6.5.10

OS SEGREDOS DA CAPELA SISTINA

Na etiqueta “ enigmas da antiguidade” temos tratado de variados casos de civilizações antigas, sem nunca afirmar que somos detentores da verdade absoluta e será nessa linha de pensamento que abordamos “os segredos da Capela Sistina “, de acordo com o livro com o mesmo título, de Roy Doliner e Benjamin Blech e de uma entrevista dada pelos autores à revista de história Clio.
Entender Roma é perceber que ela é uma cidade repleta de segredos, com mais de três milénios de mistérios, e não há nenhuma parte de Roma que encerre mais segredos do que o Vaticano. O próprio nome “Vaticano” tem uma origem surpreendente : há mais de 28 séculos, antes mesmo da lendária fundação de Roma por Rómulo e Remo, vivia naquele local um povo chamado Etrusco. Tal como os hebreus e os romanos, os etruscos não enterravam os seus mortos dentro dos muros das cidades. Por este motivo, construíram um cemitério enorme numa encosta de uma colina local onde, mais tarde, se viria a edificar a cidade de Roma. O nome da deusa etrusca pagã que protegia a necrópole, ou cidade dos mortos, era Vatika.
Vatika tem vários outros significados em etrusco antigo. Era o nome de uma uva de gosto amargo que crescia naturalmente na encosta, usada pelos camponeses no fabrico do vinho que adquiriu a má fama de ser um dos piores e mais ordinários do mundo antigo. Era ainda o nome de uma erva estranha que crescia naturalmente na encosta do cemitério e que, quando ingerida, provocava alucinações e delírios. Mais tarde, nesse local foi construído o circo de Nero, o imperador louco. Foi neste circo, segundo a tradição da igreja, que São Pedro foi executado, crucificado de cabeça para baixo, e enterrado numa área próxima. Este local tornou-se o lugar de visitação de um número tão grande de peregrinos que o imperador Constantino, ao converter-se parcialmente ao cristianismo, fundou um santuário na zona que os romanos continuaram a chamar de colina Vaticana. Um século depois de Constantino, os papas começaram também a erguer neste lugar o palácio papal. Coincidências ou um lugar de atracção negativa?
O que significa “Vaticano” nos dias de hoje? Pode referir-se à Basílica de São Pedro; ao Palácio Apostólico dos Papas, com mais de 14 mil aposentos; ao complexo dos Museus Vaticanos com mais de 2 mil salas; à sede da hierarquia político-religiosa de cerca de um quinto da população humana ; ao menor país do mundo, a Cidade do Vaticano. É de facto estranho se pensarmos que o menor país do planeta, com uma área aproximada de um oitavo do Central Park de Nova York, abriga a maior e mais valiosa igreja do mundo, o maior e mais sumptuoso palácio do planeta e um dos maiores museus da Terra.
O local mais fascinante de todos, porém, está provavelmente situado dentro dos muros da antiga fortaleza da Cidade do Vaticano, cujo significado simbólico quase todos os visitantes ignoram. A sua importância teológica pode ser melhor compreendida se percebermos que esta realização católica era algo expressamente proibido aos judeus. No Talmude, é claramente proíbido a qualquer pessoa construir uma réplica, em tamanho real, do Templo Sagrado de Jerusalém , noutro local que não seja o próprio monte do Templo . Esta lei foi decretada para impedir sangrentos cismas religiosos, como os que aconteceram mais tarde no Cristianismo (entre o catolicismo romano, a ortodoxia oriental e grega e o protestantismo) e, no Islão, entre sunitas e xiitas. Porém,há seis séculos, um arquitecto católico que não estava sob o jugo das leis talmúdicas fez exactamente o que era proibido ; desenhou e construiu uma incrível cópia em tamanho real do compartimento mais recondito do Templo Sagrado do rei Salomão . Para chegar às medidas e proporções exactas, o arquitecto estudou os escritos do profeta Samuel da Bíblia Hebraica, nos quais ele descreve o primeiro Templo. Esta reprodução maciça do heichal, a parte posterior do primeiro Templo, ainda existe hoje e é chamada Capela Sistina, sendo o destino de mais de quatro milhões de visitantes por ano que vêm para ver os incríveis afrescos de Miguel Ângelo e reverenciar um local sagrado do cristianismo. Terá sido de propósito a construção desta capela ? É que antes da criação desta réplica do heichal do Templo Sagrado de Jerusalém existiu, durante a Idade Média, uma outra capela exactamente no mesmo local. Era chamada Capela Palatina, ou Capela Palaciana. A justificação para a nova construção foi a seguinte: como todos os governantes europeus tinham suas próprias capelas reais para rezar em privado , julgou-se necessário que o Papa também tivesse uma em seu próprio palácio. O objectivo era mostrar o poder da Igreja que tinha de ser visto como maior que o de qualquer soberano secular. A Igreja estava determinada a provar que era o novo poder reinante na Europa e esperava espalhar a cristandade, ou seja, o império do cristianismo, por todo o globo. Esta capela foi projectada para ser um indício da glória e do triunfo futuros, e por isso o Papa desejava que a sua opulência ofuscasse todas as outras capelas reais da Terra.
Além da magnífica capela Palatina, existia também a Niccolina, uma pequena capela particular estabelecida pelo papa Nicolau V, em 1450, decorada pelo grande pintor renascentista Frei Angelico. Esta é uma pequena sala numa das partes mais antigas do Palácio Papal, com a capacidade de abrigar o Papa e alguns de seus assessores pessoais. Voltemos á história da construção da Capela Sistina !
A história tem início com o pontífice Sisto IV que desejou que a capela fosse ainda maior e mais rica que a Capela Palatina, com a única finalidade do seu nome vir a ser recordado como Papa. O nome de baptismo de Sisto era Francesco della Rovere. Nascido numa família humilde do noroeste da Itália, numa cidade próxima a Génova,o sacerdócio foi o seu caminho natural, pois quando jovem tinha inclinação intelectual, mas nenhum dinheiro para frequentar uma universidade. Tornou-se monge franciscano e aos poucos galgou os degraus da escada administrativa e educacional da Igreja, e por fim chegou a ser cardeal em Roma, no ano de 1467. Foi eleito Papa sem muito alarde por um conclave de apenas 18 cardeais e adoptou o nome de Sisto IV.
Quando o papa Sisto IV iniciou seu reinado em 1471, a Capela Palatina corria o risco de desmoronar. Era uma construção pesada, assente em um local perigoso, o solo mole do antigo cemitério etrusco da encosta da colina Vaticana. Curiosamente, esta situação simbolizava perfeitamente a crise da própria igreja quando Sisto assumiu o poder pois ,apenas 18 anos antes, Constantinopla caíra nas mãos dos muçulmanos, marcando a morte do Império Cristão Bizantino. Muitos temiam que Roma pudesse sofrer o mesmo destino de Constantinopla.
Apesar de todas estas ameaças à existência do cristianismo, Sisto IV gastou grandes quantidades do ouro do Vaticano na revitalização dos esplendores de Roma, reconstruindo igrejas, pontes, ruas, fundando a Biblioteca Vaticana e começando uma colecção de arte que se tornaria no Museu Capitolino, hoje o mais antigo do mundo em funcionamento. O seu projecto mais famoso, porém, foi a reconstrução da Capela Palatina. Há muito sobre a história da Capela Sistina que parece obra do destino. Segundo as fontes mais confiáveis, o trabalho de renovação da capela teve início em 1475. Neste mesmo ano, na cidade toscana de Caprese, nascia Michelangelo Buonarroti, ou Miguel Ângelo. Seus destinos unir-se-iam ainda mais fortemente uns anos mais tarde. O papa Sisto IV decidiu não apenas reconstruir a capela papal decadente, mas aumentá-la e torná-la mais sumptuosa pois, como já dissemos, desejava que todos recordassem a sua passagem pela cadeira de S. Pedro. Para isso contratou um jovem arquiteto florentino de nome Bartolomeo(“Baccio”) Pontelli. A especialidade de Pontelli era a construção e o reforço de fortalezas. Isto era especialmente importante para Sisto IV, pois o pontífice tinha tanto medo dos muçulmanos turcos quanto das turbas católicas de Roma. Foi então desenhado o projecto de uma capela enorme, maior que a maioria das igrejas, com um bastião de fortaleza no topo para a defesa do Vaticano.
Talvez nunca saibamos ao certo de quem foi a idéia de construir a Capela Sistina como uma cópia do Templo Sagrado dos judeus mas Sisto IV, instruído nas Escrituras, conhecia as dimensões exactas, encontradas nos escritos sobre o profeta Samuel no segundo Livro dos Reis. Com isto em mente, talvez se tenha sentido ansioso para dar expressão concreta ao conceito teológico de “sucessionismo”, idéia que significa que uma fé pode substituir outra anterior que deixou de ter efeito . A crença, segundo o sucessionismo, era a de que as filosofias pagãs greco-romanas foram substituídas pelo judaísmo que, por sua vez, fora superado pela Igreja Católica, a fé verdadeira que invalidava todas as outras. O Vaticano pregava que os Judeus, por terem morto Jesus e rejeitado os seus ensinamentos, foram punidos com a perda de seu Templo Sagrado, da cidade de Jerusalém e também da sua terra natal. Além disso, teriam sido condenados a vaguear pela Terra para sempre, como um alerta divino a todos que se recusassem a obedecer a Igreja. ( Este ensinamento foi rejeitado e proibido categoricamente no Segundo Concílio do Vaticano de 1962)
Independentemente de quem teve a idéia, a nova Capela Palaciana foi elaborada para substituir o antigo templo judeu, na qualidade de novo Templo Sagrado da Nova Jerusalém que, a partir de então ,seria a cidade de Roma, a capital do cristianismo. Suas medidas são 40,93 metros de comprimento por 13,41 de largura e 20,70 de altura, exactamente como as da secção posterior retangular e longa do primeiro Templo Sagrado, completado pelo rei Salomão .Um facto ainda mais notável que a maioria dos visitantes não percebe, é que em conformidade com a intenção de reproduzir o local sagrado que existia na antiga Jerusalém, o santuário foi construído em dois níveis. A metade ocidental, que abriga o altar e a área particular destinada ao papa e seu séquito, tem cerca de 15 centímetros a mais de altura do que a metade oriental, originalmente reservada aos espectadores comuns. Esta secção mais alta corresponde ao recesso mais recôndito do Templo Sagrado original, o Kodesh Kodoshim, o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote podia entrar, e somente uma vez ao ano, no Yom Kippur, o Dia da Expiação ou Dia do Perdão. O sumo sacerdote passava simbolicamente pela parochet, a cortina espessa e decorada de linho torcido, chamada pelos evangelhos de véu, para fazer as orações de grande importância pelo perdão e pela redenção do povo. Para mostrar exactamente onde este véu era localizado no Templo de Jerusalém, foi construída na capela do Vaticano uma enorme parede divisória de mármore branco em forma de grade, com sete “chamas” de mármore no topo, para corresponder à menorá sagrada, o candelabro de sete braços que iluminava o santuário judeu nos templos bíblicos. Coincidência ou intenção ? Mas há mais !
O tecto original da capela Sistina era ilustrado com um tema simples, comum em muitas sinagogas: um céu nocturno pontilhado de estrelas douradas. A cena era uma alusão ao sonho que Jacob teve enquanto dormia sob as estrelas (Génesis 28: 11-19), logo após fugir da casa de seu pai. Ao fazer esta referência simbólica à história do sonho de Jacob, o tecto expressava outra ligação com o Templo Sagrado de Jerusalém.Para tornar a capela ainda mais singular, foi dada grande atenção também ao seu piso. Trata-se de uma obra-prima impressionante que geralmente passa despercebida aos olhos do visitante comum, pois a sua visão é encoberta pelos pés de milhares de turistas e ignorada por causa dos afrescos do tecto, mundialmente conhecidos. O piso é uma retoma, no século XV, do estilo medieval de mosaico cosmatesco.( A família Cosmati desenvolveu sua técnica inconfundível em Roma nos séculos XII e XIII.) Este estilo decorativo era uma criação imaginativa de formas geométricas e de espirais ,em peças cortadas de mármore e vidro colorido ,muitas delas retiradas de templos e palácios romanos pagãos. Há exemplos maravilhosos destas decorações e assoalhos cosmatescos autênticos em alguns dos conventos e das igrejas e basílicas mais antigas e belas em Roma e no sul da Itália. É de consenso geral que estes assoalhos muito especiais eram apreciados não apenas por sua beleza e riqueza de cores e materiais, que incluíam o pórfiro roxo, de valor inestimável, mas também por sua espiritualidade esotérica. Muito já se escreveu sobre estes mosaicos, e disso já se ocuparam teólogos, arquitectos e até mesmo matemáticos. Em parte, os mosaicos conferem a qualquer santuário uma sensação de espaço, ritmo e fluidez de movimento mas também servem como instrumento de meditação, de maneira semelhante aos labirintos comuns nas igrejas da Idade Média. O desenho do piso da Sistina foi elaborado para servir a quatro funções principais. Primeiro, embeleza a capela com uma graça toda especial ; Segundo, ajuda arquitectonicamente a definir o espaço, ao mesmo tempo em que o alonga e dá a sensação de fluidez de movimento. Em terceiro lugar, “dirige” os movimentos e a ordem dos ritos durante uma missa da corte papal, mostrando onde o papa deve se ajoelhar, onde a procissão deve parar durante o canto de certos salmos e hinos, onde os celebrantes do serviço religioso devem ficar, onde o incenso deve ser colocado, entre outras coisas. Por fim, a função menos conhecida de todas é de instrumento de meditação cabalística, que mais uma vez liga a capela às fontes judaicas antigas. Dentro dela, há uma gama variada de símbolos místicos: as esferas da Árvore da Vida, os caminhos da alma, as quatro camadas do universo e os triângulos de Filo de Alexandria.
Cabala significa literalmente em hebraico “aquilo que se recebe”, e refere-se às tradições místicas que compreendem os segredos da Torá, as verdades esotéricas que revelam o conhecimento mais profundo do mundo, da humanidade e do Todo-Poderoso. Filo era um místico judeu de Alexandria, no Egipto, que escreveu dissertações sobre a Cabala no século I da era cristã. Ele é normalmente considerado o elo central entre a filosofia grega, o judaísmo e o misticismo cristão. Seus triângulos apontam para cima ou para baixo para mostrar o fluxo de energia entre a acção e a recepção, o masculino e o feminino, Deus e a humanidade, o mundo inferior e o superior.
Uma outra ligação com o templo judeu é o facto notável de que o Selo de Salomão é um símbolo recorrente nos pisos cosmatescos, e encontrado nos desenhos do piso da Capela Sistina. Este símbolo era considerado a chave para a sabedoria esotérica antiga dos judeus. O selo, composto de uma combinação dos dois triângulos de Filo sobrepostos, apontando para cima e para baixo, é chamado hoje de Estrela de David. A estrela é praticamente um emblema universal do judaísmo, e foi escolhida para ser a figura central da bandeira do estado moderno de Israel. Porém, no final do século XV, ainda não era um símbolo representativo do povo judeu, mas de seu conhecimento místico arcaico.
O entendimento do significado mais profundo do selo enquanto parte da Capela Sistina requer uma contextualização. A evidência arqueológica mais antiga do uso judeu deste símbolo é a de uma inscrição atribuída a Josué ben Asayahu no final do século VII a.C. A lenda por detrás desta associação com o rei Salomão – e daí o seu outro nome, Selo de Salomão – é bastante fantasiosa e muito provavelmente falsa. Nas lendas medievais judaicas, muçulmanas e cristãs, assim como em um dos contos das Mil e Uma Noites, o Selo de Salomão, com seu formato hexagonal, era um anel-sinete mágico que supostamente pertencera ao rei e que lhe concedia o poder sobre os demónios (ou jinni), ou de falar com os animais. Segundo alguns pesquisadores, a razão pela qual este símbolo é mais comumente atribuído ao rei David é porque o hexagrama representa a carga astrológica da hora do nascimento de David ou de sua unção como rei. Porém, o significado mais profundo e certamente o mais correcto é a interpretação mística que o associa ao sete, o número sagrado, com suas seis pontas ao redor de seu centro.
O número sete tem uma importância religiosa especial no judaísmo. Na Criação, temos os seis dias seguidos do sétimo, o Sabát, o dia de descanso declarado santo por Deus e dotado de uma bênção singular. Todo o sétimo ano é um ano sabático, no qual a terra não pode ser cultivada, e após sete ciclos de sete anos, o ano Jubileu traz liberdade aos que tinham sido vendidos como escravos e aos que se tornaram escravos por causa de dívidas, e o retorno das propriedades aos seus donos originais. Porém, o facto mais importante de todos para a compreensão do significado do uso do número sete nos mosaicos do chão da Capela Sistina é a sua ligação com a menorá do antigo Templo, cujas sete lâmpadas de óleo se apóiam em três braços que saem de cada lado de uma haste central. Já foi sugerido que a Estrela de David se tornou um símbolo padrão nas sinagogas justamente por ser elaborada segundo o esquema 3+3+1: um triângulo para cima, um para baixo e o centro; e isto corresponde precisamente à estrutura da menorá..
Entretanto, graças a artistas, como os da família Cosmati e Michelangelo, o simbolismo judeu continuaria a ser conhecido cada vez mais, por meio de todas as suas obras mais famosas. O segredo mais estranho da capela mais católica do mundo é que o mosaico gigante de seu chão está repleto de Estrelas de David.
AS APARÊNCIAS ENGANAM nos afrescos originais do século XV
A atracção principal da Capela Sistina , porém, não é nem o seu chão nem o seu tecto, mas as suas paredes. Partindo da parede frontal do altar, começam duas séries de painéis – uma sobre a vida de Moisés e outra sobre a de Jesus, duas histórias bíblicas contadas de maneira semelhante ao formato de histórias em quadrinhos.
Para pintar tantos afrescos de execução tão trabalhosa, foi trazida uma equipe formada pelos principais pintores de afrescos do século XV. Se quisermos ser mais precisos, diríamos que a equipa foi enviada. É importante saber disso por causa de quem os enviou, ou seja, Lorenzo de Medici, o homem mais rico de Florença ,o mesmo homem que mais tarde descobriria Miguel Angelo e o criaria como um de seus filhos.
O papa Sisto IV odiava Lorenzo e sua família, e lutara contra eles durante muitos anos. Sisto desejava tomar o controle de Florença, capital do livre-pensamento, e de grande riqueza, para que pudesse então assumir o controlo de toda a Itália central. Em 1478, o papa tentou eliminar Lorenzo e todo o clã dos Medici de uma vez por todas,planeando assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano ,na Catedral de Florença, em frente ao altar principal, durante a missa de Páscoa. O elemento mais blasfemo do plano era o sinal escolhido para marcar o momento da matança: a elevação da hóstia. Até mesmo assassinos profissionais de sangue frio recusaram este trabalho, e o papa teve de contar com a ajuda de um padre e do arcebispo de Pisa. Estes dois trataram dos detalhes juntamente com Girolamo Riario, o sobrinho mais corrupto de Sisto. O papa se recusou a ouvir os pormenores, dizendo de maneira evasiva: “Façam o que for necessário, contanto que ninguém seja morto”. Entretanto, ele ordenou ao seu líder militar Federico da Montefeltro, o duque de Urbino, que reunisse 600 soldados nas colinas ao redor de Florença e esperasse pelo sinal da morte de Lorenzo. O ataque vergonhoso seguiu conforme o planeado… até certo ponto. Giuliano de Medici morreu no local, ferido com 19 punhaladas mas Lorenzo, embora ferido gravemente, conseguiu escapar por um túnel secreto e sobreviveu. O sinal para a invasão de Florença nunca foi dado. Os florentinos enfurecidos, ao invés de se levantar contra o clã Medici, como Sisto IV esperava, assassinaram os conspiradores. Foi necessário que o próprio Lorenzo intercedesse pessoalmente para que os cidadãos não matassem o cardeal Raffaele Riario, outro sobrinho do papa que não tivera nenhum envolvimento no golpe. Dois anos mais tarde, o papa cedeu e o Vaticano e Florença declararam uma trégua. Foi exactamente nesta ocasião que a nova capela estava pronta para ser redecorada.
Por que razão Lorenzo enviou então os seus pintores mais talentosos para decorar a capela, glorificando o homem que matara o seu irmão e tentara também assassiná-lo? Segundo as fontes oficiais, este gesto foi uma “oferta de paz”, um acto de perdão e reconciliação. Porém, a explicação oficial é talvez outra e é essencial para se entenderem as mensagens dos afrescos, de conteúdo nem um pouco conciliatório.
Lorenzo de facto enviou a elite artística: Sandro Botticelli, Cosimo Rosselli, Domenico Ghirlandaio, que mais tarde seria professor de Michelangelo por um breve período, e Perugino, pintor da Umbria, que posteriormente seria mestre de Rafael. Além de ter de revestir todas as quatro paredes da capela com as séries de painéis sobre a vida de Moisés e a de Jesus, eles foram encarregados de acrescentar uma faixa superior de pinturas retratando os primeiros trinta papas e também um grande afresco da Assunção da Virgem Maria ao Céu na parede frontal do altar, entre as duas janelas. Com tantos afrescos a executar, a equipe de artistas posteriormente trouxe Pinturicchio, Luca Signorelli, Biagio d’Antonio e alguns assistentes. Todos eles eram florentinos orgulhosos, com exceção de Perugino e seu pupilo Pinturicchio.
O papa planejara o seu próprio desenho com várias camadas de simbolismo para a capela. Este tinha o objectivo de ilustrar o sucessionismo para o mundo, como já afirmamos, provando que a Igreja era a herdeira legítima do monoteísmo, por substituir o judaísmo. Para atingir este intento, cada painel da história de Moisés foi emparelhado com um da história de Jesus. A série de painéis de afrescos da parte norte narra a vida de Jesus, da esquerda para a direita, na ordem cristã. A série da parte sul conta a história de Moisés, mas da direita para a esquerda, na ordem hebraica. Esta disposição resultou em oito “pares”:
A descoberta de Moisés bébé no Nilo O nascimento de Jesus na manjedoura
A circuncisão do filho de Moisés O baptismo de Jesus
A ira de Moisés e sua fuga do Egipto As tentações de Jesus
A separação das águas do mar Vermelho O milagre de Jesus caminhando sobre as águas
Moisés no monte Sinai O sermão da montanha de Jesus
A revolta de Coré Jesus entregando as chaves a Pedro
O último discurso e morte de Moisés A última ceia de Jesus
Anjos defendendo o túmulo de Moisés Jesus ressurgido do túmulo
Algumas das “ligações” requerem um esforço de imaginação, mas a idéia era demonstrar que a vida de Moisés serviu apenas para prenunciar a vida de Jesus.
Um outro objectivo do papa era promover o culto da Virgem Maria. Sisto IV queria dedicar a capela à Assunção de Maria ao Céu, celebrada todos os anos no calendário católico no dia 15 de Agosto. Por este motivo, Perugino pintou o afresco gigante da subida de Maria ao Céu na parede do altar, retratando o próprio papa Sisto IV ajoelhado diante dela.
O último desejo do papa – e provavelmente o mais caro ao seu coração – era glorificar e solidificar a sua própria autoridade suprema e a de sua família Rovère. O papado ainda se refazia de séculos de cismas, escândalos, antipapas, intrigas e assassinatos. Havia apenas cinquenta anos que a corte pontifícia retornara a Roma, após o assim chamado “exílio babilónico” dos papas em Avignon, na França. O papa Sisto estava ansioso para demonstrar não só a supremacia do cristianismo sobre o judaísmo e da autoridade divina dos papas sobre o mundo cristão, como também a sua superioridade pessoal sobre todos os papas que o precederam. Foi por esta razão que, por sua ordem, Aarão, o primeiro sumo sacerdote dos judeus, e Pedro, o primeiro papa, foram vestidos de roupas azuis e douradas, as cores heráldicas da família della Rovere. É por isso também que a capela está repleta de desenhos de carvalhos e bolotas em todos os cantos: “rovere” significa “carvalho”, e esta árvore é o símbolo do brasão da família. Pelo mesmo motivo, Sisto também colocou o seu próprio retrato acima da série de pinturas dos primeiros trinta papas, bem no centro da parede frontal, junto à Virgem Maria no Céu.
Com isto em mente, voltemos à nossa questão: por que Lorenzo enviou os seus melhores artistas a Roma para executar este trabalho de auto-engrandecimento do homem que tramara contra ele e sua família? Conforme alguém demonstrou, a resposta é simples: para sabotar a amada capela de Sisto IV.
Muito provavelmente, foi Botticelli o agitador e coordenador do grupo do projecto de pintura dos afrescos. Os textos oficiais sobre a Capela Sistina apontam Perugino como o líder, mas uma análise rápida demonstra que ele – o único que não era de Florença – não fazia parte da trama. Seu estilo e esquema de cores são completamente diferentes de todos os outros painéis, e o seu simbolismo não contém nenhuma mensagem antipapal; ao passo que, por toda a capela, os outros artistas parecem livres para dar vazão às suas críticas.
Cosimo Rosselli tinha um cachorrinho branco que se tornou o mascote dos artistas da Toscana. Não sabemos se permitiam que o cachorro brincasse dentro da capela enquanto os pintores trabalhavam, mas podemos vê-lo fazendo travessuras em todos os painéis de afrescos, exceto os de Perugino, da Umbria. Na Última Ceia, ele aparece saltando junto aos pés de seu dono. No afresco Adoração do Bezerro de Ouro, ele parece na verdade estar saindo do painel e entrando na capela.
Temos que admitir que a presença de um cachorro no santuário não é um grande insulto, e não é mais que uma possível impureza ritual. Porém, os florentinos inseriram imagens bem mais fortes em seus trabalhos para seu ajuste de contas com o papa. Botticelli era quem tinha o maior ressentimento. Após a execução dos conspiradores que atacaram os irmãos de’ Medici, Botticelli fizera um afresco mostrando seus cadáveres pendurados na catedral para exibição pública. Esta pintura continha legendas sarcásticas atribuídas ao próprio Lorenzo de Medici. Como parte do tratado de paz oficial entre o Vaticano e Florença em 1480, Sisto insistiu para que este afresco fosse totalmente destruído. Botticelli certamente não estava inclinado a esquecer ou perdoar isso. Por esta razão, em seu painel da Fuga de Moisés do Egipto, ele inseriu um carvalho – o símbolo da família della Rovere – acima das cabeças dos arruaceiros pagãos que Moisés afugenta. Perto dos carneiros inocentes e da visão sagrada da Sarça Ardente, colocou uma laranjeira com um cesto de laranjas, o símbolo da família florentina Medici. Na Revolta de Coré, Botticelli vestiu o rebelde Coré de azul e dourado, as cores do clã della Rovere, e bem ao fundo retratou dois barcos: um naufragado, representando Roma, e um outro navegando tranquilamente, com a bandeira de Florença orgulhosamente tremulando no seu topo. No quadro das Tentações de Cristo, ele inseriu o amado carvalho de Sisto em dois lugares: um junto a Satanás quando este é desmascarado, e outro cortado e pronto para ser queimado no Templo.
Biagio d’Antonio, outro filho orgulhoso de Florença, não queria ser deixado para trás. No seu painel, a Separação das Águas do Mar Vermelho, ele mostra o mau faraó usando as cores da família Rovere e uma construção de aparência suspeita, semelhante à própria capela, sendo tragada pelas águas vermelhas revoltas.
A nova capela, ainda chamada de Palatina, foi consagrada na festa da Assunção de Maria em 15 de agosto de 1483. O papa, orgulhoso, oficiou a cerimônia mas estava totalmente desconhecedor da grande quantidade de insultos secretos contra ele. Faleceu um ano mais tarde, feliz mas sem saber que Lorenzo conseguira ridicularizar a sua intenção de fazer da capela um serviço à egolatria papal.
Visto em retrospectiva, é surpreendente notar o quanto os primeiros artistas puderam agir livremente dentro da Capela Sistina. Entretanto, o verdadeiro mestre das mensagens ocultas surgiria uma geração mais tarde… Miguel Angelo e com muito mais a dizer.
Este mestre realizou uma grande obra na Capela Sistina com a ideia de transmitir uma mensagem de tolerância e amor universal e, ao mesmo tempo, vingar-se do papa Júlio II que fora sobrinho de Sisto IV. Assim, onde Júlio II queria uma imagem de Jesus Cristo, Miguel Ângelo pintou Zacarias, o homem que alertou para existência de sacerdotes corruptos e incentivou os judeus a reconstruir Jerusalém. O artista colocou a cara de Júlio II na figura de Zacarias e vestiu-o com um manto azul e ouro , cores da família do pontifice, e não resistiu a pintar por detrás da figura dois pequenos anjos fazendo um gesto obcesno na nuca do visado.
Na pintura de Adão e Eva no Pecado Original, quem apanha o fruto proibido é Adão e a serpente tem braços e pernas , tal como é descrito no Midrash hebreu. Na arca de Noé esta é representada como uma grande caixa e não como um barco, exactamente como é descrita na Tora ; estão ainda representados dois homens , de gatas, vestidos com as cores dos cidadãos de Roma ,numa forma pura de humilhação.
No grande mural do altar mor , conhecido como Juízo Final, Miguel Ângelo pinta a Virgem Maria como que incomodada com a atitude do Filho para com os pecadores.Neste enorme mural foram incluídos rostos de personagens conhecidos na época como opositores à classe dirigente da Igreja. Num acto de rebeldia , pintou-se a ele próprio na figura de S. Bartolomeu, numa espécie de assinatura que era proibida aos pintores da época. Podemos ainda dizer que para retratar o pecado da avareza pintou um homem com uma bolsa de dinheiro á cintura e junto dela duas chaves cruzadas imitando o emblema do Vaticano, numa crítica mordaz ao Papa Júlio II.
Recordamos haver uma mensagem neste blogue com o título JUIZO FINAL, na etiqueta arquitectura.

1.5.10

Filosofando ou talvez não.

A ÚLTIMA GOTA

Numa noite silenciosa em que o sono se recusava a chegar, ia escutando ,de tempos a tempos, o que me parecia ser o pingar de uma torneira . Reagindo contra o torpor, pensei no que seria da Humanidade se aquele pingo fosse a última gota de água potável existente na Terra.
Na Terra ?!- duvidou o meu ego –Se os humanos tivessem baptizado o planeta a partir de um olhar lançado do espaço , este ter-se-ia chamado Água, pois este elemento é o que se encontra em maioria, à sua superfície. Recordei que neste nosso mundo 97% da água é salgada e dos 3% restantes (de água dita doce) só 1% está á nossa disposição. À disposição não será bem assim, pois mais de metade encontra-se sob a forma de gelo nas zonas polares e a restante anda pelos aquíferos que estamos a esgotar a uma velocidade superior à da taxa natural de recarga.
Ouvi cair mais um pingo mas não me levantei pois o meu pensamento voou para a Química ; a água era apenas uma quantidade enorme de dois átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio. Também pensei que o volume de água do nosso planeta se mantivera sempre inalterado, embora sob várias formas, podendo dizer que a água que os dinossauros beberam é a mesma que hoje cai sob a forma de chuva. Continuei deitado pois não havia problemas!
Mas será ela suficiente para um mundo cada vez mais povoado e industrializado ? Em 2025, calcula-se que dois mil milhões de pessoas viverão em zonas onde a água escasseia. Olá! afinal há problemas.
Quando me ia a levantar para fechar melhor a torneira recordei Bárbara Kingsolver que afirmara: água é vida, é o caldo salgado da nossa origem, o sistema circulatório do planeta, mas o nosso maior medo é a possibilidade de escassez ou excesso de água. Excesso?! Mas isso é óptimo! Como 2/3 do nosso organismo são água e os líquidos vitais são salinos, tal como o oceano, está tudo bem. Além disso, os cientistas garantem que ela não faltará. Não me levantei.
Bárbara Kingsolver falara não só de escassez mas também de excesso de água; Qual seria o problema? De repente fez-se luz: cheias, degelo, furacões, subida do nível dos mares, deslizamentos de terras como na Madeira, tudo provocado pela alteração dos valores padrão da pluviosidade, consequência do aumento da temperatura média do planeta, desflorestação, etc. Voltei a raciocinar em termos de Física: se existem mais moléculas de água no ar quente do que no ar frio geram-se grandes tempestades sobre os oceanos pelo ar quente sobreaquecido pelo efeito de estufa, e uma forte evaporação e consequente seca em regiões interiores.
Já bem acordado pensei: Embora a água brote da terra em fontes e nascentes , o mesmo não acontece aos canos e bombas que a trazem até nós, filtrada e desinfectada e, por tal motivo, temos de a pagar. Ouvi cair mais um pingo. Levantei-me e fui fechar bem a torneira pois me lembrei desta última gota num mundo sedento com o das imagens que se seguem.


Crianças transportando água num solo completamente seco e estéril
Bebendo água de um charco,através de um filtro de impurezas

27.4.10

VILLA ROMANA (Rio Maior)


Que Portugal teve larga ocupação romana é um facto conhecido ; que os melhores , maiores e bem estudados vestígios desse nosso passado romano se encontram em Conímbriga, também é do senso comum embora, nas últimas décadas, tenham aparecido estações arqueológicas romanas noutros locais do país como é o caso da Villa romana de Rio Maior.
Foram as referências existentes num livro de Francisco Pereira de Sousa sobre a história da cidade de Rio Maior que despoletou tudo. Nesse livro relatava que , no séc. XIX, um agricultor ao lavrar o seu campo, puxara para fora da terra dois fustes de coluna em mármore, um deles com cerca de 4 metros de comprido, e ainda fragmentos de mosaico romano. Em 1983, os Serviços de Arqueologia da Câmara procederam a uma prospecção de campo na zona citada no livro, para confirmar a possibilidade de uma estação arqueológica que merecesse ser estudada.
A partir de 1991, começa a surgir na zona estudada uma pressão urbanística aliada à necessidade de expansão do cemitério da cidade e, por tal motivo, os Serviços de arqueologia da Câmara Municipal procederam a novas sondagens arqueológicas nos anos de 1992 e 1993,de modo a avaliar a extensão e grau de conservação dos vestígios romanos escondidos no subsolo. Com estes trabalhos de sondagem ficaram a descoberto uma grande quantidade de mosaicos e várias outras peças arqueológicas, indicadores bastante seguros de que se estava perante uma Vila Romana muito importante.
Só em 1995, no entanto, se reuniram condições para o início das escavações em toda a área, sob a coordenação do Dr. José Beleza Moreira .
A vila (villa) era uma herdade, com campos cultivados, pastagens, mata, etc. e uma parte edificada que servia de apoio e de residência. Esta residência compunha-se da habitação do proprietário, dos alojamentos para os criados e ainda da adega e lagares, celeiro, estábulos , palheiro, bem como outras áreas telhadas . A produção desta quinta era certamente vendida para as cidades romanas vizinhas, como Eburobritium ( Óbidos), Collipo ( Leiria) e Scallabis (Santarém)
O poder económico e elevado estatuto social do proprietário desta vila reflecte-se no requinte e luxo da decoração da habitação, em especial no tratamento do próprio soalho. A presença de grande número de salas pavimentadas com mosaico , associado à estatuária e outros produtos de luxo, é disso uma evidência segura.
A vila fora construída junto ao rio Maior e dominaria todo o vale e terrenos férteis onde hoje está a cidade de Rio Maior. Deverá datar do século I e a inexistência de paredes nesta jazida arqueológica deve-se ao facto de, pelo menos desde o séc. XII, o local ter servido de fornecedor de materiais de construção (pedra, cantarias, etc. ) retiradas das paredes que se encontravam à superfície do solo.
Segundo o site disponibilizado pela Câmara Municipal de Rio Maior, que transcrevemos com a devida vénia, até ao momento o espólio recolhido no decurso das escavações é essencialmente composto por peças indicadoras do grande luxo e riqueza dos proprietários desta Villa. São inúmeros os fragmentos de placas em calcário comum e cristalino, de mármore dos mais variados tipos e cores, usados na ornamentação dos rodapés e outras partes arquitectónicas do imóvel. Alguns destas peças são frisos profusamente decorados com gravações a baixo-relevo. As colunas (bases, fustes e capiteis) também eram feitas com estes tipos de rocha.
Outro elemento constante em todas as salas e corredores postos a descoberto pelas escavações, são os fragmentos de estuque pintado que fariam parte da decoração parietal da Villa.
O chão de todas as dependências e áreas de circulação, até ao momento descobertas, são pavimentados com mosaico. Este é de estilo geométrico associado a alguns motivos vegetalistas e fitomórficos estilizados, com uma extraordinária gama cromática.
Existe, também, um grande número de tesselas de pasta de vidro com uma rica e vasta gama de cores, que deveriam ter sido usadas em composições ornamentais de paredes ou nichos.
Temos ainda vários objectos de luxo, como contas de vidro pertencentes a colares ou brincos (?), fragmentos de terra sigillata, (cerâmica importada que constituía o serviço “chique” da época), na sua maioria de produção norte-africana, fragmentos de vários objectos de vidro (copos, taças, jarros, unguentários, etc.), duas patas de felino, aladas, em bronze, que fariam parte da base de um objecto ainda não determinado (mesa, baú, suporte?), uma asa de um jarro de bronze e algumas moedas.
Outro elemento indicativo do elevado poder económico deste patrício romano observa-se na presença de várias peças de estatuária. Até ao momento foram descobertos fragmentos de, pelo menos, cinco estátuas, uma delas de escala natural, e ainda uma peça quase intacta (faltam muito poucos fragmentos), a Ninfa fontanária de Rio Maior.
Também foram encontrados fragmentos de objectos comuns, como fundos de ânforas, fragmentos de grandes potes de armazenamento , pesos de tear, cerâmica de uso comum (tachos, panelas, vasos, etc.).
Aconselhamos uma visita a esta estação arqueológica, tendo o cuidado de, com antecedência, contactar a Câmara Municipal para a sua viabilidade.

21.4.10

CASTELO DE ALMOUROL



Construído num afloramento granítico que forma uma ilhota no meio do rio Tejo e a uma curta distância de Vila Nova da Barquinha , está o castelo de Almourol que também já foi designado de Almoriol, Almorol, Almourel, e Almouriel. Edificado pelos Romanos sobre um possível castro lusitano , a facilidade de vigiar e defender este troço do rio que foi caminho de largo uso , fez do ilhéu de Almourol um local de interesse militar, antes e depois da reconquista cristã. Tomado aos mouros por D. Afonso Henriques , foi entregue à ordem dos Cavaleiros do Templo que o reconstruiu em 1171, sob direcção do mestre da ordem , Gualdim Pais . Com a extinção da Ordem do Templo passou para a Ordem de Avis , por decisão do rei D. Dinis . A muralha do castelo é reforçada por dez torreões , havendo alguns cilíndricos e de diferentes diâmetros Passada a porta, flanqueada por dois torreões , encontramos um terreiro entre a torre e ruínas de velhas instalações situadas a um nível inferior . Algures por aqui se abria a porta da traição , perto da qual existiu um poço que seria a boca de um dos túneis que ligariam o castelo à margem , isto segundo a crença popular. A torre de menagem de planta quadrada e de dois pisos , tem esculpido o antigo brasão templário. Ameias , seteiras, adarves, eirados e escadas de pedra encontram-se espalhadas pelos espaços restantes , num belo e bem conservado conjunto , pese embora tenha perdido, desde muito cedo, o interesse militar e ficado sem guarnição . A sua conservação natural deveu-se à dificuldade de acesso que só é feita de barco e a ser difícil transportar grandes pesos para as margens , ficando assim a salvo de ser espoliado pelos aproveitadores de pedras já talhadas , como acontecera com os outros castelos por todo o país.

20.4.10

MIMETISMO


O mimetismo (mimesis = imitação) é uma adaptação evolutiva em que um organismo (animal ou planta) desenvolve características que o confundem com o meio ambiente, numa espécie de camuflagem, ou o assemelham a outros seres vivos com quem nada tem a ver filogeneticamente. Tudo isto acontece para escapar aos seus predadores ou para, sendo ele um predador, as suas vítimas o não reconhecerem como tal. Entre os critérios de disfarce destacam-se: o aspecto da coloração do organismo, a textura de sua superfície, a morfologia corporal, bem como o comportamento e características químicas.

( Na foto acima um insecto verde que se confunde com a folhagem)

Do que acabamos de escrever podemos concluir que há várias formas de mimetismo tais como : defensivo, agressivo e um terceiro tipo, não tão evidente, o reprodutivo. Este último tipo é muito comum entre os vegetais e dele falaremos adiante. Para já vejamos alguns tipos de mimetismo animal, exemplos fáceis de entender por todos : Existem serpentes que, conforme o seu habitat é em terra ou nas árvores, possuem escamas epidérmicas com coloração aproximada à do meio ambiente onde vivem, sendo confundidas com restos de folhas e gravetos junto ao solo, ou semelhantes ao estrato arbóreo, isto é, apresentando a cor dos troncos da árvore ou a cor das folhas, passando assim despercebidas às suas habituais vítimas, e até ao homem.
O mesmo acontece com determinados sapos e rãs que, mediante a cor e rugosidade do corpo, praticamente se confundem com o substrato lamacento ou os pedregulhos das margens dos charcos e lagos que habitam. É também muito conhecido o exemplo do camaleão que rapidamente altera a sua cor ,confundindo-se com o ambiente .
Já no caso de alguns ursos e raposas do árctico, a cor do pêlo muda de acordo com a época do ano: durante o inverno é totalmente branca e no resto do ano mais acinzentada. Neste caso não será correcto falar de mimetismo , talvez seja mais camuflagem mas ,de qualquer forma, uma vantagem para se aproximarem das presas sem serem vistos. Existem insectos que praticamente ficam invisíveis, tamanha é a semelhança com a vegetação, não se distinguindo de uma folha ou graveto; é o caso das mariposas, borboletas , joaninhas, e do insecto folha, assim chamado por se parecer com uma folha da planta onde se esconde.

( A figura acima não é uma folha mas sim im insecto com aquela forma)
Em geral, o mimetismo ocorre em espécies com pouca mobilidade, ou que costumam ficar em repouso por longos períodos.
Alguns animais aumentam o volume, a forma ou a cor do corpo para parecerem mais fortes ou perigosos e assim causarem medo em seus habituais predadores. Algumas espécies de cobras não venenosas assumem a forma e a cor, bem como o comportamento, das espécies venenosas para confundir os seus predadores
Dados estes poucos exemplos, vejamos como classificar as diversas formas de mimetismo:

Os mimetismos de defesa são aqueles em que os animais tentam parecer-se a outros muito perigosos, venenosos ou agressivos, para não serem atacados, tal como a borboleta cuja coloração das asas, quando abertas , se assemelha aos olhos de um mocho, ou a cobra do leite que sendo inofensiva, se parece com uma cobra coral (terrivelmente venenosa), afastando os atacantes.


(Borboleta em que as cores das asas lembram olhos de mocho)
Os mimetismos de ataque correspondem a animais predadores que adoptam um aspecto parecido ao da presa para se puderem aproximar sem serem descobertos, como é o caso de uma espécie de aranha que se assemelha a uma das formigas que constituem a sua alimentação. De idêntico modo o Bútio, uma ave de rapina, se confunde com outras e se mistura com elas para poder caçar.
Os mimetismos reprodutores aparecem mais tipicamente em plantas. Há plantas com flores ou partes delas que se assemelham à fêmea de um insecto, com o intuito de que o insecto macho pouse e acabe por fertilizar a planta com o pólen que transporta agarrado ao corpo. Também é aqui colocado o caso de cucos que imitam falcões para afastar as aves dos ninhos. Uma vez conseguido isto o cuco mistura os seus ovos com os da outra ave ou até os substitui . Quando o aparente perigo termina a ave volta ao seu ninho e acaba por chocar os ovos do cuco,.

O naturalista inglês Henry Bates foi o primeiro a propor um conceito de mimetismo, ao observar variadas espécies de borboletas no vale do Amazonas. Bates, cujos trabalhos a esse respeito foram publicados em 1862, verificou que as espécies gregárias de lepidópteros da família dos heliconídeos, dotadas de odor repugnante, se misturavam com outras sem essa propriedade e pertencentes à família das danaídeos. A semelhança morfológica e de coloração entre as borboletas dos dois tipos era tal que só um exame minucioso permitia distingui-las. Bates concluiu então que a aquisição do aspecto externo de uma espécie que estava protegida pelo seu odor nauseabundo fazia com que aquela, embora inofensiva para os predadores, não fosse atacada por estes. A esta modalidade de mimetismo deu-se o nome de mimetismo Batesiano.


Em 1865, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace fixou as seguintes leis para o mimetismo:
1º- a espécie mimética (que se disfarça ) ocorre na mesma área e época do ano da que lhe serve de modelo;
2º- as espécies miméticas são sempre menos protegidas;
3º- os seres miméticos são sempre menos numerosos por se reproduzirem menos;
4º- os miméticos pertencem a grupo sistemático diferente do grupo que lhe serve de modelo;
5º- a semelhança nunca se estende a caracteres internos pois estes não são visíveis pelo predador.

Em 1879, o naturalista alemão Fritz Müller, descreveu outro tipo de mimetismo, em que a protecção de um grupo de animais se torna eficiente depois do predador aprender, por experiência própria, a seleccionar suas presas. Por exemplo, a lagarta Euchelia jacobaea, berrantemente colorida com faixas amarelas e negras, é rejeitada por aves insectívoras após um contacto mínimo, devido a secreções nauseabundas que emanam de sua derme. As vespas que trazem o mesmo padrão de coloração têm igualmente um gosto nauseabundo, por causa de seus órgãos digestivos. As aves, após terem atacado vespas ou lagartas daquelas espécies, rejeitam qualquer insecto que exiba o mesmo tipo de padrão cromático. Tal condicionamento permite, assim, protecção colectiva de grande quantidade de insectos que tenham listas amarelas e negras, mesmo sem terem mau cheiro.


O mimetismo Mülleriano apresenta as seguintes características:
--as espécies possuem coloração de advertência e protecção;
--todas as espécies devem ser igualmente abundantes;
-- a semelhança entre as formas não é necessariamente tão exacta como a que ocorre no mimetismo batesiano.

No mimetismo batesiano, uma espécie desprotegida assume o aspecto de outra, abundante e bem protegida, de modo a que fique com a reputação do modelo. No mimetismo mulleriano, várias espécies, todas frequentes e bem protegidas, mostram traços comuns de advertência. Nem sempre, todavia, é possível determinar se uma associação é Batesiana ou Mülleriana.
Tentemos agora explicar como ocorrem alguns destes fenómenos de mascaramento:

Há duas maneiras pelas quais os animais produzem cores diferentes: através de biocromos ou por metabolismo.
Os biocromos são pigmentos naturais microscópicos presentes no corpo do animal que produzem cores quimicamente. A sua química é tal que eles absorvem algumas cores da luz natural e reflectem outras. Não esqueçamos que a cor aparente de um pigmento é a combinação de todos os comprimentos de onda de luz visíveis que estão a ser reflectidos . Desta maneira os biocromos do animal parecerão verdes se a luz que neles incide for a verde, por exemplo emitida pelas folhas das árvores.
Os animais podem também produzir cores através de estruturas físicas microscópicas. Estas estruturas agem como prismas, reflectindo e refractando luz visível. Dessa maneira, uma certa combinação de cores é reflectida. Os ursos polares, por exemplo, têm na realidade a pele preta, mas parecem brancos por terem pêlos translúcidos. Quando a luz incide nos seus pêlos, cada pêlo desvia ligeiramente a luz, fazendo então com que parte dela se desvie para a superfície da pele do urso e o resto da luz seja reflectida produzindo a coloração branca. Em alguns animais, os dois processos de coloração atrás citados estão combinados. Por exemplo, répteis, anfíbios e peixes com coloração verde normalmente têm uma camada de pele com pigmento amarelo e uma camada de pele que espalha a luz para reflectir uma cor azul. Combinadas, estas camadas de pele produzem o verde.
As colorações sejam elas físicas ou químicas são determinadas geneticamente; sendo transmitidas de pais para filhos, mas não podemos esquecer que cada espécie desenvolve a sua coloração da camuflagem gradualmente, através do processo de selecção natural, daí falarmos em genética.
Relembremos que na natureza, um animal que combine melhor suas cores com as do meio em que vive, está mais apto a passar despercebido pelos predadores e, por isso, tem mais probabilidades de sobreviver . Consequentemente, o animal que combina melhor com seu meio ambiente está mais apto a procriar que um animal que não combina. As crias de um animal que se camufla provavelmente herdarão a mesma coloração, e eles também viverão o suficiente para passá-la aos seus descendentes. Desta maneira a espécie, como um todo, desenvolve coloração ideal para a sobrevivência no seu meio ambiente.
Os processos de coloração dependem da fisiologia do animal. Na maioria dos mamíferos, a coloração da camuflagem está nos pêlos, já que esta é a camada mais externa do corpo. Nos répteis, anfíbios e peixes, está nas escamas; nos pássaros está nas penas; e nos insectos estará no exoesqueleto (carapaça). A própria estrutura da cobertura externa pode também evoluir para criar uma camuflagem melhor. Em esquilos, por exemplo, o pêlo é bastante áspero e irregular, lembrando a textura de casca de árvore. Muitos insectos têm uma carapaça que imita a textura macia das folhas.

Já vimos que a forma mais básica de camuflagem é a coloração que combina com o meio ambiente de um animal. Porém, o meio ambiente de um animal pode mudar de tempos a tempos. Muitos animais desenvolveram adaptações especiais que lhes permitem mudar a coloração de acordo com a mudança do seu meio ambiente.
Uma das maiores mudanças no meio ambiente de um animal ocorre na alternância de estações do ano. Na primavera e verão, o habitat de um mamífero pode estar cheio de verde e castanhos, enquanto no outono e inverno tudo pode estar coberto de neve. Enquanto a coloração acastanhada é perfeita para um meio ambiente amadeirado de verão, pode tornar o animal um alvo fácil contra um fundo branco. Muitos pássaros e mamíferos lidam com isto produzindo diferentes cores de pêlo ou de pena dependendo da época do ano. Na maioria dos casos, tanto a mudança da luz do dia como a mudança na temperatura desencadeiam uma reacção hormonal no animal, o que causa a produção de diferentes biocromos, os pigmentos que já antes referimos.

As penas e pêlos em animais são como cabelos e unhas dos humanos - são, na verdade, tecido morto. Estão presos ao animal, mas como não estão vivos, o animal não pode fazer nada para alterar a sua composição. Consequentemente, um pássaro ou um mamífero tem que produzir uma pelagem ou penas completamente novas para mudar de cor. Em muitos répteis, anfíbios e peixes, por outro lado, a coloração é determinada por biocromos em células vivas. Os biocromos podem estar em células na superfície da pele ou em células em níveis mais profundos. Estas células em níveis mais profundos são chamadas de cromatóforos.
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Alguns animais, como algumas espécies de sépias (molusco da classe celafopoda - a mesma de lulas e polvos), podem manipular seus cromatóforos para a troca total da cor de sua pele. Estes animais possuem uma colecção de cromatóforos e cada um deles contém um pigmento singular. Cada cromatóforo simples pode estar envolto por um músculo que pode contrair ou expandir. Quando o músculo da sépia se contrai, todos os pigmentos são empurrados para a parte superior do cromatóforo. No topo, a célula fica achatada dentro de um disco largo e com a cor própria. Quando o músculo relaxa, a célula retorna ao seu formato natural de um pequeno ponto colorido difícil de ser visto . Constraindo os cromatóforos com um determinado pigmento e relaxando todos os outros com outros pigmentos, o animal pode trocar toda a cor do seu corpo. Sépias, com essa habilidade, podem gerar uma ampla gama de cores e muitos desenhos interessantes. Por perceber a cor de um fundo, o animal pode misturar-se a todos os tipos de meio ambiente.


O camaleão, por exemplo, altera a coloração de sua pele usando um mecanismo similar, mas não para se camuflar. Tendem a trocar a cor de sua pele quando o humor deles muda, mesmo sem se moverem para meio ambientes diferentes.
Quanto ao nudibranche (pequeno animal marinho) que se alimenta de um tipo específico de coral, seu corpo deposita os pigmentos deste coral na pele e em extensões externas do intestino. Os pigmentos aparecem, e o animal torna-se da mesma cor que o coral. Como o coral não é só a comida da criatura, é também o seu habitat, a coloração é a camuflagem perfeita. Quando o animal se move para outro coral de cores diferentes das do anterior, o seu corpo troca de cor devido à nova fonte de comida.
Muitas espécies de peixe gradualmente produzem diferentes pigmentos sem ter de mudar a sua dieta. Isto funciona mais ou menos como troca de pelagem sazonal dos mamíferos e pássaros. Quando o peixe troca de meio ambiente, recebe sinais visuais do novo modelo de ambiente. Baseado no seu estímulo visual, estas espécies começam a liberar hormonas que mudam a maneira de seu corpo produzir pigmentos. Com o tempo, a coloração dos peixes muda para combinar com o novo meio ambiente.
E por agora já chega de falar em mimetismo.

14.4.10

HISTÓRIAS DO EGIPTO

Quando, em 1490 antes de Cristo, Tutemosis II morreu sem deixar descendência masculina da sua união com a esposa real que era a sua meia irmã Hatshepsut, entrou em cena o único filho varão do soberano e de uma concubina de nome Isis e que ficou conhecido como Tutemosis III. Como este herdeiro do trono era uma criança , o clero, a nobreza e o exército apoiaram uma regência de Hatshepsut durante a infância do seu sobrinho e enteado. A regência acabou por durar vinte e dois anos , pois rapidamente se tornou num reinado a dois, entre tia e sobrinho, terminando apenas em 1468 aC, com a morte de Hatshepsut. Sabe-se que Hatshepsut sempre teve um papel preponderante na governação, embora o soberano fosse Tutemosis III, de tal forma que no sétimo ano de regente se faz coroar faraó (rei), adoptando título real e até passou a usar a barba postiça. Tal só foi possível com a concordância do poderoso clero de Amon que a rainha protegia e favorecia enormemente .
Este caso estranho de dois faraós a compartilhar o poder está representado no templo de Karnak em que se vêem os dois a fazer oferendas na barca de Amon a quando do regresso da famosa expedição que Hatshepsut enviara ao país de Punt (Somália) em busca de incenso , mirra e outros produtos exóticos.
A rainha também concedeu à sua filha primogénita os atributos dos príncipes herdeiros e é possível que Tutemosis III tenha casado com filhas da soberana e que uma delas, Neferuré tenha sido a mãe do futuro faraó Amenhotep II.
Preparado desde muito cedo para a guerra, Tutemosis III comandou efectivamente o exército e seguiu numa expedição contra a Núbia que se havia rebelado e retomando o controlo das minas do Sinai, expulsando os beduínos. Este facto está recordado , sem esquecer a rainha, numa estela que diz :….. No ano 16, sob a majestade do rei do Alto e Baixo Egipto Maatkare ( Hatshepsut)…….e sob a majestade de Menkhepene (Tutemosis) que viva , seja estável e duradouro ,o rei pôs-se à cabeça dos seus soldados ….. Com a morte da rainha começa o governo a solo de Tutemosis III, então com 34 anos de idade , tendo desenvolvido uma campanha expansionista em 17 acções militares . Assim incluiu nas suas fronteiras a Núbia, a Líbia, Síria e Chipre. Segundo os relatos dos seus generais , além de grande estratega, conseguiu a submissão dos príncipes dos territórios conquistados sem recorrer a actos de crueldade para com eles. Tutemosis III mandou construir o seu templo funerário em Deir el-Bahari, entre os templos de Mentuhotep II e de Hatshepsut. O templo, descoberto em 1962, não possui a grandiosidade do templo da madrasta.
Tutemosis III foi enterrado no Vale dos Reis. À semelhança do que aconteceu com outros túmulos este também foi alvo de pilhagens. As suas paredes encontram-se decoradas com figuras esguias, pintadas a negro e vermelho sobre um fundo cinzento que pretendia simular o aspecto de um papiro, encontrando-se nelas a versão mais completa do Livro de Amduat que fornecia ao faraó defunto um mapa do mundo dos mortos e feitiços protectores e a versão mais antiga que se conhece da Litania de Rá. A sua múmia foi encontrada em 1889 num estado danificado no "esconderijo" de Deir el-Bahari, para onde tinha sido transladada pelos sacerdotes da XXI dinastia que pretendiam proporcionar-lhe uma maior segurança e consequentemente garantir a vida eterna ao faraó.
Voltemos um pouco atrás nesta história e vejamos o ardil montado por Hatshepsut para conseguir convencer o clero de que , embora mulher, podia ser faraó. Nas paredes do seu templo , em Deir el-Bahari, está representado o episódio que relata a sua concepção e o seu nascimento.
A mãe de Hatchepsut, Ahmose, encontra-se no palácio real. O deus Amon- observa-a e, depois de consultar um conselho composto por doze divindades, decide que chegou a altura de gerar um novo faraó. O deus toma a aparência do rei Tutmosis I, que a encontra adormecida no quarto. A rainha Ahmose acorda ao sentir o perfume que emana do corpo do esposo e o Deus Amon mostra-se em toda sua plenitude. Ahmose, cai aos prantos de emoção pela grandiosidade do Deus. O casal une-se sexualmente e depois Amon-Rá informa que a filha que nascerá da união dos dois, governará o Egipto em todas as esferas de poder do palácio.
Apesar de não concordarem, os sacerdotes foram obrigados a legitimar a história, pois viviam bem e com muitas mordomias, principalmente por causa das doações que a rainha lhes fazia . Acreditaram que se o Deus Amon não ficasse satisfeito com as decisões da rainha, o Egipto sofreria com pragas e colheitas ruins. Mas parece que o deus Amon estava de acordo com as ideias de Hatshepsut, pois ela governou num período de muita prosperidade e tranquilidade. Ontem como hoje ,o clero submete-se ao poder instituído desde que obtenha regalias.
Alguns anos após a morte o seu nome foi apagado de monumentos e outros documentos não se sabendo onde se encontra a sua múmia, embora haja notícias que a mesma foi identificada . Sobre este último ponto não encontramos fontes credíveis.

8.4.10

O PRINCÍPIO DE PETER


O «Princípio de Peter» foi proposto por Laurence Johnston Peter (1919–1990), antigo professor na University of Southern California e na University of British Columbia.
De acordo com o autor, em organizações burocráticas , hierarquicamente bem estruturadas, os funcionários tendem a ser promovidos acima do seu "nível de incompetência". O autor, a partir de um conjunto de observações, mostra como os funcionários costumam começar em posições hierárquicas inferiores. Porém, quando se mostram competentes na tarefa que desempenham, normalmente, são promovidos para posições hierárquicas superiores. Esse processo mantém-se até atingirem uma posição onde já não são competentes. isto é, uma posição onde as competências que despoletaram a sua ascensão já não são as necessárias para essa mesma posição. E, visto que a despromoção não é um mecanismo habitual, as pessoas mantém-se nessas posições prejudicando a organização onde se encontram. É isso que Peter designa por "nível de incompetência" - o grau a partir do qual as pessoas já não possuem competências para a posição que ocupam. Porém, não posso deixar de pensar no autor sempre que me deparo com algumas situações que parecem enquadrar-se, perfeitamente, no "princípio de Peter". Como me deparei com algumas em empresas públicas e na política portuguesas dado haver actualmente no nosso país, incompetentes em cargos de gestão e chefia , encontrei para tal uma explicação na blogosfera que passo a citar:
. Sinto nostalgia do tempo em que, quando entrei para o mercado de trabalho do Estado, o Princípio de Peter descrevia bem a gestão. Pelo menos tínhamos um chefe que fora bom em algo — apesar de tomar decisões erradas, porque não tinha aptidões de gestor — e todos tínhamos a esperança de sermos promovidos para além dos nossos níveis de competência. Só que o Princípio de Peter foi substituído pelo Princípio de Dilbert: “Os mais ineficientes são sistematicamente colocados onde podem causar menos danos, isto é, em cargos de gestão.”
Mas quem foi o Dilbert ?
Na década de 90, era bastante popular a “banda desenhada” de um personagem caricato do ambiente de trabalho chamado Dilbert. Esse personagem foi criado por Scott Adams, um americano e empregado típico - submisso e obscuro - de duas grandes corporações. As bandas desenhadas mostravam como os trabalhadores eram colocados diante de situações ridículas e absurdas por chefes incompetentes, insanos e até mesmo, sádicos. Diante disso, é fácil deduzir que elas caíram rapidamente no gosto do público. O livro Princípio Dilbert ocupou o topo da lista dos mais vendidos do New YorK Times e Dilbert chegou a ser considerado uma das 25 personagens mais influentes dos EUA
Scott Adams não perdoava nada. Toda e qualquer técnica ou método de gestão em uso, foi alvo de ironias impiedosas, pois ele aproveitava-se de falhas ou insucessos para generalizar o princípio de que tudo o que acontece no ambiente de trabalho fora cuidadosamente elaborado para alienar as pessoas.
O moral dos empregados é algo de arriscado. Os empregados felizes trabalharão mais sem pedirem salários suplementares. Mas, se estiverem demasiado felizes, começam a lamentar-se de que, com o seu salário actual, terão de viver numa barraca quando se reformarem. O melhor equilíbrio de moral para a produtividade dos funcionários é: felizes, mas com pouca auto-estima.As empresas criaram técnicas que fazem descer a auto-estima dos empregados para a “zona produtiva” sem sacrificarem a felicidade. As que se têm mostrado mais eficazes são as técnicas de humilhação. Eis as mais utilizadas:
Cubículos. São “espaços de trabalho” de pequenas dimensões, separados por biombos, sem tecto nem janelas e são transportáveis. O único contra é que alguns empregados adquirem um sentimento de “lar” na sua pequena parcela de propriedade imobiliária, surge o orgulho de proprietário e ... adeus produtividade! Mas, graças ao novo conceito de atribuição de cubículos aos empregados à medida que vão chegando, este risco pode ser eliminado. Outra vantagem é que acaba com as confusões quando se têm que fazer reduções de pessoal; o empregado nem precisa de esvaziar a secretária;
Vestuário. As empresas descobriram um método barato de obrigarem as pessoas a vestirem-se de forma humilhante, mas variada, sem terem despesa com uniformes. Eis o simbolismo de alguns acessórios de vestuário: a gravata simboliza uma trela; os collants são como grilhetas de prisioneiros; os saltos altos simbolizam masoquismo;
Programas de prémios aos empregados. Enviam uma mensagem a todos os empregados, e não apenas aos vencedores, ou seja: “aqui está mais uma pessoa que só será despedida depois de te tratarmos da saúde”;
Subestimar o contributo dos empregados. O sentimento de que o trabalho está a ser valorizado provoca auto-estima, que surge acompanhada de pedidos de dinheiro nada razoáveis. Os métodos mais cruéis que funcionam melhor são: folhear uma revista enquanto o empregado exprime uma opinião, pedir uma informação com urgência e depois deixá-la em cima da secretária de quem a elaborou durante semanas e mandar a secretária responder a telefonemas que eram para si.
Para terminar digo-lhe como fingir ser um empregado produtivo sem qualquer dispêndio real de tempo ou energia. Eis algumas dicas para o conseguir:
Seja consultor. Se não pode ser gestor, seja consultor de pessoas que fazem o trabalho. Pode necessitar de alguma especialização, mas não exagere. Quando for considerado mais esperto que os outros, não interessa se é 1% ou 1000% mais esperto;Mude frequentemente de funções. Quanto mais tempo se mantiver numa função, maior será o volume de trabalho que lhe pedirão que faça. Mude de funções tantas vezes quantas puder. Dois anos é o tempo máximo de permanência na mesma função;Queixe-se da sua carga de trabalho. Deve inserir em qualquer conversa as frases “estou atolado em problemas”, “hoje recebi 1500 mensagens de voice mail”, “vou ficar cá outra vez no fim-de-semana”. Elas vão penetrando no subconsciente das pessoas, que o considerarão um trabalhador esforçado;Mantenha a secretária desarrumada. Os executivos podem ter a secretária arrumada, mas para os restantes trabalhadores é sinal de que não estão a trabalhar o suficiente. Erga pilhas enormes de documentos porque o que conta para o observador é o volume.
Bom dia de trabalho!
(este texto é uma adaptação, com a devida vénia, de vários outros encontrados na blogosfera )

5.4.10

MAÇONARIA- o que é?


A origem da Maçonaria remonta à Idade Média , sabendo-se que em 24 de Junho de 1717 foi fundada a Grande Loja Maçónica de Londres e em 1723 o Grande Oriente de França. A maçonaria é uma sociedade secreta na qual homens livres e de bons costumes cultivam a liberdade, a fraternidade e a igualdade entre os seres humanos tendo como princípios a tolerância , a filantropia e a justiça. Poderemos ainda afirmar que é uma ordem iniciática e ritualista, baseada no livre pensamento com vista a edificar uma sociedade mais livre, justa e igualitária . A Maçonaria rejeita dogmas, combate a opressão, o terror, a ignorância, a miséria e a corrupção. Dissemos que era iniciática porque nela só ingressa quem se submete à cerimónia de iniciação que significa a passagem das trevas para a luz do conhecimeno ; ritualista porque as reuniões obedecem a determinados rituais,
Os maçons reúnem-se num local chamado loja, onde praticam os rituais de reflexão , dirigidos por um mestre, conhecido como venerável mestre. As cerimónias de reflexão e aprendizagem são sempre realizadas em honra e homenagem a Deus . A maçonaria aceita a existência de um princípio superior, simbolizado pelo Grande Arquitecto do Universo que não tem definição e que cada um interpreta segundo a sua convicção. Para uns será o Deus em que acredita , para outros os Sol ou a Natureza , para outros a resultante de todas as forças que actuam no Universo e o regem. Desta forma há o respeito por todas as religiões , pois todas são verdadeiras se lhe retirarmos o fanatismo e a superstição. No passado medieval, o maçon era obrigado a seguir a religião do seu país , mas com o “ iluminismo” considerou-se adequado apenas impor a religião sob a qual todos estão de acordo , e que consiste em amar o próximo , fazer o bem e ser homem bom, de honra e probidade. Assim a Maçonaria acolhe ateus , agnósticos e pessoas de diversos credos. Há contudo divergências : A Maçonaria Regular, Tradicional ou de Via Sagrada impõe a crença em Deus . na imortalidade da alma e não aceita mulheres na ordem, em clara oposição ao que defendem os do ramo Liberal ou Laico. Os primeiros, ao manterem uma tradição de 300 anos , não se adequando aos valores éticos actuais, excluem três quartos da humanidade. Os ensinamentos maçónicos são transmitidos através de símbolos, dando assim um conhecimento profundo e adequado ao nível intelectual de cada indivíduo. A Maçonaria tem em mente a instrução moral, física e intelectual. Os ensinamentos buscam sempre lembrar três deveres fundamentais do ser humano : os deveres para consigo próprio, para com a humanidade e para com Deus. Para consigo consiste em estabelecer uma perfeita ligação entre a personalidade e a individualidade, entre o corpo e a alma . Para com a humanidade compreendendo a família, a pátria e o universo.. Para com Deus por ser o princípio de tudo.
Como o fim último da Maçonaria é a”construção” de um homem novo e esta ideia de construção é baseada na geometria que os maçons consideram a mais nobre das artes, assim se explica que a régua, o esquadro e o compasso sejam o símbolo do pensamento maçónico, numa recordação simbólica das antigas associações de pedreiros livres , construtores das catedrais góticas. De idêntica forma se explicam os aventais usados nas cerimónias.
Ao que conseguimos apurar, em Portugal existem actualmente duas grandes obediências maçónicas : o Grande Oriente Lusitano, fundado em 1802 e reconhecido pelo Grande Oriente de França desde 1804 . Tem o maior número de filiados e representa a Maçonaria Liberal ; a outra é a Grande Loja Legal de Portugal criada em 1996 tendo a maioria dos membros saído da Grande Loja Regular de Portugal.
Existe ainda a Grande Loja Feminina de Portugal fundada em 1997 e constituída exclusivamente por mulheres.
Fundada em 1923 surge uma ordem maçónica mista designada de O Direito Humano.Pautada por grande descrição e elitismo está também presente em Portugal a Ordem Maçónica Mundial do Rito Antigo e Primitivo de Memphis Misraim, pouco se sabendo das suas actividades .

3.4.10

O CASTELO DA LOUSÃ


O castelo da Lousã fica situado na margem direita da ribeira de Arouce ( um sub afluente do rio Mondego ) no alto de um estreito contraforte da serra da Lousã e toma esta designação por se encontrar a cerca de 1,5 Kms da vila com o mesmo nome.
É também conhecido como castelo de Arouce embora mais distante da actual povoação de Foz de Arouce. A antiga vila de Arouce, junto ao castelo, há séculos que desapareceu, restando hoje alguns pedaços de muros espalhados pela serra e não se sabe em que data foi iniciada a construção da fortificação para a sua protecção.
O documento mais antigo que refere esta povoação de Arouce data do ano 943 e é um contrato entre Zuleima Abaiud, um cristão que vivia no mundo muçulmano(um moçárabe ) e o abade Mestúlio do Mosteiro do Lorvão. Nesse documento é mencionado o topónimo Arauz que deve ter originado Arouçe.
Admite-se que a construção do castelo, ou talvez a sua reconstrução, remonte a 1080, quando a povoação de Arouce foi pacificamente ocupada pelo conde Sesnando Davides, governador da zona de Conimbria (Coimbra), por mandato de Fernando Magno, rei de Leão e Castela que havia conquistado aquela cidade aos mouros em 1064, antes da formação do reino de Portugal. O castelo de Arouce foi reconquistado pelos mouros por volta de 1124, e reocupado e reparado por D. Teresa do condado Portucalense e mãe de D. Afonso Henriques . Já com a formação do reino de Portugal , o castelo fez parte da linha de defesa fronteiriça que era o rio Mondego, juntamente com os castelos de Penacova, Soure, Miranda do Corvo Penela e Ladeia, isto até 1147.
Quando D. Afonso Henriques conquista Santarém e depois Lisboa, a linha de fronteira passa a ser o rio Tejo e o castelo perde importância militar mas continua a ser usado como residência de verão pela rainha D. Mafalda, esposa de D. Afonso Henriques. O castelo e a povoação de Arouce recebem foral em 1151 mas mais tarde , em 1160, um novo documento já fala em Lousã como coisa distinta de Arouce , o que demonstra que a antiga povoação romana voltara a ter população com a pacificação da região, crescendo de tal forma que recebeu foral de D. Afonso II, no ano de 1207.
O castelo, de pequenas dimensões, tem as muralhas reforçadas por três cubelos e uma praça de armas de apenas 130 metros quadrados. O portão de entrada é flanqueado por dois cubelos semi-cilíndricos. O topo das muralhas é percorrido por um adarve, defendido por merlões chanfrados . A torre de menagem é ameada e de planta quadrada e nela se rasga uma porta ogival, ao nível do adarve ,com seteiras do lado oposto e mais duas portas no piso superior. A torre de menagem deve ter sido erguida durante o século XIV em alvenaria de xisto da era Silúrica, como aliás as suas muralhas , dado ser esta a única pedra da região. A excepção é a guarnição da porta da torre de menagem em grés branco..Entre a vertente escalvada e a torre de menagem subsistem restos da galeria da poterna , saída secreta do castelo para algum local do povoado.
Os séculos e o vandalismo provocado pela busca de tesouros iam destruindo o castelo até que em 1939,1942 e 1945 se fizeram trabalhos de reparação . Outros trabalhos pontuais foram executados em 1950,1956,1964,1971 e 1985, permitindo hoje mantê-lo em bom estado, numa rica paisagem florestal.

31.3.10

Mini BIG -BANG

Ontem,30 de Março , pelas 12 horas de Lisboa , ocorreu uma espécie de Big-Bang, a grande explosão que há 13,7 mil milhões de anos originou o Universo.

Tudo se passou no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra, Suiça, isto depois de uma avaria ocorrida ,há dois anos , no colossal equipamento que custou cinco mil milhões de euros e que o não deixou funcionar á primeira.

Apelando á vossa benevolência recordo o que escrevi na altura: A PARTÍCULA DE DEUS
A matéria ainda guarda muitos segredos para os cientistas que ,há dezenas anos ,tentam desvendar o mecanismo pelo qual as mais ínfimas partículas dos átomos são dotadas de massa. Embrenhados em sofisticadas equações matemáticas, tentam decifrar o mistério que continua insondável e Peter Higgs propôs, em 1964, uma hipótese que continua por comprovar.... mas estamos a ir rápido de mais.....! Todos sabemos que a matéria é feita de moléculas e que estas são formadas por átomos. Por sua vez, estes são constituídos por uma núvem de electrões que giram, em várias órbitas, em torno de um núcleo composto de protões e neutrões, cuja massa é milhares de vezes superior à dos electrões. Mas há mais... ! Os neutrões e protões são formados pelos quarks . Estes são partículas elementares da matéria que nunca se podem observar de forma isolada , interagindo com as quatro forças fundamentais da matéria . Sem entrar em grandes detalhes, diremos que há vários tipos de quarks como o Top (com uma massa 350.000 vezes a do electrão ) , o Bottom,o Charm ,o Strange,o Up e o Down, todos eles de massa diferente. As quatro forças fundamentais da matéria que interagem com as partículas e alteram a sua identidade, energia ou movimento são: a força nuclear forte. a nuclear fraca ,a electromagnética e a gravitacional. Para além dos quarks ,há outras partículas da matéria chamadas leptões. Ao contrário dos quarks, podem ser detectadas de forma isolada. São leves, vulneráveis à força nuclear fraca e imunes á forte. Como exemplo de leptões temos: o electrão, o muão.o tau, e os neutrinos(electrónico, muónico e tautónico), todos de massas diferentes. Além das partículas de matéria (quarks e leptões) existem partículas de energia, os bosões. São exemplos de bosão: fotão, W+, W-, Zº, gluão e os hipotéticos gravitão e bosão de Higgs. Os bosões são mediadores que permitem a transmissão de cada uma das forças fundamentais do Universo, a que já nos referimos um pouco vagamente. Voltemos então a essas forças: Força nuclear forte---actua sobre os quarks para formar protões, neutrões e outras partículas. É muito intensa e de curto alcance, mantendo os protões e neutrões coesos no núcleo. A sua partícula mediadora é o gluão . Força nuclear fraca---Actua sobre quarks e leptões e o seu efeito mais conhecido é a transformação de um neutrão em um protão, com emissão de um electrão e de um neutrino. Manifesta-se na radioactividade.Os seus mediadores são os bosões W+,W- e Zº.Força electromagnética----Actua sobre partículas electricamente carregadas, sem alterar a sua identidade. Faz com que cargas iguais se repilam e cargas diferentes se atraiam. Tem longo alcance e o seu mediador é o fotão. Força gravitacional----Age sobre partículas com massa.Tem longo alcance e pensa-se que a sua partícula mediadora seja o hipotético gravitão. Posto isto, chega-se a um quebra-cabeças; os físicos ao desenvolverem este novo modelo de átomo com as partículas e mediadores , atrás referidos, exigem que a massa de todas elas seja nula. Se a massa das partículas tem de ser nula, como é que se entende que a matéria, formada por átomos, tenha massa? Uma tentativa de explicação foi dada por Peter Higgs ao afirmar que o espaço deve ser atravessado por uma força que pode influenciar as partículas nele existentes que assim adquiririam massa. Essa força deve ser mediada por um bosão a que já chamaram bosão de Higgs ou partícula de Deus. Esta ideia colide com a nossa intuição, já que sempre consideràmos a massa como propriedade intrínseca da matéria mas, para os físicos de partículas não é assim. Eles explicam o facto da seguinte maneira : imaginemos uma grande sala cheia de adeptos do futebol.( a sala representa o espaço ocupado pelo campo de Higgs)De repente, entra por uma porta o Cristiano Ronaldo (simboliza a partícula). A presença do jogador gera uma perturbação que se propaga à medida que ele se desloca pela sala e atrai adeptos que se juntam á sua volta, dificultando-lhe a deslocação. Voltemos a falar de partículas; a resistência que a partícula sofre no seu movimento de atravessamento do campo de Higgs, confere-lhe massa. Atente-se na célebre fórmula da Teoria Geral da Relatividade de Einstein E=m.c2 em que massa e energia são convertíveis uma na outra, tudo dependendo do quadrado da velocidade C.. Por tudo aquilo que já descrevemos ,os físicos decidiram, no ano 2000 , construir um enorme acelerador de partículas, a mais potente máquinq alguma vez sonhada, para provar a existência do bosão de higgs. Este LHC (large hadron collider) está instalado num tunel com 27 kms de circunferência, construído na Suissa e pertencente ao CERN (centro europeu de pesquisa nuclear). Também nos Estados Unidos da América, um outro acelerador gigante, o TEVATRON , procura o bosão de Higgs, embora só tenha 6 kms de circunferência e foi nele que foi descoberta a última partícula conhecida, o quark Top. Mas para que serve esta máquina gigantesca, perguntará o leitor ? A ideia é fazer chocar protões, a altíssimas velocidades, afim de observar as partículas que resultam dessas colisões. Os protões e antiprotões são impulsionadas magneticamente num tubo, em sentidos opostos, no anel do acelerador com os tais 27 kms) .Logo que atinjam a velocidade necessária serão desviados para que entrem em colisão frontal, no seio de um detector. O LHC, com os seus 140 milhões de sensores,registará a passagem de milhares de partículas resultantes das colisões, esperando-se que entre elas esteja o bosão de Higgs.É compreensível ser a violência do choque a fazer a diferença entre o ser ou não observada a partícula de Deus., já que a massa das partículas é directamente expressa em energia (eV ou electrão volt) de acordo com a fórmula E=m.c2 .Ora se o Tevatron dos americanos que tem uma energia máxima de 2 Tev ( teraelectrão volt) ou sejam 2 triliões de electrões volt, se arroja à descoberta do bosão de Higgs o que esperar do LHC europeu que terá sete vezes mais ? Esperemos para ver, embora alguns digam que os cientistas estão loucos e que vão criar buracos negros e antimatéria, destruindo a Terra e talvez algo mais. Já passaram 24 horas sobre a experiência e a Terra ainda cá está. O Homem continua um aprendiz de feiticeiro.

24.3.10

O ALÉM DOS EGIPCIOS

Para os egípcios , a morte era a separação das cinco partes que constituíam o ser humano ; três estavam directamente ligadas ao físico e eram o khet (corpo), o shut (sombra) e o ren (nome) ; a duas imateriais seriam o Ka, uma ínfima porção da energia universal cósmica que a pessoa recebia ao nascer e desaparecia com a morte e o ba que poderíamos designar como a personalidade. O nome, atribuído ao nascer, ,era muito importante, pois ele tinha de ser reconhecido e recordado na outra vida . Um dos piores castigos que um egípcio podia sofrer era apagarem-lhe o nome de documentos ou de outro qualquer local pois cairia no esquecimento eterno . A sombra era a imagem do lado negativo do indivíduo enquanto vivente. Como as referidas cinco partes deveriam voltar a juntar-se no Além , uma série de procedimentos teriam de ser executados logo a seguir ao óbito. A preservação do corpo era imprescindível, daí terem de o mumificar. O processo mais perfeito demorava 70 dias e era realizado em fases bem diferenciadas. A mumificação dependia do dinheiro que os familiares do defunto podiam pagar; na realidade havia três qualidades de embalsamamento e só os ricos acediam ao mais elaborado. Os mais pobres tinham de contentar-se com uma limpeza abrasiva das entranhas e a um banho com uma solução de carbonato de sódio para desidratar o corpo mumificando-o. Um tratamento médio consistia em injectar óleo de cedro no abdómen, e o corpo lavado com carbonato de sódio. Passados alguns dias ao retirar-se o óleo de cedro este arrastava consigo os órgãos internos desfeitos e o corpo era enfaixado. Junto à múmia eram colocados amuletos e recitadas fórmulas mágicas para a preservação do corpo.
No caso dos ricos, o corpo era primeiro purificado lavando-o com água fresca perfumada e pelos orifícios nasais era retirada a maior quantidade possível de massa encefálica . Através de um incisão no lado esquerdo do cadáver eram retiradas as vísceras que se embalsamavam em separado e posteriormente guardadas em vasos especiais (vasos canopos) . Esvaziado o corpo este era lavado com vinho de palma e especiarias e recheado com mirra , incenso , carbonato de sódio e perfumes. De seguida era coberto de carbonato de sódio durante 36 dias. Passado este tempo o corpo era retocado e pintado para melhorar o aspecto ; assim o golpe lateral por onde tinham retirado as vísceras era disfarçado com uma camada de cera ou com uma placa de ouro e todos os orifícios naturais tamponados com uma resina. Os dedos eram cobertos com grandes dedais para não se desfazerem. Terminada esta cosmética o corpo era enfaixado numa operação dupla com ligaduras de linho. Após tudo isto fazia-se o funeral. Este consistia numa procissão solene em que o cadáver era levado num andor , por vezes em forma de barca, sob uma cobertura colorida, Uma parelha de bois levava o caixão juntamente com uma caixa onde iam os vasos canopo que continham as vísceras e um enigmático tekenu . Um sacerdote abria o cortejo oferecendo libações e incenso; seguiam-no os familiares e os amigos , as carpideiras e outros sacerdotes menores. Também eram transportados os objectos pessoais do falecido tais como móveis , vestidos, jóias ,perfumes, armas, comida e bebidas e até estatuetas de criados que se transformariam em seres reais no Além, tudo para que nada faltasse ao defunto na outra vida. Para que o falecido pudesse ressuscitar era necessário ainda despertar os sentidos o que era realizado numa complexa cerimónia , conhecida como abertura da boca . Esta cerimónia era presidida pelo filho herdeiro que a oficiava como sacerdote, coberto por uma pele de felino, No fim deste longo e complexo ritual a múmia era finalmente colocada no sarcófago e o túmulo selado

18.3.10

História do Viagra



A potência sexual foi sempre um elemento primordial para o homem , mesmo nas sociedades primitivas pois era significado de poder. Os Gregos antigos não escapavam a esta premissa e a cura da impotência preocupava já os médicos daqueles tempos .
Certamente terão fracassado as rezas dos “ asclépiades” e por isso os “hipocráticos” aplicavam no pénis , no ânus e nas coxas uma mistura de azeite e pimenta , esfregando toda a zona com um ramo de urtigas . Não sabemos se acertaram com o receituário! Também entre os chineses a potência sexual é obsessão histórica : o elixir dourado procurado pela alquimia taoista para obter a imortalidade estava relacionada com o rendimento sexual do homem. Os farmacêuticos ambulantes da antiga China dispunham de vários medicamentos tais como sangue de serpente que os velhos deveriam beber por uma taça de cristal, ou sopas de barbatanas de tubarão ou de ninhos de andorinha. Ainda hoje os ervanários chineses vendem lâminas de cornos de veado para estimular a potência sexual. Não eram só os chineses que assim pensavam; Henrique IV meio irmão de Isabel , a católica, de Espanha chegou a enviar emissários a África para procurarem o corno do unicórnio. Ficou para a história com o cognome de “o impotente”.
Em 1985, dois investigadores dos laboratórios farmacêuticos Pfizer, Simon Campbell e David Roberts que trabalhavam num fármaco para as doenças cardiovasculares , verificaram que o citrato de sildenafil era um poderoso agente eréctil , pois inibia um enzima que limita a produção de oxido nítrico. A substância em causa dava lugar a um maior fluxo de sangue no corpo cavernoso do pénis e a uma prolongada erecção . Os laboratórios da Pfizer patentearam o produto em 1996 e comercializaram-no com o nome de Viagra. Embora surta os efeitos desejados , tem efeitos secundários indesejáveis como dores de cabeça ,vermelhidão no rosto e visão azul, para já não falar em casos raros de morte por enfarte cardíaco . Parece que o nome do medicamento deriva da antiga palavra oriental vyaghra que significa homem com força de tigre.
Não fujo à tentação de transcrever passagens de um site que afirmava :….desde que apareceu o viagra os velhos andam todos malucos ! Embora o viagra tenha salvo alguns casamentos em risco e tenha dado a outros novas cores, serve igualmente para destruir as famílias e semear a desgraça , tudo porque a relação está a ser feita na base de uma performance sexual artificial. Não se pense, no entanto, que este tema diz respeito só aos velhos . A moda do viagra estendeu-se a outras idades . São os jovens que perspectivando uma relação ocasional e querendo fazer boa figura , recorrem ao elixir e a relação que começa esforçadamente na cama ,continua nesta somente até os parceiros se cansarem um do outro. As mulheres devem desconfiar do macho que conheceram na discoteca e que se manteve firme várias horas. Não pensem que ele se manterá sempre assim pois mais cedo ou mais tarde os efeitos secundários do medicamento se farão sentir. O mesmo podemos dizer de certos produtos anunciados como afrodisíacos femininos que transformam a mulher numa devoradora de homens. Os efeitos secundários são inevitáveis.

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