12.10.10

ARCOBOTANTE

Porque eu gosto imenso das catedrais com arquitectura gótica e crer que muitas outras pessoas estarão na mesma linha de pensamento, sem contudo se aperceberem do jogo de forças físicas que permitem erguer estas maravilhas , falarei hoje do seu elemento essencial o ARCOBOTANTE.
Por definição, arcobotante é uma construção em forma de meio arco, erguida na parte exterior das catedrais góticas para repartir o peso da sua cobertura por vários pontos e não sobre toda a parede lateral.
A característica mais marcante da arquitectura gótica das grandes catedrais é o seu tipo de abóbada, feita em arcos cruzados que, em combinação com arcos transversais, se apoiam em colunas de alvenaria que suportam todo o peso dessa cobertura.Os arquitectos das catedrais góticas acharam que, como as enormes forças provocadas pelas abóbadas ficavam concentradas em pequenas áreas, estas forças poderiam ser suportadas por contrafortes e arcos externos, os chamados arcobotantes. Assim, as grossas paredes da anterior arquitectura românica poderiam , na sua grande maioria, ser substituídas por paredes finas, o que proporcionava a abertura de grandes janelas e favorecia a iluminação do interior dessas catedrais. Além disso, os espaços interiores também podiam alcançar alturas sem precedentes, permitindo também a construção de mais duas naves laterais, além da nave central das igrejas romãnicas. As novas catedrais mantiveram e ampliaram o formato da zona do altar-mor das catedrais românicas francesas, que inclui o corredor semicircular conhecido como o ambulatório, as capelas radiais, e a alta abside poligonal (às vezes quadrada) que cerca o altar-mor. A nave gótica central e o coro são igualmente de procedência românica. O uso de arcos ogivais em diagonal permitiu direccionar o peso das abóbadas para os contrafortes, que por sua vez descarregam estas pressões no solo. Para isso, como já dissemos, foi fundamental a adopção do arco em ogiva que recebe mais directamente as pressões exercidas pelo tecto. No estilo gótico, os contrafortes não são mais as colunas internas encostadas ás paredes, mas sim erguidos na parte exterior das naves laterais. O segmento de arco que recebe a pressão exercida pelo peso da abóbada e que a transmite ao contraforte, chama-se, como já referimos, arcobotante (ver foto seginte). Nesta arquitectura existe uma série de forças em equilíbrio, que se compensam umas às outras. As janelas com vitrais são tão grandes que reduziram o edifício a um simples esqueleto de pedra, fechado por essas janelas que , forçosamente, são também ogivais. Uma outra solução encontrada foi subdividir a abertura em dois arcos ogivais mais reduzidos, encimados por uma pequena rosácea. Nesta linha de ideias a fachada principal das igrejas góticas é delimitada por duas torres que partem da base das naves laterais. Estas torres são rasgadas por janelões e rematadas por campanários, normalmente terminados em agulha. No meio das duas torres situa-se a rosácea, imenso círculo que deixa passar a luz em sentido longitudinal, iluminando o altar-mor ao fundo da igreja.
Vamos agora tentar explicar melhor como funciona o arcobotante . Quando uma parede, devido ao seu peso, ameaça cair, não é verdade que um vigamento colocado obliquamente a segura? Da mesma forma a pressão que tendia a destruir o edifício gótico foi captada e conduzida por meio de arcobotantes até massas muito pesadas: os contrafortes, pilares tão sólidos, tão bem enterrados no solo que não correm o risco de ceder aos maiores pesos. E, para que houvesse maior certeza de que resistiriam, foram carregados com um peso complementar, uma espécie de torreão de pedra, o pináculo, da mesma forma que, para impedir que uma bengala escorregue ou se incline, basta apoiar fortemente a mão sobre o castão. (ver esquema a seguir)
Este sistema é um dos paradoxos da arquitetura gótica pois a impressão de um impulso para o céu deriva, na realidade, de que toda a sua estrutura corresponde a um movimento de cima para baixo, não esquecendoE, quando que esse fantástico arabesco repousa sobre alicerces de um volume enorme, enterrados a uma profundidade de quinze metros. Resolvido o problema da cobertura, as naves elevaram-se mais ainda, quase além do que era prudente e, por uma lei elementar das proporções, alongaram-se e ultrapassaram tudo o que até então fora feito. E também se multiplicaram: naves triplas e quíntuplas conduziam as multidões por avenidas triunfais até o altar do Deus presente. Os campanários, como que impelidos pela força ascendente que elevava todo o edifício, ergueram-se a alturas nunca atingidas: 82 metros em Reims, 123 em Chartres, 142 em Estrasburgo e 160 em Ulm.
Lista bibliográfica sobre o tema:GOZZOLI, M.C. Como Reconhecer a Arte Gótica. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
.RIBEIRO, F. História crítica da Arte – 5 volumes. Rio de Janeiro: Fundo Cultura, 1965.
RIBEIRO, H.P. A arte gótica. Bauru: Unesp, 1969.
.UPJOHN E.M., WINGERT, P.S., MAHLER, J.G. O Neoclassicismo e oRromantismo in História Mundial da Arte: do Barroco ao Romantismo. 3ª edição, Livraria Bertrand
GUINSBURG, J. O Romantismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 197
UPJOHN, E.M.; WINGERT, P.S.; MAHLER, J.G. História Mundial da Arte: Dos Etruscos ao Fim da Idade Média. 4.ed. São Paulo: Bertrand, 1975. DISCIPLIMA: HISTÓRIA E ESTÉTICA DA ARTE-PROF.: WILLIANS BAL HISTÓRIA DA ARTE: DO GÓTICO AO ROMANTISMO:Licínia de Freitas Iossi,Katherine Zuliani,Thaís GoldKorn,Fernando Ramos Geloneze,Vinícius Ramires Álvares,Lívia Cerqueira Leite,Guilherme AmaralSitiolorafia:

7.10.10

EVOLUÇÃO DA ALIMENTAÇÃO HUMANA


Perguntaram-me como teria evoluído a alimentação humana desde os tempos do Homo primitivo até aos nossos dias . A resposta , aparentemente fácil, é baseada no estudo dos fósseis do género Homo. Esse estudo paleontológico centra-se na forma e dentição dos maxilares, indo ao ponto de analisar a quantidade de esmalte dentário e a forma da coroa dos molares. Também se analisam os restos fossilizados de animais que serviram de alimento ao homem das cavernas . Neste último caso incluímos ossos e até conchas de animais marinhos e, neste caso, em Portugal são célebres os concheiros de Muge que datam do Mesolítico.
Como não podia deixar de ser, o homem primitivo, tal como qualquer outro animal, alimentava-se individualmente do que conseguia caçar e de plantas silvestres, vivendo só dos recursos naturais. Dependia das condições climatéricas, das secas e das inundações. Era um recolector puro. Com o passar de milénios, já no Neolítico, o homem aprendeu a domesticar os animais passando a depender da pastorícia, sem necessidade das longas e por vezes perigosas excursões de caça .Fazia já uma alimentação comunitária. Ao tornar-se sedentário e com a aparição da agricultura, a sua alimentação melhorou um pouco . Porém continuava dependente das calamidades naturais, normalmente climatéricas, por não saber armazenar e conservar os alimentos, daí que as fomes assolassem periodicamente as populações em qualquer parte do planeta.
A paleontologia humana mostra curiosamente que a melhoria na qualidade da alimentação acompanhou um crescimento evolutivo do cérebro. Todos os australopitecos estudados apresentavam características esqueléticas e dentais estruturadas para processar alimentos vegetais duros e de baixa qualidade energética. Certamente ingeriam carne ocasionalmente, tal como os chimpanzés de hoje, e estudos em membros mais antigos do gênero Homo sugerem que o Homo ancestral consumia menos matéria vegetal e mais animal.
Quando se estuda a evolução humana surge a pergunta :o que terá empurrado o Homo para uma maior qualidade dietética, necessária ao crescimento cerebral? Terá sido a mudança ambiental ? Ao que hoje se sabe, os Hominídeos surgiram em África e a crescente aridez da paisagem africana limitou a quantidade e variedade de alimentos vegetais comestíveis e também de animais Aqueles seres que na linha evolutiva deram origem aos robustos australopitecos desenvolveram modificações anatómicas que permitiram a subsistência com alimentos de mastigação mais difícil, porém em maior disponibilidade. O Homo erectus , desenvolveu a primeira economia caçador e recolector, em que animais de caça eram uma parte significativa da dieta com estes recursos a serem compartilhados entre os membros do grupo. A adição de pequenas porções de comida animal á dieta de frutos e outros vegetais , combinada com a divisão dos recursos que é peculiar dos grupos de caça e colecta, teria significantemente aumentado a qualidade e estabilidade da vida dos hominídeos. Uma melhor qualidade dietética, por si só, não explica por que os cérebros dos hominídeos cresceram, mas parece ter desempenhado um papel crítico na eclosão daquela mudança. Após um grande estímulo inicial no crescimento do cérebro, a dieta e a expansão desse órgão provavelmente interagiram em sinergia; cérebros maiores produziram comportamento social mais complexo, o que conduziu a outras estratégias em tácticas de obter alimento e a uma melhor alimentação que, por sua vez, fomentou a evolução adicional do cérebro. Como afirmam alguns estudiosos, a evolução do Homo erectus na África, hà 1,8 milhões de anos atrás, marcou a terceira viragem na evolução humana: o movimento inicial dos hominídeos para fora da África em busca de mais alimento. A evolução da alimentação provocada pelo êxodo foi muito lenta , e a prova do que afirmamos é que , milhares de anos depois, a população da Europa ainda não conseguia saciar a fome, para já não falar na China onde, até à primeira metade do século XX, raramente havia um ano sem fome. Ainda hoje ela não desapareceu da Ásia, da Indonésia, da África e de alguns países da América do Sul. Mas felizmente, excepto quando há calamidades ou guerras, as grandes fomes absolutas parecem estar em vias de desaparecimento, embora muitas populações sofram ainda de subalimentação, como acontece nos países subdesenvolvidos.
Ao invés, as crises de fome acabaram nos países considerados desenvolvidos, desde que as máquinas agrícolas fizeram a sua aparição e vieram permitir uma cultura intensiva do solo. Transportes rápidos, adubos químicos, irrigação, selecção de plantas e animais, combate aos parasitas agrícolas por meio de insecticidas químicos, criação da indústria das conservas, da indústria do frio, tudo isso transformou a alimentação humana. Esta transformação foi ainda acelerada pela industrialização da produção agrícola. Poucos produtos são hoje consumidos sem preparação industrial: legumes e frutos, carne, peixe, ovos, leite. A maior parte dos outros (e até parte destes) é preparada industrialmente, tratada por meios mecânicos, esterilizada pelo calor ou por raios ultravioleta, congelada, perfumada, colorida, purificada por produtos químicos, pasteurizada, destilada. A ciência química cria cada vez mais elementos de síntese, em particular produtos vitaminados. Mas não há bela sem um senão! A introdução da química na alimentação trouxe vários perigos com o uso dos adubos químicos, dos pesticidas e dos aditivos.
Se é verdade que os adubos químicos vieram possibilitar maior rendimento das colheitas , a verdade é que a qualidade dos alimentos piorou pois estes produtos alteram a qualidade dos alimentos, são incapazes de restaurar integralmente os solos e contribuem em grande escala para a poluição das águas, quando são arrastados pelas chuvas para os rios.
O DDT que em tempos foi muito usado como insecticida é hoje reconhecido como inconveniente. Este veneno absorvemo-lo nós juntamente com os legumes, o leite, a carne, os frutos, os cereais etc. Os insecticidas penetram na polpa dos vegetais e misturam-se na seiva. Os vegetais ao serem ingeridos pelos animais, acumulam-se na sua gordura e voltam a estar nos produtos alimentares de origem animal que nós ingerimos.
Muitos dos animais destinados ao talho recebem uma alimentação química que lhes eleva rapidamente o peso. Entre esses produtos, estão antibióticos e sulfamidas e, na criação industrial de aves de capoeira, hormonas femininas sintéticas. Estes produtos não são destruídos pela cozedura e muitas dessas hormonas vão dar origem às dioxinas, que são cancerígenas Também no número extremamente elevado de aditivos que são usados, alguns são cancerígenos. Até o alimento dos pobres, o pão, não foge às influências nefastas da modernização . Há ainda cem anos , o homem podia alimentar-se quase exclusivamente de pão. Hoje não o poderia fazer porque o seu valor alimentar diminuiu e ele já não é um alimento completo e fiável. Em primeiro lugar porque os trigos de grande rendimento que se cultivam agora são ricos em amido mas pobres em glúten e sais minerais, para já não falar no seu cultivo onde são usados adubos e pesticidas químicos. Até a substituição das velhas mós de pedra pelos cilindros de aço veio proporcionar uma produção maior e de uma farinha mais branca, sem as impurezas que coloriam ligeiramente a farinha e eram constituídas por substâncias nutritivas preciosas, (fósforo, cálcio, magnésio, ferro, silício, iodo, manganésio) e vitaminas B e E. Neste momento já nem quero falar nos alimentos transgénicos de que tanto se fala .
Creio que fui rápido demais na explicação histórica da evolução da alimentação humana e por isso voltemos atrás : Um dos momentos cruciais na evolução da alimentação do homem foi o controlo do fogo durante o período Paleolítico, há cerca de 2,5 milhões de anos . Não se sabe exactamente quando os precursores do Homo sapiens deixaram de consumir alimentos tal como ficavam quando os caçavam e recolectavam. Descobertas arqueológicas em cavernas da China fazem supor que o homem de Pequim,( 250 mil e 500 mil anos atrás), já utilizava o fogo para se aquecer e cozinhar carnes e vegetais . Esses são os primeiros sinais de que o homem procurava modificar os alimentos que consumia, sendo isso muito visível no período Neolítico . Ao perceber que carnes e vegetais cozidos duravam mais tempo, passou a usar o processo .Com a defumação, pela exposição das carnes e peixes à fumaça resultante da queima de madeira e carvão, fazia-se a desidratação, criando nos alimentos uma capa protectora para durar mais. Nós hoje sabemos, que há o risco das dioxinas, mas quem não vai ainda hoje procurar os “fumeiros”? Na Europa, a partir da Idade Média, criou-se o hábito de comer carne de porco e para a conservar , parte era salgada, parte defumada e o restante usado no preparo de enchidos. No nosso país interior, continuamos hoje a fazer o mesmo. Quem não conhece os presuntos caseiros? Supõe-se que a primeira forma de salga consistia em enterrar os produtos da caça na areia da praia, para que o sal do mar penetrasse nos alimentos. Na Antiguidade, fenícios, egípcios e gregos secavam peixes para poderem transportá-los com segurança. No entanto, a história mostra que o hábito do sal para preservar alimentos vem quase sempre combinado com a exposição ao sol e daí o hábito, presente até há poucos anos em Portugal, da salga do bacalhau realizada ao ar , ao sol e às moscas, nas nossas praias e linhas de costa .Na Mesopotâmia, por volta de 2000 a.C, os peixes eram abertos e conservados em salmoura a que por vezes se juntavam ervas aromáticas, tão ao gosto dos romanos . E quem fala de peixe, fala de carne, por exemplo a de bovino, ainda hoje assim preparada no Brasil, a célebre carne de sol. A utilização de baixas temperaturas para a conservação de alimentos também se perde na história. Foi no período Neolítico que o homem descobriu que a carne de caça e os vegetais guardados em locais frios se conservavam por mais tempo. Assim, o homem pré-histórico depositava seus alimentos nas partes mais escuras e frescas das cavernas. Hoje usamos os gigantescos armazéns frigoríficos , os porta contentores refrigerados e até aviões de carga com porões refrigerados pelas baixas temperaturas que existem nas altas zonas da atmosfera.
Suponho ter dado uma ideia do tema, reconhecendo que muito ficou por dizer.

3.10.10

O CASTELO DO PORTO


Tal como acontece em Coimbra , quem visita a cidade do Porto não encontra um castelo propriamente dito o que parece estranho numa cidade tão antiga. Os romanos referiram-se a um núcleo populacional junto ao rio Douro como Portuscale, na zona do morro da Pena Ventosa que é onde hoje se situa a Sé. Nesta zona encontraram-se vestígios romanos e pré romanos que atestam uma continua ocupação, logo deveria haver alguma edificação defensiva. ( Durante as décadas de 1980 e de 1990, as investigações arqueológicas realizadas nas traseiras da , nomeadamente na Casa da Rua de D. Hugo n.° 5, permitiram identificar um perfil estratigráfico que ilustra a evolução do núcleo primitivo da cidade. Destes estudos concluiu-se ter havido uma ocupação quase contínua do local desde os finais da Idade do Bronze.)
Continuando a atestar a ocupação da zona, diremos que no Itinerário Antonino ( sec II) aparece a designação de Cale ou Calem para o morro de Pena Ventosa e daí talvez Portuscale que, no primeiro quartel do século XII, era apenas citado como Portus , já que cale designava travessia ou passagem.
Mas houve ou não um castelo ? O que encontramos hoje são restos de dois muros defensivos , ambos medievais , a cerca velha ou sueva e a cerca nova mais conhecida por muralha fernandina. Terá sido sobre os alicerces da fortaleza sueva , arrasada no ano 825 pelo rei mouro Almançor que Moninho Viegas , trisavô de Egas Moniz ( aio de D. Afonso Henriques), teria mandado edificar a cerca velha no período da reconquista. Dentro desta cerca certamente haveria um castelo ou uma torre defensiva, mas dela não há vestígios.
Esta cerca velha existia ainda em 1120 já que , aquando da doação do burgo ao bispo D: Hugo, lê-se no documento mandado exarar por D.Teresa que além do burgo pertenciam ao bispo terrenos extra muros. logo havia uma muralha .Como a cerca velha se situa no morro da Pena Ventosa o castelo deveria situar-se dentro dessa cerca, onde hoje está a Sé.
No que respeita à cerca nova ( muralha Fernandina) diremos : A Muralha Fernandina começou a ser pensada em 1336, quando reinava em Portugal D.Afonso IV, devido à tentativa de invasão do rei castelhano D.Afonso XI.
Era necessário proteger uma cidade, que se tinha expandido para além da Cerca Velha .A muralha, que tinha uma altura de 30 pés (10 metros), ficou terminada no reinado de D.Fernando, daí a designação de Fernandina.O traçado seguia pela margem ribeirinha do Douro até ao limite com Miragaia, subia pelo Caminho Novo, pela Sé e descia pela escarpa dos Guindais até à Ribeira.( foto do texto) Esta muralha envolvia a cerca velha e os seus muros, reforçados por trinta torres, abriam para o exterior por várias portas e postigos. No interior da cerca nova outras cercas havia , delimitando a judiaria e os terrenos administrados pelas ordens religiosas. Em nome do progressivo desenvolvimento urbano a muralha Fernandina começou a ser derrubada no final do século XVII e os seus seculares muros foram sendo submersos pelo casario ou demolidos para a abertura de novas ruas. Para muitos dos edifícios públicos, que foram construídos a partir do séc. XVII, foram aproveitadas as pedras da muralha derrubada. No séc. XIX, a muralha sofreu a condenação final, sendo demolida na sua quase totalidade. O que hoje resta e vemos, é considerado monumento nacional.
Colocámos a hipótese de o castelo ou torre de defesa se ter situado onde hoje está a Sé. Não podemos esquecer que a Sé do Porto é um edifício de estrutura romano-gótica, dos séc. XII e XIII, tendo sofrido grandes remodelações no período barroco (séc. XVII-XVIII). No interior conserva ainda o aspecto de uma igreja-fortaleza com ameias, mas nada garante que a hipótese de ali ter sido a fortaleza .seja correcta

29.9.10

CERVEJA E DIURESE


Embora o título desta mensagem pareça despropositado, a ideia é alertar para o abuso desta bebida, sem as devidas precauções.
Comecemos por dizer que diurese é a produção de grande quantidade de urina e que pode haver várias razões para que tal venha a acontecer . Uma delas é a ingestão de cerveja e daí se dizer que a cerveja é diurética. No fundo, tudo está no funcionamento dos rins que fabricam urina com a finalidade de regular a concentração de minerais no sangue e de limpar, dessa forma, o organismo de compostos inúteis. Com esta frase até parece que me estou a contradizer . Recordemos que a urina é composta aproximadamente por 95% de água e 2 % de ureia. Nos 3% restantes, podemos encontrar fosfatos, sulfatos, amónia, magnésio, cálcio, ácido úrico, creatinina, sódio, potássio e outros elementos.
Como estas substâncias não são inertes ou inofensivas em maiores percentagens que o normal, é necessário uma maior quantidade de água para serem diluídas e retiradas do sangue .
Voltando ao assunto do título da mensagem, a cerveja tem grande quantidade daquelas substâncias tais como açúcares, proteínas , iões e outras moléculas, resultantes da fermentação do lúpulo logo os rins necessitam de maior número de moléculas de água para as diluir e excretar, indo buscar essa água ao organismo. Tal facto pode provocar desidratação e desequilíbrio percentual a nível de outros minerais que são necessários ao metabolismo celular. Este é o primeiro alerta que deixo.
Para se ter uma ideia do que afirmei ,direi que, se bebermos um litro de água os rins fabricam 385 ml de urina, mas se bebermos um litro de cerveja eles fabricam 1012 ml de urina, quase três vezes mais.
Mas há mais ! Um consumo exagerado de cerveja, porque tem álcool, provoca forte desidratação e diminuição de água no tecido cerebral com as consequências que são por demais conhecidas a curto e longo prazo. Desta feita o ideal seria que, após uma noite de copos de cerveja, se bebesse bastante água natural. Mas quem se lembra ou consegue fazer tal coisa ?
Afinal devemos ou não beber cerveja ? A resposta ,como para tudo, é moderação. A cerveja é, sem dúvida, uma bebida saudável e que faz parte da dieta do Homem desde tempos ancestrais. Foi muitas vezes olhada como uma bebida dos pobres e inferior ao vinho, mas tem vindo a crescer não só em termos de qualidade como também de consumo. É hoje bem nítido que as cervejas não são apenas boas para beber, como também fazem bem à nossa saúde, desde que consumidas moderada e regularmente, isto é, não mais de duas garrafas " mini" por dia. Há muita publicidade que se refere aos benefícios do vinho na saúde, levando a que as pessoas considerem que apenas esta bebida nos trará bem-estar. Todavia a cerveja, tal como o vinho, contem um grande número de componentes, entre os quais antioxidantes e vitaminas.
Para os meus leitores que querem uma explicação mais alargada de como se dá a filtragem das substâncias nocivas nos rins aqui vai um pequeno resumo que suponho seja suficiente. Cada rim contém cerca de um milhão de unidades encarregadas da filtragem (nefrónios). Um nefrónio é constituído por uma estrutura redonda e oca (cápsula de Bowman), que contém uma rede de vasos sanguíneos (o glomérulo).
O sangue penetra no glomérulo com uma pressão elevada. Por tal facto, grande parte da fracção líquida do sangue é filtrada através de pequenos poros situados nas paredes dos vasos sanguíneos do glomérulo e também pela camada interna da cápsula de Bowman; as células sanguíneas e as moléculas maiores, como as proteínas, não são filtradas. O líquido filtrado, já depurado, penetra no espaço de Bowman (a zona que se encontra entre as camadas interna e externa da cápsula de Bowman) e passa pelo tubo que sai da mesma. Na primeira parte do tubo (tubo proximal), absorvem-se a maior parte do sódio, água, glicose e outras substâncias filtradas, as quais, posteriormente, voltam a integrar o sangue. . A parte seguinte do nefrónio é a ansa de Henle. À medida que o líquido passa através da ansa, o sódio e vários outros electrólitos são bombeados para o interior do rim e o restante fica cada vez mais diluído. Este líquido diluído passa para a parte seguinte do nefrónio (o tubo distal), onde se bombeia mais sódio para dentro, em troca de potássio, que passa para o interior do tubo.
O líquido proveniente de vários nefrónios passa para o interior do chamado tubo colector. Nos tubos colectores, o líquido pode seguir através do rim sob a forma de urina diluída, ou a água desta pode ser absorvida e devolvida ao sangue, fazendo com que a urina seja mais concentrada. Mediante as hormonas que influem na função renal, o organismo controla a concentração de urina segundo as suas necessidades de água.
A urina formada nos rins flui pelos ureteres para o interior da bexiga, onde é armazenada até sair para o exterior.
Depois de tudo isto, beba cerveja , mas com moderação e não esqueça de um copo de água ao deitar para repor a água perdida por diurese.

24.9.10

MIGRAÇÕES

Vou hoje abordar um tema que tem despertado a curiosidade de muitos biólogos e outros cientistas já que o seu conhecimento perfeito pode vir a reverter em benefício humano. Estou a falar das migrações animais e de como eles se orientam nessas deslocações.
Por definição, geralmente aceite por todos, chamam-se migrações animais às deslocações realizadas, periodicamente ou não, em limites de espaço e tempo significativos em relação ao tamanho e à duração da vida da espécie e que não sejam para a busca diária de alimento Alguns autores só reconhecem ser migração quando nela existe periodicidade regular, como, por exemplo, quando ocorre todos os anos. São aceites como migrações, deslocações sazonais determinadas pela modificação das condições alimentares ou climáticas, servindo como exemplo os deslocamentos de alguns animais que habitam regiões descampadas e que se refugiam na floresta, ao surgir o frio do Outono, procurando um estrato de vegetação semelhante àquele em que normalmente vivem. Também há migrações ligadas à reprodução. Peixes marinhos, como o arenque, procuram águas menos profundas, nas proximidades da costa, para a postura. Focas, pinguins e tartarugas marinhas buscam terra firme e aí permanecem durante o período de reprodução, voltando depois ao habitat marinho. Nas migrações entre mar e rios, distinguem-se as espécies que sobem a corrente e outras que a descem. Podem-se observar migrações com periodicidade inferior a um ano, como as de muitas espécies de gafanhotos das regiões quentes, que formam enxames migradores, mais ou menos regularmente. As migrações características de muitas aves, cobrindo grandes distâncias estão ligadas à alimentação e coincidem com certa estação do ano. Vejamos algumas migrações mais em pormenor :
Migrações dos peixes. Os peixes migradores enquadram-se em duas categorias: os que se deslocam sem mudar de ambiente, como o arenque, a anchova e o bacalhau e os que alternadamente se deslocam da água doce para a salgada e vice-versa, como as enguias e robalos. Os salmões do Atlântico abandonam as águas do mar e procuram os rios para desovar subindo em direcção à nascente, onde se dá a postura, a fecundação e o nascimento de novos salmões. Estes, ao atingirem certo grau de desenvolvimento, descem o rio em direcção ao mar, enquanto os adultos permanecem nas cabeceiras dos rios, onde morrem devido ao esforço da subida e da fecundação. Um facto singular é que os salmões migram em direcção ao rio onde nasceram e não a outro qualquer. Acredita-se que, ao aproximarem-se do litoral são atraídos quimicamente pelas partículas dissolvidas nas águas do rio onde nasceram. As enguias comportam-se de maneira oposta: vivem nas águas salobras ou doces da Europa e de África, que em certo momento abandonam em busca do mar do Sargaço. Essa migração abrange a maior parte da vida larvar deste animal.
Aves. As aves são os mais conhecidos viajantes do reino animal, embora nem sempre visíveis, pois em geral se deslocam durante a noite. Com o estudo sistemático das migrações das aves, que inclui o registo dos locais de partida e pouso, descobriu-se que, por exemplo, todos os Outonos bandos de tarambolas-douradas (Charadrius pluvialis) se reúnem no litoral do Alasca, vindas das tundras dessa região. Sobrevoam o estreito de Bering e as Aleutas, e dirigem-se então para o Hawai , a mais de dois mil quilómetros ao sul. Também poderíamos citar , em Portugal ,o caso das andorinhas que chegam ao nosso país na Primavera vindas de África e que a este continente retornam no Outono. Ao voo das andorinhas pode-se comparar o das borboletas Danais plexippus, que surgem na primavera, no norte dos Estados Unidos e sul do Canadá, onde se reproduzem. No Outono, reúnem-se em grandes bandos que emigram para o sul e passam o inverno nos Estados Unidos, perto do golfo do México. A explicação destas migrações não é consensual . Alguns especialistas acreditam que ela se deve directa ou indirectamente a uma razão alimentar. Outros argumentam, porém, que não se pode atribuir a migração a um único factor, seja ele a alimentação, a redução do número das horas de luz no dia etc. Mais provável é a existência de uma combinação de factores externos (como alimentação e temperatura) e internos (como os ritmos de metabolismo) que em conjunto determinariam a força migradora. É que mudanças hormonais são observáveis nesses períodos e a inquietação migradora dá-se mesmo em animais em cativeiro, bem protegidos e alimentados. Peixes de aquário comportam-se de modo semelhante. Por manipulação fotoperiódica é possível mesmo induzir a inquietação nesses peixes Mas como explicar o sentido de orientação dos animais que leva a que, como é caso das andorinhas, voltem a Portugal e aos ninhos onde nasceram ?
Para fazerem a viagem de ida e volta orientam-se pelo Sol, pelas estrelas e pelo campo magnético terrestre, como parecem mostrar as descobertas dos ornitólogos de Marquenterre que coincidem com descobertas de cientistas da Max-Planck-Gesellschaf (Sociedade Max Planck para a Promoção das Ciências), um instituto de pesquisa alemão, e do Instituto Ornitológico de Sempach, na Suíça.
Já que estamos a falar de orientação animal analisemos alguns exemplos mesmo que não ligados a migrações, no verdadeiro sentido da palavra.
Vejamos o caso dos pombos correios que largados a milhares de quilómetros voltam ao pombal onde nasceram ; Os cientistas da Nova Zelândia revelaram que os pombos correio têm minúsculas partículas de ferro no bico superior que funcionam como as agulhas de uma bússola. “Essas partículas, que poderíamos comparar a agulhas, giram e indicam a direcção do norte” magnético terrestre, explica Cordula Mora, coordenadora da pesquisa. Este facto dos pombos serem orientados pelo campo magnético terrestre já tinha sido sugerido por outros investigadores mas nunca comprovado. O mesmo se deverá passar com as andorinhas, a que alguns cientistas acrescentam o sol.
Passemos agora ao bem estudado processo de orientação das abelhas. que é baseado principalmente tendo o sol como referência.
Para retornar à colmeia, por exemplo, aprendem a situar a posição desta em relação ao sol, registando uma posição de que jamais se esquecem, mesmo nos dias nublados e encobertos, graças à sua sensibilidade em captar a radiação ultravioleta emitida pelo sol. Trata-se de uma espécie de memória geográfica.
As abelhas utilizam o mesmo sistema de orientação para guiar as suas companheiras em relação às fontes de alimento recém-descobertas.
Neste caso, quando querem informar sobre a localização e fontes de alimentos, as abelhas transmitem a informação por meio de um sistema de dança. Quando a fonte de alimento está situada a menos de cem metros da colmeia, a abelha executa uma dança em círculo e, quando a fonte de alimento está localizada a mais de cem metros, a dança é em oito. Nas duas situações ela indica a direcção da fonte de alimento pelo ângulo da dança, em relação à posição do sol ,naquele momento.
Outro animal com sentido de orientação desenvolvido é o cão Embora nem todos os cães sejam pombos-correios de quatro patas, a verdade é que eles possuem um sexto sentido que lhes permite encontrar o caminho para casa, de onde quer que se encontrem. A Ciência explica isto como sendo um comportamento instintivo, que se baseia em referências visuais , na posição do sol e das estrelas e odores característicos transportados por ventos. Histórias verídicas, relatam odisseias incríveis de animais que percorrem distancias enormes para regressar a casa. Por vezes parece mesmo que os animais possuíam um sexto sentido especial, um super-poder animal, que escapa a qualquer explicação .
Mais estranho ainda é a orientação das formigas. A descoberta é de uma equipa de investigadores do Instituto Max Planck em Jena, na Alemanha, que estudou e treinou formigas Cataglyphis no deserto da Tunísia para perceber a sua estratégia de orientação naquela paisagem desolada. O artigo foi publicado na Frontiers in Zoology.
As formigas têm visão, mas acima de tudo cheiram, através das antenas. E por causa disso conseguem produzir um sofisticado mapa de odores do local onde se encontram para regressarem direitinhas ao ninho. Se assim não fosse, as formigas do deserto da espécie Cataglyphis fortis perder-se-iam irremediavelmente.
Os investigadores identificaram por cromatografia as assinaturas químicas dos odores que as formigas utilizam para se orientarem de regresso ao ninho, através do deserto - cada micro-habitat tem uma assinatura específica que as formigas conseguem reconhecer. Esta explicação é diferente da que é dada para as formigas que assolam as nossas casas e que vão e voltam por um mesmo carreiro. Neste caso para não perder o caminho, quando a formiga sai do formigueiro para procurar comida, ela arrasta o seu abdomen no chão deixando um rastro de uma substancia chamada de ácido fórmico, que marca o caminho de ida e volta entre a comida e o formigueiro, assim todas as formigas seguem esse caminho. Se passar o dedo no meio desse caminho limpando esse rasto de ácido fórmico as formigas ficam desorientadas e andam em círculos cada vez mais largos até achar de novo a marca química, isto é,o caminho de volta.
Já que estamos a falar de invertebrados analisemos o caso das lagostas : O campo magnético da terra é uma fonte difusa de informações direccionais utilizadas por diversos animais marinhos. Experiências comportamentais com lagostas, revelaram que têm uma orientação magnética que lhes permite adquirir um “ mapa magnético” das zonas onde vivem e determinar a sua posição em relação a objectivos específicos, embora sejam mal conhecidos os mecanismos neurais que estão por detrás da orientação magnética . Um sistema de modelo promissor é o da Tritonia que possui uma bússola magnética num relativamente simples sistema nervoso. Seis neurónios no cérebro de T. diomedea foram identificado por responder às alterações dos campos magnéticos.
Quanto mais estudamos o mundo animal mais admirados ficamos com as capacidades que os animais possuem para utilizarem a natureza em seu proveito e que o homem possivelmente perdeu durante a sua longa evolução.




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15.9.10

FALANDO DE GRAVIDADE




Nos meus verdes anos do Liceu, a força da gravidade que atraía dois corpos na razão directa das suas massas e na inversa do quadrado da distância, era um facto não questionável, mas agora fico perplexo quando vejo escrito que a força que faz cair um objecto para a terra talvez não exista e seja uma ilusão.
Vejamos a questão : A Teoria Universal da Gravidade publicada em 1687, por Isac Newton, dizia que qualquer corpo material é um centro de gravidade que submete os outros corpos a uma força para ele dirigida . A intensidade desta força era definida pela massa do corpo e pela distância entre eles , como referi de início. Tudo bem, mas muitas questões se levantaram desde o tempo de Newton e a principal é não se saber qual o suporte físico que permite a essa força ir de um corpo a outro, nem como ela actua instantaneamente qualquer que seja a distância entre os corpos . As dificuldades levantadas pela teoria de Newton pareceram ficar resolvidas por Einstein, em 1916 , quando afirmou que toda e qualquer matéria deforma a malha espaço-tempo, um pouco à maneira de um peso que afunda um pano sobre o qual é colocado. A força da gravidade confundir-se-ia com a deformação espaço-tempo que obriga os corpos que o atravessam, a uma modificação na sua trajectória .
Pois é, mas os físicos rapidamente se deram conta que esta nova teoria não era compatível com a mecânica quântica já que a teoria da relatividade geral de Einstein não é aplicável ao que se passa com fenómenos de gravidade no mundo do infinitamente pequeno, isto é, no mundo quântico.
Em 1980 surgiu a teoria das cordas que permitia integrar a teoria da relatividade com a mecânica quântica . A teoria das cordas postula que as partículas transportadoras da força da gravidade resultam de vibrações de minúsculas cordas num espaço-tempo particularmente deformado. Seria por troca destas partículas que os corpos se atraíam mutuamente. De acordo com a teoria das cordas, os componentes elementares do universo não são partículas em forma de ponto, mas sim mínimos filamentos unidimensionais que vibram sem cessar.
Estas cordas seriam agentes ultramicroscópicos que formam as partículas que, por sua vez, compõem os átomos. Estes agentes (cordas) são tão pequenas — elas têm em média o comprimento da distância de Planck ( cem biliões de biliões de vezes menor que o núcleo de um átomo)— que parecem ser pontos, mesmo quando observadas com os nossos melhores instrumentos.

Sim , tudo bem , mas o problema é que experimentalmente ainda não foi detectada a existência de cordas , portanto, será que existem ?
Também me afirmaram que a velocidade de propagação da gravidade é igual à velocidade da luz e eu até aceito que seja verdade, mas não me souberam elucidar da razão pela qual ,num buraco negro, nem a luz de lá sai tal é a força da gravidade.
Será a gravidade um fenómeno emergente e não uma força fundamental, tal como a pressão de um gás é uma força emergente, resultante do movimento de átomos em todas as direcções dependendo da temperatura e do volume a que o gás é sujeito ?
Chegados a este ponto e porque os cientistas dos diversos ramos da física não se entendem , o melhor é apenas saber que tudo o que sobe acaba por cair e que o lixo tecnológico que orbita o nosso planeta nos pode cair na cabeça , temor que o Obelix e o Asterix da BD já tinham ,quando pensavam que um dia o céu lhes caía em cima .

11.9.10

A GUERRA DO LÍTIO

As guerras com invasão de outro país têm diversas razões, entre as quais a conquista de recursos naturais. Foi assim com a Alemanha de Hitler que invadiu os países vizinhos com a desculpa da falta de espaço vital e, séculos antes,com os espanhois em relação aos Maias e Incas em busca de ouro fácil. Da mesma forma, a Rússia ocupou os seus vizinhos formando a URSS, tendo em vista as riquezas mineiras de carvão, ferro petróleo e gás natural, entre outras. Recentemente, no Iraque, foi o “ouro negro”,isto é, o petróleo que levou EUA e Inglaterra a intrometerem-se.
Há meses, o New York Times publicou uma reportagem que permite desvendar as razões da invasão e da ocupação do Afeganistão, nada menos que reservas minerais. Nessa reportagem o jornal colocava “panos quentes” nessa invasão e fingia acreditar que as imensas reservas minerais do Afeganistão só foram descobertas posteriormente e “por acaso”, mesmo quando é do domínio público que a identificação preliminar de jazidas desses recursos naturais pode, desde há muito, ser feita por satélites. Dizia o jornal que : os antes desconhecidos depósitos de ferro, cobre, cobalto, ouro e metais críticos para a indústria, como o lítio, são tão grandes que o Afeganistão poderá, no futuro, transformar-se num dos mais importantes centros de mineração do planeta (…) As imensas riquezas minerais do Afeganistão foram descobertas por uma pequena equipa de funcionários do Pentágono e geólogos norte-americanos. Seria assim, ou os USA há muito já o sabiam ? Entre as descobertas encontra-se, também, nióbio, um metal essencial para a produção de super-condutores, além de outros minerais raros. As reservas de lítio são equivalentes ou maiores do que as da Bolívia, até recentemente as maiores conhecidas no mundo. O curioso é que os soviéticos já sabiam dessas minas e fizeram um mapeamento durante o período em que as suas tropas ocuparam o Afeganistão, nos anos 80. Façamos uma pausa nesta análise político –económica e vejamos o que é e para que serve o lítio.
A Wikipedia diz-nos que o lítio é um elemento químico de símbolo Li, número atómico 3 e massa atómica 7 contendo na sua estrutura três protões e três electrões. Na sua forma pura, é um metal macio, de coloração branco-prateada, que se oxida rapidamente no ar ou na água. É um elemento sólido e leve, sendo usado especialmente na produção de ligas metálicas condutoras de calor, em baterias eléctricas e, seus sais, no tratamento da doença bipolar ( neurologia).

Devido ao seu elevado calor específico, o maior de todos os sólidos, é usado em aplicações de transferência de calor e, por causa do seu elevado potencial electroquímico é usado como um ânodo adequado para as baterias eléctricas. Além destes tem outros usos:
Os
sais de lítio, particularmente o carbonato de lítio e o citrato de lítio são usados no tratamento da depressão bipolar, ainda que, ultimamente, se tenha estendido seu uso ao tratamento da depressão unipolar.
O
cloreto de lítio e o brometo de lítio possuem uma elevada higroscopicidade, por isso são excelentes secantes. O segundo é utilizado em bombas de calor de absorção
O
estearato de lítio é um lubrificante geralmente aplicado em condições de alta temperatura.
A base hidróxido de lítio é usada nas naves espaciais e submarinos para depurar o ar, extraindo o dióxido de carbono produzido pelos seus ocupantes.
O lítio é um componente comum nas ligas metálicas de alumínio, cádmio, cobre e manganês, utilizados na construção aeronáutica, e está sendo empregado com êxito na fabricação de cerâmicas e lentes, como a do telescópio Hale de 5,0 metros de diâmetro de "Monte Palomar".
Também tem aplicações nucleares. e é usado como poderoso analgésico em operações de risco. Desde a Segunda Guerra Mundial, a produção de lítio aumentou enormemente, sendo obtido de fontes de água mineral, águas salgadas e das rochas que o contêm, sempre por electrólise.
Considerando a escassez de petróleo, as fábricas de automóveis estão-se virando para carros totalmente eléctricos com baterias de lítio. Vejamos uma noticia da Reuters
Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008 - 14h28
CHICAGO - Com o objectivo de produzir em série baterias de lítio para automóveis, 14 companhias americanas especializadas em baterias e em materiais avançados criaram uma aliança com um laboratório do governo.
O grupo, que inclui gigantes como a 3M e a Johnson Controls-Saft, receberá cerca de 2 biliões de dólares do governo dos EUA durante os próximos cinco anos para construírem uma fábrica e aperfeiçoarem as baterias de lítio para serem utilizadas em carros. É um importante acordo para o país e para o laboratório”, disse Mark Peters, responsável pelas pesquisas a respeito de baterias do Laboratório Nacional de Argonne, próximo de Chicago.
A China, o Japão e a Coreia do Sul são os actuais líderes no desenvolvimento de baterias de lítio. Os automóveis híbridos mais vendidos, como o Prius, da Toyota, usam baterias de hidrato de níquel. As baterias de lítio são consideradas o próximo salto tecnológico em direcção aos veículos que funcionam com electricidade, que poderão ser carregados de forma parecida com a que é feita em computadores.
Depois de tudo isto não é preciso dizer mais e se acrescentarmos que o lítio é um metal escasso na crosta terrestre, encontrado disperso em certas rochas e nunca no estado puro ,se perceberá o início do nosso texto

1.9.10

RADIODIFUSÃO COMO ARMA DE GUERRA (2ª PARTE)

Em 6/5/2009, publiquei , na etiqueta de cultura geral um artigo intitulado A RADIODIFUSÃO COMO ARMA DE GUERRA. Vou tentar complementar esse artigo socorrendo-me de várias opiniões que ,com a devida vénia, adaptei. Nesta adaptação tive o cuidado de não alterar as ideias-chave dos respectivos autores.
Diz Carlos Azevedo jornalista e professor da Universidade de Paraíba que…a primeira vítima de uma guerra é a verdade. Em época de conflitos bélicos mundiais, tal afirmação aplica-se muito bem a qualquer meio de comunicação social. A guerra empreendida pelos Estados Unidos contra o Afeganistão, baseada na luta contra o terrorismo, volta a mostar como os meios de comunicação tentam influenciar a opinião pública mundial.
Também no livro Estratégias de Comunicação (Lisboa, 1990), o professor Adriano Duarte Rodrigues da Faculdade de Ciências da Comunicação, da Universidade Nova de Lisboa, nos diz que a comunicação é peça fundamental para as guerras, não sendo de admirar que a fotografia, o cinema, o megafone, a telefonia e a televisão tenham sido logo associados, desde os primeiros tempos, ao campo militar. Em alguns casos, os instrumentos de comunicação são inventados primeiro com fins militares e só depois são explorados comercialmente pelos civis. Mesmo no caso do cinema, que surgiu inicialmente como arte civil, no começo do Século 20 como um divertimento sem maiores pretensões, após o seu desenvolvimento industrial, passou a instrumento de propaganda ideológica, quer para o imperialismo norte-americano quer para o regime nacional-socialista de Adolf Hitler que com os seus discursos racistas e inflamados incitava à união da raça “superior” para dominar o mundo.
A própria internet foi, inicialmente, fruto da engenharia militar. Nascida nos Estados Unidos em 1969, o seu nome original era ARPA (Advanced Research Projects Agency), um produto da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética e a sua função era articular os centros de defesa em caso de um ataque soviético. A segunda fase da tecnologia de comunicação digital foi universitária, quando ela foi popularizada nos Centros de Ensino Superior. Com o desenvolvimento da interface gráfica da WWW (World Wide Web), a internet foi simplificada com o uso de ícones que facilitaram a utilização por um público leigo. Hoje ela está na terceira fase, a comercial
A televisão foi um meio que influenciou muito a população civil norte-americana durante a guerra do Vietname , na década de 60. A exibição dos combates e da crueldade dos próprios militares americanos para com os vietnamitas mudou radicalmente a relação que a opinião pública americana tinha com aquele conflito. Protestos internos foram responsáveis pela retirada dos militares da guerra do Vietname. Aprendida essa lição, agora os norte-americanos antes de começar qualquer conflito bélico promovem uma clara censura aos meios de comunicação, principalmente à TV. Isso ocorreu na Guerra do Golfo(1990-91) contra o Iraque. As imagens dos bombardeios eram nocturnas, reduzidas à apenas clarões numa tela esverdeada. Além disso, o discurso da rede mundial da CNN dizia que com a precisão cirúrgica das bombas guiadas por computadores e sinais de rádio, as baixas civis eram reduzidas. Tratava-se de uma guerra “limpa” segundo a ideologia difundida pelos americanos. No entanto, a realidade foi bem diferente.”.
. Harold Lasswel (1902-1978), escreveu, em 1927, Técnica de propaganda na guerra Mundial, . Promovendo uma sábia dosagem de desinformação, informação e censura, os americanos criaram o conceito de guerra psicológica, no qual o inimigo (comunistas, terroristas, nacionalistas) são alvo de uma propaganda política difamatória. As agressões não se dirigem agora apenas ao corpo mas também à alma, ao espírito, ao ego dos adversários. É nesse contexto que o governo dos EUA criam, em 1933, a chamada rádio Voz da América, para difundir ideologias, quebrando fronteiras. A União Soviética e a China também souberam utilizar muito bem a guerra psicológica, através de campanhas contra o imperialismo dos EUA e estimulando os países colonizados a aderirem ao socialismo, reforçando o bloco oriental. Assim se instala no mundo a técnica da difusão de ideologias diversas através dos meios de comunicação rádio, numa tentativa de convencimento. Com o fim da guerra fria e a dissolução da utopia do socialismo internacionalista, o mundo aparentemente encontrava-se em relativa paz. Engano, puro engano. O pensador Armand Mattelart atesta: a ausência desde o fim da guerra fria, dum adversário global claramente “identificável” para os Estados Unidos ,criou a ideia nos americanos que o inimigo não era mais um país, um estado-nação . O inimigo agora é invisível, e move-se em redes subterrâneas que ligam máfias, radicalismos religiosos e interesses econômicos. É o que Mattelart chama de “novas frentes mundiais de desordem” forças que se movem no “imundus” e desafiam o “mundus”. Uma luta entre a ordem capitalista e suas próprias entranhas, estranhas entranhas.
Ao bombardearem o Afeganistão, os Estados Unidos querem acalmar a opinião pública interna, com frases de efeito, dizendo “calma, já temos o controlo da situação, já identificamos o inimigo”. A guerra, seria preferível chamar de massacre, contra o Afeganistão tem os mesmos princípios consagrados pelos teóricos da propaganda de guerra. Como o que foi feito na Guerra do Golfo (90-91), primeiro o campo de batalha é cercado e a imprensa afastada do local. Nada de imagens iniciais sobre o massacre. No máximo, assépticas imagens geradas por cameras nocturnas de alta tecnologia mostrando os mísseis teleguiados por computador e rádio, atingindo alvos cirurgicamente escolhidos Fechado o cenário de combates e promovida a censura aos meios de comunicação é hora de se manipular a opinião pública em tempos de guerra. São encomendadas pesquisas apoiando a iniciativa de guerra contra o inimigo agora palpável, o Afeganistão, país pobre, sem a menor condição de resistência ao poderio tecno-militar global dos EUA. A repetição das imagens do avião chocando contra as torres gémeas do WTC é exaustiva, talvez a cena mais vista do planeta. O mercado mundial de imagens é manipulado para se costurar a necessidade de guerra, expondo a necessidade de se ter um crescendo global contra o terrorismo, onde apenas existe um culpado que deve ser caçado, o milionário Osama bin Laden. Retoma-se também as polaridades entre oriente e ocidente, islamismo e cristianismo, fé e razão entre outras. A guerra psicológica também chega á frente de batalha: milhares de rádios são distribuídos, lançados pelos aviões para que a população possa ouvir as mensagens transmitidas pelo inimigo. Panfletos conclamando a rendição, redigidos na língua dos habitantes do Afeganistão são atirados do céu, bem como bombas e alimentos.
Segundo Sarmento Santos alguns pesquisadores e estudiosos do assunto ressaltam que na Rússia do início do século XX, a visão de Vladimir Lenine era a de que a rádio tinha o potencial para não apenas alcançar a audiência doméstica , mas também para atingir vastas possibilidades internacionais e valor "revolucionário". Lenine alertou o seu sucessor Joseph Stalin para ampliar a pesquisa sobre a rádio quando escreveu : "Eu penso que sob o ponto de vista da propaganda e agitação, especialmente para aqueles que são iletrados, é absolutamente necessário para nós levar este plano adiante". Os Russos foram os primeiros a estabelecer um sistema de rádio difusão internacional patrocinado pelo governo, de forma continua e extensiva, o qual se revelou um sistema de longo alcance e, por isso, desenvolvido como um meio de obter significativos ganhos políticos e económicos.
Alguns historiadores apontam o ano de 1927 como o marco do nascimento da propaganda pela rádio. A Grã Bretanha seguiu os passos da Rússia e da Alemanha, quando também descobriu o uso das ondas de rádio como "o perfeito meio de comunicação com suas colónias e possessões nos hemisférios ocidentais e orientais do mundo.
Nos anos que se seguiram, a Holanda e a França também iniciaram transmissões regulares para suas colónias
As transmissões de rádio difusão internacional transformaram-se em armas de efeito considerável em influenciar as mentes dos ouvintes.
Quando Adolf Hitler se tornou Chanceler do Governo Nacional Socialista da Alemanha, ele abraçou o uso da rádio difusão como o instrumento chefe de propaganda política e reorganizou a estrutura de emissões até então domésticas para incluir emissões internacionais. Nos fins de 1935, a Alemanha havia transmitido programas regulares para a Ásia, África, América do Sul e América do Norte, em alemão, inglês, espanhol, português e holandês.

26.8.10

A INQUISIÇÃO

Inquisição é o acto de inquirir, isto é, indagar, investigar, interrogar judicialmente. No caso da Santa Inquisição, significa "questionar judicialmente aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem aos preceitos da Igreja Católica". Dessa forma, a Santa Inquisição, também conhecida como Santo Ofício, foi um tribunal eclesiástico criado com a finalidade "oficial" de investigar e punir os crimes contra a fé católica. Na prática, os não cristãos representavam uma constante ameaça à autoridade clerical e a Inquisição era um recurso para impor à força a supremacia católica, exterminando todos que não aceitavam o cristianismo nos padrões impostos pela Igreja de Roma.
A Santa Inquisição teve verdadeiramente o seu início no ano de 1184, em Verona, com o Papa Lúcio III. Pouco depois, em 1198, o Papa Inocêncio III liderou uma cruzada contra os albigenses, promovendo execuções em massa. A cruzada albigense (a denominação é derivada de Albi, cidade situada ao sudoeste da França), também conhecida como cruzada cátara ou cruzada contra os cátaros, foi um conflito armado que aconteceu em 1209 e 1244, por iniciativa Papal com o apoio da dinastia dos Capetos (reis da França na época), com o fim de reduzir pela força o catarismo, um movimento religioso qualificado como heresia pela Igreja Católica e , ao mesmo tempo, dando aos Capetos a possibilidade de estender os seus territórios para sul.
Em 1229, sob a liderança do Papa Gregório IX, no Concílio de Tolouse, foi oficialmente criada a Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício.
Este tribunal instalou-se em França, Alemanha, Espanha e mais tarde em Portugal, incluindo todas colónias destes dois últimos países.
Em Portugal foi introduzida no reinado de D. João III, em 1536, após vários anos de negociações com a Santa Sé, para que ela ficasse sobre a alçada do rei. O inquisidor –geral era nomeado pelo papa mas sob proposta do rei. Havia tribunais em Lisboa, Coimbra e Évora, cidades onde estavam os grandes colégios de Jesuítas . Como é fácil de imaginar passou a ser um instrumento ao serviço do poder real e se no início se relacionava apenas com práticas religiosas , estendeu-se a outras áreas como a censura de livros, bigamia, feitiçaria e política.
O modo de actuação do tribunal era o seguinte: os suspeitos de denúncia anónima ( normalmente um papel com um nome e uma acusação deixado à porta do Santo Ofício), eram interrogados para se obter a prova de culpa , socorrendo-se o tribunal de testemunhas cujo nome era mantido secreto , ou de confissão do acusado normalmente conseguida por meio de tortura. A sentença era dada em sessão pública (auto de fé) e esta podia ser a morte na fogueira, prisão, penitencias ou apreensão de bens, daí uma perseguição movida aos judeus, cristãos novos que possuíam a riqueza .
Foi o entanto em Espanha, no tempo dos chamados Reis Católicos que a Inquisição tomou uma força enorme. Em 1545, Francisco de Enzinas, protestante exilado, escrevia assim a um amigo : Não penses que os inquisidores tenham algo de humano para além do aspecto físico. Na realidade são criados de Satanás que saqueiam Espanha e não têm interesse noutra coisa que não seja despojar os ricos dos seus haveres e em perder milhares de almas…… Quando querem apanhar algum, inventam que disse uma blasfémia , metem-no numa masmorra e inventam culpas horríveis para que o inocente seja tido como infame….tudo isto em segredo
O segredo , a tortura, os cárceres e a morte definiam esta justiça inquisitorial e justificavam o medo que o Santo Ofício inspirava nas populações .
Em Portugal a força da Inquisição gerou conflitos entre o Rei D. João IV e os Jesuítas que eram os inquisidores, por o monarca ter suspendido o confisco de bens aos judeus e cristãos novos. É no entanto no reinado de D. José que o Marquês de Pombal extingue o tribunal, no ano de 1821, e expulsa os Jesuítas do país . Em Espanha o Santo Ofício é extinto no ano de 1834.
Recuemos um pouco na história e tentemos perceber como aparece a Inquisição em Portugal, ou melhor, o Tribunal do Santo Ofício. Em Março de 1492 os reis de Castela, Fernando e Isabel, ordenaram que todos os judeus baptizados fossem expulsos sob pena de morte, e o nosso rei D. João II autorizou a sua passagem e estadia em Portugal pois o seu destino final seria o norte de África . Muitos resolveram ficar e quando o prazo de estadia terminou foram considerados cativos do rei. Em 1493 D. João II ordena que as crianças judias entre os 2 e os 10 anos fossem baptizadas e enviadas para S:Tomé onde receberiam educação cristã . Com a morte de D: João II sucede-lhe D. Manuel e um dos seus primeiros actos foi restituir a liberdade aos judeus , mas ao pretender casar com a filha dos reis católicos , esta exigiu que ele expulsasse primeiro todos os judeus e mouros de Portugal. O rei D. Manuel acedeu e manda fazer a expulsão por decreto de 24-12-1496. Por causa dos bens imóveis e dinheiro que os judeus possuíam começaram a surgir problemas nesta saída . É neste período que surgem as verdadeiras e as falsas conversões ao cristianismo e os chamados cristãos novos que eram olhados com desconfiança e inveja pela restante população e daí o aparecimento de denúncias o mais absurdas possível. Ao morrer D. Manuel e com a subida ao trono de D. João III, é pedida ao papa a introdução da Inquisição em Portugal, como já nos havíamos referido anteriormente. Os regulamentos da Inquisição portuguesa copiaram os espanhóis, criando-se em Lisboa o Conselho Geral, desvinculado de Roma.
Quando Portugal perde a independência, após a morte de D. Sebastião , governam o reino os reis Filipes de Espanha , sendo decretadas as Ordenações Filipinas. Estas que vigoraram em Portugal a partir de 1603, mandavam que os mouros e os judeus andassem com um sinal (carapuça ou chapéu amarelo para os judeus e lua de pano vermelho para os mouros).
As Ordenações eram pródigas em castigos de pena de morte. Na verdade, contudo, o degredo era quase sempre colocado, nas Ordenações, como alternativa à pena capital, com uma evidente finalidade colonizadora, uma vez que os condenados, diante de tão radical encruzilhada, acabavam optando por serem degredados para as colónias. Os modos de início do processo lembravam aqueles definidos pelo papa Inocêncio III, em 1216, a saber: per inquisitionem (de ofício, correspondente às devassas), per denuntiationem (por denúncia, em que o denunciante não se vinculava ao processo) e per accusationem (por acusação, a querela das Ordenações, em que o acusador oficiava no decorrer de todo o feito).
A tortura foi prevista nas Ordenações , com o nome de tratos no corpo, somente nos delitos de maior gravidade em que houvesse acusação escrita e mediante decisão expressa do magistrado , da qual cabia recurso. Os principais alvos da Inquisição lusitana foram como temos dito, os judeus convertidos, chegando ao ponto de um decreto de 1640 proibir-lhes o acesso aos cargos de juiz, meirinho, notário, escrivão, procurador, feitor, almoxarife, médico e boticário. Nesta época, em todas as Igrejas, os editais da Inquisição eram lidos, incitando os fieis, sob pena de excomunhão, a denunciarem as pessoas que praticassem judaísmo
No séc. XVII houve certo recuo da Inquisição, atacada de todos os lados, tanto pelos judeus instalados em posições de mando político e detentores do comércio e de muitas das riquezas locais, como até por membros do clero, como o padre António Vieira, que muito a criticou em seus sermões.
Padre António Vieira , designado pelo rei, em 1643, para negociar junto à França e à Holanda a reconquista de colónias perdidas durante guerras anteriores, propôs, entre outras coisas, o regresso a Portugal dos judeus mercadores que andavam por diversas partes da Europa, com a garantia de que não seriam molestados pela Inquisição, de modo que pudessem usar a sua riqueza ao serviço da arrasada economia do reino.
O dinheiro dos judeus serviria, também, no pensamento de Vieira, para consolidar uma Companhia de Comércio no Brasil, à semelhança das companhias holandesas, com o objectivo de defender a navegação entre a metrópole e as colónias. O dinheiro, sempre o dinheiro a deturpar o princípio religioso que a Igreja devia seguir sob a capa de combater o “pecado” da usura. Analisemos este aspecto :O Concílio de Viena de 1331 autorizou os tribunais da Inquisição a perseguir os cristãos que praticassem a usura, não mencionando se eram cristãos novos ou velhos. Com isso a igreja conseguiu livre arbítrio para sentenciar á morte um usurário e ainda ficar com seus bens em troca da salvação de sua alma. A igreja condenava o usurário porque o fruto de seu dinheiro não vinha de um trabalho suado. Os maiores usurários daquela época eram os judeus pois impossibilitados de exercer qualquer actividade liberal , procuravam alternativas para sobreviver e a que lhes sobrou foi a de fornecer empréstimos , cobrando juros sobre o dinheiro negociado, conforme o tempo que o negociante esperava para receber. Os cristãos também praticavam a usura, iludindo de inúmeras maneiras a sua proibição. O facto é que muitos cristãos praticavam este pecado, mas tendo uma preocupação cada vez maior com os lucros e a concorrência que os judeus representavam.
Através da ordenança de Melum, de 1220, os judeus foram relegados à baixa usura, ou seja, só poderiam emprestar sob penhor, aos camponeses, aos artesãos ou à plebe. Assim, o que era vinculado às heresias determinadas pelo Santo Ofício passava a um jogo de interesses ; havia uma preocupação, por parte da igreja católica, em colocar os negócios do povo hebreu numa escala inferior à dos usurários cristãos. Quando Filipe o Belo de França expulsou os judeus ficaram os usurários cristãos e o povo queixava-se deles como se pode ver numa balada da época

Toda gente pobre se queixa
Pois os judeus foram muito mais bondoso
Ao fazer seus negócios
Do que o são agora os cristãos
Pedem garantias e vínculos
Pedem penhores e tudo extorquem
A todos despojando e esfolando…
Mas se os judeus
Permanecessem no reino da França,
Os cristãos teriam tido
Muito grande ajuda, que agora
Não tem mais.
(século XIII)


Em Portugal, a usura foi apenas mais um pretexto para que se perseguisse o judeu, que juntamente com suas práticas heréticas judaizantes, se tornava alvo fácil para quem só queria enriquecer através da legitimidade de um orgão da igreja.
O Santo Ofício português começa actuar num período propício, economicamente falando, pois o espírito capitalista começa dar seus primeiros passos : onde o comerciante tem influência, a economia progride, a agricultura desenvolve-se, as cidades estruturam-se.
Nesta dinâmica de desenvolvimento europeu Portugal instaura a Inquisição e fundará o império colonial . Embora a Inquisição se tivesse se estabelecido no Reino, com a clausula de que não se confiscassem bens de condenados, durante pelo menos dez anos. o certo é que os abusos foram cometidos em nome do progresso que se instalava e propagava na restante Europa .Portugal viu na Inquisição e na prática do confisco de bens, a oportunidade para que o sonho dourado de estabilidade política e económica se concretizasse através da salvação das almas.
Assim, além de utilizar seu poder para fazer crescer e avolumar o cofre da Igreja, em troca da salvação das almas dos infiéis, o Santo Ofício infringiu o maior dos mandamentos da lei de Deus: Não Matarás.


Bibliografia sobre o tema :
AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997.

WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.

FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977.

MAISONNEUVE, Henri. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989.

19.8.10

PTEROSSAUROS


Quando se fala em répteis, a maioria das pessoas pensa em animais grandes ou pequenos, com o corpo coberto de escamas ou carapaças , com patas ou sem elas, mas sempre rastejantes, isto é, com o corpo roçando o solo e uns poucos vivendo em meios aquáticos. Nem sempre foi assim como aconteceu no passado com os pterossauros. A primeira notícia sobre estes antigos animais remonta ao longínquo ano de 1784 e é dada pelo naturalista italiano Cosimo Collini que estudava um fóssil da colecção de um alemão de nome Karl Theodor.
Este fóssil era constituído por um esqueleto insólito incrustado em calcário da Baviera: possuía um focinho alongado, boca com dentes, garras nas mãos e pés e ossos compridos e finos nas extremidades dos membros anteriores. Collini pensou que, pelo seu aspecto, deveria tratar-se de um morcego mas cedo descartou esta ideia devido ao excessivo comprimento do focinho . Durante anos este fóssil ficou por classificar e guardado numa gaveta do museu do coleccionador até que, dezenas de anos mais tarde, Georges Cuvier retomou o seu estudo e o classificou como um réptil voador , o que muito espantou os naturalistas da época.
Segundo Cuvier, os ossos mais compridos dos membros dianteiros eram falanges muito alongadas de um dedo da mão e onde se fixava a membrana alar. Cuvier criou então um novo género classificativo que designou por Pterodactylus ( dedo alado). Posteriormente outros fósseis deste género foram aparecendo e ao serem estudados com novas técnicas, começaram as surpresas: as asas eram muito diferentes das dos morcegos actuais e das asas das aves pois não se dobravam pelo cotovelo e só o faziam entre a palma das mãos e os dedos. O estudo da membrana alar revelou também um apertado conjunto de fibras duras e delgadas (actinofibrilas) que a atravessam longitudinalmente , reforçando-a e evitando a deformação provocada pelas forças aerodinâmicas do voo.
Em 2001 , os cientistas descobriram , noutros fósseis de pterossauros, que as membranas alares possuíam várias camadas de tecidos especializados e que por debaixo das já conhecidas actinofibrilas havia uma intricada rede de fibras musculares, algo insólito e desconhecido nos répteis. Aqueles micro músculos permitiam aos pterossauros exercer um controlo absoluto sobre as suas asas em função das necessidades aerodinâmicas; uma terceira camada, formada por vasos sanguíneos, alimentava esses anteriores tecidos vivos.
A cabeça dos animais exibia uma crista espectacular que variava de espécie para espécie, talvez com a função de chamariz sexual. Outra característica extraordinária dos pterossauros é que, excluindo asas e patas , o corpo era coberto de formações parecidas a pêlos o que não existe em mais nenhum réptil ,pois estes possuem escamas ou placas ósseas. As referidas estruturas não são penas das aves nem pelos dos mamíferos. Estes animais reproduziam-se por ovos e desapareceram na mesma altura dos dinossauros , talvez pelo mesmo motivo. O seu tamanho variava com as espécies e ia desde alguns centímetros até alguns metros , dois a três. Alimentavam-se de peixe e marisco , vermes , insectos e alguns pequenos mamíferos , de acordo com o seu tamanho. Embora sejam seus contemporâneos, estes animais não são dinossauros. O grupo surgiu no Triássico superior e desapareceu há 65 milhões de anos. Os primeiros pterossauros tinham mandíbulas cheias de dentes e uma cauda longa, enquanto que as espécies do Cretácico, quase não possuíam dentes numa mandíbula que parecia um bico e a cauda estava bastante reduzida.
A sua classificação será a seguinte : Reino animal ; Filo cordado. Classe réptil ; Ordem pterossauro. Dada a variedade de seres podemos subdividir a ordem em:
Subordem Rhamphorhynchoidea *
Família Dimorphodontidae
Família Anurognathidae
Família Campylognathoididae
Família Rhamphorhynchidae
Subordem Pterodactyloidea
Superfamília Ornithocheiroidea
Família Istiodactylidae
Família Ornithocheiridae
Família Pteranodontidae
Família Nyctosauridae
Superfamília Ctenochasmatoidea
Família Gallodactylidae
Família Pterodactylidae
Família Ctenochasmatidae
Superfamília Dsungaripteroidea
Família Germanodactylidae
Família Dsungaripteridae
Superfamília Azhdarchoidea
Família Lonchodectidae
Família Tapejaridae
Família Azhdarchidae


Alguns dos répteis gigantes voadores da era dos dinossauros passavam mais tempo no chão do que no ar e estavam mais adaptados à vida em terra, segundo um estudo da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, publicado na revista científica PLoS ONE.

Até agora, os paleontólogos pensavam que todos os pterossauros que povoaram a Terra entre 230 e 65 milhões de anos, eram parecidos com as gaivotas ou pelicanos, pássaros marítimos que sobrevoam lagos e oceanos procurando peixes, mergulhando para os pescar. Porém, após o estudo da anatomia, das pegadas e da distribuição de fósseis de um pterossauro, o "Azhdarchidae", os paleontólogos Mark Witton e Darren Naish asseguraram que este estereótipo não se aplica a todos os répteis voadores.
Os cientistas analisaram fósseis desta espécie e chegaram à conclusão de que se alimentavam em terra. A evidência desta teoria é que a maioria dos fósseis de "Azhdarchidae" existentes foram encontrados em sedimentos terra dentro, numa região que também era terrestre há milhões de anos. Os "Azhdarchidae" eram pterossauros gigantes sem dentes, com asas de até 10 m de envergadura .Segundo o estudo publicado na Public Library of Science, seus longos membros e a forma alongada de seu crânio, que podia medir mais de 2 m, facilitavam a captura de animais e outros alimentos no solo, embora tudo isto não invalide que fossem répteis voadores, razão pela qual decidimos fazer este apontamento.

13.8.10

BOAS MANEIRAS


Hoje abordarei o tema das boas maneiras à mesa sem necessidade de recorrer ao livro Socialmente Correcto pois a etiqueta é coisa muito antiga . Para o provar vamos recuar a 13 de Setembro de 1513, quando foi servido um banquete em honra do cardeal Júlio de Médicis , na praça do Capitólio e à vista do povo.
Antes de começar o serviço de pratos os convidados dispunham de água para lavar as mãos e de guardanapo, faca, colher e garfo individuais, ao contrário do que acontecia na Idade Média, onde a colher e a panela com a comida eram compartilhadas pelos comensais que normalmente comiam com as mãos.
Nesses tempos, a mesa eram simples pranchas de madeira colocadas em cavaletes e tudo recoberto por uma grande e tosca toalha de pano que as pessoas utilizavam para limpar os dedos; a sopa era bebida directamente de uma escudela . Cada comensal tirava com uma faca ou colher um pedaço de comida do recipiente comum e depositava-o numa pequena tábua ou num pedaço grosso de pão que era comido à mão. O pão sobrante com o molho era dado aos pobres ou aos cães. Nesta aparente falta de maneiras ou higiene havia regras a cumprir; por exemplo ,numa obra de Francesco Eiximenis (1384) lia-se : se escarraste ou assoaste o nariz nunca limpes as mãos à toalha , pois se o fizeres é prova de falta de maneiras.
No século XV apareceu uma nova maneira de comer e todo um ritual próprio de compartilhar a comida , ao ponto de Erasmo de Roterdão escrever, em 1530, um tratado com o intuito de ensinar à crianças fidalgas as boas maneiras. Nesse tratado pode ler-se, entre os vários conselhos, o seguinte:
….alguns , mal se acabam de sentar, lançam as mãos aos manjares; isto é próprio dos lobos….
….Manda a cortesia que as pessoas se sirvam dos alimentos com a ajuda de uma faca.
… Não comas pão entre um prato e outro, para que não sejas considerado impaciente.
…Depois de mordido o pão, não o mergulhes na travessa ; esses são hábitos de pessoas rudes.
…Não tomes o cálice de boca vazia , para que não pensem que tens sofreguidão pelo vinho.
… Não fales enquanto tens algo na boca pois te podes engasgar e ser perigoso.
… Não cuspas na mesa, quando não conseguires engolir o que tens na boca. . Cospe isso para o chão.
… Se alguma coisa cai no chão enquanto comes deves afastá-la com o pé pois Deus decidirá quem o irá comer.
…Quando terminares a refeição e precisares de limpar as mãos pede água ou limpa-as no pêlo do cão mais próximo.
Estas normas de etiqueta da idade média foram mudando com a vinda do Renascimento e do progresso individual que impõe o uso de pratos, copos, facas e garfos para cada um bem como de guardanapos . Estes serviam para proteger as ricas toalhas das mesas bem como o vestuário de damas e cavalheiros. A etiqueta dizia que o guardanapo deveria ser colocado sobre o ombro esquerdo.
Nos nossos dias a etiqueta à mesa depende do serviço ser à inglesa ou à francesa , mas se o meu leitor desejar aprender algo ,sem comprar o livro Socialmente Correcto digite na Google ETIQUETA À MESA e terá à sua disposição numerosos sites sobre o assunto.
Embora não estejamos na idade média , mas ao assistir a determinadas cenas que vemos por esses restaurantes, nestas quentes férias de verão, não resistimos à tentação de transcrever o que encontramos num blogue ,cuja autora assina Mary e que aconselhava os veraneantes ao seguinte:
Deve comer sempre de boca fechada, sem ruído e sem nunca a encher por completo.

2. Nunca se parte o pão com a faca e menos ainda com os dentes. O pão que vem para a mesa ou já está partido ou vem inteiro, em qualquer dos casos parta um pouco do pão com os dedos em cima do prato respectivo – caso este exista – e leve-o à boca pedaço a pedaço

.3. Os cotovelos nunca devem pousar na mesa, claro que também não deve ter uma postura tipo estátua como se estivesse em pânico.

4. Ao aceitar ser servido de algo, nada deve dizer, no entanto se não desejar ser servido deve agradecer pela negativa “Não, muito obrigado (a)”.

5. Não deve emitir opiniões sobre o que está a comer, especialmente pela negativa; se não gosta pode sempre deixar no prato.

6. Nunca deve apanhar um talher ou um guardanapo que tenha caído ao chão.

7. Não é obrigatório deixar restos no prato.

8. Não se deve molhar o pão nos molhos, no café, ou em qualquer líquido.

9. Quando terminar de comer, nunca empurre o prato, e muito menos deve entregá-lo ao empregado de mesa.

10. Nunca encha demasiado o seu prato, pode sempre servir-se mais do que uma vez, caso tenha vontade de repetir.

11. Nunca deve retirar a comida da travessa com o seu próprio talher.

12. Sempre que pretender beber, deve limpar os lábios para não deixar a marca destes na borda do copo.


BOM APETITE

5.8.10

TEMPLÀRIOS ....verdades ou mitos


Quando criei a etiqueta Enigmas da Antiguidade previ que alguns dos meus leitores seriam seguidores do conteúdo dos textos mas que outros os achariam um disparate pegado. No entanto, o que ontem era verdade , hoje já não o é, com o oposto também a aplicar-se e isto em qualquer campo do conhecimento humano. Sem querer de forma alguma comparar-me a Galileu que no século XVIII foi condenado só porque defendeu que a Terra girava em torno do Sol, o que ia contra as ideias da Igreja Católica, por que hei-de eu escamotear a opinião de alguns estudiosos sobre os TEMPLÁRIOS, mesmo que isso fira a susceptibilidade de algum meu habitual leitor? O futuro decidirá sobre quem tem razão. Vamos então ao tema:

Muito se tem escrito sobre os Templários e os seus presumíveis mistérios , em virtude de, no século XVIII, correrem muitas lendas sobre esta Ordem militar . Tanto os seus detractores como os seus defensores publicaram centenas de livros e escritos com os respectivos argumentos. Durante o romantismo afirmava-se que “os bons cavaleiros eram vítimas de um poder tirânico” . Esta e outras teses foram cultivadas pelos movimentos esotéricos e ocultistas que haviam surgido para preencher o vazio deixado pelo progressivo desaparecimento da influência da religião católica da vida pública . A eles se juntava a ascensão de movimentos maçónicos, sociedades fechadas com misteriosos rituais .
O final abrupto da Ordem do Templo , fruto da inegável inveja e da intriga do rei Filipe IV de França e de confissões arrancadas sob tortura, e ainda a condenação à morte na fogueira do seu último Grão Mestre, considerado herege e bruxo, foram um magnífico ponto de partida para fazer voar a pena dos escritores. Vejamos alguns factos :
OS TEMPLÁRIOS FORAM SACRÍLEGOS . A principal acusação que recaiu sobre a ordem foi de sacrilégio, o que constituiu motivo suficiente para que fossem presos e processados . A denúncia consistia em que, para se entrar na Ordem , os noviços eram obrigados a cuspir na cruz e a renegar Cristo . Documentos , há pouco desclassificados de secretos , revelam o seguinte : o Papa Clemente V teria chamado o Grão Mestre Jacques de Molay e outros dirigentes para lhes pedir explicações sobre o assunto; estes reconheceram ter sido usual tal prática, com a finalidade de só admitir na Ordem os mais abnegados, sacrificados e obedientes . Tendo os noviços jurado obediência cega aos seus superiores, era dada essa ordem como ” prova de fogo “. Se por um lado havia a obediência cega, por outro não podiam renegar a Fé. Muitos negavam-se a cumprir tal ordem apesar de ameaçados com punhais e adagas e outros cuspiam de forma a não acertar no crucifixo ; outros ainda, não sabendo o que fazer, fugiam . Estas reacções dos noviços eram analisadas pelos mestres para decidir se seriam aceites como cavaleiros . Devemos aqui dizer que idêntico pedido os esperaria se caíssem nas mãos dos sarracenos , sendo a recusa punida com a decapitação. O mais curioso é que esta prova existiu durante mais de cem anos sem que qualquer Papa se incomodasse com tal, até que Clemente V , por razões que adiante veremos, resolveu mandar investigar.
OS TEMPLARIOS PARATICAVAM SODOMIA . Esta imputação vem ligada à anterior .O noviço depois de superada a prova de obediência era recebido com um beijo na boca , típico da fraternidade monástica que o acolhia e comum em outras ordens religiosas. Parece que este beijo seria seguido de outro no umbigo e nas nádegas como prova de total obediência. É possível que algum dos preceptores exagerasse neste terceiro beijo e ordenasse ser dado no pénis. Estes excessos não deveriam ser aceites pelos postulantes, sendo então exortados à castidade mas dizendo-lhes que se esta castidade fosse uma grande renúncia , então deveriam aceitar apenas relações homossexuais com os seus irmãos. Uma vez mais os noviços se deviam mostrar avessos a tal , embora permanecendo em silêncio como sinal de respeito. Nas exaustivas averiguações que se empreenderam quando se dissolveu a Ordem e que abarcaram umas mil audições , apenas seis cavaleiros declararam ter tido relações homossexuais , o que é uma percentagem ínfima e idêntica á encontrada em outras ordens religiosas que nunca foram perseguidas por tal motivo.
HEREGES E IDÓLATRAS . O secretismo da Ordem facilitava suspeitas de todo o tipo, como a de adorarem secretamente um ídolo com a forma de uma cabeça barbuda que levavam sempre com eles. Dizia-se que o facto era devido á convivência com os muçulmanos e essa cabeça pintada seria Maomé. Sabe-se que os Templários traziam consigo as imagens das cabeças de Santa Úrsula e de Santa Eufémia, mas a de um barbudo nunca foi comprovado. Há quem admita que , a ter esta acusação validade, seria a pintura do sudário que os cavaleiros adorariam por reafirmar a morte e ressurreição de Cristo, numa atitude para combater a ideologia dos cátaros que negavam a divindade de Cristo.
ERAM MAUS COMBATENTES . Embora documentos muçulmanos afirmem serem os Templários combatentes ferozes e disciplinados que preferiam a morte a retirar do campo de batalha , a verdade é que os cavaleiros foram acusados da perda da Terra Santa . Pese embora algumas falhas de vulto no plano militar, a perda da Terra Santa deveu-se mais ao clima de rivalidades entre os mestres templários do que a serem maus combatentes .As intrigas entre os mestres minaram a resistência dos cruzados, como é o caso do mestre Gerard de Ridefort que, incompreensível e suspeitosamente, salvara a vida nas duas ocasiões em que Saladino o capturara. A verdade é que quando em 1291 caiu o último reduto cristão (S. João de Acre) foram os Templários os seus defensores e não outros cruzados.
OS TEMPLÁRIOS ERAM CORRUPTOS . Outra das acusações feita contra a Ordem era a de possuírem uma enorme fortuna, superior à dos reis, fruto do saque de guerra , roubo e usura. Chegaram mesmo a acusá-los de ter rotas navais secretas para a América ( Colombo seria um Templário) de onde traziam carregamentos de ouro e prata. A verdade é que em meados do século XIV, já com a Ordem Templária extinta, os marinheiros europeus não se aventuravam a descer a costa atlântica de África , quanto mais atravessar o oceano para ir á América do Sul. A sua imensa fortuna devia-se a doações particulares da Igreja e de Reis , tanto em moeda como em edifícios, povos e feudos. Isto permitia, juntamente com as isenções fiscais que gozavam, amealhar imensa fortuna que era acrescida com a venda de relíquias trazidas da Terra Santa , uma das mercadorias mais lucrativas da época. Os Templários afirmavam que as lascas de madeira que vendiam não eram fragmentos da cruz de Cristo, mas que tendo estado em contacto com fragmentos verdadeiros, guardados em Jerusalém , tinham adquirido propriedades milagrosas. Se a Ordem em si era rica , chegando a financiar vários estados , os seus membros apenas tinham direito aos bens de família e a uma pequena verba de 4 dinários . A que se deve então a acusação de corruptos ? Em finais do século XIII, com S. João de Acre já perdido, os Templários atribuíram ao Papa Bonifácio VIII um elevado subsídio para o aliviar de apuros económicos . Ao saber disto, o rei de França , Filipe IV; exigiu ao tesoureiro da Ordem no país, 300.000 florins em ouro para aguentar as loucas despesas da sua corte. Como esta quantia nunca mais era amortizada pela corte de Filipe IV, começaram as intrigas para que os bens da ordem passassem para a coroa francesa e a dívida do papado anulada mas, para isso, o Papa Clemente V tinha de extinguir a Ordem.
O Papa estava num dilema : ou salvava os Templários mas a Igreja de França afastava-se de Roma , ou acabava com a Ordem e não haveria um cisma religioso . Clemente V atrasou imenso a sua decisão mas quando o rei Filipe IV mandou executar na fogueira , em 1308, o bispo de Troyes sob a acusação de bruxaria , o Papa começou a ceder . Acusou a Ordem de indignidade e maus hábitos embora a absolvesse de praticar heresia. Como a pressão do rei continuava muito forte, o Papa acabou por extinguir os Templários em 1312, sendo executado o seu Grão Mestre por ordem real. Depois disto começaram as lendas ! (ver ainda nesta etiqueta Enigmas, “Os Templários e os seus segredos”)


Apresento abaixo uma relação bibliográfica para quem deseje aprofundar o assunto das Cruzadas e dos Cavaleiros Templários:
- História das cruzadas – S. Runciman, Imago, 3 volumes, 2002 – 2003
- Templários: Os cavaleiros de Deus – Edward Burman, Círculo do Livro, 1997
- História dos cavaleiros templários: e os pretendentes de sua sucessão seguida da história das ordens de Cristo e Montesa – Élize de Montagnac, Madras, 2005
- Locais sagrados dos cavaleiros templários – John K. Young, Madras, 2005
- No tempo dos cavaleiros da Távola redonda – Michel Pastoreau, Círculo do Livro, 1989
- Templários em Portugal: a verdadeira história – Pedro Silva, Ícone, 2005
- Os cavaleiros de Cristo: templários, teutónicos, hospitalários e outras ordens militares na idade média – Alain Demurger, Jorge Zahar, 2002
- As viagens do descobrimento – Eduardo Bueno, Objetiva, 1998
- The Templars and the Assassins: The Militia of Heaven – James Wasserman, Destiny Books, 1st edition, 2001.
- História das Cruzadas - Joseph-François Michaud, Editora das Américas, 7 volumes, Tradução Pe. Vicente Pedroso,1956.
- Secret Societies of the Middle Ages – The Assassins, the Templars and the Secret Tribunals of Westphalia – Thomas Keightley, Weiser Books, 1st edition, 2005.
- Portugal Templário – A presença templária em Portugal – José Manuel Capêlo, Editora Zéfiro, 1ª Edição, 2008.

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