23.1.11

AQUEDUTO DE TRAJANO


Todos os dias aparecem achados arqueológicos de civilizações perdidas há milénios ou de obras arquitectónicas mais recentes que conhecíamos apenas por documentação escrita , mas cuja localização real, no terreno, se havia esquecido. Está incluído neste último caso o aqueduto mandado construir pelo imperador Trajano , considerado na época ( ano 109 dC) uma obra de grande vulto.
A cidade de Roma ,naquela época, consumia já 160 milhões de litros de água por dia, sobretudo em fontes, lagos, banhos e latrinas públicas. Uma parte desse caudal de água ia também directamente para casa dos patrícios ricos que viviam em “vilas”. O resto da população recorria a fontanários públicos espalhados pela cidade. A água era levada á cidade de Roma por canais e aquedutos sendo um destes o de Trajano do qual, como afirmámos, se perdeu o rasto com o crescimento da cidade de Roma no século XVII, pois se foi utilizando a pedra desse aqueduto para construção das casas.
Sabia-se da sua existência por documentos antigos e até havia uma ideia da zona por onde ele passava, hoje uma das grandes avenidas de Roma, mas nada de concreto aparecia que servisse de testemunho.
Ora dois documentalistas britânicos ,Tedy e Michael O’Neill, especialistas da Roma antiga, descobriram (2009-2010) os restos de uma fonte pertencente á cisterna de captação de água para o aqueduto de Trajano.
Esta estrutura, de que também se havia perdido o rasto há séculos , estava debaixo de uma abandonada igreja do século XIII, a 35 km de Roma , perto do lago Bracciano., A fonte estava coberta por uma gruta artificial que acolhia uma capela dedicada á Virgem e que fora remodelada no século XVIII.


A fonte é, sem dúvida , uma estrutura romana pois foi construída com a técnica usada no tempo de Trajano. Possui um labirinto de galerias abobadadas, poços, túneis de captação e o canal que dá início ao aqueduto, tudo isto observável por não ter água.
A fonte é composta por uma sala dedicada ao deus da fonte ou ás ninfas , tendo lateralmente duas cavidades cobertas por arcos e pintadas com um azul egípcio . A base eram arcas de água das quais partia o canal para o aqueduto que fora construído no ano 109 dC, Este aqueduto era um dos onze que abasteciam Roma e a descoberta da sua nascente permite confirmar a estimativa do seu trajecto até à cidade.

8.1.11

OS NOSSOS ANTEPASSADOS

Um grupo de cientistas, chefiados por Svante Pääbo, descobriu que todos os humanos actuais , excluindo os africanos , compartilham uma pequena percentagem de ADN do Homem Neandertal que viveu na Eurásia 230.000 anos antes da nossa era e que se terá extinguido há cerca de 37.000 anos.
Essa pequena porção de genoma Neandertal vem mostrar que o pequeno grupo de Homo sapiens que saiu do continente Africano (onde teria surgido) se cruzou com Homo neanderthal no Próximo Oriente, há 80.000 anos . Os seus descendentes espalharam-se pela Ásia e Europa e não devem ter voltado a ter novos contactos com mais Neandertais.
Para fazer o estudo, a equipa de Svante obteve genoma de Neandertal a partir de ossos fósseis das jazidas de Vindija na Croácia , de Mexmaiskaya na Rússia , de Feldhoper na Alemanha e Sidrón nas Astúrias (Espanha) . O referido genoma foi comparado com o de actuais sul-africanos negros , chineses han , franceses e nativos da Papua Nova Guiné. Os resultados indicam a presença de genes comuns aos neandertais em todos os grupos da população actual, excluindo os africanos negros.
O curioso é que talvez esteja aqui a possível explicação para o aparecimento do Homo sapiens de pele clara ,diferente do original africano ,de pele escura. Descobriu-se que o genoma do homem Neandertal de Lessini (Itália) e Sidrón (Espanha) , possuem o gene mclr, conforme afirma o professor Charles Lalueza- Fox da Universidade de Barcelona. O gene em causa contém a receita para a produção de uma proteína especializada na regulação de pigmentos dos mamíferos , pois actua na superfície das células que produzem os pigmentos escuros ( melanina). Quando este gene sofre mutações, produz nos humanos uma pele muito clara e cabelos ruivos.
Assim se os Neandertais tivessem duas cópias desse gene ( uma vinda do pai e outra da mãe) teriam uma pele claríssima e cabelo ruivo. Caso só houvesse uma cópia do gene, apareceria toda uma variedade de tons de pele e de cabelo, como hoje verificamos no norte da Europa.
É certo que existe hoje um longo debate sobre a razão de a humanidade ter desenvolvido olhos e cabelos claros ; há quem fale em selecção sexual, por essas características serem consideradas como atractivas e por isso procuradas, embora outros prefiram explicar o facto por uma selecção natural relacionada com a luminosidade da zona onde habitavam os povos.
Seja como for, os Homo sapiens de pele escura depois de se cruzarem com os Neandertais , deram origem a humanos de pele clara, olhos também claros e cabelo diferente na cor e no aspecto.
Os neandertais desapareceram da face da terra há 37 mil anos, como já havíamos referido, e esta nova datação foi feita por uma equipa de investigadores liderada pelo arqueólogo e investigador português João Zilhão, da Universidade britânica de Bristol, com base em achados do lugar de Pego do Diabo, em Loures, perto de Lisboa. Também neste caso as características morfológicas mistas (de neandertal e homem moderno) são apresentadas pelo menino do Lapedo, descoberto em1998, no Lagar Velho (Leiria). .
Apresentamos a seguir uma reconstituição fotográfica dessa criança
O estudo do esqueleto e dentes da criança, que tinha cinco anos na altura da sua morte, ocorrida há 30 mil anos, revelou que o menino tinha características do homem moderno, mas também de neandertal, o que abalou o mundo da arqueologia e tem, desde então, sido motivo de debate .
Nunca antes do achado do menino do Lapedo tinha sido encontrada uma prova material de mestiçagem entre Homo sapiens e Neandertal . Esta mistura de características "reflecte", assim, necessariamente um processo de miscigenação extensiva dos dois tipos de populações à época do contacto".
A permanência tardia dos neandertais nesta região lusitana deverá ter estado relacionada com factores climáticos.
O denominado Homo sapiens neanderthalensis existiu entre 230 000 e cerca de 30 000 anos. A média do cérebro( 1450 cc), é sensivelmente maior que a do Homem actual embora com uma caixa craniana mais longa e baixa e uma marcante saliência na parte traseira do crânio. Possuía um maxilar proeminente e uma testa recuada. Os Neandertal viveram maioritariamente em climas frios e as suas proporções corporais são semelhantes às das actuais populações das regiões frias: baixas e sólidas, com membros curtos, facilitando a retenção do calor. Os homens mediam em média 1,68 m com ossos fortes e pesados, mostrando sinais de uma poderosa estrutura muscular. Foram as primeiras populações que criaram rituais funerários, com o enterramento mais antigo datado de há cerca 100 000 anos. A área de dispersão dos Neandertal inclui a Europa e o Médio Oriente.
Seja qual for a verdade científica do que atrás escrevemos sobre a origem da população branca no mundo, uma outra verdade permanece ; postas de lado as diferenças genéticas e fenotípicas ( aspectos exteriores do indivíduo), as populações humanas são principalmente diferenciadas pelos seus usos e costumes, que são transmitidos de geração em geração. A espécie humana caracteriza-se então por uma forte dimensão cultural. É por isso que o conceito de etnia é hoje em dia preferido ao conceito de raça .

5.1.11

ORIGEM DOS VERTEBRADOS



Por vezes surgem-me , através de E-mail, perguntas como a que dá título a esta mensagem e a que tento dar resposta o mais simples possível , por isso vejamos o assunto em epígrafe! Como vertebrado consideramos qualquer animal dotado de crânio e de uma espinha dorsal que envolva a corda dorsal ou notocorda e, geralmente, com dois pares de membros. Há sete classes vivas de vertebrados: Agnatha ou ciclóstoma( lampreia e similares) Chondrichthyes, ou peixes cartilaginosos ; Osteichthyes ou peixes osseos; Amphibia ou dos anfíbios; Reptilia ou dos répteis; Aves; e Mammalia ou dos mamíferos,
Como apareceram estes animais no nosso planeta é o que tentaremos explicar , pois muitas foram as teorias que, ao longo dos tempos, tentaram justificar o aparecimento da vida na Terra. Da intervenção divina à teoria evolucionista de Darwin, passando pela geração espontânea, as explicações foram-se sucedendo, com defensores e opositores, mas a verdade de que ninguém tem dúvidas , é a de que os primeiros vertebrados surgiram no meio líquido, há milhões de anos atrás.
A comunidade científica no entanto continua à procura dos antepassados dos vertebrados que se relacionem com os NÃO CORDADOS , como os equinodermes primitivos, ou com CORDADOS PRIMITIVOS como a Ascídia´, cujo esquema larvar aprsentamos a seguir.
Este animal dos nossos dias só apresenta uma corda dorsal na fase larvar, desaparecendo esta quando o animal se modifica no aspecto físico e fica fixo ao substrato. ( ver foto)Mesmo na fase larvar a , corda dorsal é tão simples que só chega a meio do corpo. De qualquer forma esta corda dorsal simples é precursora da coluna vertebral de outras espécies mais evoluídas.
Vejamos então como tudo se terá passado : da Ascídia os seres cordados svoluiram para o Anfioxo que já tem notocorda ao longo de todo o corpo durante as fases larvar e adulta , mas ainda sem vértebras a protegê-la. O Anfioxo pode ser considerado uma forma muito primitiva de peixe cuja fotografia apresentamos a seguir:
Estes protopeixes surgiram e vivem, ainda hoje, em água doce . Curioso é referir que espécies semelhantes aos protopeixes conseguiram chegar aos nossos dias e estamos a referirmo-nos á lampreia que não é classificada como peixe pois embora possua uma corda dorsal desenvolvida não tem mandíbulas , característica própria dos peixes actuais.
No entanto, em rochas com 540 milhões de anos foram já observados fósseis de peixes sem mandíbulas e que, por isso, foram designados por Agnatas . A partir destes evoluíram peixes mandibulados de esqueleto cartilaginoso, como os tubarões e as raias. Nestes peixes cartilaginosos a notocorda é rodeada e limitada por anéis de cartilagem, formando assim já uma coluna vertebral. Destes ,evoluíram por calcificação das cartilagens, os peixes ósseos , com verdadeiras vértebras ,deixando de haver uma noto corda, no seu real sentido.
A partir deste ponto é fácil entender que algumas espécies de peixes ósseos pudessem viver também fora de água, enterrados na lama. Ainda hoje em África existem essas espécies que respiram por guelras na água e pela bexiga natatória fora dela, quando os pântanos secam.
Também se compreende e admite que as barbatanas de alguns destes peixes de dupla respiração evoluíssem para patas , dando outros animais que foram os antepassados dos actuais batráquios (rãs ,sapos etc). Dos batráquios evoluíram os répteis de todas as formas e feitios, com patas ou sem elas, aquáticos , terrestres ou aéreos . com escamas ou com carapaças, todos eles vertebrados com costelas e vértebras . Dos répteis evoluíram dois ramos actuais: os das aves e o dos mamíferos .
Resumindo podemos dizer que os vertebrados (do latim vertebratus, com vértebras) constituem um subfilo de animais cordados, compreendendo os agnatos, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Caracterizam-se pela presença de coluna vertebral segmentada e de crânio que lhes protege o cérebro.
Outras características adicionais são a presença de um sistema muscular geralmente simétrico ( a simetria bilateral é também uma característica dos vertebrados ) e de um sistema nervoso central, formado pelo cérebro e pela medula espinhal localizados dentro da parte central do esqueleto (crânio e coluna vertebral). Julgamos que ,desta maneira simplista , respondemos á questão que nos fora posta.

1.1.11

MÁQUINA QUÂNTICA


Durante o ano de 2010 referi-me várias vezes, na etiqueta Física , ao mundo quântico onde as leis físicas são diferentes das da Física Clássica que regem este nosso mundo de objectos visíveis . Ora em Dezembro do ano que acabou de findar, surgiu a revelação da criação da primeira ligação entre o universo quântico do infinitamente pequeno e o mundo visível , sendo o facto considerado a descoberta mais significativa de 2010,isto segundo a revista norte-americana Science.
A realização de um aparelho quântico, por uma equipa de físicos da Universidade da Califórnia, foi revelada em Março, na revista britânica Nature ,mas só agora foi conhecida pelo comum dos mortais.
Até 2010, todos as máquinas fabricadas pelo homem seguiam as leis da mecânica clássica, mas Andrew Cleland e John Martinis obtiveram um efeito quântico num pedaço de metal suficientemente grosso para ser observado a olho nu, logo fugindo à física clássica . Com a ajuda de um micro circuito eléctrico supercondutor conseguiram que o pedaço de metal vibrasse pouco e, simultaneamente, vibrasse muito ,o que só é possível pelas leis da mecânica quântica , isto é, no mundo do infinitamente pequeno .Embora os físicos não tenham conseguido ter o objecto em dois sítios diferentes ao mesmo tempo, o que seria a lei quântica total , o feito é extraordinário.
Para que se compreenda melhor o valor da experiência ,lembramos de novo que ,até agora, todos os objectos construídos pelo homem se regem pelas leis da mecânica clássica. Ora o grupo de cientistas atrás referido, ao criar um dispositivo visível a olho nu que se move segundo as leis comportamentais das coisas infinitamente pequenas, como moléculas, átomos e partículas sub-atómicas, deu um salto enorme para um mundo que se considerava ficção.
O Site Inovação Tecnológica anunciou o feito, na reportagem Mecânica quântica aplica-se ao movimento de objectos macroscópicos, destacando então que se tratava de uma experiência histórica. A máquina quântica tem uma aparência muito simples: uma pequena haste metálica, semelhante à extremidade de um estilete, fixada de modo a vibrar no interior de um sulco escavado num material semicondutor, considerado tecnicamente como um ressoador mecânico. Os cientistas resfriaram-no até que ele atingisse o estado fundamental de energia, isto é, o estado de menor energia permitida pelas leis da mecânica quântica .
De seguida, injectaram na máquina um único quanta de energia, um fonão, a menor unidade física de vibração mecânica, provocando-lhe o menor grau de excitação possível.
Verificaram então aquilo que era previsto pela mecânica quântica: a máquina vibrava muito e vibrava pouco, ao mesmo tempo, provando que os princípios da mecânica quântica podem ser aplicados ao movimento de objectos macroscópicos, tal como o são às partículas atómicas e sub atómicas. Tudo aconteceu à temperatura de apenas 25 milikelvins e o seu efeito durou apenas alguns nanossegundos, já que ele é afectado pelas mais ínfimas influências do mundo macroscópico ao seu redor.

Tal controlo sobre o movimento deste dispositivo, cuja fita metálica media 60 micrómetros,logo visível a olho nu, deverá permitir aos cientistas manipularem esses movimentos minúsculos, de forma parecida com o que eles fazem hoje ao manipular as correntes eléctricas e as partículas de luz.
A experiência abrirá o caminho para que se discutam as fronteiras da mecânica quântica e da mecânica clássica e até mesmo o nosso próprio sentido do que é a realidade.
Se a mecânica quântica permite que uma partícula atómica esteja em dois lugares ao mesmo tempo, por que não admitir que algo grande , formado por moléculas, não poderia conseguir o mesmo feito ? Por que não pensar que esse algo grande poderia ser um homem ? Teríamos então o teletransporte da série televisiva Guerra das Estrelas.
Só sabemos com exactidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida (GOETHE)

29.12.10

Sangue artificial


Já desde o século XVII que as transfusões sanguíneas têm sido uma tentativa de remediar as perdas de sangue causadas por cirurgias, acidentes, partos, guerras ou outras causas. .Antes da identificação dos anticorpos aglutinantes do sangue como o Rh, as transfusões então realizadas provocavam muitas mortes pelo facto do sangue do dador ser incompatível com o do receptor . Embora hoje se conheçam e se identifiquem muito bem os grupos sanguíneos (A;B;AB ;O )e os factores Rh, um dos problemas com que a medicina actual por vezes se debate é a falta de sangue compatível disponível para uma transfusão ou havendo-o, a recusa do doente em receber essa transfusão por motivos religiosos ,como acontece com as Testemunhas de Jeová.
Parece que no futuro o problema será parcialmente resolvido com o fabrico de sangue artificial. Este sangue será desenvolvido a partir de células estaminais embrionárias , e a designação de artificial refere-se apenas ao facto de ser fabricado em laboratório. O plano da Universidade de Edinburgo é simples: estimular células estaminais de embriões humanos para que originem células do sangue, isto é, glóbulos vermelhos. Recorrendo aos embriões que sobram dos tratamentos de fertilidade, os cientistas vão procurar aqueles que estão geneticamente programados para desenvolver o sangue tipo O, Rh negativo ( zero ,negativo) que é considerado como dador universal, pois pode ser dado a qualquer pessoa sem perigo de rejeição,dado não ter aglutininas nem aglutinogénios..
Este tipo de sangue é relativamente raro, sendo encontrado em apenas 7% da população mundial, mas em laboratório poderá ser desenvolvido em grandes quantidades devido à capacidade que as células estaminais têm de se multiplicar indefinidamente. Em teoria, um único embrião seria capaz de satisfazer as necessidades de sangue de um país, além de ser ,como afirmamos, compatível com qualquer humano, e estar livre de infecções.
No entanto o problema mantêm-se para os que recusam sangue com origem em outro indivíduo, por questões religiosas. Talvez para estes a solução esteja numa descoberta vinda dos USA. Claes Lundgren, médico da Universidade de Buffalo, apresentou , numa conferência de imprensa, uma ampola contendo cinco mililitros de uma solução leitosa, passando a explicar: "Estes cinco mililitros poderão salvar a vida de uma criança pesando de 10 a 15 quilos que tenha perdido metade de seu sangue."
Esta espécie de sangue artificial, é uma substância inorgânica, mais especificamente um dodecafluorpentano, ou DDFPe, um composto à base de fluorcarbono utilizado originalmente como elemento de contraste em exames médicos.
Lundgren vai prosseguir o trabalho dos Drs. Hugh Van Liew, Mark Burkard e Ingvald Tyssebotn, que fizeram as primeiras pesquisas e conseguiram transformar o DDFPe num transportador de oxigénio.
A chave para a capacidade desta nova substância está em gotículas invisíveis a olho nu. Quando aquecidas à temperatura do corpo humano, essas gotículas expandem-se em micro bolhas, pequenas o suficiente para passar através dos vasos capilares. A forte afinidade dessas micro bolhas com o oxigénio faz com que elas possam cumprir o papel do sangue, captando o oxigénio nos pulmões do paciente e levando-o até aos tecidos.
Infelizmente ainda faltam muitos testes médicos para comprovar que não existirão efeitos colaterais adversos.
Paralelamente várias Empresas farmacêuticas desenvolveram algumas variedades de sangue artificial nas décadas de 80 e 90, mas muitas abandonaram as pesquisas após enfartes, derrames cerebrais e mortes de cobaias humanas. Algumas fórmulas iniciais também causaram o colapso de vasos capilares e o aumento excessivo da pressão arterial. Porém, pesquisas adicionais levaram a vários substitutos específicos do sangue divididos em duas classes: carregadores de oxigénio que utilizam hemoglobina (HBOC, na sigla em inglês) e perfluorcarbonetos (PFC) que atrás citámos. Alguns desses substitutos, na sua fase final de teste, conseguem estar disponíveis em hospitais. Outros já estão em uso, como, por exemplo, um HBOC chamado Hemopure actualmente administrado com alguns inconvenientes em hospitais na África do Sul, onde o alastramento do HIV ameaçou o suprimento de sangue. Um carregador de oxigénio baseado em PFC, chamado Oxygent, está nos estágios finais de testes em seres humanos na Europa e América do Norte.
Os dois tipos têm estruturas químicas bastante diferentes, mas ambos trabalham basicamente através da difusão passiva. A difusão passiva tira proveito da tendência dos gases de se mover de áreas de maior concentração para áreas de menor concentração até atingir um estado de equilíbrio. No corpo humano, o oxigénio move-se dos pulmões (alta concentração) para o sangue (baixa concentração). Depois, quando o sangue atinge os vasos capilares, o oxigénio move-se do sangue (alta concentração) para os tecidos (baixa concentração).
Dissemos no início que estas descobertas resolveriam parcialmente o problema da falta de sangue pois não podemos esquecer que o sangue humano executa muitas outras funções importantes para além do transporte de oxigénio pelos glóbulos vermelhos. Os glóbulos brancos defendem o corpo das infecções bacterianas, as plaquetas promovem coagulação, e as proteínas do plasma executam várias outras funções. Por tal motivo será útil utilizar novas técnicas médicas a quando de uma cirurgia ,tal como utilizar bisturis eléctricos que evitam hemorragias ou a transfusão do próprio sangue do doente e de que existem duas técnicas: 1)- O paciente retira seu próprio sangue alguns dias antes da cirurgia e esse sangue fica guardado em bolsas até que seja necessário utilizá-lo durante a cirurgia programada. 2)- O sangue é retirado no início da cirurgia e armazenado, sendo substituído por soluções cristalóides ou coloidais como expansores do volume do plasma. Ocorrendo algum sangramento ele obviamente será menor, já que estará diluído. No final da cirurgia o sangue é reposto. Como o sangue é do próprio doente não há impedimento religioso.
Para além da conhecida transfusão , aproveitando (após filtração/heparinização) o sangue perdido no decurso de intervenções cirúrgicas, e da chamada transfusão isovolémica, (todas estas técnicas implicando apenas a utilização de sangue do paciente) as alternativas reais à transfusão tem ainda as suas limitações ,pelo que fiquemos com a esperança de que o engenho humano nos conduza no futuro a uma solução de sucesso.

24.12.10

ESCRIBAS


Podemos dizer que um escriba é todo aquele que escreve, isto é, todo aquele que utilizando símbolos , transmite manualmente uma mensagem. Ainda nos nossos dias há escribas , só que lhe chamamos escriturários.
No antigo Egipto, um escriba era uma importante figura na administração a nível civil, militar e religioso, pois a maioria dos egípcios não sabia ler nem escrever e quando precisava redigir ou ler um documento via-se obrigada a pagar o serviço de um escriba. Ser escriba não era tarefa fácil pois eram necessários cerca de 12 anos para que alguém estivesse em condições de ler e escrever os cerca de 700 hieróglifos que eram usados 1500 anos antes de Cristo e os estudos podiam começar aos quatro anos de idade. A habilidade para escrever garantia uma posição superior na sociedade e a possibilidade de progresso na carreira.. Um texto destinado a instruir os escribas, usado durante o Império Novo, garantia:
Seja um escriba. Isso o salvará da labuta e o protegerá de todo tipo de trabalho .Será poupado à enxada e ao alvião, de forma que não terá que carregar cestas. Ficará livre de manipular o remo e será poupado de todo tipo de sofrimento.
Mas então a escrita no Egipto era uma coisa assim tão difícil para que o escriba fosse tão considerado ?
Há cerca de 3000 anos , os Egípcios desenvolveram uma forma de escrever assente em vários pictogramas (imagens figurativas que representam coisas), mas também em fonogramas (símbolos que representam sons) . Meticulosamente gravados, os hieróglifos associavam, os símbolos fonéticos às imagens de objectos reais comuns, como plantas ,animais ,barcos, etc. A precisão e a minúcia da execução estavam ligadas também ao uso simbólico das cores. Escrevia-se da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita e também na vertical. A direcção da leitura era indicada pela direcção do olhar de certos símbolos que representavam homens ou animais. Este sistema de escrita recebeu a designação de "hieroglífica" (do grego hieros que significa sagrado, e ghyhhein que significa gravar) e foi criado para descrever os rituais religiosos , as comemorações de acontecimentos militares e, em última instância, até servir como agradecimento a um governante por qualquer dádiva. A escrita hieroglífica era utilizada nos documentos da vida pública e nas inscrições mais importantes. Mais tarde (cerca de 2400 AC) e por comodidade no dia-a-dia, os Egípcios desenvolveram uma forma simplificada de hieróglifos. É escrita hierática (cursiva) utilizada pelos sacerdotes nos textos sagrados ,e está adaptada ao movimento da pena molhada em tinta sobre o papiro macio. Para economizar tempo e esforço cada sinal hieroglífico foi esquematizado e até aparecem ligados entre si para que a mão não se levantasse. Escrevia-se da direita para a esquerda. Mas a dada altura, também a hierática deixou de responder à procura e exigências do quotidiano. Foi então que no Egipto se idealizou a escrita demótica (designada, então, a "escrita do povo"), por volta de 500 anos antes da nossa era, sendo que esta constituía uma redução da hierática que, por si só e como dissemos atrás, já era uma redução da hieroglífica. Relativamente ao suporte onde eram escritos, há a registar uma evolução desde o hieróglifo ao demótico, e que vai desde as inscrições de objectos em barro cozido, passando pelas pinturas nas paredes dos templos e das câmaras funerárias, em pedra e madeira, culminando com a utilização do papiro nos manuscritos. Efectivamente, o papiro – invenção atribuída ao povo egípcio –, foi o material mais importante para o segundo sistema de escrita, a partir das plantas que cresciam nas margens do rio Nilo. Estamos a falar das plantas papiros que cresciam nas terras pantanosas da foz do Nilo e cujos caules chegavam a ter quatro metros de altura, caules esses que eram cortados e justapostos às camadas numa superfície lisa, sendo que sobre a última camada era colocada uma pesada pedra lisa com a finalidade de fazer compressão dos caules . A pressão exercida fazia com que a seiva e a humidade das plantas, em contacto com a água, produzissem uma espécie de substância gelatinosa, que colava umas camadas às outras. Uma vez secas, as "folhas" eram postas em pilha e banhadas em azeite, ao que se seguia a tarefa de as alisar com a ajuda de uma pedra ( ágata).Mais tarde, os Romanos introduziram neste processo uma inovação que resultaria numa melhor qualidade do produto final: a aplicação de cola de amido para unir as fibras e assim neste papel se escreveu até ao nosso século XVIII.
A substituição do papiro pelo pergaminho teve lugar quando os Fenícios deixaram de exportar as folhas de papiro para a Ásia. O pergaminho era obtido a partir das peles de animais (como as ovelhas e as cabras), depois de esticadas, secas e polidas, após um banho em cal, por forma a evitar o mau cheiro. Já secas, as peles eram esfregadas dos dois lados com ajuda de argila e pedra-pomes. Este novo processo de obtenção de material para escrita tinha a vantagem de ser mais duradouro e de permitir a reunião das várias folhas em formato de livro, mas é destronado com o aparecimento do papel o que acontece em 1800 d. C.
Voltando ao assunto do tema, o escriba foi um aliado do Faraó e por isso as célebres estátuas de escribas sentados, com um rolo de papiro sobre os joelhos, são o melhor reflexo do seu estatuto social. Organizavam-se em torno de uma hierarquia de directores no cimo da qual se encontrava o visir, mão direita do Faraó. Que se tenha conhecimento não existiram escribas do sexo feminino, embora certas filhas de escribas tenham aprendido a ler e a escrever, mas foi muito raro. Hoje sabemos o nome de muitos escribas pois assinaram documentos ; é o caso de Pentaur, autor do célebre poema da batalha de Qadesh para glória de Ramsés II; é o caso de Imhotep, construtor da pirâmide de Saqqara ou ainda o de Amenhotep, filho de Hapu, visir de Amenhotep III.

17.12.10

O PRESÉPIO de NATAL

O Natal é uma festa de raiz religiosa rica em simbolismos, sendo poucos no mundo os que conhecem as suas origens ou o seu seu significado, pois se transformou numa grande festa de solidariedade universal, comemorada em todo o mundo, até mesmo onde a população cristã está em minoria, como é o caso do Japão. Quando entramos na Quadra Natalícia podemos sentir que uma certa ternura vai envolvendo toda a gente criando nas pessoas sentimentos muitas vezes esquecidos, como o amor ao próximo com a solidariedade para os que sofrem ou passam fome. Vimo-lo neste findar de ano 2010 em que as pessoas, mesmo com a crise, doaram ao banco alimentar mais do que em anos anteriores.
Para nós o Natal comemora o nascimento de Jesus Cristo e embora historicamente, não se tenha a certeza da data do nascimento de Jesus, um acontecimento tão importante como a vinda do filho de Deus para o nosso mundo, merecia ser lembrado mas não havendo dados históricos, quando o fazer ? Ora no dia 21 de Dezembro , no hemisfério norte , ocorre o chamado solestício de inverno que é o momento em que a Terra, depois de atingir o ponto mais distante de sua órbita em relação ao Sol, reinicia seu caminho de volta fazendo com que os dias se tornem mais longos. Para comemorar o solestício de inverno havia por todo o lado uma amálgama de festividades pagãs . No ano 336 D.C., o Imperador Romano Constantino I alterou os motivos das grandes festas do solstício e passou a ser comemorado o nascimento de Cristo, o salvador da humanidade, em vez do nascimento do sol, na data fixa de 25 de Dezembro. A Igreja apropriou-se da data como forma de converter os não cristãos a aderirem ao cristianismo. A celebração do Natal é, por isso, repleta de símbolos, cristãos e pagãos, e assim as pessoas fizeram desta tradição uma das festas mais ornamentadas.
Em Portugal, e antes da apropriação comercial pela festa, nas igrejas e casas particulares montava-se o presépio, mais rico ou mais singelo consoante as possibilidades de cada um.
A palavra “presépio” significa curral, estábulo, local de recolha de gado ,mas também é a designação dada à representação artística do nascimento do Menino Jesus num estábulo, acompanhado pela Virgem Maria, S. José ,pela vaca e por um jumento, a que por vezes se acrescentam outras figuras como pastores, ovelhas, anjos, os Reis Magos, etc.
Os primeiros presépios surgiram em Itália, no século XVI, e o seu aparecimento foi motivado pela representação teatral do nascimento de Cristo. De entre os presépios mais conhecidos, são de salientar os presépios napolitanos, que surgiram no século XVIII, e onde podiam observar-se várias cenas do quotidiano, mas o mais importante era a qualidade extraordinária das suas figuras ; só a título de exemplo, os Reis Magos eram vestidos com sedas ricamente bordadas e usavam jóias muito trabalhadas.

No que se refere a Portugal, não é nenhum exagero dizer que aqui foram feitos alguns dos mais belos presépios de todo o mundo, sendo de destacar os realizados pelo escultor e barrista Machado de Castro no século XVIII . A seguir apresentamos imagens de três presépios diferentes mas do mesmo autor.


Representações artísticas surgiram também no início do século XIII,sob a forma de pinturas e afrescos entre outras, mas a data de 1223 é para muitos o início desta tradição.
São Francisco de Assis será o autor do presépio, pois nesse ano de 1223, festejou o Natal na floresta de Greccio, levando consigo animais como, bois, vacas, burros, de forma a retratar aos seus cidadãos o que tinha acontecido nessa noite do nascimento de Jesus , criando assim o interesse das pessoas por retratar o Natal. Porém só no século XV, com o culminar de um grande interesse pela data, criaram o presépio como hoje o conhecemos, deixando para trás as pinturas das igrejas.
O presépio caseiro tem como principal característica, a versatilidade já que todas as peças podem mudar de lugar e serem vistas de vários ângulos, dando liberdade a cada pessoa para criar o seu próprio presépio. Que se saiba , foi no século XVI que surgiu o primeiro presépio particular em casa da Duquesa de Amalfi. A partir do século XVIII, a tradição insere-se em toda a Península Ibérica alastrando-se por toda a Europa.

Actualmente é um costume em inúmeras culturas que marca o Natal, existindo presépios para todos os gostos, desde miniaturas a personagens em tamanho real, muitas vezes com uma representação humana do acontecimento.Terminamos com duas fotografias de presépios no Japão

14.12.10

MACACOS versus HOMEM

Tenho uma familiar, temente a Deus e aos Homens que fica escandalizada quando afirmo que é “ prima dos macacos “ , muito embora não lhe repugne a teoria evolucionista de Darwin para os outros seres. Como ela, tenho encontrado mais pessoas, e nem são defensoras do criacionismo , pois nunca aprofundaram o tema . É para elas que alinhavo o resumido apontamento que se segue.
Como é sabido, o gene é a unidade fundamental de toda a hereditariedade e ao conjunto de todos os genes de um indivíduo de qualquer espécie. chamamos genoma. Os genes encontram-se distribuídos pelos cromossomas de um indivíduo e as características de todos os seres vivos são definidas pelo genoma que possuem. Posto isto, que diferença há entre o genoma do Homem e o do macaco ou, dito de outra maneira, que mudança terá sofrido o genoma do símio ancestral para dar o homem ?
A mutação genética devido à qual os primeiros hominídeos ( Homo habilis ---»Homo erectus ---»Homo Neandertal ---»Homo sapiens ) se separaram dos seus antepassados símios , já foi identificada por cientistas americanos da Universidade de Harvard , em 2003. O gene Tre2 foi o responsável por ter tornado os seres humanos diferentes dos macacos, durante o longo processo evolutivo . A mutação genética terá surgido há 25 milhões de anos atrás , devido talvez á fusão de dois outros genes o que fez com que os seres humanos, ao longo da sua evolução, se tenham distinguido dos seus parentes mais próximos, chimpanzés, gorilas e orangotangos, os quais, por sua vez, se tornaram também diferentes dos outros macacos, os chamados macacos do novo mundo, que mantiveram cauda longa ,entre outras características.
A mutação concedeu aos Hominídeos maxilares mais pequenos e cérebros maiores. A redução dos maxilares alterou a estrutura do crânio e eliminou músculos espessos que serviam para fixar as mandíbulas à parte superior da cabeça. Como consequência, houve um alargamento do crânio e um desenvolvimento do volume cerebral que possibilitou a linguagem e a construção de instrumentos , o que terá acontecido há 2,5 milhões de anos , na África Oriental.
Mas há mais evidências da evolução do homem que permitem aparentá-lo em primeiro grau com os chimpanzés e gorilas, até em aspectos comportamentais . Um grupo de investigadores observou que chimpanzés selvagens transportavam alimentos para dentro de uma caverna onde os repartiam com os outros elementos do grupo, tal como faziam os Homo habilis, antepassados do homem actual.
Chimpanzés e Gorilas utilizam ferramentas para fins específicos ; Jane Goodall relatou no seu diário :…….” Em Outubro de 1960 observei um chimpanzé pegar numa folha e modificá-la com a mão, dobrando-a para a tornar mais fina para que pudesse ser enfiada com maior facilidade na abertura estreita do ninho de térmitas……….estava a demonstrar o domínio de princípios rudimentares da produção de instrumentos ……também observei que utilizavam folhas a que davam a forma de copo para armazenar água . A partir daqui precisamos redefinir Homem , redefinir utensílios ou aceitar os chimpanzés como humanos ….”
Não podemos esquecer que 98% dos nossos genes são idênticos aos de outros primatas onde estão incluídos animais fisicamente diferentes do homem como os lémures, os tarsídios ,o macaco esquilo, etc. Também já se comprovou que o cromossoma 2 do homem é a fusão, topo a topo, dos cromossomas independentes 2p e 2q que existem nos outros primatas .
No que respeita a inteligência ,falando dos chimpanzés, nossos primos de 2º ou 3º graus , eles usam instrumentos para comer, para se defender e são capazes de ensinar os mais novos a utilizar correctamente certos instrumentos para determinado fim, transmitindo aspectos culturais de geração em geração. Tal como os humanos cuidam das crias, educam-nas nas suas travessuras, demonstram emoções e comunicam entre si. Perante tal, não sei por que há relutância em admitir que homem e macacos derivam de um ancestral comum próximo, logo são primos.
Olhem as fotografias abaixo e digam –me se não são atitudes humanas
Grupo em velório chorando a morte de um familiar

Casal posando para a posteridade
Cruzando os braços com enfado por não ser considerado como gente.
Carinho de mãe

Observação

Se atentar para a fotografia do início do texto verá a atitude de quem tem um problema bicudo para resolver, talvez o de não saber em quem deva votar para governar este país de macacões.

4.12.10

PAI NATAL

Agora que estamos no mês de Dezembro, as montras das casas comerciais encheram -se de pinheiros nórdicos em plástico ( made in China) e de figuras de um velho barrigudo de barbas brancas, normalmente vestido de vermelho, a que chamam de PAI NATAL (por causa da igualdade entre sexos, também aparecem umas MÃE NATAL) que vão destronando o presépio e o Menino Jesus que reinavam no meu tempo de criança.
Mas quem é o Pai Natal ?
O Pai Natal tem vários nomes dependendo do país e da sua cultura, mas trata-se sempre de S. Nicolau, um indivíduo que nasceu no ano de 350 d.C., em Patara e que, anos mais tarde, se tornou bispo da Igreja Católica. Este bispo é referenciado lendariamente por salvar marinheiros das tempestades, defender as crianças e oferecer vultuosas prendas aos mais pobres, além de outros milagres.
Este distribuidor de prendas conduz pelo céu um trenó puxado por renas carregando brinquedos para as crianças que se portaram bem durante o ano. O Pai Natal ou St Nicholas, St Nick ou Santo Claus, visita todas as casas na noite de Natal descendo pela chaminé para deixar os ditos presentes ao canto da chaminé ou da lareira, na árvore, nas peúgas ou sapatos de todas as crianças bem comportadas.( O local onde deixa as prendas depende do país) Esta imagem tipicamente americana foi introduzida nos Estados Unidos a partir da Holanda no século XVII, e em Inglaterra a partir da Alemanha em meados do século XIX.
O dia de St Nicholas, em que se recebiam as prendas, era originalmente celebrado a 6 de Dezembro mas, depois da Reforma da Igreja, os protestantes Germânicos deram especial ênfase ao Menino Jesus como sendo o “dador de prendas” no dia da Sua própria festa, a 25 de Dezembro, mas a tradição de St Nicholas prevaleceu e ficou colada ao próprio Natal. A explicação para a escolha do dia 25 de Dezembro como sendo o dia de Natal, isto é , o dia em que nasceu Jesus, prende-se com o facto desta data coincidir com a Saturnália dos romanos e com as festas pagãs célticas do Solstício de Inverno, tendo a Igreja visto aqui uma oportunidade de cristianizar a data e combater o paganismo.
No nosso país e devido á globalização das últimas décadas, o Natal foi travestido e a tendência é a substituição do Menino Jesus pelo Pai Natal na entrega dos presentes. Como disse logo de início, o presépio têm agora de coexistir, quando coexiste, com o velho das barbas e a
árvore de Natal, embora as tradições natalícias portuguesas não tenham de todo desaparecido, pelo menos no aspecto gastronómico. Assim, no dia 24 Dezembro, à noite, tem lugar a ceia de Natal ou consoada, onde reina o polvo ou bacalhau cozidos, as rabanadas, os sonhos, os filhós, etc. e já depois da missa do galo, à meia-noite, a criançada vai em busca das prendas. Em certas zonas do país arde o cepo de Natal, nos largos públicos , como adros de igrejas e á volta dessa fogueira se passa uma consoada comunitária . Voltando ao Pai Natal muitos pensam que a imagem do gordo de vermelho e com barba branca é da autoria da marca de refrigerantes Coca-Cola pois esta marca, nos anos 30 do século XX, usou a figura do Pai Natal na sua publicidade de Inverno e deu-lhe as suas cores, o branco e o vermelho. Para tal contratou o artista Haddon Sundblom para lhe compor a imagem. Contudo, Sundblom não foi original na sua escolha, já que o primeiro desenho que retratava a figura do Pai Natal ,tal como hoje o conhecemos, foi feito por Thomas Nast e publicado no semanário “Harper’s Weekly”, no ano de 1866. Esperando ter explicado quem é o PAI NATAL ,já que a Mãe Natal é coisa muito modernista, desejo-vos
BOAS FESTAS

2.12.10

PESTE NEGRA


Alguns jornalistas dos nossos dias classificaram o HIV (sida) e a Gripe A como a Peste Negra do sec XXI ; da mesma maneira a tuberculose foi a “peste negra “ do século XIX e a pneumónica a do início do século XX, tudo devido ao gigantesco número de mortes que provocaram no passado..
Mas afinal o que foi a PESTE NEGRA, surgida em 1348 ? Apenas uma doença, na altura de origem desconhecida que, em dois anos, levou à morte um terço da população europeia. “…..cidades desertas , campos abandonados cadáveres apodrecendo nas ruas , mercados vazios e um silêncio reinante onde antes havia bulício……A desconfiança havia-se instalado em lugar do afecto porque todos ,pais e filhos, vizinhos, amigos ou familiares podiam ser a fonte do veneno mortal….. assim escreve Giovanni Boccacio no seu Decameron. ( escrito entre1349 e 1353)
Numa sociedade medieval em que a religião dominava tudo, a população considerava o mal como um castigo divino, já que a dissolução dos costumes e a falta de honestidade do clero, eram razões suficientes para provocar a ira de Deus e o fim dos tempos . O Papa Clemente VI, numa bula de 1348 , declarava : “ Deus está castigando o seu povo com uma grande peste “.
Os sábios da época, embora não negando a intervenção divina , procuravam factores naturais para a doença. A universidade de Paris defendia que a origem da peste se devia à conjugação dos planetas Marte , Júpiter e Saturno sob o signo Aquário. Outros afirmavam que eram os gases da cauda de um cometa que provocara a peste e originara um sismo em Itália. Na Alemanha a culpa era dos judeus que tinham envenenado o ar e a água , razão por que foram assassinados aos milhares.
Os médicos desenvolviam numerosas teorias sobre o contágio, como o andaluz Ibn-al-Jatib que intuiu que a peste se contagiava através de corpos minúsculos , tendo prescrito que os doentes deveriam ser isolados e as suas roupas destruídas . Já para o italiano Gentile de Foligno o ar doente penetrava no corpo através da respiração , ia para o coração onde estava o espírito vital e daí se estendia a todo o corpo.
A descoberta destas vias de contágio deu lugar a teorias preventivas, hoje absurdas , como plantar arbustos aromáticos em volta das cidades para o ar pestilento não entrar, ou as pessoas lavarem-se numa mistura de limão, lima e água de rosas . Preconizavam usar uma máscara que cobria a cabeça e tinha a forma de um bico de ave .
Nesta época de obscurantismo e fanatismo religioso, faziam-se enormes procissões penitenciais com as pessoas a flagelarem as costas pois o sangue do sacrifício aplacaria a suposta ira de Deus.
Façamos agora uma pausa nesta descrição do que se pensava na Idade Média sobre a peste e historiemos, em resumo, as grandes epidemias :
1315-1317---O tempo excepcionalmente frio e chuvoso provoca escassez das colheitas e dá lugar às fomes. Esta população já debilitada pela fome sofrerá o embate da peste negra ou bubónica.
1334.-1346---No primeiro ano a peste provoca 5.000.000 de mortos na China. Entre 1337 e 1338 estende-se pela meseta central asiática e em 1346 atinge a Crimeia.
1347- 1350--- A peste vinda do oriente estende-se por toda a Europa nas suas formas bubónica , pulmonar e septicémica.
Século XVII--- Novos surtos de peste . Só Londres perde 100.000 habitantes o que corresponde a um quinto do total.
1720…..Um barco vindo da Síria atraca em Marselha e com ele vêm a peste . Morre metade da população da cidade. É o último grande surto de peste na Europa.
Mas o que era ou o que provocava a “peste negra”?
Nos porões dos navios de comércio que vinham do Oriente, entre os anos de 1346 e 1352, chegavam centenas de ratos. Estes roedores encontraram nas cidades européias um ambiente favorável para se reproduzir, pois os esgotos corriam a céu aberto e o lixo acumulava-se nas ruas. Assim os ratos passavam a ser aos milhares não havendo gatos em número ou fome suficientes para lhe dar caça , além das ratazanas serem enormes e atacarem os felinos. Estes ratos, sabe-se hoje, estavam contaminados com a bactéria Pasteurella pestis e as pulgas destes roedores transmitiam a bactéria ás pessoas através da picada. Os ratos também morriam da doença mas quando isto acontecia, as pulgas passavam rapidamente para os humanos para neles obterem seu alimento, isto é, o sangue.Após adquirir a doença, a pessoa começava a apresentar vários sintomas: primeiro apareciam nas axilas, virilhas e pescoço vários bubos (bolhas) de puz e sangue, daí o nome de peste bubónica. Em seguida, vinham os vômitos e febre alta. Era questão de dias para os doentes morrerem, pois não havia cura para a doença. Vale lembrar que, para piorar a situação, a Igreja Católica ,na época, opunha-se ao desenvolvimento científico e farmacológico. Os poucos que tentavam desenvolver remédios eram perseguidos e condenados à morte, acusados de bruxaria.
( A doença foi identificada séculos depois ,em 1894, pelo microbiologista Alexandre Yersin, depois do grande surto epidémico de Hong-Kong.)Relatos da época da epidemia mostram que a doença foi tão grave e fez tantas vítimas que faltavam caixões e espaços nos cemitérios para enterrar os mortos. Os mais pobres eram enterrados em valas comuns, apenas enrolados em panos. A doença provocou descalabro social e revoltas.
A visita da peste a Portugal, em 1348, ficou registada por escrito:"morria-se quase em saúde e os que hoje estavam sãos, iam amanhã a caminho da sepultura”.
Em 1384, o rei de Castela cercou Lisboa mas o exército invasor foi atacado pela peste. Conta Fernão Lopes:" começaram de morrer de peste alguns do arraial da gente de pequena condição. E quando algum cavaleiro ou escudeiro acertava de se finar, levavam-nos os seus a Sintra ou Alenquer ou a algum dos outros lugares que por Castela tinham voz, e ali os abriam e salgavam e punham em ataúdes do ar, ou os coziam e guardavam os ossos para os depois levarem para donde eram”
Também em 1414, quando se preparava a armada que deveria conquistar Ceuta, foram contratados navios estrangeiros que trouxeram o mal com eles. Registaram-se, em Portugal, epidemias mortíferas em 1423, 1432, 1435 e 1437. Algumas delas encontraram os portugueses com as resistências diminuídas pela fome. O rei D. Duarte foi morto pela peste em 1438.

As epidemias voltaram a assolar diversas regiões de Portugal nos anos de 1448, 1458, 1464 e 1469. Em 1477, a peste devastou Coimbra e propagou-se a Lisboa. As cidades procuravam defender-se do mal isolando-se. Os vereadores do Porto, assustados, estabeleceram como plano de defesa a interdição de entrada na cidade a quem não jurasse sobre os santos Evangelhos não vir de Coimbra nem de qualquer outro lugar onde a peste grassasse. As providências falharam e a peste entrou mesmo no burgo nortenho.

As epidemias foram-se repetindo, um pouco por todo o País. A utilidade das medidas de saúde pública foi-se tornando evidente e daí que em 1484, o rei D. João II mandou que se limpassem as canalizações bem como os monturos e esterqueiras e proibiu que se vazassem as imundices fora dos locais determinados. Naquele tempo ainda não se conheciam bactérias nem vírus, mas as causas da doença eram já atribuídas ao desrespeito das normas de higiene.

Como ainda hoje pode haver um surto destes devido a viajantes infectados vindos de países onde a doença é endémica por falta de sanidade pública, e porque referimos no texto a vários tipos de peste, vamos socorrer-nos de um MANUAL DA FARMACEUTICA MERCK que transcreveremos parcialmente, para explicar outros pontos.
As bactérias que causam a peste infectam principalmente roedores selvagens, como as ratazanas, os ratos, os esquilos e as marmotas das pradarias. A peste costuma ser transmitida às pessoas por meio das pulgas destes animais. Um acesso de tosse ou então um espirro de uma pessoa infectada dispersa bactérias através de gotas minúsculas, assim transmitindo a doença de uma pessoa para a outra. Alguns animais domésticos, em especial os gatos, também podem fazê-lo por intermédio das picadas de pulga ou pela inalação de gotículas infectadas.
Os sintomas da peste bubónica costumam aparecer de 2 a 5 dias após a exposição à bactéria, mas podem fazê-lo em qualquer momento, desde as primeiras horas até 12 dias mais tarde. Os sintomas começam subitamente com arrepios e febre até 41ºC. O batimento cardíaco acelera-se e enfraquece, de tal modo que a tensão arterial pode baixar. Os gânglios linfáticos inflamam-se (recebendo o nome de bubões) quando a febre começa ou mesmo um pouco antes. Em geral, os gânglios são extremamente dolorosos ao tacto, são duros e encontram-se rodeados de tecido edemaciado. A pele que os cobre é lisa e avermelhada, mas não mostra temperatura aumentada. É provável que o doente esteja inquieto, delirante, confuso e descoordenado. O fígado e o baço podem aumentar consideravelmente de volume, pelo que o médico os pode sentir facilmente à palpação. É possível que os gânglios linfáticos se encham de pus e drenem durante a segunda semana. Mais de 60 % das pessoas não tratadas morrem. A maioria das mortes verifica-se entre o terceiro e o quinto dia.
A peste pneumónica é uma infecção dos pulmões pelas bactérias da peste. Os sintomas, que começam abruptamente de 2 a 3 dias após a exposição às bactérias, são febre elevada, arrepios, ritmo cardíaco acelerado e, com frequência, dores de cabeça intensas. Em 24 horas começa a tosse. De início a expectoração é clara, mas começa rapidamente a apresentar sinais de sangue, até se tornar uniformemente rosada ou de cor vermelha intensa (semelhante a xarope de framboesa) e espumosa. É frequente o doente respirar rapidamente e com dificuldade. As pessoas não tratadas morrem geralmente dentro das 48 horas seguintes ao início dos sintomas.
A peste septicémica, outra variedade de peste, é uma infecção na qual a forma de peste bubónica se propaga ao sangue. Pode causar a morte mesmo antes de aparecerem outros sintomas da peste bubónica ou pneumónica.
A peste menor é uma forma ligeira de peste que costuma aparecer apenas na área geográfica em que a doença é endémica. Os seus sintomas (gânglios linfáticos inchados, febre, dor de cabeça e esgotamento) persistem ao longo de uma semana. A prevenção baseia-se no controlo dos roedores e no uso de repelentes para evitar as picadas das pulgas. Existe uma vacina, mas ela não é necessária para a maioria das pessoas que viaja para zonas onde se tenham verificado casos de peste. Aqueles que viajam e correm grandes riscos de exposição à doença podem tomar doses preventivas de tetraciclinas.

21.11.10

TLALTECUHTLI


Há meses, a France Press noticiava: A Tlaltecuhtli, a deusa da Terra, o maior monólito( bloco único de pedra) da cultura asteca e o único colorido, será exibido pela primeira vez em meados de Junho na capital mexicana após ter sido descoberto em 2006, informou o Instituto de Antropologia do México. O monólito, datado de 1502, com um peso de 12 toneladas e um tamanho de 4,19 por 3,62 metros, "é o maior já descoberto" da cultura asteca e "a única peça escultural mexicana que conserva suas cores originais", informou o Instituto em um comunicado.
Esta peça, foi descoberta em Outubro de 2006 quando se realizavam trabalhos de remodelação no centro histórico da Cidade do México, e é maior em tamanho que a Pedra do Sol (ou Calendário Asteca), um dos monólitos mais conhecidos, e maior que a Coyolxauhqui, que representa a deusa da Lua.
Sob um fundo avermelhado, a Tlaltecuhtli representa uma figura feminina de corpo inteiro de cor ocre, com cabelo encaracolado, e da boca sai um jacto de sangue tendo os braços flexionados para cima "em alusão de que é a deusa da Terra e que todas as criaturas voltam para ela.

Este monólito, assim como o Calendário Asteca e a Coyolxauhqui, fazia parte do chamado Templo Maior, que foi o coração da cultura asteca até a chegada dos conquistadores espanhóis . A Deusa está de cócoras para parir , ao mesmo tempo que bebe o seu sangue , devorando o ser que criou, simbolizando o ciclo de vida e morte dos Astecas,
Após anos de escavações minuciosas foi descoberto num poço, junto ao monólito, as mais exóticas oferendas : junto á superfície 21 facas sacrificiais de sílex branco pintado de vermelho ; mais fundo, um fardo envolvido por folhas de piteira que continha um sortido de furadores sacrificiais em osso de jaguar, barras de copal (incenso), plumas e contas de jade.
Mais abaixo, fechados numa caixa de pedra os esqueletos de duas águias reais (símbolo do sol) com os corpos virados para poente.
Até Janeiro de 2010, foram descobertos mais seis níveis com oferendas o último dos quais a 7 metros de profundidade, Esta oferenda era um vaso cerâmico com 310 contas verdes, brincos e estatuetas.
No fundo da caixa de pedra que atrás referimos um cão ou lobo fêmea trazia um colar de jade ao pescoço,um cinto de búzios e brincos de trurqueza. As jóias indiciam que seria um animal de estimação real com a tarefa de guiar e proteger o amo durante a odisseia das trevas.
Quem seria este amo ? A questão é que nunca foram descobertos restos mortais de nenhum imperador asteca , havendo registos históricos afirmando que três soberanos astecas foram cremados e as suas cinzas enterradas na base do Templo Maior . Outros indícios do monólito apontam a data de 1502 ano em que Ahuitzotl, o mais temido governante do império foi a enterrar e o seu túmulo deve estar muito perto do local onde o monólito foi descoberto.
O que se sabe de Ahuitzotl é o seguinte: funcionário militar de alta patente subiu ao trono em 1486, depois do seu irmão Tizoc perder o controlo do império e morrer. Reinou 16 anos e os seus exércitos ocuparam grandes extensões de terra costeira até à actual Guatemala.
Os trabalhos arqueológicos que estão a ser desenvolvidos são difíceis e morosos pois é necessário contornar redes de esgotos e metropolitano, evitar fios telefónicos e de fibra óptica , bem como cabos de electricidade. A equipa do arqueólogo Leonardo Lopez acredita que, mais tarde ou mais cedo, encontrará o túmulo de Ahuitzotl.
Sobre este assunto aconselhamos uma leitura atenta da revista NATIONAL GEOGRAPHIC de Novembro de 2010.

18.11.10

LINHAS DE TORRES

Certamente já ouviu falar das “linhas de torres” ( correctamente deveria ser “linhas de Torres Vedras “) , relacionadas com as tropas invasoras de Napoleão Bonaparte . Estas invasões francesas ocorreram entre 1807 e 1811 porque Portugal não acatou a ordem de Napoleão de fechar os seus portos à navegação inglesa, com quem ele estava em guerra. Devido à recusa portuguesa, a França invadiu Portugal, com o apoio de dois corpos de exército espanhóis, tendo o corpo de exército francês, comandado pelo general Junot, entrado em Lisboa em 30 de Novembro 1807, obrigando a Família Real e o Governo a irem para o Brasil Os abusos, as injustiças, os roubos e os massacres perpetrados pelas forças de ocupação francesas, levaram a revoltas em Portugal nos princípios de Junho de 1808, encorajadas pelas revoltas espanholas que tinham eclodido uns dias antes. A Inglaterra ajuda-nos militarmente, travam-se batalhas que acabam com Junot a assinar um tratado de amnistia que lhe permite retirar do país.
“E se eles voltam?” era o dilema português, após Junot ser expulso em Agosto de 1808. E eles voltaram! O resultado foi a mais curta invasão napoleónica, comandada pelo general Soult em que a violência do confronto foi característica dominante. Mas invadir Portugal pelo Norte, tendo o Porto como objectivo intermédio, revelou‑se um erro, só possível de explicar pela ignorância relativamente ao temperamento dos Portugueses, o apego à sua terra e a relutância em colaborar com intrusos ostensivos além também da ignorância francesa pela orografia, pelo clima e pelos recursos alimentares e de alojamento da região nortenha.
Assim o Exército «galego» de Soult que tinha Lisboa como objectivo final, não foi sequer capaz de se aguentar no Douro. A acção dos Fronteiros de Chaves e a reconquista desta vila por Francisco da Silveira deram um contributo defensivo inestimável, parando o abastecimento do exército francês. Desta forma as forças anglo-lusas comandadas pelo general Arthur Wellesley e pelo marechal Beresford voltam a vencer e Soult retira. Mas Napoleão era teimoso !
Como diz a professora universitária Cristina Clímaco “ Face à iminência de uma 3ª invasão pelas tropas de Napoleão, Wellington elaborou em 1810 um plano de defesa de Portugal assente em 3 pontos: a edificação de uma linha de fortificações a norte da península de Lisboa - as Linhas de Torres Vedras -, a retirada da população da Beira e da Estrema­dura para a retaguarda das fortificações, e a destruição de todos os meios de subsistências e de meios de produção que pudessem permitir às tropas francesas subsistirem na região. Wellington contava para o sucesso do seu plano com o nacionalismo do povo português ao qual pediu o sacrifício de se arruinar e de arruinar o país para o salvar das garras da águia francesa.” Assim à força de braços, voluntariamente umas vezes, outras forçada , a população construiu 152 fortificações com 523 bocas de fogo, ao longo de uma centena de quilómetros , tudo no mais absoluto sigilo e em tempo “record”.
Montes de terra, árvores derrubadas, pedra, argamassa e alguma madeira eis o sistema de fortificações de campanha mais eficiente da história militar, pois era difícil prever por onde Napoleão iria invadir Portugal e era necessário proteger Lisboa e o seu excelente porto de mar. Para tal são projectadas três linhas de defesa a norte de Lisboa que reforçam os obstáculos naturais do terreno e permitem controlar os acessos. Estes trabalhos parece terem sido iniciados a 3 de Novembro de 1809, sob orientação de Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso.
A primeira linha , vulgarmente conhecida como segunda, vai de Ribamar à Povoa de Santa Iria , controla os desfiladeiros de Mafra, Montachique e Via Longa , pois se apoia na artilharia instalada nas serras de Chipre, Fanhões e Serves bem como no cabeço de Montachique, Como estas linhas têm um flanco direito de fraca resistência ao inimigo é criada uma outra linha 13 quilómetros mais a norte , a primeira , que vai desde Alhandra à foz do rio Sizandro, em Torres Vedras. Os flancos frágeis destas linhas eram reforçados por flotilhas de navios ingleses , autênticas batarias moveis de artilharia. Curioso é referir que, para além dos fortins , obras hidráulicas foram usadas na defesa pois ao serem inundadas as lezírias, desde Alverca até ao norte de Alhandra , o exército francês não podia passar. Para que tal acontecesse no tempo seco, foram construídos diques sucessivos ao longo do rio Sizandro, diques estes protegidos pela artilharia colocada na margem esquerda. Tudo isto construído no maior secretismo.
Quando as tropas francesas do general Massena chegam às linhas, em 11 de Outubro de 1810, deparam-se com estas fortificações de campanha , bem guarnecidas de artilharia. o exército aliado situado numa posição impenetrável e um terreno despovoado e não cultivado.
As linhas de Torres Vedras não são fortificações contínuas , pelo contrário, são posições separadas umas das outras, mas ligadas na retaguarda por estradas militares ; só os seus pontos importantes são fortificados .A maioria são. como dissemos, pequenos postos de artilharia de defesas precárias em madeira e terra. (ver foto do início do texto) A ideia é não acontecer uma grande batalha onde os franceses ganhariam por serem tropa altamente treinada, mas sim flagelar constantemente e em diversos pontos o inimigo, desgastando-o e desmoralizando-o dado estar a actuar numa zona de terra queimada desde Coimbra até Torres Vedras. A partir de Almeida (distrito da Guarda) onde começa a 3ª invasão francesa , Massena encontra um país silencioso . Um ofício de 23 de Setembro de 1810 dirigido ao Estado maior Francês diz o seguinte : “ Atravessamos um deserto, nem uma alma se encontra, tudo foi abandonado. Os ingleses levam a sua barbárie até ao fuzilamento do pobre que permanecesse em sua casa, mulheres , crianças e idosos ,todos fogem, não se encontra um guia em nenhum lado.” A população é obrigada a esconder ou destruir os produtos das colheitas que não consegue transportar consigo, a deixar as suas casas e a refugiar-se no interior das linhas. Tudo para privar o inimigo de recursos, obrigando-o a morrer de fome , já que os franceses tinham por norma abastecer-se localmente. A 4 de Março de 1811 os franceses retiram e começa assim o declínio do império de Napoleão.
Como curiosidade referimos : Participaram na obra mais de 150.000 camponeses que foram recrutados ao longo de um ano. O êxodo maciço da população forçado a viver a sul das linhas foi de cerca de 200.000 pessoas . As equipas trabalhavam em grupos de 1.000 a 1.500 homens , coordenados por um oficial engenheiro inglês e 150 capatazes. As várias fortificações foram ocupadas por 25.000 milícias e 11.000 ordenanças portuguesas, 8.000 espanhóis e 2500 fuzileiros navais ingleses. Como tropas regulares estavam 34.000 britânicos e 24.500 soldados portugueses. É incrível como isto não transpirou para o inimigo. O exército anglo-luso instalou-se nas linhas entre 9 e 11 de Outubro de 1810. No dia 11 todas as tropas encontravam-se ao abrigo deste sistema defensivo. As tropas de milícias e também de ordenanças guarneceram as diferentes obras de defesa e aí receberam treino de manobras defensivas. As tropas do exército anglo-luso foram utilizadas como uma força móvel e não como guarnição às posições defensivas. Desta forma, estariam sempre disponíveis para se movimentarem para qualquer ponto das linhas onde a ameaça francesa viesse a colocar em perigo a integridade da defesa. Tendo em consideração os eixos segundo os quais um eventual ataque por parte dos franceses seria mais provável e mais perigoso, Wellington dispôs o seu exército, com excepção da 3ª Divisão (Picton), em dois blocos: um em frente ao Sobral, entre Monte Agraço e Runa; o outro, na região de Alhandra. O quartel-general de Wellington ficou colocado na Quinta do Barão de Manique e o de Beresford no Casal Cochim, em Pêro Negro
Para que as linhas de defesa funcionassem na perfeição o exército aliado tinha de poder acorrer rapidamente a qualquer posição que estivesse a ser atacada pelos franceses. Para tal eram necessárias estradas militares mas também comunicações muito rápidas de instruções e ordens de batalha . Desta forma foi montado na serra do Socorro ( Mafra) um telégrafo de sinais (bandeiras e balões coloridos) que permitia transmitir para oito fortes onde também havia mastros de sinais . Assim as fortificações das linhas de Torres e os seus flancos ,comunicavam entre si, mas também com os navios ingleses fundeados no Tejo e na costa . As mensagens eram em código previamente estabelecido e muito simples, pois bastava transmitir um número que correspondia a uma determinada situação. A foto que se segue mostra a reconstituição de um desses postos telegráficos .

11.11.10

CARAVAGGIO


O pintor Caravaggio nasceu numa pequena aldeia de Itália e ,na pia baptismal, recebe o nome ilustre de Michelangelo, da família Merisi, residente na paróquia de San Giorgio, junto ao Paço Bianco di Caravaggio, cujo nome depois adoptou. Aos 12 anos, começa a trabalhar na oficina de Simone Peterzano, um modesto pintor que se intitulava "discípulo de Ticiano". Não fica aqui muito tempo e por volta dos 15 anos, foge para Roma, onde anda de oficina em oficina, trocando assim de mestre. As suas primeiras obras religiosas causam escândalo por se afastarem do tradicional, dividindo o público entre admiradores e inimigos. Considerado arruaceiro , estave sempre envolvido em duelos e discussões. "Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais", disse Caravaggio perante o tribunal que julgava a sua primeira acusação de perturbar a ordem pública. Eram palavras foram sacrílegas na Roma de seu tempo, pois com elas Caravaggio denegria as estátuas clássicas e declarava nada ter a aprender com elas. Não lhe interessava mais a Roma antiga que o Renascimento tentou ressuscitar com o mito do homem heróico. Preferia a humanidade vulgar das feiras e tavernas do tempo em que vivia ,com os vendedores de frutas, músicos ambulantes, ciganos e prostitutas.Eram estes os seus modelos para os quadros, Sem um mecenas chegou a vender pinturas nas ruas, até que passou a trabalhar para o cardeal Del Monte, patrono da "Academia de São Lucas". Habitando o palácio do cardeal e com uma pensão regular, Caravaggio realiza então uma série de importantes quadros de temática religiosa. Uma das características mais importantes de suas pinturas é, como já dissemos, retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos usando como modêlos o povo comum das ruas de Roma. Outra característica marcante são os efeitos de iluminação criados pelo jogo de luzes e sombras, que causam um impacto realista . Usava geralmente um fundo escuro e agrupava a cena em primeiro plano com focos de luz sobre os detalhes, ressaltando principalmente os rostos.

Com uma vida boémia e afundado em dívidas, começa a decadência. Recusa a oferta do príncipe Doria Pamphili para decorar uma parte de seu palácio e insiste em pintar "quadros verdadeiros", certo de encontrar compradores. A sua situação piora em 1606, quando mata o nobre Tommasoni .Foge para Nápoles e depois ruma à ilha de Malta, onde recebe a comenda Cruz de Malta. Devido ao seu feitio brigão tem problemas com um nobre maltês e é preso. Ajudado por amigos, foge para a Sicília. Muda de cidade seguidamente: de Siracusa a Messina, daí a Palermo, retornando a Nápoles, no Outono de 1609. O seu esconderijo é descoberto e, perto de uma taberna, ferem-no à espada. Recolhido e medicado, tenta voltar a Roma por via marítima. Todavia, não totalmente recuperado, vertendo sangue e minado pela malária, Caravaggio morre numa praia deserta próxima de Roma, aos 39 anos.
Dias depois, junto com a barca onde tinha abandonado seus haveres, chega a Roma apenas uma notícia lutuosa:"Tem-se notícia do falecimento de Michelangelo Caravaggio, pintor famoso como colorista e retratista baseado na natureza..."Alheio a qualquer maneirismo, mas sensível à interpretação poética e transfiguradora do mundo real, Michelangelo Merisi da Caravaggio foi um artista despojado numa época marcada pelo excesso ornamental barroco. Contra a corrente saudosista de seu tempo, criou uma arte arraigadamente humana, realista e original. Seu critério quase "funcional" de pintura, à moderna, teve o condão de enfurecer muitos donos da cultura e árbitros do gosto da época. A esses, Caravaggio sempre deu de ombros: pintava para todos os séculos, não para o seu. Abaixo seguem fotos de quadros onde o primeiro representa S.Tomé a observar Cristo ressuscitado.




9.11.10

VIAGEM Á LUA


Quando era um jovem, "devorava" os livros de Júlio Verne e “ delirava” com a aventura do homem ir á Lua tal como era descrita no livro : um aventureiro francês chamado Michel Ardan, de modos extravagantes, propõe que um projéctil tripulado seja lançado e apresenta-se como candidato a "astronauta". Depois desta surpreendente proposta, dois dos membros do "Gun Club" também embarcam nesta "loucura". Para que este empreendimento se realizasse, foram construídos um canhão, uma bala oca, e um telescópio, todos de dimensões impensável; a quantidade de pólvora usada também era de volumes impensáveis .Depois de disparada a bala, quando se aproximou da Lua, em vez de alunar, entrou em órbita da própria lua. Os três passageiros apenas tinham mantimentos para 3 meses, ficando a saga em aberto. O futuro dos três astronautas, é descrito na obra À roda da Lua. Na minha juventude era a fantasia mas, já adulto , a fantasia materializou-se.
Não fui dos que viram pela televisão a chegada do homem á Lua pois em Lourenço Marques ( Moçambique) não havia ainda emissões de televisão nesse ano de 1969 o que não impediu que escutasse a transmissão do acontecimento via rádio e ficasse muito impressionado com o facto. Curioso é que mais de 40 anos após a Apolo 11 levar o homem à Lua , haja ainda muito boa gente que duvida do que aconteceu em 20 de Julho de 1969 e não estou a falar da minha velha tia que nunca saiu da aldeia onde morreu com noventa anos e que só acreditava no que estava na Bíblia. Estou a falar de gente da cidade , com alguma escolaridade, que depois de ver filmes e ler livros com argumentos "científicos" defende a ideia de que tudo não passou de uma conspiração americana para enganar os Russos durante a Guerra Fria, e continuam a duvidar de que tal tenha acontecido.
Apresento a seguir “ argumentos” dos que defendem ter havido uma fraude, mas também uma possível explicação que rebate os ditos argumentos :
Argumento 1. Se só havia uma única fonte de luz que era o Sol, como se explica que as sombras dos astronautas tenham comprimentos diferentes?
Resposta A diferença é causada pela topografia do solo lunar. Atrás dos dois astronautas, há uma elevação. O astronauta que estava mais perto dela ficou com a sombra mais curta
Argumento 2 A bandeira americana não poderia tremular num ambiente sem atmosfera e tal facto seria provocado pelo ar condicionado do estúdio em que o filme foi rodado
Resposta A bandeira está enrugada, pois chegou à Lua dobrada num pacote. Imagens de vídeo mostram que a bandeira, apesar da aparente ondulação, está imóvel.
Argumento 3 As marcas das botas usadas pelos astronautas são mais parecidas com marcas feitas em solo húmido. Como na Lua não há água as imagens são falsas.
Resposta As fotos foram feitas para registar a natureza da poeira lunar e elas mostram que a superfície é seca, fina e se compacta facilmente, por causa da ausência de ar.
Argumento 4 As temperaturas na superfície lunar variam tanto entre 120º C negativos e 150º positivos que nem filmes especiais seriam capazes de resistir a tamanha oscilação térmica.
Resposta Os filmes não foram expostos a essas temperaturas extremas. No vácuo lunar o calor não se propaga por condução , só por irradiação (incidência directa de luz) e os seus efeitos foram muito reduzidos com a protecção reflexiva, dado as câmaras terem sido envolvidas com material branco
Argumento 5 Não aparecem estrelas no céu em nenhuma das fotos .
Resposta Em locais muito claros, como o solo dos desertos ou da Lua, o tempo de exposição do filme deve ser muito reduzido, o que impediu que as estrelas ficassem "impressas" na película.

Como penso que a discussão, entre os que acreditam e os que negam que o homem esteve na Lua, é estéril, passo a uma resenha histórica : A missão do Projecto Apollo era levar homens à Lua e trazê-los de volta , mas a possibilidade de não dar certo era tão grande que o presidente dos EUA, Richard Nixon, já tinha um discurso pronto para cada uma das situações: o sucesso ou o fracasso da missão.
A NASA enviou , em diferentes datas, 17 naves do Projecto Apollo. As naves números 11, 12, 14, 15, 16 e 17 tiveram sucesso e cumpriram a missão de pousar em solo lunar mas a Apollo 13 teve problemas no abastecimento de oxigénio do módulo de comando ao entrar na órbita lunar e não conseguiu fazer a alunagem. Antes destas, outras naves também chegaram à órbita da Lua, mas não realizaram alunagem, nem era esse o seu real objectivo, Eram apenas naves de testes. As que fizeram alunagem trouxeram, no total, cerca de 400 kg de rochas lunares para estudo.
A nave Apollo 11 foi a quinta missão tripulada e a primeira a pousar na
Lua e era tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar a superfície lunar. A nave era composta pelo módulo de comando Columbia, o módulo lunar Eagle e o módulo de serviço e foi lançada de Cabo Canaveral, na Florida, às 13:32 UTC de 16 de Julho, no interior do nariz de um foguetão Saturno V.
O destino da viagem era um local chamado Mar da Tranquilidade
, uma zona plana, formada de lava basáltica solidificada. Após a separação dos módulos da Apollo enquanto Michael Collins ficava no módulo de Comando numa órbita cem quilómetros acima do satélite, Armstrong e Aldrin começaram a sua descida ao Mar da Tranqüilidade a bordo do Módulo Eagle .Várias vezes durante a descida, o computador enviou alarmes. A trajectória da nave parecia boa, mas a mensagem de alerta “1202” trouxe alguns segundos tensos à tripulação até que o controlo de Houston avisou que os alarmes eram devidos a sobrecarga do computador. Embora o computador teimasse em levar o módulo para um local não programado acabou por alunar por comando manual da Neil Armstrong quando estavam apenas a 150 metros da superfície da Lua. A mais de 300 mil quilómetros dali, o mundo, que acompanhava ao vivo as comunicações de rádio entre o Controle de Voo no Centro Espacial em Houston e a Apolo 11, entrava em comoção e aplaudia e gritava freneticamente. Claro que não cabe nesta pequena mensagem citar todas as peripécias que surgiram nesta descida e, para os mais curiosos ou para os cépticos, aconselho uma busca na net em APOLLO 11 da Wikipédia.
Finalmente, cerca de seis horas e meia após o pouso, foi aberta a escotilha do Módulo Lunar e Armstrong rastejou em direcção a saída; primeiro os pés, depois as mãos. Instantes depois pisou o degrau mais alto da escada, em frente à bancada de trabalho da nave, onde estavam acondicionados os equipamentos científicos a serem usados na missão. A mais importante peça de equipamento era, sem dúvida, uma câmara
de TV a preto e branco..

Neil Armstrong precisou de dar um salto de um metro do último degrau da escada até ao protector das patas do Módulo. Dali estava apenas a dois
centímetros de pisar na superfície lunar propriamente dita. Parou no suporte por um momento, testando o chão com a ponta de suas botas, antes de finalmente pisar o solo lunar e dizer a célebre frase :
Este é um pequeno passo para o homem, mas um enorme salto para a humanidade

3.11.10

NÃO MATARÁS


Sempre que abordo um tema da religião católica, vem ao meu pensamento um dos mandamentos da Lei de Deus – NÃO MATARÁS—que muitas vezes foi ignorado pelos Chefes religiosos.
O que a seguir comentarei nem sequer tem a ver com intransigências religiosas contra os infiéis ou defensores do Corão, o que talvez pudesse justificar alguma guerra, mas sim uma guerra entre irmãos cristãos.
Combatei os hereges com mão poderosa e braço firme “ proclamava o papa Inocêncio III , para lançar milhares de cruzados , em 1209, contra os cristãos albigenses do sul de França, tudo com a desculpa de ter sido assassinado o Legado papal Peire de Castelnau , por um escudeiro do Conde de Tolosa.
Quando os cruzados conquistaram Lavour, em 3 de Maio de 1211, Simão Montfort mandou enforcar Aimeric Montreal e mais oitenta cavaleiros. Como o patíbulo ruiu devido ao peso do nobre, mandou degolar os outros . A senhora da cidade ,Guirauda , irmã de Aimeric , foi entregue á soldadesca que depois de abusar dela a lançou a um poço. Nesse dia, 300 a 400 cátaros foram queimados na fogueira, enquanto os seus bens passaram para Simão Montfort. Tudo isto aprovado pela Igreja de Roma que se sentia ameaçada no seu poder ditatorial religioso e temporal e que perdera a guerra contra o Islão quer em Espanha quer na Terra Santa.. Mas há mais exemplos da barbárie contra os cristãos cátaros : Ao iniciar-se o assalto a Beziers, alguns cruzados perguntaram ao Legado papal ( Arnau Amalric) como poderiam distinguir os hereges dos bons católicos que estavam na cidade. A resposta foi mais ou menos assim: mata-os a todos que Deus saberá distingui-los depois.
E afinal de que constava a heresia dos cátaros ou albigenses para se fazer tão cruenta guerra que fora antecedida , é verdade, de uma tentativa pacífica para os converter ?
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisou de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material . Não concebiam a ideia de inferno pois no fim o deus do Bem triunfaria sobre o do Mal . Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, e não matavam qualquer animal. Os crentes tinham um ofício divino onde dividiam o pão entre si mas não considerando esse pão o corpo de Cristo.
A Igreja Católica estabeleceu a repressão às heresias através de concílios, exigindo que o poder secular participasse do processo. Desta forma, através do estudo do cânone 27 do III Concílio de Latrão (1179) e do cânone 3 do IV Concílio de Latrão (1215), verificar-se-á os princípios adoptados pela Igreja Católica para reprimir a heresia cátara e percebe-se a necessidade que a Igreja Católica tinha de a eliminar , pois esta ameaçava seu poder. A Igreja só poderia manter-se no poder com a certeza de que era a única e verdadeira herdeira de Cristo e de que passavam por ela os caminhos que levavam á salvação.
Embora seja impossível nesta curta mensagem explicar tudo aquilo que era considerado heresia, podemos ainda dizer que os cátaros eram acusados de abalarem a ordem social existente e de aspirarem à destruição da sociedade medieval.(Leia-se poder temporal do Papa e do Rei de França) Renunciavam aos bens materiais pregando o retorno ao cristianismo primitivo.
Mas voltemos ao quinto mandamento que é o título da mensagem.
Dizem os teólogos católicos : “Só Deus é senhor da vida humana. Os homens devem respeitá-la. Matar voluntariamente um ser humano é pecado, quer seja por homicídio, eutanásia, violência, guerra injusta , roubo, herança ou aborto. É também pecado contra o quinto mandamento: odiar, guardar rancor, inimizade, desejar o mal, insultar.
O que é próprio do cristão é amar, porque Deus é amor. Se aprendermos a amar, não nos custará perdoar de coração quando alguém nos ofende. Isto não impede o direito e o dever da pessoa e da sociedade à legítima defesa. Por isso, as autoridades legais podem impor justas penas aos agressores e inclusive, como em alguns países, matar em caso de extrema gravidade, esgotados todos os meios que seriam mais conformes com a dignidade da pessoa humana. “
Estou a lembrar-me do assaltante de uma escola nos EUA que ameaçava matar mais alunos além dos que já tinha ferido mortalmente e que acabou por ser abatido por um atirador especial da polícia, isto para já não falar de outros casos semelhantes que são do domínio público.
Será que com o que acabei de transcrever os teólogos se contradizem ? Continuemos a ouvir a opinião deles:
Por que é que a legítima defesa de pessoas e de sociedades não vai contra o quinto mandamento ?
Porque com a legítima defesa se exerce a escolha de defender e valorizar o direito à própria vida e à dos outros, e não a escolha de matar. Para quem tem responsabilidade pela vida do outro, a legítima defesa pode até ser um dever grave. Todavia ela não deve comportar um uso da violência maior que o necessário. Neste caso está a defesa armada de um povo quando, sem motivo, é atacado por outro.”
No que respeita ao aborto o tema é muito polémico e a posição da Igreja continua a não ser uniforme ou concordante. Sobre este tema , o Prof de Teologia e Ética da Marquett University, Dr Daniel Maguire diz o seguinte:
“Na igreja católica não há uma só doutrina vigente sobre contracepção e aborto. No entanto, a mais conhecida é a doutrina conservadora defendida pelo Papa, por muitos membros da hierarquia e, também, por uma minoria significativa de teólogos católicos. Esta doutrina insiste em afirmar que todos os meios de contracepção artificial e o aborto são contra as leis de Deus …….. Se houver um crescimento excessivo da população, a natureza nos matará de fome, doença ou por uma destruição ambiental, como ocorre em muitas partes do mundo. A alternativa a estes males é o planeamento familiar…….Num mundo perfeito, onde os métodos contraceptivos estivessem à disposição de todas as pessoas; onde mulher e homem fossem educados e se respeitassem mutuamente; onde a pobreza não causasse danos à vida, neste tipo de utopia o aborto seria muito raro. Porém o nosso mundo não é uma utopia. Num mundo onde há gravidezes não desejadas e não planeadas, uma mulher deveria poder abortar por razões sérias e sãs……..Em todas as maiores religiões do mundo isto é possível e aceitável. Em meu último livro SACRED CHOICES: The Right to Contraception and Abortion in Ten World Religions (Fortress Press, 2001) (Escolhas Sagradas: o direito à contracepção e ao aborto em dez religiões do mundo) demonstro como todas as maiores religiões do mundo - incluindo o catolicismo - reconhecem a fecundidade como uma benção que pode ser também um castigo. Todas estas religiões têm perspectivas conservadoras sobre o planeamento familiar, tanto quanto a católica. Mas de mesmo modo convivem perspectivas mais moderadas que permitem a contracepção e o aborto quando necessário…..”
Como se pode verificar e também relativamente ao aborto ,nas diferentes correntes cristãs não há uniformidade de ideias quanto ao mandamento NÃO MATARÁS.
Se entrarmos no tema da eutanásia então o problema é ainda mais complicado com as diferentes Igrejas cristãs a terem pontos comuns e de divergência, mas vejamos só o catolicismo romano que foi a confissão religiosa que mais estudou a questão da eutanásia, ou, pelo menos, a que mais publicou directrizes a respeito; O documento mais completo é a Declaração Sobre a Eutanásia (5-5-1980), da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Nesse documento pode ler-se: "Por eutanásia, entendemos uma acção ou omissão que, por sua natureza ou nas intenções, provoca a morte a fim de eliminar toda a dor. A eutanásia situa-se, portanto, no nível das intenções e no nível dos métodos empregados". A eutanásia é considerada uma "violação da Lei Divina, uma ofensa à dignidade humana, um crime contra a vida e um atentado contra a humanidade". Outro documento , de João Paulo II (1995) , é a Carta Encíclica Evangelium Vitae. Mantendo a argumentação anterior coloca o problema como sendo "um dos sintomas mais alarmantes da ` cultura da morte' que avança, sobretudo, nas sociedade do bem-estar, caracterizadas por uma mentalidade da eficiência que faz aparecer demasiadamente gravoso e insuportável o número crescente das pessoas idosas e debilitadas. Com muita frequência, estas acabam por ser isoladas da família e da sociedade, organizada quase exclusivamente sobre a base de critérios de produtividade, segundo os quais uma vida irremediavelmente incapaz não tem mais nenhum valor" A doutrina católica tradicional reconhece que o sofrimento, embora possa ser integrado no mistério da morte e ressurreição de Cristo, pode também ser fútil e nocivo . Os esforços por manter a vida física podem legitimamente cessar quando a continuação da vida biológica faz com que se deteriore, em vez de promover, a integração espiritual e moral da pessoa.. Dos documentos mais antigos aos mais recentes, há uma evolução no modo de interpretar o sofrimento e propor normas morais. A Declaração sobre a Eutanásia, de 1980, dialoga melhor com a racionalidade científica, reconhecendo que em ambos os lados existem convicções sérias e conscienciosas.
No entanto no quinto mandamento está apenas escrito NÃO MATARÁS sem a condicionante A NÃO SER QUE ….. . Grande dilema este !.

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