2.12.10

PESTE NEGRA


Alguns jornalistas dos nossos dias classificaram o HIV (sida) e a Gripe A como a Peste Negra do sec XXI ; da mesma maneira a tuberculose foi a “peste negra “ do século XIX e a pneumónica a do início do século XX, tudo devido ao gigantesco número de mortes que provocaram no passado..
Mas afinal o que foi a PESTE NEGRA, surgida em 1348 ? Apenas uma doença, na altura de origem desconhecida que, em dois anos, levou à morte um terço da população europeia. “…..cidades desertas , campos abandonados cadáveres apodrecendo nas ruas , mercados vazios e um silêncio reinante onde antes havia bulício……A desconfiança havia-se instalado em lugar do afecto porque todos ,pais e filhos, vizinhos, amigos ou familiares podiam ser a fonte do veneno mortal….. assim escreve Giovanni Boccacio no seu Decameron. ( escrito entre1349 e 1353)
Numa sociedade medieval em que a religião dominava tudo, a população considerava o mal como um castigo divino, já que a dissolução dos costumes e a falta de honestidade do clero, eram razões suficientes para provocar a ira de Deus e o fim dos tempos . O Papa Clemente VI, numa bula de 1348 , declarava : “ Deus está castigando o seu povo com uma grande peste “.
Os sábios da época, embora não negando a intervenção divina , procuravam factores naturais para a doença. A universidade de Paris defendia que a origem da peste se devia à conjugação dos planetas Marte , Júpiter e Saturno sob o signo Aquário. Outros afirmavam que eram os gases da cauda de um cometa que provocara a peste e originara um sismo em Itália. Na Alemanha a culpa era dos judeus que tinham envenenado o ar e a água , razão por que foram assassinados aos milhares.
Os médicos desenvolviam numerosas teorias sobre o contágio, como o andaluz Ibn-al-Jatib que intuiu que a peste se contagiava através de corpos minúsculos , tendo prescrito que os doentes deveriam ser isolados e as suas roupas destruídas . Já para o italiano Gentile de Foligno o ar doente penetrava no corpo através da respiração , ia para o coração onde estava o espírito vital e daí se estendia a todo o corpo.
A descoberta destas vias de contágio deu lugar a teorias preventivas, hoje absurdas , como plantar arbustos aromáticos em volta das cidades para o ar pestilento não entrar, ou as pessoas lavarem-se numa mistura de limão, lima e água de rosas . Preconizavam usar uma máscara que cobria a cabeça e tinha a forma de um bico de ave .
Nesta época de obscurantismo e fanatismo religioso, faziam-se enormes procissões penitenciais com as pessoas a flagelarem as costas pois o sangue do sacrifício aplacaria a suposta ira de Deus.
Façamos agora uma pausa nesta descrição do que se pensava na Idade Média sobre a peste e historiemos, em resumo, as grandes epidemias :
1315-1317---O tempo excepcionalmente frio e chuvoso provoca escassez das colheitas e dá lugar às fomes. Esta população já debilitada pela fome sofrerá o embate da peste negra ou bubónica.
1334.-1346---No primeiro ano a peste provoca 5.000.000 de mortos na China. Entre 1337 e 1338 estende-se pela meseta central asiática e em 1346 atinge a Crimeia.
1347- 1350--- A peste vinda do oriente estende-se por toda a Europa nas suas formas bubónica , pulmonar e septicémica.
Século XVII--- Novos surtos de peste . Só Londres perde 100.000 habitantes o que corresponde a um quinto do total.
1720…..Um barco vindo da Síria atraca em Marselha e com ele vêm a peste . Morre metade da população da cidade. É o último grande surto de peste na Europa.
Mas o que era ou o que provocava a “peste negra”?
Nos porões dos navios de comércio que vinham do Oriente, entre os anos de 1346 e 1352, chegavam centenas de ratos. Estes roedores encontraram nas cidades européias um ambiente favorável para se reproduzir, pois os esgotos corriam a céu aberto e o lixo acumulava-se nas ruas. Assim os ratos passavam a ser aos milhares não havendo gatos em número ou fome suficientes para lhe dar caça , além das ratazanas serem enormes e atacarem os felinos. Estes ratos, sabe-se hoje, estavam contaminados com a bactéria Pasteurella pestis e as pulgas destes roedores transmitiam a bactéria ás pessoas através da picada. Os ratos também morriam da doença mas quando isto acontecia, as pulgas passavam rapidamente para os humanos para neles obterem seu alimento, isto é, o sangue.Após adquirir a doença, a pessoa começava a apresentar vários sintomas: primeiro apareciam nas axilas, virilhas e pescoço vários bubos (bolhas) de puz e sangue, daí o nome de peste bubónica. Em seguida, vinham os vômitos e febre alta. Era questão de dias para os doentes morrerem, pois não havia cura para a doença. Vale lembrar que, para piorar a situação, a Igreja Católica ,na época, opunha-se ao desenvolvimento científico e farmacológico. Os poucos que tentavam desenvolver remédios eram perseguidos e condenados à morte, acusados de bruxaria.
( A doença foi identificada séculos depois ,em 1894, pelo microbiologista Alexandre Yersin, depois do grande surto epidémico de Hong-Kong.)Relatos da época da epidemia mostram que a doença foi tão grave e fez tantas vítimas que faltavam caixões e espaços nos cemitérios para enterrar os mortos. Os mais pobres eram enterrados em valas comuns, apenas enrolados em panos. A doença provocou descalabro social e revoltas.
A visita da peste a Portugal, em 1348, ficou registada por escrito:"morria-se quase em saúde e os que hoje estavam sãos, iam amanhã a caminho da sepultura”.
Em 1384, o rei de Castela cercou Lisboa mas o exército invasor foi atacado pela peste. Conta Fernão Lopes:" começaram de morrer de peste alguns do arraial da gente de pequena condição. E quando algum cavaleiro ou escudeiro acertava de se finar, levavam-nos os seus a Sintra ou Alenquer ou a algum dos outros lugares que por Castela tinham voz, e ali os abriam e salgavam e punham em ataúdes do ar, ou os coziam e guardavam os ossos para os depois levarem para donde eram”
Também em 1414, quando se preparava a armada que deveria conquistar Ceuta, foram contratados navios estrangeiros que trouxeram o mal com eles. Registaram-se, em Portugal, epidemias mortíferas em 1423, 1432, 1435 e 1437. Algumas delas encontraram os portugueses com as resistências diminuídas pela fome. O rei D. Duarte foi morto pela peste em 1438.

As epidemias voltaram a assolar diversas regiões de Portugal nos anos de 1448, 1458, 1464 e 1469. Em 1477, a peste devastou Coimbra e propagou-se a Lisboa. As cidades procuravam defender-se do mal isolando-se. Os vereadores do Porto, assustados, estabeleceram como plano de defesa a interdição de entrada na cidade a quem não jurasse sobre os santos Evangelhos não vir de Coimbra nem de qualquer outro lugar onde a peste grassasse. As providências falharam e a peste entrou mesmo no burgo nortenho.

As epidemias foram-se repetindo, um pouco por todo o País. A utilidade das medidas de saúde pública foi-se tornando evidente e daí que em 1484, o rei D. João II mandou que se limpassem as canalizações bem como os monturos e esterqueiras e proibiu que se vazassem as imundices fora dos locais determinados. Naquele tempo ainda não se conheciam bactérias nem vírus, mas as causas da doença eram já atribuídas ao desrespeito das normas de higiene.

Como ainda hoje pode haver um surto destes devido a viajantes infectados vindos de países onde a doença é endémica por falta de sanidade pública, e porque referimos no texto a vários tipos de peste, vamos socorrer-nos de um MANUAL DA FARMACEUTICA MERCK que transcreveremos parcialmente, para explicar outros pontos.
As bactérias que causam a peste infectam principalmente roedores selvagens, como as ratazanas, os ratos, os esquilos e as marmotas das pradarias. A peste costuma ser transmitida às pessoas por meio das pulgas destes animais. Um acesso de tosse ou então um espirro de uma pessoa infectada dispersa bactérias através de gotas minúsculas, assim transmitindo a doença de uma pessoa para a outra. Alguns animais domésticos, em especial os gatos, também podem fazê-lo por intermédio das picadas de pulga ou pela inalação de gotículas infectadas.
Os sintomas da peste bubónica costumam aparecer de 2 a 5 dias após a exposição à bactéria, mas podem fazê-lo em qualquer momento, desde as primeiras horas até 12 dias mais tarde. Os sintomas começam subitamente com arrepios e febre até 41ºC. O batimento cardíaco acelera-se e enfraquece, de tal modo que a tensão arterial pode baixar. Os gânglios linfáticos inflamam-se (recebendo o nome de bubões) quando a febre começa ou mesmo um pouco antes. Em geral, os gânglios são extremamente dolorosos ao tacto, são duros e encontram-se rodeados de tecido edemaciado. A pele que os cobre é lisa e avermelhada, mas não mostra temperatura aumentada. É provável que o doente esteja inquieto, delirante, confuso e descoordenado. O fígado e o baço podem aumentar consideravelmente de volume, pelo que o médico os pode sentir facilmente à palpação. É possível que os gânglios linfáticos se encham de pus e drenem durante a segunda semana. Mais de 60 % das pessoas não tratadas morrem. A maioria das mortes verifica-se entre o terceiro e o quinto dia.
A peste pneumónica é uma infecção dos pulmões pelas bactérias da peste. Os sintomas, que começam abruptamente de 2 a 3 dias após a exposição às bactérias, são febre elevada, arrepios, ritmo cardíaco acelerado e, com frequência, dores de cabeça intensas. Em 24 horas começa a tosse. De início a expectoração é clara, mas começa rapidamente a apresentar sinais de sangue, até se tornar uniformemente rosada ou de cor vermelha intensa (semelhante a xarope de framboesa) e espumosa. É frequente o doente respirar rapidamente e com dificuldade. As pessoas não tratadas morrem geralmente dentro das 48 horas seguintes ao início dos sintomas.
A peste septicémica, outra variedade de peste, é uma infecção na qual a forma de peste bubónica se propaga ao sangue. Pode causar a morte mesmo antes de aparecerem outros sintomas da peste bubónica ou pneumónica.
A peste menor é uma forma ligeira de peste que costuma aparecer apenas na área geográfica em que a doença é endémica. Os seus sintomas (gânglios linfáticos inchados, febre, dor de cabeça e esgotamento) persistem ao longo de uma semana. A prevenção baseia-se no controlo dos roedores e no uso de repelentes para evitar as picadas das pulgas. Existe uma vacina, mas ela não é necessária para a maioria das pessoas que viaja para zonas onde se tenham verificado casos de peste. Aqueles que viajam e correm grandes riscos de exposição à doença podem tomar doses preventivas de tetraciclinas.

21.11.10

TLALTECUHTLI


Há meses, a France Press noticiava: A Tlaltecuhtli, a deusa da Terra, o maior monólito( bloco único de pedra) da cultura asteca e o único colorido, será exibido pela primeira vez em meados de Junho na capital mexicana após ter sido descoberto em 2006, informou o Instituto de Antropologia do México. O monólito, datado de 1502, com um peso de 12 toneladas e um tamanho de 4,19 por 3,62 metros, "é o maior já descoberto" da cultura asteca e "a única peça escultural mexicana que conserva suas cores originais", informou o Instituto em um comunicado.
Esta peça, foi descoberta em Outubro de 2006 quando se realizavam trabalhos de remodelação no centro histórico da Cidade do México, e é maior em tamanho que a Pedra do Sol (ou Calendário Asteca), um dos monólitos mais conhecidos, e maior que a Coyolxauhqui, que representa a deusa da Lua.
Sob um fundo avermelhado, a Tlaltecuhtli representa uma figura feminina de corpo inteiro de cor ocre, com cabelo encaracolado, e da boca sai um jacto de sangue tendo os braços flexionados para cima "em alusão de que é a deusa da Terra e que todas as criaturas voltam para ela.

Este monólito, assim como o Calendário Asteca e a Coyolxauhqui, fazia parte do chamado Templo Maior, que foi o coração da cultura asteca até a chegada dos conquistadores espanhóis . A Deusa está de cócoras para parir , ao mesmo tempo que bebe o seu sangue , devorando o ser que criou, simbolizando o ciclo de vida e morte dos Astecas,
Após anos de escavações minuciosas foi descoberto num poço, junto ao monólito, as mais exóticas oferendas : junto á superfície 21 facas sacrificiais de sílex branco pintado de vermelho ; mais fundo, um fardo envolvido por folhas de piteira que continha um sortido de furadores sacrificiais em osso de jaguar, barras de copal (incenso), plumas e contas de jade.
Mais abaixo, fechados numa caixa de pedra os esqueletos de duas águias reais (símbolo do sol) com os corpos virados para poente.
Até Janeiro de 2010, foram descobertos mais seis níveis com oferendas o último dos quais a 7 metros de profundidade, Esta oferenda era um vaso cerâmico com 310 contas verdes, brincos e estatuetas.
No fundo da caixa de pedra que atrás referimos um cão ou lobo fêmea trazia um colar de jade ao pescoço,um cinto de búzios e brincos de trurqueza. As jóias indiciam que seria um animal de estimação real com a tarefa de guiar e proteger o amo durante a odisseia das trevas.
Quem seria este amo ? A questão é que nunca foram descobertos restos mortais de nenhum imperador asteca , havendo registos históricos afirmando que três soberanos astecas foram cremados e as suas cinzas enterradas na base do Templo Maior . Outros indícios do monólito apontam a data de 1502 ano em que Ahuitzotl, o mais temido governante do império foi a enterrar e o seu túmulo deve estar muito perto do local onde o monólito foi descoberto.
O que se sabe de Ahuitzotl é o seguinte: funcionário militar de alta patente subiu ao trono em 1486, depois do seu irmão Tizoc perder o controlo do império e morrer. Reinou 16 anos e os seus exércitos ocuparam grandes extensões de terra costeira até à actual Guatemala.
Os trabalhos arqueológicos que estão a ser desenvolvidos são difíceis e morosos pois é necessário contornar redes de esgotos e metropolitano, evitar fios telefónicos e de fibra óptica , bem como cabos de electricidade. A equipa do arqueólogo Leonardo Lopez acredita que, mais tarde ou mais cedo, encontrará o túmulo de Ahuitzotl.
Sobre este assunto aconselhamos uma leitura atenta da revista NATIONAL GEOGRAPHIC de Novembro de 2010.

18.11.10

LINHAS DE TORRES

Certamente já ouviu falar das “linhas de torres” ( correctamente deveria ser “linhas de Torres Vedras “) , relacionadas com as tropas invasoras de Napoleão Bonaparte . Estas invasões francesas ocorreram entre 1807 e 1811 porque Portugal não acatou a ordem de Napoleão de fechar os seus portos à navegação inglesa, com quem ele estava em guerra. Devido à recusa portuguesa, a França invadiu Portugal, com o apoio de dois corpos de exército espanhóis, tendo o corpo de exército francês, comandado pelo general Junot, entrado em Lisboa em 30 de Novembro 1807, obrigando a Família Real e o Governo a irem para o Brasil Os abusos, as injustiças, os roubos e os massacres perpetrados pelas forças de ocupação francesas, levaram a revoltas em Portugal nos princípios de Junho de 1808, encorajadas pelas revoltas espanholas que tinham eclodido uns dias antes. A Inglaterra ajuda-nos militarmente, travam-se batalhas que acabam com Junot a assinar um tratado de amnistia que lhe permite retirar do país.
“E se eles voltam?” era o dilema português, após Junot ser expulso em Agosto de 1808. E eles voltaram! O resultado foi a mais curta invasão napoleónica, comandada pelo general Soult em que a violência do confronto foi característica dominante. Mas invadir Portugal pelo Norte, tendo o Porto como objectivo intermédio, revelou‑se um erro, só possível de explicar pela ignorância relativamente ao temperamento dos Portugueses, o apego à sua terra e a relutância em colaborar com intrusos ostensivos além também da ignorância francesa pela orografia, pelo clima e pelos recursos alimentares e de alojamento da região nortenha.
Assim o Exército «galego» de Soult que tinha Lisboa como objectivo final, não foi sequer capaz de se aguentar no Douro. A acção dos Fronteiros de Chaves e a reconquista desta vila por Francisco da Silveira deram um contributo defensivo inestimável, parando o abastecimento do exército francês. Desta forma as forças anglo-lusas comandadas pelo general Arthur Wellesley e pelo marechal Beresford voltam a vencer e Soult retira. Mas Napoleão era teimoso !
Como diz a professora universitária Cristina Clímaco “ Face à iminência de uma 3ª invasão pelas tropas de Napoleão, Wellington elaborou em 1810 um plano de defesa de Portugal assente em 3 pontos: a edificação de uma linha de fortificações a norte da península de Lisboa - as Linhas de Torres Vedras -, a retirada da população da Beira e da Estrema­dura para a retaguarda das fortificações, e a destruição de todos os meios de subsistências e de meios de produção que pudessem permitir às tropas francesas subsistirem na região. Wellington contava para o sucesso do seu plano com o nacionalismo do povo português ao qual pediu o sacrifício de se arruinar e de arruinar o país para o salvar das garras da águia francesa.” Assim à força de braços, voluntariamente umas vezes, outras forçada , a população construiu 152 fortificações com 523 bocas de fogo, ao longo de uma centena de quilómetros , tudo no mais absoluto sigilo e em tempo “record”.
Montes de terra, árvores derrubadas, pedra, argamassa e alguma madeira eis o sistema de fortificações de campanha mais eficiente da história militar, pois era difícil prever por onde Napoleão iria invadir Portugal e era necessário proteger Lisboa e o seu excelente porto de mar. Para tal são projectadas três linhas de defesa a norte de Lisboa que reforçam os obstáculos naturais do terreno e permitem controlar os acessos. Estes trabalhos parece terem sido iniciados a 3 de Novembro de 1809, sob orientação de Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso.
A primeira linha , vulgarmente conhecida como segunda, vai de Ribamar à Povoa de Santa Iria , controla os desfiladeiros de Mafra, Montachique e Via Longa , pois se apoia na artilharia instalada nas serras de Chipre, Fanhões e Serves bem como no cabeço de Montachique, Como estas linhas têm um flanco direito de fraca resistência ao inimigo é criada uma outra linha 13 quilómetros mais a norte , a primeira , que vai desde Alhandra à foz do rio Sizandro, em Torres Vedras. Os flancos frágeis destas linhas eram reforçados por flotilhas de navios ingleses , autênticas batarias moveis de artilharia. Curioso é referir que, para além dos fortins , obras hidráulicas foram usadas na defesa pois ao serem inundadas as lezírias, desde Alverca até ao norte de Alhandra , o exército francês não podia passar. Para que tal acontecesse no tempo seco, foram construídos diques sucessivos ao longo do rio Sizandro, diques estes protegidos pela artilharia colocada na margem esquerda. Tudo isto construído no maior secretismo.
Quando as tropas francesas do general Massena chegam às linhas, em 11 de Outubro de 1810, deparam-se com estas fortificações de campanha , bem guarnecidas de artilharia. o exército aliado situado numa posição impenetrável e um terreno despovoado e não cultivado.
As linhas de Torres Vedras não são fortificações contínuas , pelo contrário, são posições separadas umas das outras, mas ligadas na retaguarda por estradas militares ; só os seus pontos importantes são fortificados .A maioria são. como dissemos, pequenos postos de artilharia de defesas precárias em madeira e terra. (ver foto do início do texto) A ideia é não acontecer uma grande batalha onde os franceses ganhariam por serem tropa altamente treinada, mas sim flagelar constantemente e em diversos pontos o inimigo, desgastando-o e desmoralizando-o dado estar a actuar numa zona de terra queimada desde Coimbra até Torres Vedras. A partir de Almeida (distrito da Guarda) onde começa a 3ª invasão francesa , Massena encontra um país silencioso . Um ofício de 23 de Setembro de 1810 dirigido ao Estado maior Francês diz o seguinte : “ Atravessamos um deserto, nem uma alma se encontra, tudo foi abandonado. Os ingleses levam a sua barbárie até ao fuzilamento do pobre que permanecesse em sua casa, mulheres , crianças e idosos ,todos fogem, não se encontra um guia em nenhum lado.” A população é obrigada a esconder ou destruir os produtos das colheitas que não consegue transportar consigo, a deixar as suas casas e a refugiar-se no interior das linhas. Tudo para privar o inimigo de recursos, obrigando-o a morrer de fome , já que os franceses tinham por norma abastecer-se localmente. A 4 de Março de 1811 os franceses retiram e começa assim o declínio do império de Napoleão.
Como curiosidade referimos : Participaram na obra mais de 150.000 camponeses que foram recrutados ao longo de um ano. O êxodo maciço da população forçado a viver a sul das linhas foi de cerca de 200.000 pessoas . As equipas trabalhavam em grupos de 1.000 a 1.500 homens , coordenados por um oficial engenheiro inglês e 150 capatazes. As várias fortificações foram ocupadas por 25.000 milícias e 11.000 ordenanças portuguesas, 8.000 espanhóis e 2500 fuzileiros navais ingleses. Como tropas regulares estavam 34.000 britânicos e 24.500 soldados portugueses. É incrível como isto não transpirou para o inimigo. O exército anglo-luso instalou-se nas linhas entre 9 e 11 de Outubro de 1810. No dia 11 todas as tropas encontravam-se ao abrigo deste sistema defensivo. As tropas de milícias e também de ordenanças guarneceram as diferentes obras de defesa e aí receberam treino de manobras defensivas. As tropas do exército anglo-luso foram utilizadas como uma força móvel e não como guarnição às posições defensivas. Desta forma, estariam sempre disponíveis para se movimentarem para qualquer ponto das linhas onde a ameaça francesa viesse a colocar em perigo a integridade da defesa. Tendo em consideração os eixos segundo os quais um eventual ataque por parte dos franceses seria mais provável e mais perigoso, Wellington dispôs o seu exército, com excepção da 3ª Divisão (Picton), em dois blocos: um em frente ao Sobral, entre Monte Agraço e Runa; o outro, na região de Alhandra. O quartel-general de Wellington ficou colocado na Quinta do Barão de Manique e o de Beresford no Casal Cochim, em Pêro Negro
Para que as linhas de defesa funcionassem na perfeição o exército aliado tinha de poder acorrer rapidamente a qualquer posição que estivesse a ser atacada pelos franceses. Para tal eram necessárias estradas militares mas também comunicações muito rápidas de instruções e ordens de batalha . Desta forma foi montado na serra do Socorro ( Mafra) um telégrafo de sinais (bandeiras e balões coloridos) que permitia transmitir para oito fortes onde também havia mastros de sinais . Assim as fortificações das linhas de Torres e os seus flancos ,comunicavam entre si, mas também com os navios ingleses fundeados no Tejo e na costa . As mensagens eram em código previamente estabelecido e muito simples, pois bastava transmitir um número que correspondia a uma determinada situação. A foto que se segue mostra a reconstituição de um desses postos telegráficos .

11.11.10

CARAVAGGIO


O pintor Caravaggio nasceu numa pequena aldeia de Itália e ,na pia baptismal, recebe o nome ilustre de Michelangelo, da família Merisi, residente na paróquia de San Giorgio, junto ao Paço Bianco di Caravaggio, cujo nome depois adoptou. Aos 12 anos, começa a trabalhar na oficina de Simone Peterzano, um modesto pintor que se intitulava "discípulo de Ticiano". Não fica aqui muito tempo e por volta dos 15 anos, foge para Roma, onde anda de oficina em oficina, trocando assim de mestre. As suas primeiras obras religiosas causam escândalo por se afastarem do tradicional, dividindo o público entre admiradores e inimigos. Considerado arruaceiro , estave sempre envolvido em duelos e discussões. "Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais", disse Caravaggio perante o tribunal que julgava a sua primeira acusação de perturbar a ordem pública. Eram palavras foram sacrílegas na Roma de seu tempo, pois com elas Caravaggio denegria as estátuas clássicas e declarava nada ter a aprender com elas. Não lhe interessava mais a Roma antiga que o Renascimento tentou ressuscitar com o mito do homem heróico. Preferia a humanidade vulgar das feiras e tavernas do tempo em que vivia ,com os vendedores de frutas, músicos ambulantes, ciganos e prostitutas.Eram estes os seus modelos para os quadros, Sem um mecenas chegou a vender pinturas nas ruas, até que passou a trabalhar para o cardeal Del Monte, patrono da "Academia de São Lucas". Habitando o palácio do cardeal e com uma pensão regular, Caravaggio realiza então uma série de importantes quadros de temática religiosa. Uma das características mais importantes de suas pinturas é, como já dissemos, retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos usando como modêlos o povo comum das ruas de Roma. Outra característica marcante são os efeitos de iluminação criados pelo jogo de luzes e sombras, que causam um impacto realista . Usava geralmente um fundo escuro e agrupava a cena em primeiro plano com focos de luz sobre os detalhes, ressaltando principalmente os rostos.

Com uma vida boémia e afundado em dívidas, começa a decadência. Recusa a oferta do príncipe Doria Pamphili para decorar uma parte de seu palácio e insiste em pintar "quadros verdadeiros", certo de encontrar compradores. A sua situação piora em 1606, quando mata o nobre Tommasoni .Foge para Nápoles e depois ruma à ilha de Malta, onde recebe a comenda Cruz de Malta. Devido ao seu feitio brigão tem problemas com um nobre maltês e é preso. Ajudado por amigos, foge para a Sicília. Muda de cidade seguidamente: de Siracusa a Messina, daí a Palermo, retornando a Nápoles, no Outono de 1609. O seu esconderijo é descoberto e, perto de uma taberna, ferem-no à espada. Recolhido e medicado, tenta voltar a Roma por via marítima. Todavia, não totalmente recuperado, vertendo sangue e minado pela malária, Caravaggio morre numa praia deserta próxima de Roma, aos 39 anos.
Dias depois, junto com a barca onde tinha abandonado seus haveres, chega a Roma apenas uma notícia lutuosa:"Tem-se notícia do falecimento de Michelangelo Caravaggio, pintor famoso como colorista e retratista baseado na natureza..."Alheio a qualquer maneirismo, mas sensível à interpretação poética e transfiguradora do mundo real, Michelangelo Merisi da Caravaggio foi um artista despojado numa época marcada pelo excesso ornamental barroco. Contra a corrente saudosista de seu tempo, criou uma arte arraigadamente humana, realista e original. Seu critério quase "funcional" de pintura, à moderna, teve o condão de enfurecer muitos donos da cultura e árbitros do gosto da época. A esses, Caravaggio sempre deu de ombros: pintava para todos os séculos, não para o seu. Abaixo seguem fotos de quadros onde o primeiro representa S.Tomé a observar Cristo ressuscitado.




9.11.10

VIAGEM Á LUA


Quando era um jovem, "devorava" os livros de Júlio Verne e “ delirava” com a aventura do homem ir á Lua tal como era descrita no livro : um aventureiro francês chamado Michel Ardan, de modos extravagantes, propõe que um projéctil tripulado seja lançado e apresenta-se como candidato a "astronauta". Depois desta surpreendente proposta, dois dos membros do "Gun Club" também embarcam nesta "loucura". Para que este empreendimento se realizasse, foram construídos um canhão, uma bala oca, e um telescópio, todos de dimensões impensável; a quantidade de pólvora usada também era de volumes impensáveis .Depois de disparada a bala, quando se aproximou da Lua, em vez de alunar, entrou em órbita da própria lua. Os três passageiros apenas tinham mantimentos para 3 meses, ficando a saga em aberto. O futuro dos três astronautas, é descrito na obra À roda da Lua. Na minha juventude era a fantasia mas, já adulto , a fantasia materializou-se.
Não fui dos que viram pela televisão a chegada do homem á Lua pois em Lourenço Marques ( Moçambique) não havia ainda emissões de televisão nesse ano de 1969 o que não impediu que escutasse a transmissão do acontecimento via rádio e ficasse muito impressionado com o facto. Curioso é que mais de 40 anos após a Apolo 11 levar o homem à Lua , haja ainda muito boa gente que duvida do que aconteceu em 20 de Julho de 1969 e não estou a falar da minha velha tia que nunca saiu da aldeia onde morreu com noventa anos e que só acreditava no que estava na Bíblia. Estou a falar de gente da cidade , com alguma escolaridade, que depois de ver filmes e ler livros com argumentos "científicos" defende a ideia de que tudo não passou de uma conspiração americana para enganar os Russos durante a Guerra Fria, e continuam a duvidar de que tal tenha acontecido.
Apresento a seguir “ argumentos” dos que defendem ter havido uma fraude, mas também uma possível explicação que rebate os ditos argumentos :
Argumento 1. Se só havia uma única fonte de luz que era o Sol, como se explica que as sombras dos astronautas tenham comprimentos diferentes?
Resposta A diferença é causada pela topografia do solo lunar. Atrás dos dois astronautas, há uma elevação. O astronauta que estava mais perto dela ficou com a sombra mais curta
Argumento 2 A bandeira americana não poderia tremular num ambiente sem atmosfera e tal facto seria provocado pelo ar condicionado do estúdio em que o filme foi rodado
Resposta A bandeira está enrugada, pois chegou à Lua dobrada num pacote. Imagens de vídeo mostram que a bandeira, apesar da aparente ondulação, está imóvel.
Argumento 3 As marcas das botas usadas pelos astronautas são mais parecidas com marcas feitas em solo húmido. Como na Lua não há água as imagens são falsas.
Resposta As fotos foram feitas para registar a natureza da poeira lunar e elas mostram que a superfície é seca, fina e se compacta facilmente, por causa da ausência de ar.
Argumento 4 As temperaturas na superfície lunar variam tanto entre 120º C negativos e 150º positivos que nem filmes especiais seriam capazes de resistir a tamanha oscilação térmica.
Resposta Os filmes não foram expostos a essas temperaturas extremas. No vácuo lunar o calor não se propaga por condução , só por irradiação (incidência directa de luz) e os seus efeitos foram muito reduzidos com a protecção reflexiva, dado as câmaras terem sido envolvidas com material branco
Argumento 5 Não aparecem estrelas no céu em nenhuma das fotos .
Resposta Em locais muito claros, como o solo dos desertos ou da Lua, o tempo de exposição do filme deve ser muito reduzido, o que impediu que as estrelas ficassem "impressas" na película.

Como penso que a discussão, entre os que acreditam e os que negam que o homem esteve na Lua, é estéril, passo a uma resenha histórica : A missão do Projecto Apollo era levar homens à Lua e trazê-los de volta , mas a possibilidade de não dar certo era tão grande que o presidente dos EUA, Richard Nixon, já tinha um discurso pronto para cada uma das situações: o sucesso ou o fracasso da missão.
A NASA enviou , em diferentes datas, 17 naves do Projecto Apollo. As naves números 11, 12, 14, 15, 16 e 17 tiveram sucesso e cumpriram a missão de pousar em solo lunar mas a Apollo 13 teve problemas no abastecimento de oxigénio do módulo de comando ao entrar na órbita lunar e não conseguiu fazer a alunagem. Antes destas, outras naves também chegaram à órbita da Lua, mas não realizaram alunagem, nem era esse o seu real objectivo, Eram apenas naves de testes. As que fizeram alunagem trouxeram, no total, cerca de 400 kg de rochas lunares para estudo.
A nave Apollo 11 foi a quinta missão tripulada e a primeira a pousar na
Lua e era tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar a superfície lunar. A nave era composta pelo módulo de comando Columbia, o módulo lunar Eagle e o módulo de serviço e foi lançada de Cabo Canaveral, na Florida, às 13:32 UTC de 16 de Julho, no interior do nariz de um foguetão Saturno V.
O destino da viagem era um local chamado Mar da Tranquilidade
, uma zona plana, formada de lava basáltica solidificada. Após a separação dos módulos da Apollo enquanto Michael Collins ficava no módulo de Comando numa órbita cem quilómetros acima do satélite, Armstrong e Aldrin começaram a sua descida ao Mar da Tranqüilidade a bordo do Módulo Eagle .Várias vezes durante a descida, o computador enviou alarmes. A trajectória da nave parecia boa, mas a mensagem de alerta “1202” trouxe alguns segundos tensos à tripulação até que o controlo de Houston avisou que os alarmes eram devidos a sobrecarga do computador. Embora o computador teimasse em levar o módulo para um local não programado acabou por alunar por comando manual da Neil Armstrong quando estavam apenas a 150 metros da superfície da Lua. A mais de 300 mil quilómetros dali, o mundo, que acompanhava ao vivo as comunicações de rádio entre o Controle de Voo no Centro Espacial em Houston e a Apolo 11, entrava em comoção e aplaudia e gritava freneticamente. Claro que não cabe nesta pequena mensagem citar todas as peripécias que surgiram nesta descida e, para os mais curiosos ou para os cépticos, aconselho uma busca na net em APOLLO 11 da Wikipédia.
Finalmente, cerca de seis horas e meia após o pouso, foi aberta a escotilha do Módulo Lunar e Armstrong rastejou em direcção a saída; primeiro os pés, depois as mãos. Instantes depois pisou o degrau mais alto da escada, em frente à bancada de trabalho da nave, onde estavam acondicionados os equipamentos científicos a serem usados na missão. A mais importante peça de equipamento era, sem dúvida, uma câmara
de TV a preto e branco..

Neil Armstrong precisou de dar um salto de um metro do último degrau da escada até ao protector das patas do Módulo. Dali estava apenas a dois
centímetros de pisar na superfície lunar propriamente dita. Parou no suporte por um momento, testando o chão com a ponta de suas botas, antes de finalmente pisar o solo lunar e dizer a célebre frase :
Este é um pequeno passo para o homem, mas um enorme salto para a humanidade

3.11.10

NÃO MATARÁS


Sempre que abordo um tema da religião católica, vem ao meu pensamento um dos mandamentos da Lei de Deus – NÃO MATARÁS—que muitas vezes foi ignorado pelos Chefes religiosos.
O que a seguir comentarei nem sequer tem a ver com intransigências religiosas contra os infiéis ou defensores do Corão, o que talvez pudesse justificar alguma guerra, mas sim uma guerra entre irmãos cristãos.
Combatei os hereges com mão poderosa e braço firme “ proclamava o papa Inocêncio III , para lançar milhares de cruzados , em 1209, contra os cristãos albigenses do sul de França, tudo com a desculpa de ter sido assassinado o Legado papal Peire de Castelnau , por um escudeiro do Conde de Tolosa.
Quando os cruzados conquistaram Lavour, em 3 de Maio de 1211, Simão Montfort mandou enforcar Aimeric Montreal e mais oitenta cavaleiros. Como o patíbulo ruiu devido ao peso do nobre, mandou degolar os outros . A senhora da cidade ,Guirauda , irmã de Aimeric , foi entregue á soldadesca que depois de abusar dela a lançou a um poço. Nesse dia, 300 a 400 cátaros foram queimados na fogueira, enquanto os seus bens passaram para Simão Montfort. Tudo isto aprovado pela Igreja de Roma que se sentia ameaçada no seu poder ditatorial religioso e temporal e que perdera a guerra contra o Islão quer em Espanha quer na Terra Santa.. Mas há mais exemplos da barbárie contra os cristãos cátaros : Ao iniciar-se o assalto a Beziers, alguns cruzados perguntaram ao Legado papal ( Arnau Amalric) como poderiam distinguir os hereges dos bons católicos que estavam na cidade. A resposta foi mais ou menos assim: mata-os a todos que Deus saberá distingui-los depois.
E afinal de que constava a heresia dos cátaros ou albigenses para se fazer tão cruenta guerra que fora antecedida , é verdade, de uma tentativa pacífica para os converter ?
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisou de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material . Não concebiam a ideia de inferno pois no fim o deus do Bem triunfaria sobre o do Mal . Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, e não matavam qualquer animal. Os crentes tinham um ofício divino onde dividiam o pão entre si mas não considerando esse pão o corpo de Cristo.
A Igreja Católica estabeleceu a repressão às heresias através de concílios, exigindo que o poder secular participasse do processo. Desta forma, através do estudo do cânone 27 do III Concílio de Latrão (1179) e do cânone 3 do IV Concílio de Latrão (1215), verificar-se-á os princípios adoptados pela Igreja Católica para reprimir a heresia cátara e percebe-se a necessidade que a Igreja Católica tinha de a eliminar , pois esta ameaçava seu poder. A Igreja só poderia manter-se no poder com a certeza de que era a única e verdadeira herdeira de Cristo e de que passavam por ela os caminhos que levavam á salvação.
Embora seja impossível nesta curta mensagem explicar tudo aquilo que era considerado heresia, podemos ainda dizer que os cátaros eram acusados de abalarem a ordem social existente e de aspirarem à destruição da sociedade medieval.(Leia-se poder temporal do Papa e do Rei de França) Renunciavam aos bens materiais pregando o retorno ao cristianismo primitivo.
Mas voltemos ao quinto mandamento que é o título da mensagem.
Dizem os teólogos católicos : “Só Deus é senhor da vida humana. Os homens devem respeitá-la. Matar voluntariamente um ser humano é pecado, quer seja por homicídio, eutanásia, violência, guerra injusta , roubo, herança ou aborto. É também pecado contra o quinto mandamento: odiar, guardar rancor, inimizade, desejar o mal, insultar.
O que é próprio do cristão é amar, porque Deus é amor. Se aprendermos a amar, não nos custará perdoar de coração quando alguém nos ofende. Isto não impede o direito e o dever da pessoa e da sociedade à legítima defesa. Por isso, as autoridades legais podem impor justas penas aos agressores e inclusive, como em alguns países, matar em caso de extrema gravidade, esgotados todos os meios que seriam mais conformes com a dignidade da pessoa humana. “
Estou a lembrar-me do assaltante de uma escola nos EUA que ameaçava matar mais alunos além dos que já tinha ferido mortalmente e que acabou por ser abatido por um atirador especial da polícia, isto para já não falar de outros casos semelhantes que são do domínio público.
Será que com o que acabei de transcrever os teólogos se contradizem ? Continuemos a ouvir a opinião deles:
Por que é que a legítima defesa de pessoas e de sociedades não vai contra o quinto mandamento ?
Porque com a legítima defesa se exerce a escolha de defender e valorizar o direito à própria vida e à dos outros, e não a escolha de matar. Para quem tem responsabilidade pela vida do outro, a legítima defesa pode até ser um dever grave. Todavia ela não deve comportar um uso da violência maior que o necessário. Neste caso está a defesa armada de um povo quando, sem motivo, é atacado por outro.”
No que respeita ao aborto o tema é muito polémico e a posição da Igreja continua a não ser uniforme ou concordante. Sobre este tema , o Prof de Teologia e Ética da Marquett University, Dr Daniel Maguire diz o seguinte:
“Na igreja católica não há uma só doutrina vigente sobre contracepção e aborto. No entanto, a mais conhecida é a doutrina conservadora defendida pelo Papa, por muitos membros da hierarquia e, também, por uma minoria significativa de teólogos católicos. Esta doutrina insiste em afirmar que todos os meios de contracepção artificial e o aborto são contra as leis de Deus …….. Se houver um crescimento excessivo da população, a natureza nos matará de fome, doença ou por uma destruição ambiental, como ocorre em muitas partes do mundo. A alternativa a estes males é o planeamento familiar…….Num mundo perfeito, onde os métodos contraceptivos estivessem à disposição de todas as pessoas; onde mulher e homem fossem educados e se respeitassem mutuamente; onde a pobreza não causasse danos à vida, neste tipo de utopia o aborto seria muito raro. Porém o nosso mundo não é uma utopia. Num mundo onde há gravidezes não desejadas e não planeadas, uma mulher deveria poder abortar por razões sérias e sãs……..Em todas as maiores religiões do mundo isto é possível e aceitável. Em meu último livro SACRED CHOICES: The Right to Contraception and Abortion in Ten World Religions (Fortress Press, 2001) (Escolhas Sagradas: o direito à contracepção e ao aborto em dez religiões do mundo) demonstro como todas as maiores religiões do mundo - incluindo o catolicismo - reconhecem a fecundidade como uma benção que pode ser também um castigo. Todas estas religiões têm perspectivas conservadoras sobre o planeamento familiar, tanto quanto a católica. Mas de mesmo modo convivem perspectivas mais moderadas que permitem a contracepção e o aborto quando necessário…..”
Como se pode verificar e também relativamente ao aborto ,nas diferentes correntes cristãs não há uniformidade de ideias quanto ao mandamento NÃO MATARÁS.
Se entrarmos no tema da eutanásia então o problema é ainda mais complicado com as diferentes Igrejas cristãs a terem pontos comuns e de divergência, mas vejamos só o catolicismo romano que foi a confissão religiosa que mais estudou a questão da eutanásia, ou, pelo menos, a que mais publicou directrizes a respeito; O documento mais completo é a Declaração Sobre a Eutanásia (5-5-1980), da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Nesse documento pode ler-se: "Por eutanásia, entendemos uma acção ou omissão que, por sua natureza ou nas intenções, provoca a morte a fim de eliminar toda a dor. A eutanásia situa-se, portanto, no nível das intenções e no nível dos métodos empregados". A eutanásia é considerada uma "violação da Lei Divina, uma ofensa à dignidade humana, um crime contra a vida e um atentado contra a humanidade". Outro documento , de João Paulo II (1995) , é a Carta Encíclica Evangelium Vitae. Mantendo a argumentação anterior coloca o problema como sendo "um dos sintomas mais alarmantes da ` cultura da morte' que avança, sobretudo, nas sociedade do bem-estar, caracterizadas por uma mentalidade da eficiência que faz aparecer demasiadamente gravoso e insuportável o número crescente das pessoas idosas e debilitadas. Com muita frequência, estas acabam por ser isoladas da família e da sociedade, organizada quase exclusivamente sobre a base de critérios de produtividade, segundo os quais uma vida irremediavelmente incapaz não tem mais nenhum valor" A doutrina católica tradicional reconhece que o sofrimento, embora possa ser integrado no mistério da morte e ressurreição de Cristo, pode também ser fútil e nocivo . Os esforços por manter a vida física podem legitimamente cessar quando a continuação da vida biológica faz com que se deteriore, em vez de promover, a integração espiritual e moral da pessoa.. Dos documentos mais antigos aos mais recentes, há uma evolução no modo de interpretar o sofrimento e propor normas morais. A Declaração sobre a Eutanásia, de 1980, dialoga melhor com a racionalidade científica, reconhecendo que em ambos os lados existem convicções sérias e conscienciosas.
No entanto no quinto mandamento está apenas escrito NÃO MATARÁS sem a condicionante A NÃO SER QUE ….. . Grande dilema este !.

17.10.10

Avião DC3 DAKOTA

Hoje vou falar-vos de um avião do tempo da segunda guerra mundial que foi usado pela aviação comercial em larga escala, dada a sua fiabilidade e eficiência em voar. Estou a referir-me ao Douglas DC-3 DAKOTA que foi o mais importante pelos seus grandes feitos durante a guerra e em tempo de paz. Na actividade militar era conhecido como C-47.
A história começa muitos anos antes quando, em 1921,Donald Douglas e seu pai iniciam a Sociedade Douglas para a construção de aeronaves para o transporte de correio e de um ou dois passageiros, nos EUA. No entanto, em 31 de Março de 1931 morre, num acidente de avião, Knute Rockne um famoso treinador de futebol americano. O avião acidentado foi um Fokker trimotor cuja estrutura era em madeira, facto muito vulgar na época, sendo o desastre devido a uma falha da estrutura. A reacção do público foi tal que a Aeronáutica Civil proibiu que os aviões de passageiros tivessem estruturas em madeira ,obrigando a que fossem em metal. Por este motivo, em 1932, a TWA convida cinco empresas construtoras a apresentar projectos para um monoplano todo em metal. A Douglas concorre com o seu DC1 (de que foi construído apenas um só aparelho) que passou brilhantemente nos testes. (ver foto abaixo)


O êxito leva a Douglas a construir vinte DC 2 para a TWA .Os DC 2 tinham motores mais potentes e levavam 14 passageiros, em oposição ao modelo apresentado pela Boeing que só transportava 10. A popularidade foi tal que a Douglas planeou logo um avião maior, o DC-3. O primeiro DC-3 começou a voar em Dezembro de 1935, resultado da evolução do DC-1 e dos DC-2. Possuía dois motores Pratt & Whitney de 1.200 HP cada. Com um peso bruto de 12.200 kg podia levar até 32 passageiros. Até terminar a sua produção, tinham sido construídas 803 unidades comerciais e 10.123 militares, não se sabendo ao certo quantos ainda estarão hoje a voar. Calcula-se que serão uns 200 em todo o mundo, voando ou aptos a voar, quase todos em mãos de particulares .O avião era fabricado pela McDonald Douglas, em Santa Mónica, na Califórnia, e ainda na cidade de Oklahoma. Originalmente o DC-3 foi concebido como um luxuoso avião comercial que oferecia camas para seus passageiros. O DC-2 que lhe antecedeu não era largo o suficiente para comportar tais beliches. Seriam sete camas superiores e sete camas inferiores, com uma cabine privada à frente. A empresa American Airlines encomendou os seus DC-3 com esta configuração porém, mais tarde, removeu os beliches e instalou três fileiras de sete assentos ( 21 passageiros). (abaixo foto de DC3 )



O sucesso foi imediato e o DC-3 entrou em serviço em Junho de 1936, fazendo a carreira New York - Chicago. A qualidade do DC3 era tal que outras companhias aéreas os encomendavam a uma tal cadência que a fábrica não podia satisfazer os pedidos. Por volta de 1938, o avião não era apenas o equipamento principal das maiores empresas aéreas dos Estados Unidos, como também já era operado por dezenas de países estrangeiros. Com a entrada dos USA na 2ª guerra mundial (1939-1945) são construídos aos milhares para as forças armadas.A popularidade do DC-3 era baseada em muitos factores: era maior, mais rápido e mais luxuoso que os aviões anteriores. Era também mais económico de operar e batia recordes de segurança. Neste aspecto vejamos alguns exemplos concretos:
-Era um avião que, com os motores parados, conseguia planar-

Um DC-3 da Capital Airlines perdeu quase dois metros da asa direita numa colisão aérea e continuou a voar sem maiores problemas.-

Durante a II Guerra Mundial, outro teve sua asa direita inteiramente destruída por um ataque, enquanto no solo. Adaptou-se ao mesmo uma asa de DC-2, que era 3,30m menor que a original. O avião voou esplendidamente e os autores da façanha baptizaram-no de DC-2 ½.-

Na mesma II Guerra, foi oficialmente creditado ao DC-3 ter abatido um caça inimigo, já que este colidira com o leme direccional do DC-3. O caça Zero japonês caiu e o DC-3 pousou com segurança. Após rápida reparação, voltou a voar.

Talvez nenhum avião tenha sido tão excedido nos seus limites e sempre se tenha saído tão bem e esta afirmação é baseada nos factos que a seguir relatamos:Durante a guerra, cruzava o Atlântico regularmente com sobrecarga de 1 a 2 toneladas. A capacidade original de 21 passageiros foi excedida muitas vezes como, por exemplo, durante a evacuação de Burma, em que um DC-3 descolou com 74 passageiros.

Outra façanha incrível documentada aconteceu em 21 de Abril de 1957, quando o resistente avião perdeu 4 metros de sua asa esquerda ao bater de raspão em árvores, devido a uma tempestade. O avião pousou com segurança no aeroporto de Phoenix, no Arizona.

Talvez a principal razão do DC-3 estar ainda hoje a voar é o facto de que nunca se ter desenhado um avião tão bom e tão adequado ao objectivo para o qual foi construído. Não se sabe ainda quando o DC-3 deixará os céus em definitivo: no fim dos anos 50 acreditava-se que ele só voaria por mais 5 anos, entretanto a previsão foi ultrapassada várias vezes e assim continua. Por isso, a única coisa que se sabe é que se o DC-3 um dia desaparecer dos céus, será saudosamente lembrado pelos milhões de admiradores que esta máquina conquistou em todo o mundo. A transportadora portuguesa TAP adquiriu em 1945 os seus dois primeiros aviões DC 3 Dakota de 21 lugares tendo esta frota atingido 8 unidades. O ultimo destes aviões é retirado de serviço no ano de 1959.( a foto abaixo mostra o último DC3 da TAP como peça de museu)



Para os amantes de aeronautica aqui deixo bibliografia sobre o DC3


Flintham, V. (1990) Guerras e avião do ar: Um registro detalhado do combate de ar, 1945 ao presente.
Francillon, René J. Avião de Mcdonnell Douglas desde 1920. Londres: Putnam & Company Ltd., 1979.
Pearcy Jnr., Arthur ARAeS. De “variants Douglas R4D (DC-3/C-47 da marinha dos E.U.)”. Avião no perfil, volume 14. Windsor, Berkshire, Reino Unido: Publicações Ltd. do perfil, 1974, P.
Yenne, conta. Mcdonnell Douglas: Um Tale de dois gigantes. Greenwich, Connecticut, EUA: Bisonte Livro, 1985.











12.10.10

ARCOBOTANTE

Porque eu gosto imenso das catedrais com arquitectura gótica e crer que muitas outras pessoas estarão na mesma linha de pensamento, sem contudo se aperceberem do jogo de forças físicas que permitem erguer estas maravilhas , falarei hoje do seu elemento essencial o ARCOBOTANTE.
Por definição, arcobotante é uma construção em forma de meio arco, erguida na parte exterior das catedrais góticas para repartir o peso da sua cobertura por vários pontos e não sobre toda a parede lateral.
A característica mais marcante da arquitectura gótica das grandes catedrais é o seu tipo de abóbada, feita em arcos cruzados que, em combinação com arcos transversais, se apoiam em colunas de alvenaria que suportam todo o peso dessa cobertura.Os arquitectos das catedrais góticas acharam que, como as enormes forças provocadas pelas abóbadas ficavam concentradas em pequenas áreas, estas forças poderiam ser suportadas por contrafortes e arcos externos, os chamados arcobotantes. Assim, as grossas paredes da anterior arquitectura românica poderiam , na sua grande maioria, ser substituídas por paredes finas, o que proporcionava a abertura de grandes janelas e favorecia a iluminação do interior dessas catedrais. Além disso, os espaços interiores também podiam alcançar alturas sem precedentes, permitindo também a construção de mais duas naves laterais, além da nave central das igrejas romãnicas. As novas catedrais mantiveram e ampliaram o formato da zona do altar-mor das catedrais românicas francesas, que inclui o corredor semicircular conhecido como o ambulatório, as capelas radiais, e a alta abside poligonal (às vezes quadrada) que cerca o altar-mor. A nave gótica central e o coro são igualmente de procedência românica. O uso de arcos ogivais em diagonal permitiu direccionar o peso das abóbadas para os contrafortes, que por sua vez descarregam estas pressões no solo. Para isso, como já dissemos, foi fundamental a adopção do arco em ogiva que recebe mais directamente as pressões exercidas pelo tecto. No estilo gótico, os contrafortes não são mais as colunas internas encostadas ás paredes, mas sim erguidos na parte exterior das naves laterais. O segmento de arco que recebe a pressão exercida pelo peso da abóbada e que a transmite ao contraforte, chama-se, como já referimos, arcobotante (ver foto seginte). Nesta arquitectura existe uma série de forças em equilíbrio, que se compensam umas às outras. As janelas com vitrais são tão grandes que reduziram o edifício a um simples esqueleto de pedra, fechado por essas janelas que , forçosamente, são também ogivais. Uma outra solução encontrada foi subdividir a abertura em dois arcos ogivais mais reduzidos, encimados por uma pequena rosácea. Nesta linha de ideias a fachada principal das igrejas góticas é delimitada por duas torres que partem da base das naves laterais. Estas torres são rasgadas por janelões e rematadas por campanários, normalmente terminados em agulha. No meio das duas torres situa-se a rosácea, imenso círculo que deixa passar a luz em sentido longitudinal, iluminando o altar-mor ao fundo da igreja.
Vamos agora tentar explicar melhor como funciona o arcobotante . Quando uma parede, devido ao seu peso, ameaça cair, não é verdade que um vigamento colocado obliquamente a segura? Da mesma forma a pressão que tendia a destruir o edifício gótico foi captada e conduzida por meio de arcobotantes até massas muito pesadas: os contrafortes, pilares tão sólidos, tão bem enterrados no solo que não correm o risco de ceder aos maiores pesos. E, para que houvesse maior certeza de que resistiriam, foram carregados com um peso complementar, uma espécie de torreão de pedra, o pináculo, da mesma forma que, para impedir que uma bengala escorregue ou se incline, basta apoiar fortemente a mão sobre o castão. (ver esquema a seguir)
Este sistema é um dos paradoxos da arquitetura gótica pois a impressão de um impulso para o céu deriva, na realidade, de que toda a sua estrutura corresponde a um movimento de cima para baixo, não esquecendoE, quando que esse fantástico arabesco repousa sobre alicerces de um volume enorme, enterrados a uma profundidade de quinze metros. Resolvido o problema da cobertura, as naves elevaram-se mais ainda, quase além do que era prudente e, por uma lei elementar das proporções, alongaram-se e ultrapassaram tudo o que até então fora feito. E também se multiplicaram: naves triplas e quíntuplas conduziam as multidões por avenidas triunfais até o altar do Deus presente. Os campanários, como que impelidos pela força ascendente que elevava todo o edifício, ergueram-se a alturas nunca atingidas: 82 metros em Reims, 123 em Chartres, 142 em Estrasburgo e 160 em Ulm.
Lista bibliográfica sobre o tema:GOZZOLI, M.C. Como Reconhecer a Arte Gótica. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
.RIBEIRO, F. História crítica da Arte – 5 volumes. Rio de Janeiro: Fundo Cultura, 1965.
RIBEIRO, H.P. A arte gótica. Bauru: Unesp, 1969.
.UPJOHN E.M., WINGERT, P.S., MAHLER, J.G. O Neoclassicismo e oRromantismo in História Mundial da Arte: do Barroco ao Romantismo. 3ª edição, Livraria Bertrand
GUINSBURG, J. O Romantismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 197
UPJOHN, E.M.; WINGERT, P.S.; MAHLER, J.G. História Mundial da Arte: Dos Etruscos ao Fim da Idade Média. 4.ed. São Paulo: Bertrand, 1975. DISCIPLIMA: HISTÓRIA E ESTÉTICA DA ARTE-PROF.: WILLIANS BAL HISTÓRIA DA ARTE: DO GÓTICO AO ROMANTISMO:Licínia de Freitas Iossi,Katherine Zuliani,Thaís GoldKorn,Fernando Ramos Geloneze,Vinícius Ramires Álvares,Lívia Cerqueira Leite,Guilherme AmaralSitiolorafia:

7.10.10

EVOLUÇÃO DA ALIMENTAÇÃO HUMANA


Perguntaram-me como teria evoluído a alimentação humana desde os tempos do Homo primitivo até aos nossos dias . A resposta , aparentemente fácil, é baseada no estudo dos fósseis do género Homo. Esse estudo paleontológico centra-se na forma e dentição dos maxilares, indo ao ponto de analisar a quantidade de esmalte dentário e a forma da coroa dos molares. Também se analisam os restos fossilizados de animais que serviram de alimento ao homem das cavernas . Neste último caso incluímos ossos e até conchas de animais marinhos e, neste caso, em Portugal são célebres os concheiros de Muge que datam do Mesolítico.
Como não podia deixar de ser, o homem primitivo, tal como qualquer outro animal, alimentava-se individualmente do que conseguia caçar e de plantas silvestres, vivendo só dos recursos naturais. Dependia das condições climatéricas, das secas e das inundações. Era um recolector puro. Com o passar de milénios, já no Neolítico, o homem aprendeu a domesticar os animais passando a depender da pastorícia, sem necessidade das longas e por vezes perigosas excursões de caça .Fazia já uma alimentação comunitária. Ao tornar-se sedentário e com a aparição da agricultura, a sua alimentação melhorou um pouco . Porém continuava dependente das calamidades naturais, normalmente climatéricas, por não saber armazenar e conservar os alimentos, daí que as fomes assolassem periodicamente as populações em qualquer parte do planeta.
A paleontologia humana mostra curiosamente que a melhoria na qualidade da alimentação acompanhou um crescimento evolutivo do cérebro. Todos os australopitecos estudados apresentavam características esqueléticas e dentais estruturadas para processar alimentos vegetais duros e de baixa qualidade energética. Certamente ingeriam carne ocasionalmente, tal como os chimpanzés de hoje, e estudos em membros mais antigos do gênero Homo sugerem que o Homo ancestral consumia menos matéria vegetal e mais animal.
Quando se estuda a evolução humana surge a pergunta :o que terá empurrado o Homo para uma maior qualidade dietética, necessária ao crescimento cerebral? Terá sido a mudança ambiental ? Ao que hoje se sabe, os Hominídeos surgiram em África e a crescente aridez da paisagem africana limitou a quantidade e variedade de alimentos vegetais comestíveis e também de animais Aqueles seres que na linha evolutiva deram origem aos robustos australopitecos desenvolveram modificações anatómicas que permitiram a subsistência com alimentos de mastigação mais difícil, porém em maior disponibilidade. O Homo erectus , desenvolveu a primeira economia caçador e recolector, em que animais de caça eram uma parte significativa da dieta com estes recursos a serem compartilhados entre os membros do grupo. A adição de pequenas porções de comida animal á dieta de frutos e outros vegetais , combinada com a divisão dos recursos que é peculiar dos grupos de caça e colecta, teria significantemente aumentado a qualidade e estabilidade da vida dos hominídeos. Uma melhor qualidade dietética, por si só, não explica por que os cérebros dos hominídeos cresceram, mas parece ter desempenhado um papel crítico na eclosão daquela mudança. Após um grande estímulo inicial no crescimento do cérebro, a dieta e a expansão desse órgão provavelmente interagiram em sinergia; cérebros maiores produziram comportamento social mais complexo, o que conduziu a outras estratégias em tácticas de obter alimento e a uma melhor alimentação que, por sua vez, fomentou a evolução adicional do cérebro. Como afirmam alguns estudiosos, a evolução do Homo erectus na África, hà 1,8 milhões de anos atrás, marcou a terceira viragem na evolução humana: o movimento inicial dos hominídeos para fora da África em busca de mais alimento. A evolução da alimentação provocada pelo êxodo foi muito lenta , e a prova do que afirmamos é que , milhares de anos depois, a população da Europa ainda não conseguia saciar a fome, para já não falar na China onde, até à primeira metade do século XX, raramente havia um ano sem fome. Ainda hoje ela não desapareceu da Ásia, da Indonésia, da África e de alguns países da América do Sul. Mas felizmente, excepto quando há calamidades ou guerras, as grandes fomes absolutas parecem estar em vias de desaparecimento, embora muitas populações sofram ainda de subalimentação, como acontece nos países subdesenvolvidos.
Ao invés, as crises de fome acabaram nos países considerados desenvolvidos, desde que as máquinas agrícolas fizeram a sua aparição e vieram permitir uma cultura intensiva do solo. Transportes rápidos, adubos químicos, irrigação, selecção de plantas e animais, combate aos parasitas agrícolas por meio de insecticidas químicos, criação da indústria das conservas, da indústria do frio, tudo isso transformou a alimentação humana. Esta transformação foi ainda acelerada pela industrialização da produção agrícola. Poucos produtos são hoje consumidos sem preparação industrial: legumes e frutos, carne, peixe, ovos, leite. A maior parte dos outros (e até parte destes) é preparada industrialmente, tratada por meios mecânicos, esterilizada pelo calor ou por raios ultravioleta, congelada, perfumada, colorida, purificada por produtos químicos, pasteurizada, destilada. A ciência química cria cada vez mais elementos de síntese, em particular produtos vitaminados. Mas não há bela sem um senão! A introdução da química na alimentação trouxe vários perigos com o uso dos adubos químicos, dos pesticidas e dos aditivos.
Se é verdade que os adubos químicos vieram possibilitar maior rendimento das colheitas , a verdade é que a qualidade dos alimentos piorou pois estes produtos alteram a qualidade dos alimentos, são incapazes de restaurar integralmente os solos e contribuem em grande escala para a poluição das águas, quando são arrastados pelas chuvas para os rios.
O DDT que em tempos foi muito usado como insecticida é hoje reconhecido como inconveniente. Este veneno absorvemo-lo nós juntamente com os legumes, o leite, a carne, os frutos, os cereais etc. Os insecticidas penetram na polpa dos vegetais e misturam-se na seiva. Os vegetais ao serem ingeridos pelos animais, acumulam-se na sua gordura e voltam a estar nos produtos alimentares de origem animal que nós ingerimos.
Muitos dos animais destinados ao talho recebem uma alimentação química que lhes eleva rapidamente o peso. Entre esses produtos, estão antibióticos e sulfamidas e, na criação industrial de aves de capoeira, hormonas femininas sintéticas. Estes produtos não são destruídos pela cozedura e muitas dessas hormonas vão dar origem às dioxinas, que são cancerígenas Também no número extremamente elevado de aditivos que são usados, alguns são cancerígenos. Até o alimento dos pobres, o pão, não foge às influências nefastas da modernização . Há ainda cem anos , o homem podia alimentar-se quase exclusivamente de pão. Hoje não o poderia fazer porque o seu valor alimentar diminuiu e ele já não é um alimento completo e fiável. Em primeiro lugar porque os trigos de grande rendimento que se cultivam agora são ricos em amido mas pobres em glúten e sais minerais, para já não falar no seu cultivo onde são usados adubos e pesticidas químicos. Até a substituição das velhas mós de pedra pelos cilindros de aço veio proporcionar uma produção maior e de uma farinha mais branca, sem as impurezas que coloriam ligeiramente a farinha e eram constituídas por substâncias nutritivas preciosas, (fósforo, cálcio, magnésio, ferro, silício, iodo, manganésio) e vitaminas B e E. Neste momento já nem quero falar nos alimentos transgénicos de que tanto se fala .
Creio que fui rápido demais na explicação histórica da evolução da alimentação humana e por isso voltemos atrás : Um dos momentos cruciais na evolução da alimentação do homem foi o controlo do fogo durante o período Paleolítico, há cerca de 2,5 milhões de anos . Não se sabe exactamente quando os precursores do Homo sapiens deixaram de consumir alimentos tal como ficavam quando os caçavam e recolectavam. Descobertas arqueológicas em cavernas da China fazem supor que o homem de Pequim,( 250 mil e 500 mil anos atrás), já utilizava o fogo para se aquecer e cozinhar carnes e vegetais . Esses são os primeiros sinais de que o homem procurava modificar os alimentos que consumia, sendo isso muito visível no período Neolítico . Ao perceber que carnes e vegetais cozidos duravam mais tempo, passou a usar o processo .Com a defumação, pela exposição das carnes e peixes à fumaça resultante da queima de madeira e carvão, fazia-se a desidratação, criando nos alimentos uma capa protectora para durar mais. Nós hoje sabemos, que há o risco das dioxinas, mas quem não vai ainda hoje procurar os “fumeiros”? Na Europa, a partir da Idade Média, criou-se o hábito de comer carne de porco e para a conservar , parte era salgada, parte defumada e o restante usado no preparo de enchidos. No nosso país interior, continuamos hoje a fazer o mesmo. Quem não conhece os presuntos caseiros? Supõe-se que a primeira forma de salga consistia em enterrar os produtos da caça na areia da praia, para que o sal do mar penetrasse nos alimentos. Na Antiguidade, fenícios, egípcios e gregos secavam peixes para poderem transportá-los com segurança. No entanto, a história mostra que o hábito do sal para preservar alimentos vem quase sempre combinado com a exposição ao sol e daí o hábito, presente até há poucos anos em Portugal, da salga do bacalhau realizada ao ar , ao sol e às moscas, nas nossas praias e linhas de costa .Na Mesopotâmia, por volta de 2000 a.C, os peixes eram abertos e conservados em salmoura a que por vezes se juntavam ervas aromáticas, tão ao gosto dos romanos . E quem fala de peixe, fala de carne, por exemplo a de bovino, ainda hoje assim preparada no Brasil, a célebre carne de sol. A utilização de baixas temperaturas para a conservação de alimentos também se perde na história. Foi no período Neolítico que o homem descobriu que a carne de caça e os vegetais guardados em locais frios se conservavam por mais tempo. Assim, o homem pré-histórico depositava seus alimentos nas partes mais escuras e frescas das cavernas. Hoje usamos os gigantescos armazéns frigoríficos , os porta contentores refrigerados e até aviões de carga com porões refrigerados pelas baixas temperaturas que existem nas altas zonas da atmosfera.
Suponho ter dado uma ideia do tema, reconhecendo que muito ficou por dizer.

3.10.10

O CASTELO DO PORTO


Tal como acontece em Coimbra , quem visita a cidade do Porto não encontra um castelo propriamente dito o que parece estranho numa cidade tão antiga. Os romanos referiram-se a um núcleo populacional junto ao rio Douro como Portuscale, na zona do morro da Pena Ventosa que é onde hoje se situa a Sé. Nesta zona encontraram-se vestígios romanos e pré romanos que atestam uma continua ocupação, logo deveria haver alguma edificação defensiva. ( Durante as décadas de 1980 e de 1990, as investigações arqueológicas realizadas nas traseiras da , nomeadamente na Casa da Rua de D. Hugo n.° 5, permitiram identificar um perfil estratigráfico que ilustra a evolução do núcleo primitivo da cidade. Destes estudos concluiu-se ter havido uma ocupação quase contínua do local desde os finais da Idade do Bronze.)
Continuando a atestar a ocupação da zona, diremos que no Itinerário Antonino ( sec II) aparece a designação de Cale ou Calem para o morro de Pena Ventosa e daí talvez Portuscale que, no primeiro quartel do século XII, era apenas citado como Portus , já que cale designava travessia ou passagem.
Mas houve ou não um castelo ? O que encontramos hoje são restos de dois muros defensivos , ambos medievais , a cerca velha ou sueva e a cerca nova mais conhecida por muralha fernandina. Terá sido sobre os alicerces da fortaleza sueva , arrasada no ano 825 pelo rei mouro Almançor que Moninho Viegas , trisavô de Egas Moniz ( aio de D. Afonso Henriques), teria mandado edificar a cerca velha no período da reconquista. Dentro desta cerca certamente haveria um castelo ou uma torre defensiva, mas dela não há vestígios.
Esta cerca velha existia ainda em 1120 já que , aquando da doação do burgo ao bispo D: Hugo, lê-se no documento mandado exarar por D.Teresa que além do burgo pertenciam ao bispo terrenos extra muros. logo havia uma muralha .Como a cerca velha se situa no morro da Pena Ventosa o castelo deveria situar-se dentro dessa cerca, onde hoje está a Sé.
No que respeita à cerca nova ( muralha Fernandina) diremos : A Muralha Fernandina começou a ser pensada em 1336, quando reinava em Portugal D.Afonso IV, devido à tentativa de invasão do rei castelhano D.Afonso XI.
Era necessário proteger uma cidade, que se tinha expandido para além da Cerca Velha .A muralha, que tinha uma altura de 30 pés (10 metros), ficou terminada no reinado de D.Fernando, daí a designação de Fernandina.O traçado seguia pela margem ribeirinha do Douro até ao limite com Miragaia, subia pelo Caminho Novo, pela Sé e descia pela escarpa dos Guindais até à Ribeira.( foto do texto) Esta muralha envolvia a cerca velha e os seus muros, reforçados por trinta torres, abriam para o exterior por várias portas e postigos. No interior da cerca nova outras cercas havia , delimitando a judiaria e os terrenos administrados pelas ordens religiosas. Em nome do progressivo desenvolvimento urbano a muralha Fernandina começou a ser derrubada no final do século XVII e os seus seculares muros foram sendo submersos pelo casario ou demolidos para a abertura de novas ruas. Para muitos dos edifícios públicos, que foram construídos a partir do séc. XVII, foram aproveitadas as pedras da muralha derrubada. No séc. XIX, a muralha sofreu a condenação final, sendo demolida na sua quase totalidade. O que hoje resta e vemos, é considerado monumento nacional.
Colocámos a hipótese de o castelo ou torre de defesa se ter situado onde hoje está a Sé. Não podemos esquecer que a Sé do Porto é um edifício de estrutura romano-gótica, dos séc. XII e XIII, tendo sofrido grandes remodelações no período barroco (séc. XVII-XVIII). No interior conserva ainda o aspecto de uma igreja-fortaleza com ameias, mas nada garante que a hipótese de ali ter sido a fortaleza .seja correcta

29.9.10

CERVEJA E DIURESE


Embora o título desta mensagem pareça despropositado, a ideia é alertar para o abuso desta bebida, sem as devidas precauções.
Comecemos por dizer que diurese é a produção de grande quantidade de urina e que pode haver várias razões para que tal venha a acontecer . Uma delas é a ingestão de cerveja e daí se dizer que a cerveja é diurética. No fundo, tudo está no funcionamento dos rins que fabricam urina com a finalidade de regular a concentração de minerais no sangue e de limpar, dessa forma, o organismo de compostos inúteis. Com esta frase até parece que me estou a contradizer . Recordemos que a urina é composta aproximadamente por 95% de água e 2 % de ureia. Nos 3% restantes, podemos encontrar fosfatos, sulfatos, amónia, magnésio, cálcio, ácido úrico, creatinina, sódio, potássio e outros elementos.
Como estas substâncias não são inertes ou inofensivas em maiores percentagens que o normal, é necessário uma maior quantidade de água para serem diluídas e retiradas do sangue .
Voltando ao assunto do título da mensagem, a cerveja tem grande quantidade daquelas substâncias tais como açúcares, proteínas , iões e outras moléculas, resultantes da fermentação do lúpulo logo os rins necessitam de maior número de moléculas de água para as diluir e excretar, indo buscar essa água ao organismo. Tal facto pode provocar desidratação e desequilíbrio percentual a nível de outros minerais que são necessários ao metabolismo celular. Este é o primeiro alerta que deixo.
Para se ter uma ideia do que afirmei ,direi que, se bebermos um litro de água os rins fabricam 385 ml de urina, mas se bebermos um litro de cerveja eles fabricam 1012 ml de urina, quase três vezes mais.
Mas há mais ! Um consumo exagerado de cerveja, porque tem álcool, provoca forte desidratação e diminuição de água no tecido cerebral com as consequências que são por demais conhecidas a curto e longo prazo. Desta feita o ideal seria que, após uma noite de copos de cerveja, se bebesse bastante água natural. Mas quem se lembra ou consegue fazer tal coisa ?
Afinal devemos ou não beber cerveja ? A resposta ,como para tudo, é moderação. A cerveja é, sem dúvida, uma bebida saudável e que faz parte da dieta do Homem desde tempos ancestrais. Foi muitas vezes olhada como uma bebida dos pobres e inferior ao vinho, mas tem vindo a crescer não só em termos de qualidade como também de consumo. É hoje bem nítido que as cervejas não são apenas boas para beber, como também fazem bem à nossa saúde, desde que consumidas moderada e regularmente, isto é, não mais de duas garrafas " mini" por dia. Há muita publicidade que se refere aos benefícios do vinho na saúde, levando a que as pessoas considerem que apenas esta bebida nos trará bem-estar. Todavia a cerveja, tal como o vinho, contem um grande número de componentes, entre os quais antioxidantes e vitaminas.
Para os meus leitores que querem uma explicação mais alargada de como se dá a filtragem das substâncias nocivas nos rins aqui vai um pequeno resumo que suponho seja suficiente. Cada rim contém cerca de um milhão de unidades encarregadas da filtragem (nefrónios). Um nefrónio é constituído por uma estrutura redonda e oca (cápsula de Bowman), que contém uma rede de vasos sanguíneos (o glomérulo).
O sangue penetra no glomérulo com uma pressão elevada. Por tal facto, grande parte da fracção líquida do sangue é filtrada através de pequenos poros situados nas paredes dos vasos sanguíneos do glomérulo e também pela camada interna da cápsula de Bowman; as células sanguíneas e as moléculas maiores, como as proteínas, não são filtradas. O líquido filtrado, já depurado, penetra no espaço de Bowman (a zona que se encontra entre as camadas interna e externa da cápsula de Bowman) e passa pelo tubo que sai da mesma. Na primeira parte do tubo (tubo proximal), absorvem-se a maior parte do sódio, água, glicose e outras substâncias filtradas, as quais, posteriormente, voltam a integrar o sangue. . A parte seguinte do nefrónio é a ansa de Henle. À medida que o líquido passa através da ansa, o sódio e vários outros electrólitos são bombeados para o interior do rim e o restante fica cada vez mais diluído. Este líquido diluído passa para a parte seguinte do nefrónio (o tubo distal), onde se bombeia mais sódio para dentro, em troca de potássio, que passa para o interior do tubo.
O líquido proveniente de vários nefrónios passa para o interior do chamado tubo colector. Nos tubos colectores, o líquido pode seguir através do rim sob a forma de urina diluída, ou a água desta pode ser absorvida e devolvida ao sangue, fazendo com que a urina seja mais concentrada. Mediante as hormonas que influem na função renal, o organismo controla a concentração de urina segundo as suas necessidades de água.
A urina formada nos rins flui pelos ureteres para o interior da bexiga, onde é armazenada até sair para o exterior.
Depois de tudo isto, beba cerveja , mas com moderação e não esqueça de um copo de água ao deitar para repor a água perdida por diurese.

24.9.10

MIGRAÇÕES

Vou hoje abordar um tema que tem despertado a curiosidade de muitos biólogos e outros cientistas já que o seu conhecimento perfeito pode vir a reverter em benefício humano. Estou a falar das migrações animais e de como eles se orientam nessas deslocações.
Por definição, geralmente aceite por todos, chamam-se migrações animais às deslocações realizadas, periodicamente ou não, em limites de espaço e tempo significativos em relação ao tamanho e à duração da vida da espécie e que não sejam para a busca diária de alimento Alguns autores só reconhecem ser migração quando nela existe periodicidade regular, como, por exemplo, quando ocorre todos os anos. São aceites como migrações, deslocações sazonais determinadas pela modificação das condições alimentares ou climáticas, servindo como exemplo os deslocamentos de alguns animais que habitam regiões descampadas e que se refugiam na floresta, ao surgir o frio do Outono, procurando um estrato de vegetação semelhante àquele em que normalmente vivem. Também há migrações ligadas à reprodução. Peixes marinhos, como o arenque, procuram águas menos profundas, nas proximidades da costa, para a postura. Focas, pinguins e tartarugas marinhas buscam terra firme e aí permanecem durante o período de reprodução, voltando depois ao habitat marinho. Nas migrações entre mar e rios, distinguem-se as espécies que sobem a corrente e outras que a descem. Podem-se observar migrações com periodicidade inferior a um ano, como as de muitas espécies de gafanhotos das regiões quentes, que formam enxames migradores, mais ou menos regularmente. As migrações características de muitas aves, cobrindo grandes distâncias estão ligadas à alimentação e coincidem com certa estação do ano. Vejamos algumas migrações mais em pormenor :
Migrações dos peixes. Os peixes migradores enquadram-se em duas categorias: os que se deslocam sem mudar de ambiente, como o arenque, a anchova e o bacalhau e os que alternadamente se deslocam da água doce para a salgada e vice-versa, como as enguias e robalos. Os salmões do Atlântico abandonam as águas do mar e procuram os rios para desovar subindo em direcção à nascente, onde se dá a postura, a fecundação e o nascimento de novos salmões. Estes, ao atingirem certo grau de desenvolvimento, descem o rio em direcção ao mar, enquanto os adultos permanecem nas cabeceiras dos rios, onde morrem devido ao esforço da subida e da fecundação. Um facto singular é que os salmões migram em direcção ao rio onde nasceram e não a outro qualquer. Acredita-se que, ao aproximarem-se do litoral são atraídos quimicamente pelas partículas dissolvidas nas águas do rio onde nasceram. As enguias comportam-se de maneira oposta: vivem nas águas salobras ou doces da Europa e de África, que em certo momento abandonam em busca do mar do Sargaço. Essa migração abrange a maior parte da vida larvar deste animal.
Aves. As aves são os mais conhecidos viajantes do reino animal, embora nem sempre visíveis, pois em geral se deslocam durante a noite. Com o estudo sistemático das migrações das aves, que inclui o registo dos locais de partida e pouso, descobriu-se que, por exemplo, todos os Outonos bandos de tarambolas-douradas (Charadrius pluvialis) se reúnem no litoral do Alasca, vindas das tundras dessa região. Sobrevoam o estreito de Bering e as Aleutas, e dirigem-se então para o Hawai , a mais de dois mil quilómetros ao sul. Também poderíamos citar , em Portugal ,o caso das andorinhas que chegam ao nosso país na Primavera vindas de África e que a este continente retornam no Outono. Ao voo das andorinhas pode-se comparar o das borboletas Danais plexippus, que surgem na primavera, no norte dos Estados Unidos e sul do Canadá, onde se reproduzem. No Outono, reúnem-se em grandes bandos que emigram para o sul e passam o inverno nos Estados Unidos, perto do golfo do México. A explicação destas migrações não é consensual . Alguns especialistas acreditam que ela se deve directa ou indirectamente a uma razão alimentar. Outros argumentam, porém, que não se pode atribuir a migração a um único factor, seja ele a alimentação, a redução do número das horas de luz no dia etc. Mais provável é a existência de uma combinação de factores externos (como alimentação e temperatura) e internos (como os ritmos de metabolismo) que em conjunto determinariam a força migradora. É que mudanças hormonais são observáveis nesses períodos e a inquietação migradora dá-se mesmo em animais em cativeiro, bem protegidos e alimentados. Peixes de aquário comportam-se de modo semelhante. Por manipulação fotoperiódica é possível mesmo induzir a inquietação nesses peixes Mas como explicar o sentido de orientação dos animais que leva a que, como é caso das andorinhas, voltem a Portugal e aos ninhos onde nasceram ?
Para fazerem a viagem de ida e volta orientam-se pelo Sol, pelas estrelas e pelo campo magnético terrestre, como parecem mostrar as descobertas dos ornitólogos de Marquenterre que coincidem com descobertas de cientistas da Max-Planck-Gesellschaf (Sociedade Max Planck para a Promoção das Ciências), um instituto de pesquisa alemão, e do Instituto Ornitológico de Sempach, na Suíça.
Já que estamos a falar de orientação animal analisemos alguns exemplos mesmo que não ligados a migrações, no verdadeiro sentido da palavra.
Vejamos o caso dos pombos correios que largados a milhares de quilómetros voltam ao pombal onde nasceram ; Os cientistas da Nova Zelândia revelaram que os pombos correio têm minúsculas partículas de ferro no bico superior que funcionam como as agulhas de uma bússola. “Essas partículas, que poderíamos comparar a agulhas, giram e indicam a direcção do norte” magnético terrestre, explica Cordula Mora, coordenadora da pesquisa. Este facto dos pombos serem orientados pelo campo magnético terrestre já tinha sido sugerido por outros investigadores mas nunca comprovado. O mesmo se deverá passar com as andorinhas, a que alguns cientistas acrescentam o sol.
Passemos agora ao bem estudado processo de orientação das abelhas. que é baseado principalmente tendo o sol como referência.
Para retornar à colmeia, por exemplo, aprendem a situar a posição desta em relação ao sol, registando uma posição de que jamais se esquecem, mesmo nos dias nublados e encobertos, graças à sua sensibilidade em captar a radiação ultravioleta emitida pelo sol. Trata-se de uma espécie de memória geográfica.
As abelhas utilizam o mesmo sistema de orientação para guiar as suas companheiras em relação às fontes de alimento recém-descobertas.
Neste caso, quando querem informar sobre a localização e fontes de alimentos, as abelhas transmitem a informação por meio de um sistema de dança. Quando a fonte de alimento está situada a menos de cem metros da colmeia, a abelha executa uma dança em círculo e, quando a fonte de alimento está localizada a mais de cem metros, a dança é em oito. Nas duas situações ela indica a direcção da fonte de alimento pelo ângulo da dança, em relação à posição do sol ,naquele momento.
Outro animal com sentido de orientação desenvolvido é o cão Embora nem todos os cães sejam pombos-correios de quatro patas, a verdade é que eles possuem um sexto sentido que lhes permite encontrar o caminho para casa, de onde quer que se encontrem. A Ciência explica isto como sendo um comportamento instintivo, que se baseia em referências visuais , na posição do sol e das estrelas e odores característicos transportados por ventos. Histórias verídicas, relatam odisseias incríveis de animais que percorrem distancias enormes para regressar a casa. Por vezes parece mesmo que os animais possuíam um sexto sentido especial, um super-poder animal, que escapa a qualquer explicação .
Mais estranho ainda é a orientação das formigas. A descoberta é de uma equipa de investigadores do Instituto Max Planck em Jena, na Alemanha, que estudou e treinou formigas Cataglyphis no deserto da Tunísia para perceber a sua estratégia de orientação naquela paisagem desolada. O artigo foi publicado na Frontiers in Zoology.
As formigas têm visão, mas acima de tudo cheiram, através das antenas. E por causa disso conseguem produzir um sofisticado mapa de odores do local onde se encontram para regressarem direitinhas ao ninho. Se assim não fosse, as formigas do deserto da espécie Cataglyphis fortis perder-se-iam irremediavelmente.
Os investigadores identificaram por cromatografia as assinaturas químicas dos odores que as formigas utilizam para se orientarem de regresso ao ninho, através do deserto - cada micro-habitat tem uma assinatura específica que as formigas conseguem reconhecer. Esta explicação é diferente da que é dada para as formigas que assolam as nossas casas e que vão e voltam por um mesmo carreiro. Neste caso para não perder o caminho, quando a formiga sai do formigueiro para procurar comida, ela arrasta o seu abdomen no chão deixando um rastro de uma substancia chamada de ácido fórmico, que marca o caminho de ida e volta entre a comida e o formigueiro, assim todas as formigas seguem esse caminho. Se passar o dedo no meio desse caminho limpando esse rasto de ácido fórmico as formigas ficam desorientadas e andam em círculos cada vez mais largos até achar de novo a marca química, isto é,o caminho de volta.
Já que estamos a falar de invertebrados analisemos o caso das lagostas : O campo magnético da terra é uma fonte difusa de informações direccionais utilizadas por diversos animais marinhos. Experiências comportamentais com lagostas, revelaram que têm uma orientação magnética que lhes permite adquirir um “ mapa magnético” das zonas onde vivem e determinar a sua posição em relação a objectivos específicos, embora sejam mal conhecidos os mecanismos neurais que estão por detrás da orientação magnética . Um sistema de modelo promissor é o da Tritonia que possui uma bússola magnética num relativamente simples sistema nervoso. Seis neurónios no cérebro de T. diomedea foram identificado por responder às alterações dos campos magnéticos.
Quanto mais estudamos o mundo animal mais admirados ficamos com as capacidades que os animais possuem para utilizarem a natureza em seu proveito e que o homem possivelmente perdeu durante a sua longa evolução.




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