25.10.09

EDUCAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA

Olhando para o que se passa actualmente nas nossas escolas com os professores, desmotivados e sem autoridade, a serem agredidos física e verbalmente por alunos e encarregados de educação, recordo tempos em que , por essas aldeias e vilas, o professor era pessoa tão respeitada como o vigário ou o médico. Veio-me também à memória uma cena cómica escrita por Herondas , no século III antes de Cristo, em que uma mãe grega desabafa sobre o filho pelas suas travessuras e desinteresse nos estudos :"....as tabuinhas que todos os meses me afadigo a cobrir de cera estão para ali atiradas entre a cama e a parede.... nunca escreve nada nelas! ....nem sequer conhece a letra alfa , a não ser que lha repitam cinco vezes." A mãe que levara o filho à escola e ali tivera o desabafo, ouve o mestre exclamar : "Onde está o coiro duro, o meu rabo de boi com que açoito os vadios ? Tragam-mo antes que rebente de cólera !" O rapaz suplica: ..."Não, por favor, mestre Lamprisco, pelas Musas e vida da tua esposa , não me batas com o duro, escolhe um mais macio para o fazer". Esta comédia motivou-me a contar como era o ensino na Grécia antiga. Os rapazes, a partir dos seis ou sete anos de idade, começavam uma instrução não somente profissional, mas também cultural, por forma a fazer deles cidadãos perfeitos que saberiam literatura e retórica, ciência e filosofia, a par de educação física e artística. Os pais colocavam as crianças sob os cuidados de um escravo ,o paidagogos ( pedagogo),O ensino primário era chamado paideia, palavra derivada de paidós que significa criança. A missão do pedagogo era acompanhar a criança à escola , ajudá-la a memorizar as lições e a ensinar-lhe moral e bom comportamento. As raparigas eram educadas em casa.(A excepção era em Esparta) As escolas, todas privadas , tinham à sua frente o grammatistes que ensinava as primeiras letras , ocupando-se das crianças até aos doze anos .Era uma profissão pouco valorizada que não requeria qualificação especial, com um salário modesto, um pouco superior ao de um operário qualificado. O professor sentava-se num lugar elevado, frente aos alunos e pedagogos ; os alunos escreviam nas suas pranchas de madeira cobertas de cera com um estilete que tinha uma ponta afiada e outra romba. Esta última servia para apagar os erros. A prancheta era apoiada nos joelhos como se pode ver numa pintura da época.O professor podia usar outros materiais para o ensino da escrita, como placas de barro cozido ou ardósia, mas quase nunca o papiro por ser muito caro.A leitura era muito difícil dada a inexistência de espaços entre as palavras ou de sinais de pontuação. Os alunos liam em voz alta e decoravam textos poéticos , obras de Homero, máximas dos Sete Sábios , poemas de Hesíodo e preceitos de Quíron. Nesta primeira fase a matemática limitava-se ao cálculo, por vezes com a ajuda de um ábaco. Aprendiam a tocar lira ou flauta para acompanhar o recitar dos poemas.


Neste pedaço de vaso grego vê-se , da esquerda para a direita, o aluno (em pé)a aprender a tocar flauta, depois a aprender a escrever. A figura à direita é o pedagogo; penduradas na parede uma flauta e uma lira. Tal como hoje ,a ida à escola era uma obrigação pouco grata para os jovens, pois se deslocavam para ela muito cedo, no inverno ainda de noite, com o pedagogo a iluminar o caminho com uma candeia. De tarde havia nova sessão de estudo, isto todos os sete dias da semana , excluindo os raros dias festivos .A metodologia era quase inexistente sem atender à idade e mal aprendiam a conhecer as letras já eram obrigados a decorar textos. O ensino secundário, dos 14 aos 18 anos, desfrutava de maior consideração, com o professor (gramanatikos)a ensinar literatura de Antifonte, Demóstenes, Eurípedes,etc. Aprendiam também matemática , geometria, aritmética . música e astronomia . Estes professores eram muito considerados e solicitados por todas as cidades. Além das disciplinas atrás citadas era dada pelo paidotribos a educação física que incluía a luta ,a corrida, o salto e o lançamento do disco e do dardo. Isto tudo correspondia ao ideal de uma educação integral ou universal, aquilo a que os gregos chamavam enkyklios paideia . Finalmente, aos 18 anos ,o adolescente atingia a idade de efebos e começava a formação de cidadão grego .Esta consistia numa espécie de serviço militar que durava dois anos, a efebia, durante a qual os efebos viviam em comunidade e aprendiam o manejo de armas e estratégia para defesa da sua cidade.Também assistiam às palestras e conferências de sofistas, leitores , oradores e professores. Aos vinte e um anos atingiam a idade adulta.Em Esparta as raparigas praticavam ginástica e, mais tarde, no período helenístico, em cidades como Quios e Teos, podiam assistir às palestras e aprendiam a ler e a escrever.

15.10.09

ENERGIA VINDA DO PAPEL

Se eu tivesse escrito esta mensagem há uma dúzia de anos, diriam que estava maluco ou que era visionário ; a verdade é que o avanço da nanotecnologia ( ver este título na etiqueta cultura geral ) nos permite hoje afirmar que o papel pode ser a futura fonte de energia para a enorme quantidade de produtos electrónicos usados no dia a dia. Tal como os plásticos desencadearam uma revolução no fabrico de materiais ,uma nova fonte de energia ,obtida por nanotubos de carbono separados por celulose ,está a revolucionar a alimentação de equipamentos que vão dos iPhones aos marca-passos para as pessoas cardíacas. Robert Linhardt do Rensselaer Polytechnic Institute (RPI), em Nova YorK , afirma : Já construímos uma bateria de papel, um super condensador e um dispositivo híbrido, que poderiam ser usados numa variedade de aplicações de armazenamento de energia . Esses dispositivos são leves e flexíveis e compostos por papel celulósico , um material biocompatível e que não agride o ambiente. Foi produzido em colaboração com três outros laboratórios do RPI e funciona ao utilizar a celulose para separar nanotubos de carbono , alinhados uns com os outros e funcionando como eléctrodos. Fabricados os nanotubos de carbono , a celulose é dissolvida num electrólito, conhecido como sal líquido, e derramado na bateria de papel. Após a secagem o resultado é uma fina folha de papel nanocomposto que pode ser enrolado, torcido, dobrado . Além da flexibilidade, a bateria de papel também pode ser cortada ou empilhada , diminuindo ou aumentando a capacidade de carga. Separar nanotubos de carbono com celulose dá origem a um papel preto que funciona como super condensador de escala comercial ; se os nanotubos forem separados de uma camada de lítio laminado, obtém-se uma bateria de longa duração, num papel negro de um lado e cinzento do outro. Linhardt continua a explicar : os nanotubos de carbono onde a celulose é colocada fazem um contacto com o papel ao nível molecular e numa enorme área , permitindo que o dispositivo armazene e liberte energia com eficiência ;e já estamos interessados na possibilidade de criar desfibriladores em papel , tipo descartável , como suporte médico imediato. Como a imaginação humana não fica parada, pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, descobriram como fabricar baterias muito leves utilizando as nano estruturas de celulose de uma alga do género Cladophora , já que estas algas tem uma enorme área superficial na sua nano estrutura porosa, comparativamente com a celulose das plantas terrestres usadas no fabrico do papel. Esta nova bateria é constituída por uma nano estrutura de celulose das ditas algas ,recoberta por uma camada de polipirrol, com 50 nanómetros de espessura. Estas baterias armazenam 600 mA por centímetro cúbico e devido ao seu reduzido peso, comparativamente às baterias de lítio, talvez venham a ser a solução para armazenar a energia dos automóveis totalmente eléctricos.

7.10.09

CIDADES MEDIEVAIS

Se tivéssemos a possibilidade de assistir ao nascimento e crescimento de uma cidade medieval veríamos o seguinte: um grupo de pessoas que se fixa num local e cria um pequeno casario para, pouco depois ,instalar uma pequena igreja na zona central. À medida que a população cresce, o número de casas aumenta, e em torno do núcleo original começam a instalar-se mercadores e artesãos que se agrupam de acordo com a sua religião, proveniência ou profissão ( ferreiros ,carniceiros, curtidores, oleiros,arneiros, alfaiates,etc) Junto a estes bairros surge o largo do mercado e, a partir do século XIII, os conventos e suas igrejas. Se uma igreja se transforma em catedral, temos uma cidade e o incremento rápido de outras construções como sejam: a casa do bispo, a residência de religiosos, o hospital, as escolas,os fontanários . o pelourinho e a forca ,e um espaço aberto para celebrações. Na época medieval cidades e vilas não se distinguiam pelo tamanho,apenas pela existência de catedral. As cidades tinham catedral e eram, por isso, sede de bispado. Cada bispo administrava uma província sentado numa cadeira ou cátedra e a igreja onde estava essa cadeira denominava-se catedral. Era uma organização territorial que vinha dos tempos da ocupação romana. No século IV, quando surgem as invasões bárbaras , as pessoas deixam os grandes aglomerados populacionais e instalam-se em pequenos núcleos campesinos. No entanto as sedes de bispado mantiveram-se habitadas e rodearam-se de fortes muralhas para resistir aos ataques inimigos.À medida que o tempo passava o reduzido espaço dentro das muralhas levava a que as casas se aproximassem umas das outras , as ruas se estreitassem e as pedras dos edifícios antigos fossem usadas na elevação das muralhas. A estrutura romana de ruas largas e cruzando-se em ângulo recto dera origem, por falta de espaço, á estrutura medieval que tentaremos descrever a seguir. A cidade medieval cheirava a fumo de lenha, a carne e peixe. a pão e guisados, a vinho, a dejectos, tintas e curtumes, a serradura e ervas aromáticas. As ruas, de terra e lama, tinham as casas tão próximas com os andares superiores mais largos que, em alguns locais , mal entrava o sol. A maior parte do ruído provinha da zona do mercado com os gritos dos comerciantes , a conversa das pessoas , o alvoroço de patos e galinhas e o mugir do gado. Este tipo de cidade manteve-se nos séculos XI e XII crescendo sempre em torno da catedral românica.



A partir do século seguinte tomam peso na sociedade os artesãos e os comerciantes , formando-se novos agregados populacionais fora das muralhas e com eles a construção de novas catedrais. Estas agora crescem em altura e enchem-se de luz e cor através de grandes janelas e espectaculares vitrais . Estas catedrais góticas continuam a ser o centro da cidade e a competir com os palácios e edifícios públicos.


Já que estamos a falar de catedrais góticas , algumas demorando três séculos a construir, elas nem sempre foram lugares de paz e silêncio. Durante o dia eram animadas por gentes que ali pernoitavam, pelos que a atravessavam para encurtar o caminho, ou pelos que dentro das suas paredes comerciavam de tudo .As paredes laterais estavam ocupadas por capelas que eram espaços privados e fechados, de gente rica que ali queria ser sepultada.Também nas naves laterais se instalavam escolas . O que ficava exclusivamente para o culto era o altar e o coro ,com o espaço que os unia, cor respondendo ao cruzeiro, fechado por paredes . Nos espaços abertos das naves podia-se circular livremente , normalmente não cumprindo as normas que o cabido tentava impor. Numa dessas normas que chegaram até aos nossos dias , constava a proibição de realizar representações teatrais cómicas ou contendo frases de duplo sentido, canções lascivas ,etc, pois a casa de Deus fora feita para orar e não para escarnecer. Ricos e pobres ,autoridades locais , nobres e reis , participavam na construção das catedrais , uns com mão de obra ,outros com dádivas. Quase sempre os mecenas desejavam ser recordados e ,por isso, faziam-se representar nos vitrais, nos afrescos , nos relevos e , como já referimos, nas capelas funerárias com estátuas jacentes. Algumas cidades medievais chegaram aos nossos dias quase intactas e são hoje lugares turísticos com vida própria.

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