sua própria mansão, a Domus Transitória,também ardia e com ela as suas valiosas colecções de arte e joias. Será difícil saber a verdade já que os seus inimigos, os adversários e os cristãos tinham interesse em denegrir a sua imagem. Verosímel é que Nero tenha beneficiado com o incêndio ,mas não foi o seu autor. Embora após o incêndio, construísse um palácio melhor que o anterior, Nero actuou como um governante sensível ante a desgraça dos seus súbditos . Para alojar as vítimas, mandou abrir o Campo de Marte -alojamento das legiões- bem como os seus jardins privados. Organizou uma cadeia logística para os abastecer de comida e desceu o preço do trigo para um valor irrisório; empreendeu um ambicioso projecto urbanístico para Roma que beneficiou a população e, em vez de aumentar os impostos nas Províncias, o estado contribuiu com dinheiros e materiais para a reconstrução . Por decreto, as casas de vários andares, cinco no máximo, foram construídas em pedra e tijolo, e espaçadas entre si; em cada lar deveria haver material contra incêncios como areia, mantas e água. Os carros que transportavam para Roma as provisões extra de alimentos, deviam levar de retorno os escombros carbonizados que seriam depositados nos pântanos de Óstia, acabando-se assim com os focos de malária. Os actuais engenheiros de incêndios que estudaram este caso, chegaram á conclusão que problemas arquitecturais levaram á formação de chaminés naturais que activaram as chamas, mesmo contra a direcção dos ventos, e que a sua propagação não foi devida a pirómanos com tochas ,espalhados pela cidade. Neste caso, NERO DEVE SER INOCENTADO .

21.4.08

POMPEIA....auge e morte

Pompeia foi uma antiga cidade romana, situada a 20 Kms da actual Nápoles, em Itália. Foi destruída por uma erupção vulcânica do Vesúvio, cujas cinzas e outros piroclastos a cobriram na totalidade. Esquecida durante 1600 anos foi descoberta, por acaso, quando um agricultor, ao passar um arado no terreno ,levantou alguns objectos antigos. A cidade possuia 20.000 habitantes dos quais 16.000 morreram, no trágico dia 24 de Agosto do ano 79 DC. Eram 10 horas da manhã de um dia bonito e quente quando, de repente, se ouviu uma explosão e o topo do monte Vesúvio se partiu em dois. Da fenda aberta escorria lava,por vezes atirada ao ar, qual gigantesco fogo de artifício. Havia 900 anos que o vulcão não dava sinal de vida. Sobre a cidade,durante duas horas, tombam pedaços de lava e pedra-pomes; depois é só fumo e cinzas. Quando tudo parecia ter terminado, os gases venenosos descem a encosta do monte e asfixiam todos os seres vivos que não tinham fugido para longe.

Pompeia é um dos mais significativos testemunhos da civilização romana, um livro aberto sobre arte, costumes, ofícios e vida do povo .Podemos ver como era esta enorme cidade,agora que foi liberta da espessa camada de cinzas que a cobriu durante séculos. As memórias do passado estão tão vivas nos restos trazidos á luz que fascinam quem as visita. Nas paredes das casas ainda se leem inscrições de propaganda eleitoral e piadas mordazes; por cima das portas de lojas os letreiros indicam a actividade desenvolvida ou o nome do seu propritário.( A foto seguinte mostra a fachada da oficina de Verecundus, na rua da Abundância)A par de casas enormes dos "patrícios", surgem as casas modestas dos artífices e comerciantes e ,um pouco mais longe, junto a uma horta ,as dos agricultores. Na periferia, os lupanares e casas de prazer para os marinheiros e comerciantes de passagem pela cidade. Nas ruas estreitas, nas lojas ou nos espaços de serviços, descobre-se o quotidiano dos seus habitantes. Móveis, adornos de ouro e prata, lagares, louças, balcões de bebidas, moínhos de trigo, oficinas, alimentos, vendas de legumes e frutas, tudo se pode encontrar como era aquando da tragédia. Nas paredes ficaram preservadas muitas das pinturas interiores das casas mais ricas, como é o caso da casa dos Vettii que mostramos a seguir.Como já referimos,em consequência da erupção, os habitantes que na sua maioria se tinham refugiado no litoral,morreram sufocados pelos gases. Outros foram gaseados em casa , a dormir ou a trabalhar, e muitos nas ruas ,em fuga com as suas famílias. Por um processo de injecção de gesso nos espaços ocos existentes nas cinzas consolidadas , resultantes do que foram os corpos dos habitantes, obtêm-se moldes que revelam como eram e como estavam no momento da sua morte. As ruas de Pompeia possuiam passeios elevados em relação ao piso, valetas de escoamento de águas e, pasme-se, passadeiras para peões ,estas também elevadas ,mas com aberturas para a passagem do rodado dos carrros. Preservada ficou também a arte erótica que existia nas paredes dos quartos dos lupanares e estalagens, onde as prostitutas anunciavam as suas especialidades do culto a Priapo. A cidade , rodeada por uma muralha defensiva, era enorme com as ruas esquadriadas e com belos monumentos.Uma visita rápida a estas ruínas demorará, no mínimo, três horas e muito ficará por ver nas novas escavações, ainda fechadas ao público .


Vale a pena uma visita a Pompeia , levando uns bons sapatos para calcorrear aquelas ruínas, e sonhar com o passado.

10.4.08

A HABITAÇÃO....ao longo dos tempos

Desde sempre o Homem sentiu a necessidade de criar um abrigo contra os perigos e intempéries, como qualquer outro animal. Mas, enquanto os animais construiam sempre o mesmo tipo de abrigo com os mesmos materiais, o Homem foi fazendo a sua habitação com os materiais mais diversos e com formas variadas, de acordo com os meios disponíveis e tipo de vida que levava, sedentário ou nómada. Começou pelas grutas, de onde expulsou os animais,protegendo a entrada com uma fogueira. Estávamos no Paleolítico ou Idade da Pedra, sendo o Homem um caçador. Nestas grutas podiam já existir cabanas como é o caso da gruta de Lazaret ou as cabanas de Terra Amata, ambas em Nice, com mais de 300.000 anos. Há 15.000 anos (paleolítico recente) , nas zonas frias do norte da Europa, o homem vivia em tendas de base oval ou rectangular. Estas tendas eram feitas de peles de animais, cosidas entre si, e estendidas sobre uma armação de madeira ou de ossos de grandes animais, como os mamutes.Usavam agulhas de osso e tendões como linha de coser. Alguns tipos de arquitectura são universais, encontrando-se em civilizações muito diversas. É assim que há 6.000 anos, já no Neolítico, a forma rectangular de habitação é a mais comum. O homem já está a polir a pedra, a dedicar-se à agricultura e à domesticação de animais. Usa o barro para utensílios e também na construção. As paredes das casas são feitas de argila, aplicada sobre uma estrutura de madeira. São casas de um só compartimento tendo, por vezes, um alpendre. Em alguns locais a estrutura de madeira não leva revestimento de barro, mas são sempre cobertas de colmo com tecto de duas águas.Imitando as cabanas primitivas emcontramos em Khirokitia (Chipre),casas com base circular em pedra calcária ,suportando paredes de lama seca ou tijolo cru,isto 6000 anos AC. . Terminam em cúpula ,fazendo lembrar as cabanas circulares.O homem do Neolítico que vivia em terrenos pantanosos, junto de rios ou lagos,construia as habitações sobre plataformas de madeira suportadas por estacas - palafitas-. Normalmente estas habitações estavam ligadas a terra firme por um passadiço. Eram de madeira e estavam cobertas de material vegetal, sendo uma protecção e uma facilidade para a actividade de pesca. Ao longo dos séculos a técnica humana foi evoluindo, nos materiais e processos de construção, verificando-se, por exemplo, que a casa romana oferece já elementos de conforto. O centro deste tipo de casa é o "atrium", uma espécie de pátio a céu aberto, pavimentado e com um lago central.( Na mesopotânea do 3º milénio a casa era idêntica mas sem o lago )Á volta do "atrium" existiam várias salas e galerias e não faltava o banho privado . O chão era de mármore ou de mosaicos decorativos, as paredes possuiam pinturas e as portas eram de correr.

















Este modêlo foi adoptado de maneira muito modesta pelos árabes e acabou por dar , no nosso Alentejo, a casa-pátio. No mundo romano do séc.III surgem as casas de apartamentos, possivelmente como a da figura abaixo. A escada que dava acesso aos pisos superiores que, por lei, não podiam ser mais de cinco, abria na rua.
Como é óbvio, as edificações não foram semelhantes em todo o mundo, numa mesma época. Dependiam dos materiais encontrados para as fazer ,e das posses dos seus proprietários . Na América do Sul, antes da influência europeia, as casas eram de adobe ,ou pedra unida com barro, e tinham a forma de povoado fortificado. As pequenas janelas davam só para o pátio interior e a entrada para as habitações fazia-se por aberturas nos terraços, recorrendo-se a escadas de madeira que podiam ser retiradas em caso de ataque.
Gostaríamos de incluir neste apontamento os diversos tipos de casa portuguesa, tão diferentes de norte a sul. Se começarmos pelo norte litoral, região preferida pelo homem desde a pré-história, encontramos nela riqueza dolmética e castreja. A abundância do granito é determinante no tipo e técnica de construção tradicional desta zona. O emprego do granito, mais ou menos elaborado, caracteriza uma casa de compridas varandas em granito ou madeira. O granito é, a maior parte das vezes, rebocado com argamassa caiada de branco .









Para leste , o granito vai dando lugar aos micaxistos, quartzitos e calcários, daí que as casas modifiquem consoante o material existente . Coberturas em ardósia eram típicas no Marão ,bem como as varandas em madeira nos andares cimeiros. Para sul, continuamos a encontrar o granito e o xisto, daí a construção usar estes materiais sem grandes mudanças na forma. A foto seguinte mostra uma conhecida aldeia de xisto na região centro , o PIODÃO . É pena que esteja a ser adulterada com casas de cobertura em telha e as paredes com reboco branco . Muitas foram remodeladas por dentro, mas mantendo a traça primitiva. No litoral, na zona de Mira e Tocha, eram tradicionais as casas em madeira, assentes nas dunas e com uma ocupação estival. Durante os meses de verão as populações viviam da pesca mas, no resto do ano, vinham mais para o interior ,onde praticavam agricultura, vivendo em casas contruídas com as rochas calcárias dessa região. No Alentejo encontramos as casas brancas ,de pedra ou adobe, isoladas ou em grandes aglomerados, ressaltando as grandes chaminés e a quase ausência de janelas, como protecção contra o calor.












Já no Algarve,com a influência do clima mediterrânico, pedrominam as casas brancas, com terraços e chaminés rendilhadas. Não podemos esquecer que estivemos a falar de casas típicas,hoje quase desaparecidas das cidades e vilas devido á globalização de gostos e técnicas de construção.. Nos Açores e Madeira a construção é feita de pedra basáltica, quase todas rebocadas e caiadas,com uma excepção para as zonas de montanha ,na Madeira, onde a habitação era de madeira coberta a colmo. k

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