20.4.10

MIMETISMO


O mimetismo (mimesis = imitação) é uma adaptação evolutiva em que um organismo (animal ou planta) desenvolve características que o confundem com o meio ambiente, numa espécie de camuflagem, ou o assemelham a outros seres vivos com quem nada tem a ver filogeneticamente. Tudo isto acontece para escapar aos seus predadores ou para, sendo ele um predador, as suas vítimas o não reconhecerem como tal. Entre os critérios de disfarce destacam-se: o aspecto da coloração do organismo, a textura de sua superfície, a morfologia corporal, bem como o comportamento e características químicas.

( Na foto acima um insecto verde que se confunde com a folhagem)

Do que acabamos de escrever podemos concluir que há várias formas de mimetismo tais como : defensivo, agressivo e um terceiro tipo, não tão evidente, o reprodutivo. Este último tipo é muito comum entre os vegetais e dele falaremos adiante. Para já vejamos alguns tipos de mimetismo animal, exemplos fáceis de entender por todos : Existem serpentes que, conforme o seu habitat é em terra ou nas árvores, possuem escamas epidérmicas com coloração aproximada à do meio ambiente onde vivem, sendo confundidas com restos de folhas e gravetos junto ao solo, ou semelhantes ao estrato arbóreo, isto é, apresentando a cor dos troncos da árvore ou a cor das folhas, passando assim despercebidas às suas habituais vítimas, e até ao homem.
O mesmo acontece com determinados sapos e rãs que, mediante a cor e rugosidade do corpo, praticamente se confundem com o substrato lamacento ou os pedregulhos das margens dos charcos e lagos que habitam. É também muito conhecido o exemplo do camaleão que rapidamente altera a sua cor ,confundindo-se com o ambiente .
Já no caso de alguns ursos e raposas do árctico, a cor do pêlo muda de acordo com a época do ano: durante o inverno é totalmente branca e no resto do ano mais acinzentada. Neste caso não será correcto falar de mimetismo , talvez seja mais camuflagem mas ,de qualquer forma, uma vantagem para se aproximarem das presas sem serem vistos. Existem insectos que praticamente ficam invisíveis, tamanha é a semelhança com a vegetação, não se distinguindo de uma folha ou graveto; é o caso das mariposas, borboletas , joaninhas, e do insecto folha, assim chamado por se parecer com uma folha da planta onde se esconde.

( A figura acima não é uma folha mas sim im insecto com aquela forma)
Em geral, o mimetismo ocorre em espécies com pouca mobilidade, ou que costumam ficar em repouso por longos períodos.
Alguns animais aumentam o volume, a forma ou a cor do corpo para parecerem mais fortes ou perigosos e assim causarem medo em seus habituais predadores. Algumas espécies de cobras não venenosas assumem a forma e a cor, bem como o comportamento, das espécies venenosas para confundir os seus predadores
Dados estes poucos exemplos, vejamos como classificar as diversas formas de mimetismo:

Os mimetismos de defesa são aqueles em que os animais tentam parecer-se a outros muito perigosos, venenosos ou agressivos, para não serem atacados, tal como a borboleta cuja coloração das asas, quando abertas , se assemelha aos olhos de um mocho, ou a cobra do leite que sendo inofensiva, se parece com uma cobra coral (terrivelmente venenosa), afastando os atacantes.


(Borboleta em que as cores das asas lembram olhos de mocho)
Os mimetismos de ataque correspondem a animais predadores que adoptam um aspecto parecido ao da presa para se puderem aproximar sem serem descobertos, como é o caso de uma espécie de aranha que se assemelha a uma das formigas que constituem a sua alimentação. De idêntico modo o Bútio, uma ave de rapina, se confunde com outras e se mistura com elas para poder caçar.
Os mimetismos reprodutores aparecem mais tipicamente em plantas. Há plantas com flores ou partes delas que se assemelham à fêmea de um insecto, com o intuito de que o insecto macho pouse e acabe por fertilizar a planta com o pólen que transporta agarrado ao corpo. Também é aqui colocado o caso de cucos que imitam falcões para afastar as aves dos ninhos. Uma vez conseguido isto o cuco mistura os seus ovos com os da outra ave ou até os substitui . Quando o aparente perigo termina a ave volta ao seu ninho e acaba por chocar os ovos do cuco,.

O naturalista inglês Henry Bates foi o primeiro a propor um conceito de mimetismo, ao observar variadas espécies de borboletas no vale do Amazonas. Bates, cujos trabalhos a esse respeito foram publicados em 1862, verificou que as espécies gregárias de lepidópteros da família dos heliconídeos, dotadas de odor repugnante, se misturavam com outras sem essa propriedade e pertencentes à família das danaídeos. A semelhança morfológica e de coloração entre as borboletas dos dois tipos era tal que só um exame minucioso permitia distingui-las. Bates concluiu então que a aquisição do aspecto externo de uma espécie que estava protegida pelo seu odor nauseabundo fazia com que aquela, embora inofensiva para os predadores, não fosse atacada por estes. A esta modalidade de mimetismo deu-se o nome de mimetismo Batesiano.


Em 1865, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace fixou as seguintes leis para o mimetismo:
1º- a espécie mimética (que se disfarça ) ocorre na mesma área e época do ano da que lhe serve de modelo;
2º- as espécies miméticas são sempre menos protegidas;
3º- os seres miméticos são sempre menos numerosos por se reproduzirem menos;
4º- os miméticos pertencem a grupo sistemático diferente do grupo que lhe serve de modelo;
5º- a semelhança nunca se estende a caracteres internos pois estes não são visíveis pelo predador.

Em 1879, o naturalista alemão Fritz Müller, descreveu outro tipo de mimetismo, em que a protecção de um grupo de animais se torna eficiente depois do predador aprender, por experiência própria, a seleccionar suas presas. Por exemplo, a lagarta Euchelia jacobaea, berrantemente colorida com faixas amarelas e negras, é rejeitada por aves insectívoras após um contacto mínimo, devido a secreções nauseabundas que emanam de sua derme. As vespas que trazem o mesmo padrão de coloração têm igualmente um gosto nauseabundo, por causa de seus órgãos digestivos. As aves, após terem atacado vespas ou lagartas daquelas espécies, rejeitam qualquer insecto que exiba o mesmo tipo de padrão cromático. Tal condicionamento permite, assim, protecção colectiva de grande quantidade de insectos que tenham listas amarelas e negras, mesmo sem terem mau cheiro.


O mimetismo Mülleriano apresenta as seguintes características:
--as espécies possuem coloração de advertência e protecção;
--todas as espécies devem ser igualmente abundantes;
-- a semelhança entre as formas não é necessariamente tão exacta como a que ocorre no mimetismo batesiano.

No mimetismo batesiano, uma espécie desprotegida assume o aspecto de outra, abundante e bem protegida, de modo a que fique com a reputação do modelo. No mimetismo mulleriano, várias espécies, todas frequentes e bem protegidas, mostram traços comuns de advertência. Nem sempre, todavia, é possível determinar se uma associação é Batesiana ou Mülleriana.
Tentemos agora explicar como ocorrem alguns destes fenómenos de mascaramento:

Há duas maneiras pelas quais os animais produzem cores diferentes: através de biocromos ou por metabolismo.
Os biocromos são pigmentos naturais microscópicos presentes no corpo do animal que produzem cores quimicamente. A sua química é tal que eles absorvem algumas cores da luz natural e reflectem outras. Não esqueçamos que a cor aparente de um pigmento é a combinação de todos os comprimentos de onda de luz visíveis que estão a ser reflectidos . Desta maneira os biocromos do animal parecerão verdes se a luz que neles incide for a verde, por exemplo emitida pelas folhas das árvores.
Os animais podem também produzir cores através de estruturas físicas microscópicas. Estas estruturas agem como prismas, reflectindo e refractando luz visível. Dessa maneira, uma certa combinação de cores é reflectida. Os ursos polares, por exemplo, têm na realidade a pele preta, mas parecem brancos por terem pêlos translúcidos. Quando a luz incide nos seus pêlos, cada pêlo desvia ligeiramente a luz, fazendo então com que parte dela se desvie para a superfície da pele do urso e o resto da luz seja reflectida produzindo a coloração branca. Em alguns animais, os dois processos de coloração atrás citados estão combinados. Por exemplo, répteis, anfíbios e peixes com coloração verde normalmente têm uma camada de pele com pigmento amarelo e uma camada de pele que espalha a luz para reflectir uma cor azul. Combinadas, estas camadas de pele produzem o verde.
As colorações sejam elas físicas ou químicas são determinadas geneticamente; sendo transmitidas de pais para filhos, mas não podemos esquecer que cada espécie desenvolve a sua coloração da camuflagem gradualmente, através do processo de selecção natural, daí falarmos em genética.
Relembremos que na natureza, um animal que combine melhor suas cores com as do meio em que vive, está mais apto a passar despercebido pelos predadores e, por isso, tem mais probabilidades de sobreviver . Consequentemente, o animal que combina melhor com seu meio ambiente está mais apto a procriar que um animal que não combina. As crias de um animal que se camufla provavelmente herdarão a mesma coloração, e eles também viverão o suficiente para passá-la aos seus descendentes. Desta maneira a espécie, como um todo, desenvolve coloração ideal para a sobrevivência no seu meio ambiente.
Os processos de coloração dependem da fisiologia do animal. Na maioria dos mamíferos, a coloração da camuflagem está nos pêlos, já que esta é a camada mais externa do corpo. Nos répteis, anfíbios e peixes, está nas escamas; nos pássaros está nas penas; e nos insectos estará no exoesqueleto (carapaça). A própria estrutura da cobertura externa pode também evoluir para criar uma camuflagem melhor. Em esquilos, por exemplo, o pêlo é bastante áspero e irregular, lembrando a textura de casca de árvore. Muitos insectos têm uma carapaça que imita a textura macia das folhas.

Já vimos que a forma mais básica de camuflagem é a coloração que combina com o meio ambiente de um animal. Porém, o meio ambiente de um animal pode mudar de tempos a tempos. Muitos animais desenvolveram adaptações especiais que lhes permitem mudar a coloração de acordo com a mudança do seu meio ambiente.
Uma das maiores mudanças no meio ambiente de um animal ocorre na alternância de estações do ano. Na primavera e verão, o habitat de um mamífero pode estar cheio de verde e castanhos, enquanto no outono e inverno tudo pode estar coberto de neve. Enquanto a coloração acastanhada é perfeita para um meio ambiente amadeirado de verão, pode tornar o animal um alvo fácil contra um fundo branco. Muitos pássaros e mamíferos lidam com isto produzindo diferentes cores de pêlo ou de pena dependendo da época do ano. Na maioria dos casos, tanto a mudança da luz do dia como a mudança na temperatura desencadeiam uma reacção hormonal no animal, o que causa a produção de diferentes biocromos, os pigmentos que já antes referimos.

As penas e pêlos em animais são como cabelos e unhas dos humanos - são, na verdade, tecido morto. Estão presos ao animal, mas como não estão vivos, o animal não pode fazer nada para alterar a sua composição. Consequentemente, um pássaro ou um mamífero tem que produzir uma pelagem ou penas completamente novas para mudar de cor. Em muitos répteis, anfíbios e peixes, por outro lado, a coloração é determinada por biocromos em células vivas. Os biocromos podem estar em células na superfície da pele ou em células em níveis mais profundos. Estas células em níveis mais profundos são chamadas de cromatóforos.
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Alguns animais, como algumas espécies de sépias (molusco da classe celafopoda - a mesma de lulas e polvos), podem manipular seus cromatóforos para a troca total da cor de sua pele. Estes animais possuem uma colecção de cromatóforos e cada um deles contém um pigmento singular. Cada cromatóforo simples pode estar envolto por um músculo que pode contrair ou expandir. Quando o músculo da sépia se contrai, todos os pigmentos são empurrados para a parte superior do cromatóforo. No topo, a célula fica achatada dentro de um disco largo e com a cor própria. Quando o músculo relaxa, a célula retorna ao seu formato natural de um pequeno ponto colorido difícil de ser visto . Constraindo os cromatóforos com um determinado pigmento e relaxando todos os outros com outros pigmentos, o animal pode trocar toda a cor do seu corpo. Sépias, com essa habilidade, podem gerar uma ampla gama de cores e muitos desenhos interessantes. Por perceber a cor de um fundo, o animal pode misturar-se a todos os tipos de meio ambiente.


O camaleão, por exemplo, altera a coloração de sua pele usando um mecanismo similar, mas não para se camuflar. Tendem a trocar a cor de sua pele quando o humor deles muda, mesmo sem se moverem para meio ambientes diferentes.
Quanto ao nudibranche (pequeno animal marinho) que se alimenta de um tipo específico de coral, seu corpo deposita os pigmentos deste coral na pele e em extensões externas do intestino. Os pigmentos aparecem, e o animal torna-se da mesma cor que o coral. Como o coral não é só a comida da criatura, é também o seu habitat, a coloração é a camuflagem perfeita. Quando o animal se move para outro coral de cores diferentes das do anterior, o seu corpo troca de cor devido à nova fonte de comida.
Muitas espécies de peixe gradualmente produzem diferentes pigmentos sem ter de mudar a sua dieta. Isto funciona mais ou menos como troca de pelagem sazonal dos mamíferos e pássaros. Quando o peixe troca de meio ambiente, recebe sinais visuais do novo modelo de ambiente. Baseado no seu estímulo visual, estas espécies começam a liberar hormonas que mudam a maneira de seu corpo produzir pigmentos. Com o tempo, a coloração dos peixes muda para combinar com o novo meio ambiente.
E por agora já chega de falar em mimetismo.

14.4.10

HISTÓRIAS DO EGIPTO

Quando, em 1490 antes de Cristo, Tutemosis II morreu sem deixar descendência masculina da sua união com a esposa real que era a sua meia irmã Hatshepsut, entrou em cena o único filho varão do soberano e de uma concubina de nome Isis e que ficou conhecido como Tutemosis III. Como este herdeiro do trono era uma criança , o clero, a nobreza e o exército apoiaram uma regência de Hatshepsut durante a infância do seu sobrinho e enteado. A regência acabou por durar vinte e dois anos , pois rapidamente se tornou num reinado a dois, entre tia e sobrinho, terminando apenas em 1468 aC, com a morte de Hatshepsut. Sabe-se que Hatshepsut sempre teve um papel preponderante na governação, embora o soberano fosse Tutemosis III, de tal forma que no sétimo ano de regente se faz coroar faraó (rei), adoptando título real e até passou a usar a barba postiça. Tal só foi possível com a concordância do poderoso clero de Amon que a rainha protegia e favorecia enormemente .
Este caso estranho de dois faraós a compartilhar o poder está representado no templo de Karnak em que se vêem os dois a fazer oferendas na barca de Amon a quando do regresso da famosa expedição que Hatshepsut enviara ao país de Punt (Somália) em busca de incenso , mirra e outros produtos exóticos.
A rainha também concedeu à sua filha primogénita os atributos dos príncipes herdeiros e é possível que Tutemosis III tenha casado com filhas da soberana e que uma delas, Neferuré tenha sido a mãe do futuro faraó Amenhotep II.
Preparado desde muito cedo para a guerra, Tutemosis III comandou efectivamente o exército e seguiu numa expedição contra a Núbia que se havia rebelado e retomando o controlo das minas do Sinai, expulsando os beduínos. Este facto está recordado , sem esquecer a rainha, numa estela que diz :….. No ano 16, sob a majestade do rei do Alto e Baixo Egipto Maatkare ( Hatshepsut)…….e sob a majestade de Menkhepene (Tutemosis) que viva , seja estável e duradouro ,o rei pôs-se à cabeça dos seus soldados ….. Com a morte da rainha começa o governo a solo de Tutemosis III, então com 34 anos de idade , tendo desenvolvido uma campanha expansionista em 17 acções militares . Assim incluiu nas suas fronteiras a Núbia, a Líbia, Síria e Chipre. Segundo os relatos dos seus generais , além de grande estratega, conseguiu a submissão dos príncipes dos territórios conquistados sem recorrer a actos de crueldade para com eles. Tutemosis III mandou construir o seu templo funerário em Deir el-Bahari, entre os templos de Mentuhotep II e de Hatshepsut. O templo, descoberto em 1962, não possui a grandiosidade do templo da madrasta.
Tutemosis III foi enterrado no Vale dos Reis. À semelhança do que aconteceu com outros túmulos este também foi alvo de pilhagens. As suas paredes encontram-se decoradas com figuras esguias, pintadas a negro e vermelho sobre um fundo cinzento que pretendia simular o aspecto de um papiro, encontrando-se nelas a versão mais completa do Livro de Amduat que fornecia ao faraó defunto um mapa do mundo dos mortos e feitiços protectores e a versão mais antiga que se conhece da Litania de Rá. A sua múmia foi encontrada em 1889 num estado danificado no "esconderijo" de Deir el-Bahari, para onde tinha sido transladada pelos sacerdotes da XXI dinastia que pretendiam proporcionar-lhe uma maior segurança e consequentemente garantir a vida eterna ao faraó.
Voltemos um pouco atrás nesta história e vejamos o ardil montado por Hatshepsut para conseguir convencer o clero de que , embora mulher, podia ser faraó. Nas paredes do seu templo , em Deir el-Bahari, está representado o episódio que relata a sua concepção e o seu nascimento.
A mãe de Hatchepsut, Ahmose, encontra-se no palácio real. O deus Amon- observa-a e, depois de consultar um conselho composto por doze divindades, decide que chegou a altura de gerar um novo faraó. O deus toma a aparência do rei Tutmosis I, que a encontra adormecida no quarto. A rainha Ahmose acorda ao sentir o perfume que emana do corpo do esposo e o Deus Amon mostra-se em toda sua plenitude. Ahmose, cai aos prantos de emoção pela grandiosidade do Deus. O casal une-se sexualmente e depois Amon-Rá informa que a filha que nascerá da união dos dois, governará o Egipto em todas as esferas de poder do palácio.
Apesar de não concordarem, os sacerdotes foram obrigados a legitimar a história, pois viviam bem e com muitas mordomias, principalmente por causa das doações que a rainha lhes fazia . Acreditaram que se o Deus Amon não ficasse satisfeito com as decisões da rainha, o Egipto sofreria com pragas e colheitas ruins. Mas parece que o deus Amon estava de acordo com as ideias de Hatshepsut, pois ela governou num período de muita prosperidade e tranquilidade. Ontem como hoje ,o clero submete-se ao poder instituído desde que obtenha regalias.
Alguns anos após a morte o seu nome foi apagado de monumentos e outros documentos não se sabendo onde se encontra a sua múmia, embora haja notícias que a mesma foi identificada . Sobre este último ponto não encontramos fontes credíveis.

8.4.10

O PRINCÍPIO DE PETER


O «Princípio de Peter» foi proposto por Laurence Johnston Peter (1919–1990), antigo professor na University of Southern California e na University of British Columbia.
De acordo com o autor, em organizações burocráticas , hierarquicamente bem estruturadas, os funcionários tendem a ser promovidos acima do seu "nível de incompetência". O autor, a partir de um conjunto de observações, mostra como os funcionários costumam começar em posições hierárquicas inferiores. Porém, quando se mostram competentes na tarefa que desempenham, normalmente, são promovidos para posições hierárquicas superiores. Esse processo mantém-se até atingirem uma posição onde já não são competentes. isto é, uma posição onde as competências que despoletaram a sua ascensão já não são as necessárias para essa mesma posição. E, visto que a despromoção não é um mecanismo habitual, as pessoas mantém-se nessas posições prejudicando a organização onde se encontram. É isso que Peter designa por "nível de incompetência" - o grau a partir do qual as pessoas já não possuem competências para a posição que ocupam. Porém, não posso deixar de pensar no autor sempre que me deparo com algumas situações que parecem enquadrar-se, perfeitamente, no "princípio de Peter". Como me deparei com algumas em empresas públicas e na política portuguesas dado haver actualmente no nosso país, incompetentes em cargos de gestão e chefia , encontrei para tal uma explicação na blogosfera que passo a citar:
. Sinto nostalgia do tempo em que, quando entrei para o mercado de trabalho do Estado, o Princípio de Peter descrevia bem a gestão. Pelo menos tínhamos um chefe que fora bom em algo — apesar de tomar decisões erradas, porque não tinha aptidões de gestor — e todos tínhamos a esperança de sermos promovidos para além dos nossos níveis de competência. Só que o Princípio de Peter foi substituído pelo Princípio de Dilbert: “Os mais ineficientes são sistematicamente colocados onde podem causar menos danos, isto é, em cargos de gestão.”
Mas quem foi o Dilbert ?
Na década de 90, era bastante popular a “banda desenhada” de um personagem caricato do ambiente de trabalho chamado Dilbert. Esse personagem foi criado por Scott Adams, um americano e empregado típico - submisso e obscuro - de duas grandes corporações. As bandas desenhadas mostravam como os trabalhadores eram colocados diante de situações ridículas e absurdas por chefes incompetentes, insanos e até mesmo, sádicos. Diante disso, é fácil deduzir que elas caíram rapidamente no gosto do público. O livro Princípio Dilbert ocupou o topo da lista dos mais vendidos do New YorK Times e Dilbert chegou a ser considerado uma das 25 personagens mais influentes dos EUA
Scott Adams não perdoava nada. Toda e qualquer técnica ou método de gestão em uso, foi alvo de ironias impiedosas, pois ele aproveitava-se de falhas ou insucessos para generalizar o princípio de que tudo o que acontece no ambiente de trabalho fora cuidadosamente elaborado para alienar as pessoas.
O moral dos empregados é algo de arriscado. Os empregados felizes trabalharão mais sem pedirem salários suplementares. Mas, se estiverem demasiado felizes, começam a lamentar-se de que, com o seu salário actual, terão de viver numa barraca quando se reformarem. O melhor equilíbrio de moral para a produtividade dos funcionários é: felizes, mas com pouca auto-estima.As empresas criaram técnicas que fazem descer a auto-estima dos empregados para a “zona produtiva” sem sacrificarem a felicidade. As que se têm mostrado mais eficazes são as técnicas de humilhação. Eis as mais utilizadas:
Cubículos. São “espaços de trabalho” de pequenas dimensões, separados por biombos, sem tecto nem janelas e são transportáveis. O único contra é que alguns empregados adquirem um sentimento de “lar” na sua pequena parcela de propriedade imobiliária, surge o orgulho de proprietário e ... adeus produtividade! Mas, graças ao novo conceito de atribuição de cubículos aos empregados à medida que vão chegando, este risco pode ser eliminado. Outra vantagem é que acaba com as confusões quando se têm que fazer reduções de pessoal; o empregado nem precisa de esvaziar a secretária;
Vestuário. As empresas descobriram um método barato de obrigarem as pessoas a vestirem-se de forma humilhante, mas variada, sem terem despesa com uniformes. Eis o simbolismo de alguns acessórios de vestuário: a gravata simboliza uma trela; os collants são como grilhetas de prisioneiros; os saltos altos simbolizam masoquismo;
Programas de prémios aos empregados. Enviam uma mensagem a todos os empregados, e não apenas aos vencedores, ou seja: “aqui está mais uma pessoa que só será despedida depois de te tratarmos da saúde”;
Subestimar o contributo dos empregados. O sentimento de que o trabalho está a ser valorizado provoca auto-estima, que surge acompanhada de pedidos de dinheiro nada razoáveis. Os métodos mais cruéis que funcionam melhor são: folhear uma revista enquanto o empregado exprime uma opinião, pedir uma informação com urgência e depois deixá-la em cima da secretária de quem a elaborou durante semanas e mandar a secretária responder a telefonemas que eram para si.
Para terminar digo-lhe como fingir ser um empregado produtivo sem qualquer dispêndio real de tempo ou energia. Eis algumas dicas para o conseguir:
Seja consultor. Se não pode ser gestor, seja consultor de pessoas que fazem o trabalho. Pode necessitar de alguma especialização, mas não exagere. Quando for considerado mais esperto que os outros, não interessa se é 1% ou 1000% mais esperto;Mude frequentemente de funções. Quanto mais tempo se mantiver numa função, maior será o volume de trabalho que lhe pedirão que faça. Mude de funções tantas vezes quantas puder. Dois anos é o tempo máximo de permanência na mesma função;Queixe-se da sua carga de trabalho. Deve inserir em qualquer conversa as frases “estou atolado em problemas”, “hoje recebi 1500 mensagens de voice mail”, “vou ficar cá outra vez no fim-de-semana”. Elas vão penetrando no subconsciente das pessoas, que o considerarão um trabalhador esforçado;Mantenha a secretária desarrumada. Os executivos podem ter a secretária arrumada, mas para os restantes trabalhadores é sinal de que não estão a trabalhar o suficiente. Erga pilhas enormes de documentos porque o que conta para o observador é o volume.
Bom dia de trabalho!
(este texto é uma adaptação, com a devida vénia, de vários outros encontrados na blogosfera )

5.4.10

MAÇONARIA- o que é?


A origem da Maçonaria remonta à Idade Média , sabendo-se que em 24 de Junho de 1717 foi fundada a Grande Loja Maçónica de Londres e em 1723 o Grande Oriente de França. A maçonaria é uma sociedade secreta na qual homens livres e de bons costumes cultivam a liberdade, a fraternidade e a igualdade entre os seres humanos tendo como princípios a tolerância , a filantropia e a justiça. Poderemos ainda afirmar que é uma ordem iniciática e ritualista, baseada no livre pensamento com vista a edificar uma sociedade mais livre, justa e igualitária . A Maçonaria rejeita dogmas, combate a opressão, o terror, a ignorância, a miséria e a corrupção. Dissemos que era iniciática porque nela só ingressa quem se submete à cerimónia de iniciação que significa a passagem das trevas para a luz do conhecimeno ; ritualista porque as reuniões obedecem a determinados rituais,
Os maçons reúnem-se num local chamado loja, onde praticam os rituais de reflexão , dirigidos por um mestre, conhecido como venerável mestre. As cerimónias de reflexão e aprendizagem são sempre realizadas em honra e homenagem a Deus . A maçonaria aceita a existência de um princípio superior, simbolizado pelo Grande Arquitecto do Universo que não tem definição e que cada um interpreta segundo a sua convicção. Para uns será o Deus em que acredita , para outros os Sol ou a Natureza , para outros a resultante de todas as forças que actuam no Universo e o regem. Desta forma há o respeito por todas as religiões , pois todas são verdadeiras se lhe retirarmos o fanatismo e a superstição. No passado medieval, o maçon era obrigado a seguir a religião do seu país , mas com o “ iluminismo” considerou-se adequado apenas impor a religião sob a qual todos estão de acordo , e que consiste em amar o próximo , fazer o bem e ser homem bom, de honra e probidade. Assim a Maçonaria acolhe ateus , agnósticos e pessoas de diversos credos. Há contudo divergências : A Maçonaria Regular, Tradicional ou de Via Sagrada impõe a crença em Deus . na imortalidade da alma e não aceita mulheres na ordem, em clara oposição ao que defendem os do ramo Liberal ou Laico. Os primeiros, ao manterem uma tradição de 300 anos , não se adequando aos valores éticos actuais, excluem três quartos da humanidade. Os ensinamentos maçónicos são transmitidos através de símbolos, dando assim um conhecimento profundo e adequado ao nível intelectual de cada indivíduo. A Maçonaria tem em mente a instrução moral, física e intelectual. Os ensinamentos buscam sempre lembrar três deveres fundamentais do ser humano : os deveres para consigo próprio, para com a humanidade e para com Deus. Para consigo consiste em estabelecer uma perfeita ligação entre a personalidade e a individualidade, entre o corpo e a alma . Para com a humanidade compreendendo a família, a pátria e o universo.. Para com Deus por ser o princípio de tudo.
Como o fim último da Maçonaria é a”construção” de um homem novo e esta ideia de construção é baseada na geometria que os maçons consideram a mais nobre das artes, assim se explica que a régua, o esquadro e o compasso sejam o símbolo do pensamento maçónico, numa recordação simbólica das antigas associações de pedreiros livres , construtores das catedrais góticas. De idêntica forma se explicam os aventais usados nas cerimónias.
Ao que conseguimos apurar, em Portugal existem actualmente duas grandes obediências maçónicas : o Grande Oriente Lusitano, fundado em 1802 e reconhecido pelo Grande Oriente de França desde 1804 . Tem o maior número de filiados e representa a Maçonaria Liberal ; a outra é a Grande Loja Legal de Portugal criada em 1996 tendo a maioria dos membros saído da Grande Loja Regular de Portugal.
Existe ainda a Grande Loja Feminina de Portugal fundada em 1997 e constituída exclusivamente por mulheres.
Fundada em 1923 surge uma ordem maçónica mista designada de O Direito Humano.Pautada por grande descrição e elitismo está também presente em Portugal a Ordem Maçónica Mundial do Rito Antigo e Primitivo de Memphis Misraim, pouco se sabendo das suas actividades .

3.4.10

O CASTELO DA LOUSÃ


O castelo da Lousã fica situado na margem direita da ribeira de Arouce ( um sub afluente do rio Mondego ) no alto de um estreito contraforte da serra da Lousã e toma esta designação por se encontrar a cerca de 1,5 Kms da vila com o mesmo nome.
É também conhecido como castelo de Arouce embora mais distante da actual povoação de Foz de Arouce. A antiga vila de Arouce, junto ao castelo, há séculos que desapareceu, restando hoje alguns pedaços de muros espalhados pela serra e não se sabe em que data foi iniciada a construção da fortificação para a sua protecção.
O documento mais antigo que refere esta povoação de Arouce data do ano 943 e é um contrato entre Zuleima Abaiud, um cristão que vivia no mundo muçulmano(um moçárabe ) e o abade Mestúlio do Mosteiro do Lorvão. Nesse documento é mencionado o topónimo Arauz que deve ter originado Arouçe.
Admite-se que a construção do castelo, ou talvez a sua reconstrução, remonte a 1080, quando a povoação de Arouce foi pacificamente ocupada pelo conde Sesnando Davides, governador da zona de Conimbria (Coimbra), por mandato de Fernando Magno, rei de Leão e Castela que havia conquistado aquela cidade aos mouros em 1064, antes da formação do reino de Portugal. O castelo de Arouce foi reconquistado pelos mouros por volta de 1124, e reocupado e reparado por D. Teresa do condado Portucalense e mãe de D. Afonso Henriques . Já com a formação do reino de Portugal , o castelo fez parte da linha de defesa fronteiriça que era o rio Mondego, juntamente com os castelos de Penacova, Soure, Miranda do Corvo Penela e Ladeia, isto até 1147.
Quando D. Afonso Henriques conquista Santarém e depois Lisboa, a linha de fronteira passa a ser o rio Tejo e o castelo perde importância militar mas continua a ser usado como residência de verão pela rainha D. Mafalda, esposa de D. Afonso Henriques. O castelo e a povoação de Arouce recebem foral em 1151 mas mais tarde , em 1160, um novo documento já fala em Lousã como coisa distinta de Arouce , o que demonstra que a antiga povoação romana voltara a ter população com a pacificação da região, crescendo de tal forma que recebeu foral de D. Afonso II, no ano de 1207.
O castelo, de pequenas dimensões, tem as muralhas reforçadas por três cubelos e uma praça de armas de apenas 130 metros quadrados. O portão de entrada é flanqueado por dois cubelos semi-cilíndricos. O topo das muralhas é percorrido por um adarve, defendido por merlões chanfrados . A torre de menagem é ameada e de planta quadrada e nela se rasga uma porta ogival, ao nível do adarve ,com seteiras do lado oposto e mais duas portas no piso superior. A torre de menagem deve ter sido erguida durante o século XIV em alvenaria de xisto da era Silúrica, como aliás as suas muralhas , dado ser esta a única pedra da região. A excepção é a guarnição da porta da torre de menagem em grés branco..Entre a vertente escalvada e a torre de menagem subsistem restos da galeria da poterna , saída secreta do castelo para algum local do povoado.
Os séculos e o vandalismo provocado pela busca de tesouros iam destruindo o castelo até que em 1939,1942 e 1945 se fizeram trabalhos de reparação . Outros trabalhos pontuais foram executados em 1950,1956,1964,1971 e 1985, permitindo hoje mantê-lo em bom estado, numa rica paisagem florestal.

31.3.10

Mini BIG -BANG

Ontem,30 de Março , pelas 12 horas de Lisboa , ocorreu uma espécie de Big-Bang, a grande explosão que há 13,7 mil milhões de anos originou o Universo.

Tudo se passou no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra, Suiça, isto depois de uma avaria ocorrida ,há dois anos , no colossal equipamento que custou cinco mil milhões de euros e que o não deixou funcionar á primeira.

Apelando á vossa benevolência recordo o que escrevi na altura: A PARTÍCULA DE DEUS
A matéria ainda guarda muitos segredos para os cientistas que ,há dezenas anos ,tentam desvendar o mecanismo pelo qual as mais ínfimas partículas dos átomos são dotadas de massa. Embrenhados em sofisticadas equações matemáticas, tentam decifrar o mistério que continua insondável e Peter Higgs propôs, em 1964, uma hipótese que continua por comprovar.... mas estamos a ir rápido de mais.....! Todos sabemos que a matéria é feita de moléculas e que estas são formadas por átomos. Por sua vez, estes são constituídos por uma núvem de electrões que giram, em várias órbitas, em torno de um núcleo composto de protões e neutrões, cuja massa é milhares de vezes superior à dos electrões. Mas há mais... ! Os neutrões e protões são formados pelos quarks . Estes são partículas elementares da matéria que nunca se podem observar de forma isolada , interagindo com as quatro forças fundamentais da matéria . Sem entrar em grandes detalhes, diremos que há vários tipos de quarks como o Top (com uma massa 350.000 vezes a do electrão ) , o Bottom,o Charm ,o Strange,o Up e o Down, todos eles de massa diferente. As quatro forças fundamentais da matéria que interagem com as partículas e alteram a sua identidade, energia ou movimento são: a força nuclear forte. a nuclear fraca ,a electromagnética e a gravitacional. Para além dos quarks ,há outras partículas da matéria chamadas leptões. Ao contrário dos quarks, podem ser detectadas de forma isolada. São leves, vulneráveis à força nuclear fraca e imunes á forte. Como exemplo de leptões temos: o electrão, o muão.o tau, e os neutrinos(electrónico, muónico e tautónico), todos de massas diferentes. Além das partículas de matéria (quarks e leptões) existem partículas de energia, os bosões. São exemplos de bosão: fotão, W+, W-, Zº, gluão e os hipotéticos gravitão e bosão de Higgs. Os bosões são mediadores que permitem a transmissão de cada uma das forças fundamentais do Universo, a que já nos referimos um pouco vagamente. Voltemos então a essas forças: Força nuclear forte---actua sobre os quarks para formar protões, neutrões e outras partículas. É muito intensa e de curto alcance, mantendo os protões e neutrões coesos no núcleo. A sua partícula mediadora é o gluão . Força nuclear fraca---Actua sobre quarks e leptões e o seu efeito mais conhecido é a transformação de um neutrão em um protão, com emissão de um electrão e de um neutrino. Manifesta-se na radioactividade.Os seus mediadores são os bosões W+,W- e Zº.Força electromagnética----Actua sobre partículas electricamente carregadas, sem alterar a sua identidade. Faz com que cargas iguais se repilam e cargas diferentes se atraiam. Tem longo alcance e o seu mediador é o fotão. Força gravitacional----Age sobre partículas com massa.Tem longo alcance e pensa-se que a sua partícula mediadora seja o hipotético gravitão. Posto isto, chega-se a um quebra-cabeças; os físicos ao desenvolverem este novo modelo de átomo com as partículas e mediadores , atrás referidos, exigem que a massa de todas elas seja nula. Se a massa das partículas tem de ser nula, como é que se entende que a matéria, formada por átomos, tenha massa? Uma tentativa de explicação foi dada por Peter Higgs ao afirmar que o espaço deve ser atravessado por uma força que pode influenciar as partículas nele existentes que assim adquiririam massa. Essa força deve ser mediada por um bosão a que já chamaram bosão de Higgs ou partícula de Deus. Esta ideia colide com a nossa intuição, já que sempre consideràmos a massa como propriedade intrínseca da matéria mas, para os físicos de partículas não é assim. Eles explicam o facto da seguinte maneira : imaginemos uma grande sala cheia de adeptos do futebol.( a sala representa o espaço ocupado pelo campo de Higgs)De repente, entra por uma porta o Cristiano Ronaldo (simboliza a partícula). A presença do jogador gera uma perturbação que se propaga à medida que ele se desloca pela sala e atrai adeptos que se juntam á sua volta, dificultando-lhe a deslocação. Voltemos a falar de partículas; a resistência que a partícula sofre no seu movimento de atravessamento do campo de Higgs, confere-lhe massa. Atente-se na célebre fórmula da Teoria Geral da Relatividade de Einstein E=m.c2 em que massa e energia são convertíveis uma na outra, tudo dependendo do quadrado da velocidade C.. Por tudo aquilo que já descrevemos ,os físicos decidiram, no ano 2000 , construir um enorme acelerador de partículas, a mais potente máquinq alguma vez sonhada, para provar a existência do bosão de higgs. Este LHC (large hadron collider) está instalado num tunel com 27 kms de circunferência, construído na Suissa e pertencente ao CERN (centro europeu de pesquisa nuclear). Também nos Estados Unidos da América, um outro acelerador gigante, o TEVATRON , procura o bosão de Higgs, embora só tenha 6 kms de circunferência e foi nele que foi descoberta a última partícula conhecida, o quark Top. Mas para que serve esta máquina gigantesca, perguntará o leitor ? A ideia é fazer chocar protões, a altíssimas velocidades, afim de observar as partículas que resultam dessas colisões. Os protões e antiprotões são impulsionadas magneticamente num tubo, em sentidos opostos, no anel do acelerador com os tais 27 kms) .Logo que atinjam a velocidade necessária serão desviados para que entrem em colisão frontal, no seio de um detector. O LHC, com os seus 140 milhões de sensores,registará a passagem de milhares de partículas resultantes das colisões, esperando-se que entre elas esteja o bosão de Higgs.É compreensível ser a violência do choque a fazer a diferença entre o ser ou não observada a partícula de Deus., já que a massa das partículas é directamente expressa em energia (eV ou electrão volt) de acordo com a fórmula E=m.c2 .Ora se o Tevatron dos americanos que tem uma energia máxima de 2 Tev ( teraelectrão volt) ou sejam 2 triliões de electrões volt, se arroja à descoberta do bosão de Higgs o que esperar do LHC europeu que terá sete vezes mais ? Esperemos para ver, embora alguns digam que os cientistas estão loucos e que vão criar buracos negros e antimatéria, destruindo a Terra e talvez algo mais. Já passaram 24 horas sobre a experiência e a Terra ainda cá está. O Homem continua um aprendiz de feiticeiro.

24.3.10

O ALÉM DOS EGIPCIOS

Para os egípcios , a morte era a separação das cinco partes que constituíam o ser humano ; três estavam directamente ligadas ao físico e eram o khet (corpo), o shut (sombra) e o ren (nome) ; a duas imateriais seriam o Ka, uma ínfima porção da energia universal cósmica que a pessoa recebia ao nascer e desaparecia com a morte e o ba que poderíamos designar como a personalidade. O nome, atribuído ao nascer, ,era muito importante, pois ele tinha de ser reconhecido e recordado na outra vida . Um dos piores castigos que um egípcio podia sofrer era apagarem-lhe o nome de documentos ou de outro qualquer local pois cairia no esquecimento eterno . A sombra era a imagem do lado negativo do indivíduo enquanto vivente. Como as referidas cinco partes deveriam voltar a juntar-se no Além , uma série de procedimentos teriam de ser executados logo a seguir ao óbito. A preservação do corpo era imprescindível, daí terem de o mumificar. O processo mais perfeito demorava 70 dias e era realizado em fases bem diferenciadas. A mumificação dependia do dinheiro que os familiares do defunto podiam pagar; na realidade havia três qualidades de embalsamamento e só os ricos acediam ao mais elaborado. Os mais pobres tinham de contentar-se com uma limpeza abrasiva das entranhas e a um banho com uma solução de carbonato de sódio para desidratar o corpo mumificando-o. Um tratamento médio consistia em injectar óleo de cedro no abdómen, e o corpo lavado com carbonato de sódio. Passados alguns dias ao retirar-se o óleo de cedro este arrastava consigo os órgãos internos desfeitos e o corpo era enfaixado. Junto à múmia eram colocados amuletos e recitadas fórmulas mágicas para a preservação do corpo.
No caso dos ricos, o corpo era primeiro purificado lavando-o com água fresca perfumada e pelos orifícios nasais era retirada a maior quantidade possível de massa encefálica . Através de um incisão no lado esquerdo do cadáver eram retiradas as vísceras que se embalsamavam em separado e posteriormente guardadas em vasos especiais (vasos canopos) . Esvaziado o corpo este era lavado com vinho de palma e especiarias e recheado com mirra , incenso , carbonato de sódio e perfumes. De seguida era coberto de carbonato de sódio durante 36 dias. Passado este tempo o corpo era retocado e pintado para melhorar o aspecto ; assim o golpe lateral por onde tinham retirado as vísceras era disfarçado com uma camada de cera ou com uma placa de ouro e todos os orifícios naturais tamponados com uma resina. Os dedos eram cobertos com grandes dedais para não se desfazerem. Terminada esta cosmética o corpo era enfaixado numa operação dupla com ligaduras de linho. Após tudo isto fazia-se o funeral. Este consistia numa procissão solene em que o cadáver era levado num andor , por vezes em forma de barca, sob uma cobertura colorida, Uma parelha de bois levava o caixão juntamente com uma caixa onde iam os vasos canopo que continham as vísceras e um enigmático tekenu . Um sacerdote abria o cortejo oferecendo libações e incenso; seguiam-no os familiares e os amigos , as carpideiras e outros sacerdotes menores. Também eram transportados os objectos pessoais do falecido tais como móveis , vestidos, jóias ,perfumes, armas, comida e bebidas e até estatuetas de criados que se transformariam em seres reais no Além, tudo para que nada faltasse ao defunto na outra vida. Para que o falecido pudesse ressuscitar era necessário ainda despertar os sentidos o que era realizado numa complexa cerimónia , conhecida como abertura da boca . Esta cerimónia era presidida pelo filho herdeiro que a oficiava como sacerdote, coberto por uma pele de felino, No fim deste longo e complexo ritual a múmia era finalmente colocada no sarcófago e o túmulo selado

18.3.10

História do Viagra



A potência sexual foi sempre um elemento primordial para o homem , mesmo nas sociedades primitivas pois era significado de poder. Os Gregos antigos não escapavam a esta premissa e a cura da impotência preocupava já os médicos daqueles tempos .
Certamente terão fracassado as rezas dos “ asclépiades” e por isso os “hipocráticos” aplicavam no pénis , no ânus e nas coxas uma mistura de azeite e pimenta , esfregando toda a zona com um ramo de urtigas . Não sabemos se acertaram com o receituário! Também entre os chineses a potência sexual é obsessão histórica : o elixir dourado procurado pela alquimia taoista para obter a imortalidade estava relacionada com o rendimento sexual do homem. Os farmacêuticos ambulantes da antiga China dispunham de vários medicamentos tais como sangue de serpente que os velhos deveriam beber por uma taça de cristal, ou sopas de barbatanas de tubarão ou de ninhos de andorinha. Ainda hoje os ervanários chineses vendem lâminas de cornos de veado para estimular a potência sexual. Não eram só os chineses que assim pensavam; Henrique IV meio irmão de Isabel , a católica, de Espanha chegou a enviar emissários a África para procurarem o corno do unicórnio. Ficou para a história com o cognome de “o impotente”.
Em 1985, dois investigadores dos laboratórios farmacêuticos Pfizer, Simon Campbell e David Roberts que trabalhavam num fármaco para as doenças cardiovasculares , verificaram que o citrato de sildenafil era um poderoso agente eréctil , pois inibia um enzima que limita a produção de oxido nítrico. A substância em causa dava lugar a um maior fluxo de sangue no corpo cavernoso do pénis e a uma prolongada erecção . Os laboratórios da Pfizer patentearam o produto em 1996 e comercializaram-no com o nome de Viagra. Embora surta os efeitos desejados , tem efeitos secundários indesejáveis como dores de cabeça ,vermelhidão no rosto e visão azul, para já não falar em casos raros de morte por enfarte cardíaco . Parece que o nome do medicamento deriva da antiga palavra oriental vyaghra que significa homem com força de tigre.
Não fujo à tentação de transcrever passagens de um site que afirmava :….desde que apareceu o viagra os velhos andam todos malucos ! Embora o viagra tenha salvo alguns casamentos em risco e tenha dado a outros novas cores, serve igualmente para destruir as famílias e semear a desgraça , tudo porque a relação está a ser feita na base de uma performance sexual artificial. Não se pense, no entanto, que este tema diz respeito só aos velhos . A moda do viagra estendeu-se a outras idades . São os jovens que perspectivando uma relação ocasional e querendo fazer boa figura , recorrem ao elixir e a relação que começa esforçadamente na cama ,continua nesta somente até os parceiros se cansarem um do outro. As mulheres devem desconfiar do macho que conheceram na discoteca e que se manteve firme várias horas. Não pensem que ele se manterá sempre assim pois mais cedo ou mais tarde os efeitos secundários do medicamento se farão sentir. O mesmo podemos dizer de certos produtos anunciados como afrodisíacos femininos que transformam a mulher numa devoradora de homens. Os efeitos secundários são inevitáveis.

16.3.10

FILOSOFANDO ( 3 )


Há dias, alguém me questionou sobre o que era o tempo, aquele tempo que os físicos medem em unidades por eles criadas. Fiquei sem resposta imediata pois ainda retinha na memória a experiência que fora realizada pelos físicos quânticos em 2003, e na qual chegaram à conclusão que o tempo não existia. Segundo aqueles físicos havia um pequeno espaço de tempo que não existia, pois nos bilionésimos de segundo durante os quais se observa a formação de fotões, não se pode afirmar que fenómeno se passou antes ou depois, já que o tempo não passa.
Será então o tempo uma ilusão? Se a resposta divide hoje os filósofos , a ciência não oferece resposta e apenas tem uma verdade : o tempo existe apenas desde que alguém o começou a medir , primeiro com a clepsidra e actualmente com os relógios atómicos. Einstein mostrou teoricamente que o tempo é uma noção relativa e que dois relógios , por mais precisos que fossem, apresentariam leituras diferentes consoante se estivessem a afastar ou a aproximar , a velocidades próximas da luz. Também já todos nos apercebemos que às vezes o tempo nos parece passar rapidamente e de outras vezes muito de vagar, tudo dependendo do nosso estado de espírito .Dando um exemplo: uma hora (60 minutos) numa festa parece ter sido um instante e em uma situação de aflição parece ser uma eternidade. A mesma contagem de tempo torna-se diferente , de pessoa para pessoa , consoante a situação que cada uma está a viver. Perante isto voltamos ao princípio : o tempo existe ? Haverá passado, presente e futuro ? Será que vivemos aquilo que consideramos como passado, pois o que temos são lembranças ? E sendo lembranças como podemos garantir que algo realmente existiu da forma como o lembramos ? Sendo o passado uma lembrança , isto é, uma informação do cérebro, ele não existe . Nesta linha de argumentação o presente não existe porque já passou. E o futuro que vem a caminho e se vai tornando presente? Também não existe pois ele é só uma ideia na nossa cabeça. Será que o tempo não existe e é uma criação da mente humana? Sabemos que ao longo da nossa vida a percepção do tempo vai evoluindo por efeito do desenvolvimento do cérebro e do aumento da memória e das capacidades cognitivas. Expliquemos melhor: até aos 15 meses de vida uma criança não tem noção da passagem do tempo e muito lentamente , a partir dessa idade, vai tendo a noção de que o tempo é algo que passa; só lá para os sete anos de idade apreende a ideia de hora, minutos e segundos. Também se sabe que sob a acção de drogas ou por efeito de doenças neurológicas a noção do tempo é distorcida .
Para terminar, deixamos outra pergunta : quando morrermos que acontece ao tempo ? Deixa de existir ou nunca existiu ?

Terminamos com uma velha cantilena da escola
... O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem ....

8.3.10

Aspectos geológicos da ilha da Madeira


Os recentes e muito graves acidentes naturais ocorridos em 20 de Fevereiro no Funchal (Madeira), provocados por pluviosidade anormal e pela orografia da ilha, levaram-me a descrever alguns aspectos geológicos desta região. O arquipélago da Madeira, constituído pelas ilhas da Madeira e de Porto Santo, além dos ilhéus Selvagens e Desertas, é de origem vulcânica .Este arquipélago está intimamente ligado à formação (abertura) do oceano Atlântico, fenómeno que começou há muitos milhões de anos, mais ou menos há cerca de 200 milhões. As ilhas tiveram origem numa ascensão de magma a partir de um “ponto quente” no Manto Superior da placa Africana . O ponto quente ou "hot spot", é uma estrutura geológica que emite uma “pluma” de material magmático em direcção à superfície da crosta, perfurando a placa litológica. No caso vertente, e dado que esta placa designada de Africana se deslocava no sentido W-E, a pluma foi assim dando origem às várias ilhas e ilheus do arquipélago. Claro que ao longo dos milhões de anos a estrutura das ilhas se foi modificando e, por isso, a ilha da Madeira é hoje formada por dois grandes maciços: o Maciço Vulcânico Central, que ocupa a região central da ilha e onde predomina material de origem vulcânica explosiva como os grandes blocos, bombas, lapilli , cinzas, etc. numa disposição caótica, resultado dos diversos centros de erupção, isto é, de diferentes crateras, hoje muito difíceis de localizar. A pouca coesão do material piroclástico atrás citado permitiu, por erosão, a formação de profundos vales e gargantas, constituindo a morfologia das ribeiras Brava, dos Socorridos, de Machico, S. Vicente e Faial, para só falar das principais. Foi esta pouca coesão e as fortes chuvadas que provocaram o desastre natural ocorrido em 22 Fevereiro de 2010 e de que as televisões de todo o mundo deram notícia. Já a zona plana do maciço do Paul da Serra corresponde a uma plataforma estrutural originada por derrames basálticos, que se encontram dispostos levemente inclinados para SW. Mas não fica por aqui a confusa geomorfologia desta “pérola do Atlântico”!Em torno da ilha da Madeira, formaram-se calcários de recifes de corais, posteriormente erodidos, sendo muito visível o afloramento de calcários de S. Vicente, este a uma cota superior ao actual nível do mar. Posteriormente, as formações de origem sedimentar foram cobertas por novas camadas de materiais eruptivos. A ilha encontra-se recortada por muitos filões de orientações diversas, formando linhas de cumeada vigorosas, como é o caso dos troços superiores da ribeira Brava , no denominado caminho da Encumeada. A grande maioria das formações geológicas da ilha da Madeira são rochas vulcânicas extrusivas ( o magma arrefeceu no exterior) tais como: rochas lávicas, efusivas, muito compactas, ou porosas resultantes de escoadas basálticas , quer dos episódios de actividade explosiva do centro de emissão. Têm inclinações diversas e são mais acentuadas à periferia da ilha. As escoadas basálticas apresentam-se, no geral, escoriáceas na parte superior. São frequentes os aspectos de disjunção prismática. São também comuns certas estruturas que o geólogo Grabham designou por disjunção em lajes, resultante da separação das escoadas basálticas por juntas paralelas às camadas. Mas mais frequentes são os aspectos de disjunção esferoidal , formada por camadas concêntricas de rocha basaltica alterada pelos agentes de meteorização externa. (A rocha basáltica vai-se alterando de fora para dentro em camadas concêntricas , tal como acontece com o descascar de uma cebola que sai em camadas concêntricas) Aparece também um tipo de escória vulcânica, porosa , designada pelos madeirenses por “cantaria rija”, por ser muito usada em cantaria das casas Entre as rochas piroclásticas, existe uma grande variedade de materiais, desde enormes blocos a cinzas muito finas, passando por termos intermédios como já referimos anteriormente. O litoral da ilha relaciona-se com a plataforma submarina. Segundo alguns autores esta tem maior largura a Norte, face à que se situa a Sul, à semelhança do que acontece no Porto Santo. Este facto tem sido interpretado, como maior capacidade de abrasão no litoral virado a Norte .


A propósito da recente enxurrada que ocorreu na Ilha da Madeira e que tantos estragos provocou encontrámos um texto premonitório do acontecimento que transcrevemos na íntegra:

O engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva, falecido em 2005, publicou um artigo em que descreve de maneira bastante aproximada o que viria a acontecer na Madeira .( Artigo publicado no dia 13 de Janeiro de 1985 no jornal "Diário de Notícias" do Funchal )
Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras - a de Santa Luzia - o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.
Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu.
Acompanhavam-me dois dos meus irmãos - memórias do tempo da Juventude - em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova - um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro - galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé - único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, saltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido - só água lamacenta em turbilhões devastadores. Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.
Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção estão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro. DEI O ALARME PENSEM NELE

1.3.10

POMPEIA cidade dos prazeres

Em 21-4-08, publiquei, na etiqueta História , uma mensagem intitulada POMPEIA..auge e morte que hoje vou completar sob outro aspecto. A julgar pelo elevado número de esculturas e pinturas da deusa Vénus , a vida diária dos habitantes de Pompeia estava presidida pelo prazer. O jogo, a bebida e o amor eram prazeres a que os pompeianos se entregavam em banquetes particulares nas tabernas que acolhiam os ociosos bebedores ou os viciados jogadores e que podiam degenerar em orgias. O mesmo acontecia nos bordeis oficiais ou clandestinos.
Aos homens residentes em Pompeia agradava organizar, em suas casas, ceias em que os convidados eram servidos em louça luxuosa. Geralmente, um banquete de requinte disponibilizava sete pratos aos convidados do evento. Pastas, cogumelos e frutos do mar temperados integravam as entradas que aguçavam os sentidos dos convidados. Para o prato principal era indispensável a escolha de uma bela carne acompanhada por frutas, molhos e cebolas que sustentavam a variada gama de sabores a serem degustados. No fim, a sobremesa do banquete era composta por frutas, bolos quentes e flores. Na sala, o triclinium era mobilado com três leitos onde se recostavam três convivas . Naquela época comer deitado era um acto que evidenciava condição social abastada. Apenas os menos afortunados e os escravos comiam sentados. Não podemos esquecer que esses banquetes também se transformavam em grandes orgias onde os prazeres carnais também eram excessivamente consumidos. Para animar o evento, músicos mostravam suas habilidades tocando a lira, a chitara, castanholas de origem hispânica e tambores importados do norte da África. O cordax era uma das danças eróticas que despertavam a paixão entre os convidados. Nesse momento, a festa alcançava o seu auge. Com esta agitação toda, um grande banquete exigia que o seu responsável contasse com um grande número de escravos. Normalmente, eles tinham a função de trocar os recipientes com água quente para lavar as mãos, espantar as moscas da comida e, em alguns casos, eram também utilizados como objectos sexuais dos convidados da festa. Quando a festa era de facto luxuosa, alguns escravos eram especialmente designados para acompanhar os convidados no retorno a casa. Além disso eram usados trajes específicos, bem como elaborados penteados e joias. O afresco que apresentamos a seguir, encontrado em Pompeia, mostra o ambiente : à esquerda , um escravo ajuda a descalçar um convidado , enquanto na direita um outro escravo ampara outro convidado que acabou de vomitar para poder continuar a comer e a beber. Em alguns locais havia salas próprias para vomitar.
Os pompeianos eram viciados no jogo dos dados como é comprovado pelo grande número destes objectos que foram encontrados nas escavações arqueológicas A imagem seguinte mostra uma pintura mural na parede de uma taberna e onde são retratados dois jogadores em plena partida . Uma inscrição na parede regista o caso de um indivíduo que ganhou 850 denários , o equivalente ao soldo de um legionário durante quatro anos .
Em Pompeia abundam pinturas de tema sexual. Na sua maioria aparecem em lugares associados à prostituição, como sejam tabernas, termas ou bordeis , embora também tenham aparecido em quartos escondidos de casas particulares. Nesta cidade a prostituição era uma actividade comum, aceite pela sociedade, comentada até mesmo em grafites nos muros. Os grafites faziam a propaganda! Consignavam os preços e as especialidades sexuais das mulheres. Graças a estes grafites, os arqueologos que estudam Pompéia descobriram que a prostituição era praticada até em reservados restaurantes, como complemento à refeição.
Um dos elementos característicos da paisagem urbana da cidade eram as tabernas, cerca de 200, o que dava uma média de uma por cada 60 habitantes , crianças e escravos incluídos . Isto pode ser explicado pelo elevado número de marinheiros e mercadores que constituíam uma grande população flutuante . Também se pensa que muitas tabernas seriam locais de venda de produtos comestíveis , como legumes, frutos secos, e guisados , estes confeccionados numa cozinha à parte . Estas tabernas, vendessem elas só vinho ou também comida, abriam directamente para a rua. Tinham grandes vasilhas embutidas em buracos no balcão. Há quem pense que por baixo havia brasas para manter os alimentos e as bebidas quentes.
Os bares não tinham bancos e os clientes enquanto bebiam garatujavam as paredes. Numa dessas paredes foi encontrado escrito um duelo amoroso entre dois homens que se apaixonaram por Íris , a escrava da mulher do taberneiro. Em raras tabernas haveria bancos e mesas , onde se poderiam sentar uma vintena de pessoas. Pompeia possuía ainda um teatro, um auditório para actuações musicais, e um anfiteatro onde cabia toda a população para assistir a corridas , jogos e lutas de gladiadores. Assim se pode comprovar que Pompeia era uma cidade de prazeres.

7.2.10

ORIGEM DO HOMEM (2)


Em 17-4-08, na etiqueta Antropologia, deixámos uma mensagem sobre a Origem do Homem que hoje vamos actualizar. Assim, podemos afirmar que todos nós temos um pouco de etíope, pois foi na Etiópia , na jazida de Aramis que foram encontrados restos fósseis dos hominídeos mais antigos, incluindo a Lucy , uma fêmea da espécie Australopithecus aferensis que viveu há 3,2 milhões de anos. Na referida jazida, e em locais mais a norte, foram descobertos vários fragmentos de uma nova espécie , ainda mais antiga, a Ardipithecus ranidus que viveu há 4,5 milhões de anos e é conhecida pelo diminutivo de Ardi. O Ardi é um dos nossos sntepassados mais remotos , próximo daquela espécie de Símios que, há 6 milhões de anos, se dividiu em dois ramos : o dos hominídios que veio a dar o homem e o outro que veio a dar os macacos actuais. Há indícios que o A. ranidus andava sobre as patas traseiras numa posição erecta , pois a cavidade onde a coluna vertebral encaixa no crâneo assim o demonstra. O seu cérebro rondava os 300 a 350 centímetros cúbicos , semelhante ao de uma fêmea de chimpanzé actual. A cara tinha um focinho, mas menos pronunciado que o dos chimpanzés . Os dentes caninos eram parecidos com os dos australopithecus mas mais pequenos . Os antebraços eram muito grandes e as mãos tinham dedos muito compridos . Os pés possuíam dedos também muito compridos e o dedo grande estava afastado dos outros. Corria desajeitadamente e os seus pulsos permiiam agarrar-se a ramos mas não balançar-se neles . Embora vivesse na floresta passava mais tempo no chão do que nas árvores, talvez num misto de floresta e savana.O seu andar seria lento pois se estava a passar de indivíduos que viviam a trepar ás árvores para os que só caminhavam no solo. Está assim descoberto mais um elo da cadeia evolutiva do Homem.

4.2.10

TÚMULO DE PACAL

Inúmeras vezes o arqueólogo Alberto Ruz subiu a escadaria do templo da Inscrições de Palenque , sem suspeitar que no interior do compacto monumento se ocultava uma cripta cujo conteúdo iria mudar o rumo das investigações sobre os antigos Maias. Corria o ano de 1949 e Alberto Ruz olhava, uma vez mais, os hieróglifos das paredes do santuário quando a sua atenção se deteve numa das lajes do chão. Estas pareciam ter uma dupla fiada de perfurações em todo o seu comprimento, perfurações estas tapadas com tampões de pedra, formando círculos. Para que serviam as perfurações ninguém o sabia . O solo da sala central do templo apresentava um grande afundamento ao lado da laje perfurada, mas pensava-se ser ele devido a uma tentativa de saque. Ruz observou que essa cavidade tinha o fundo tamponado com pedras e lajes ligadas com massa de cal. Trabalhos a partir desse buraco e depois da laje perfurada, permitiram encontrar uma longa escadaria que descia pelo interior da pirâmide. Os construtores dessa passagem abobadada tinham-na atulhado com toneladas de escombros, de tal forma que os arqueólogos levaram anos para a limpar. Ao fim de 20 metros de escadaria alcançava-se um recanto onde estavam os restos de vários indivíduos espalhados pelo chão e cobertos por cinábrio e cal viva. Na parede ,uma enorme laje triangular basculava sobre si mesma dando entrada para uma câmara de paredes decoradas; no centro da sala uma enorme arca de pedra cuja tampa era decorada com baixos relevos.(ver foto seguinte)

Levantada esta tampa, com o auxílio de macacos hidráulicos, surgiu um sarcófago de pedra com a forma de útero e ,no seu interior, um cadáver coberto de cinábrio e jóias de jade. No mausoléu havia cerâmicas , contas ,colares, braceletes, peitorais, brincos e uma bela máscara de jade. Após vários estudos , descobriu-se que se tratava da tumba do rei Kinich Janaabe Pacal I, nascido no ano 603 e que reinara entre 615 e 683.


Palenque fica situada no México e foi uma das metrópoles da civilização Maia. A cidade era formada por cerca de 700 edificações. Pacal I, durante o seu reinado, iniciou um programa de construção que originou uma das mais finas artes e arquitecturas da civilização Maia. Os estudiosos das construções maias procuraram, durante anos , a unidade de medida usada pelos construtores ,fosse em metros, pés ou polegadas. Chegaram a uma estranha conclusão : os engenheiros de Pacal utilizaram uma corda para fazer quatro círculos entrecruzados que formariam os cantos de um quadrado. As cordas também foram utilizadas para traçar uma diagonal e um arco. Repetindo o processo projectaram todas as edificações pois se baseavam na Geometria Sagrada que copia as formas da natureza, como as flores. Pacal fez questão que os símbolos sagrados fossem enterrados com ele ; dentro do seu túmulo foi encontrado em uma mão uma esfera de jade, e na outra um cubo de jade que são as formas geométricas chave que inspiraram e possibilitaram a construção da cidade que acabou por ser abandonada após a sua morte.

Quanto à tampa do sarcófago há quem veja nela representado um indivíduo a pilotar uma nave espacial, com capacete e até respirador . Há ainda quem veja as chamas do foguetãoSerá que este povo voava? Já nada é de espantar!

2.2.10

JUÍZO FINAL pintura mural

Na capela Sistina, do Vaticano, encontram-se os afrescos com que o renascimento chegou ao seu expoente máximo e também os que assistiram ao início do seu declínio. Na abóbada ,encontramos harmonia e serenidade nas cenas do Génesis , separadas entre si por falsas molduras; na parede do altar, a cena do Juízo Final no seu aparente caos e convulsão, mostra o início do barroco. São apenas duas décadas que separam estas duas obras de Miguel Ângelo mas a diferença é radical. É certo que o artista tinha envelhecido e estava mais pessimista , mas havia também a influência das ideias de Lutero, bem como o saque de Roma pelas tropas de Carlos V.A ideia de pintar o Juízo Final deve-se ao Papa Clemente VII, desejoso de deixar uma grande obra que o recordasse na sua passagem pela cadeira de S.Pedro. Contudo ,morreu antes de Miguel Ângelo a iniciar e foi o Papa Paulo III quem ratificou o encargo do mestre pintar a parede por detrás do altar. Sabe-se que foram feitos vários esboços para a pintura, baseados no Evangelho de S. Mateus que ficariam em quatro molduras sobrepostas. Nesse esboço , o Tribunal Celestial conteria as figuras de Cristo, da Virgem Maria , de S.João Baptista , dos Apóstolos e dos 24 Velhos do Apocalipse. Nas outras três molduras constariam a "ressureição dos mortos " a "avaliação das almas " e a " separação dos justos dos réprobos ". Miguel Ângelo esqueceu esta ideia de molduras sobrepostas e criou um caos ordenado. As suas figuras sobem, baixam , giram sobre si próprias , criando um turbilhão à volta de Cristo que também não está sentado num trono, como era usualmente representado. Miguel Ângelo mistura ainda às cenas bíblicas a necessidade de reforma da Igreja , onde o pecado da avareza é personificado por um Papa. A obra de 14,6 por 13,41 metros foi inaugurada em Novembro de 1541 , toda ela pintada pelo artista sem colaboração de discípulos . À medida que a obra ia ganhando forma , a crítica negativa da corte papal ia crescendo ; diziam que os anjos não tinham asas , as figuras sagradas não possuíam aureolas e que os órgãos genitais das figuras não estavam tapados numa demonstração de obscenidade na casa de Deus . Paulo III recebia contínuas queixas . mas acreditava plenamente no que o pintor estava fazendo. Recordemos que estas críticas aconteciam nos palácios em que os " sobrinhos ", eufemismo para filhos bastardos dos cardeais . brotavam como cogumelos . O caso das figuras nuas foi mesmo debatido no Concílio de Trento (1545-1563) e, tendo Paulo III falecido entre as reuniões, não pode impedir que tivesse sido decretada uma repintura para esconder os órgãos sexuais das figuras. Uma outra das críticas dos cardeais era que Cristo não fora retratado como um adulto de barba , mas sim como um jovem imberbe com um rosto de um Apolo Belvedere. Também criticavam a postura da Virgem nâo olhando para Cristo,como que incomodada pela atitude que o Filho estava a ter. (foto abaixo)

Atentemos noutros pormenores do grande mural ; os anjos tocam as trombetas para acordar os mortos e, no livro grande, estão os nomes dos que serão condenados (1) e no livro pequeno (2) por serem poucos, os que vão para o Paraíso. (figura seguinte)


Na figura que se segue os afortunados que sobem ao céu são ajudados por anjos (1). Se formos mais minuciosos vemos que os ressuscitados (marcados como número 2) estão agarrados a um rosário de 99 contas , usado pelos muçulmanos que são salvos por acreditarem num Deus único. Seria uma atitude eucuménica de Miguel Ângelo ?

Embora a foto acima não o mostre, alguns dos ressuscitados são representados em esqueleto ou com meia carne ou ainda a erguerem a pedra do túmulo. Noutro lado do mural está representada a descendência de Eva, como veremos na foto seguinte e de que faremos legenda.


(1)-Abraâo, (2) -Sara ,(3)- Isac e a sua esposa Rebeca (4) .Os filhos deste casal são Jacob(5) e Isaú (6). S. João Baptista (9) Niobe (13), Judite (12) e Eva com o nº 11 .no cimo à esquerda.Outros pormenores podiam ser citados mas o tamanho das fotos não o permitem observar.

No lado direito do grande mural e em baixo, é representado o mundo inferior, com Miguel Ângelo a basear-se no Inferno da Divina Comédia de Dante. Aí vemos Caronte , o barqueiro que transporta os condenados até à outra margem do lago Estígia , onde os espera Minos e outros diabos . Caronte expulsa os condenados do barco batendo-lhes com o remo. Acima desta cena , os anjos lutam com humanos que não sobem nem descem ; estamos no purgatório da Divina Comédia . Dos sete pecados mortais , dois são bem identificados : o da avareza leva uma bolsa atada á cintura e junto a esta duas chaves ,como as do emblema papal, crítica mordaz ao sucessor de Paulo III. A luxúria é representada por um homem que é agarrado pelos genitais por um diabo. Simboliza a luxúria da corte papal e seus cardeais venais. Melhor que qualquer fotografia só mesmo uma visita ao Vaticano para ver esta magnífica obra ,restaurada há uma dúzia de anos .

24.1.10

PESCADOR POVEIRO

AS"MARCAS"
E OS APETRECHOS QUE UTILIZA NA SUA FAINA
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"Marcas" (ou siglas), são sinais pintados ou gravados (com navalha ou com a faca da cortiça) nos objectos pertencentes a determinada família.
Cada família tem a sua Marca própria com que identifica os objectos que lhe pertencem, quer em casa quer no trabalho. Vejamos o que, sobre o assunto, nos diz o etnógrafo poveiro Santos Graça no seu livro "O POVEIRO" :
As marcas são a escrita do Poveiro
Têm muita analogia com a escrita egípcia porque constituem imagem de objectos: Sarilho, Coice (imagem de parte da quilha de um barco), Arpão, Pé de galinha, Grade, Lanchinha, Calhorda, Pêna, etc.
.As marcas estão nas redes, nas velas, nos mastros, nos paus de varar, nos lemes, nos bartidoiros, nos boireis, nas talas, nas facas da cortiça, nas mesas, nas cadeiras, em todos os objectos que lhe pertençam, quer no mar, na praia ou em casa.
A marca num objecto equivale ao registo de propriedade.
O Poveiro lê essas marcas com a mesma facilidade com que nós procedemos à leitura do alfabeto.
Não são marcas organizadas ao capricho de cada um, mas antes simbolismos ou brasões de famílias, que vão ficando por herança de pais para filhos e que só os herdeiros podem usar. Estes são, digamos, os brasões de família.
. Vejamos, agora, a forma engenhosa como essa marca serve de escrita a todos os membros duma família, com perfeito conhecimento de toda a comunidade.
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O Chefe usa a marca "brasão" ; o filho mais velho põe-lhe ao lado um pique; o outro a seguir dois piques; o outro três piques e assim sucessivamente até ao filho mais novo, que volta a usar a marca da família, porque é o seu legítimo herdeiro, ao contrário do que acontece com os fidalgos em que o herdeiro é o filho mais velho.
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Estes piques são agrupados de formas diferentes: umas vezes, são alinhados; outras vezes, formam cruzes e estrelas; outras vezes, grades, conforme o número de piques..
Para se conhecer a que filho pertence a marca que nos apresentem, basta contar-se os piques que estão alinhados ou que formas as estrelas, grades ou cruzes que rodeiam o tronco da marca familiar.
.E sendo isto a fórmula corrente, tradicional, fácil é, portanto, a quem conhece o tronco da marca saber a quem pertence o objecto ou apresto marítimo onde a mesma se encontre. .

Os actuais banheiros que atendem os veraneantes que aqui vêm passar a sua época de banhos, são naquase totalidade, descendentes de antigos pescadores ou a eles ligados for fortes laços familiares.
Muitos destes banheiros usam ainda, nos seus pertences da praia de banhos, as marcas que herdaram dos seus avós.
Admito que alguns dos leitores que vivem no Minho e em Trás-os-Montes e mesmo noutras regiões do país, e que optam por passar na Póvoa as suas férias, tenham com os seus banheiros que aqui os atendem, uma ligação que o tempo tornou afectiva, sendo certo que, de pais para filhos, esses veraneantes mantêm tal ligação .
Por mera curiosidade, para esses veraneantes aqui deixo as "marcas" que são os brasões de família desses prestimosos poveiros que aqui os recebem na época balnear:

Na descrição atrás transcrita, Santos Graça utiliza termos que, certamente, não serão do conhecimento de muitas pessoas, porque são nomes de aprestos marítimos usados pelos pescadores poveiros e, portanto, pouco conhecidos de quem não esteja ligado à classe.
.Neste quadro estão representados alguns desses objectos com a indicação dos respectivos nomes. Refiro alguns eventualmente menos conhecidos:ARPÃO....Dardo acerado e farpado, feito de ferro, destinado à pesca de peixes de maiores dimensões, como a toninha. BARTEDOIRO.....Instrumento de madeira, cavado e com asa, que serve para escunchar (esvaziar de água) o barco. Em barcos grandes esta tarefa é executada por bombas.BITOLA....Medida que serve para entralhar as redes.As redes são, obviamente, preparadas em terra. Ao longo de cordas são colocadas rodelas de cortiça, deixando-se entre elas espaços iguais; a bitola serve para marcar a largura desses espaços. Da mesma forma se procede quanto às pedras e chumbos. As cordas são então amarradas às bordas superiores e inferiores da rede por de meio entralhos (pedaços de fio grosso de linho).Lançada ao mar a rede mantém-se verticalmente estendida na água porque da parte de cima é suspensa pelas rodelas de cortiça (cortiçada) que, com o seu poder de flutuação sustentam essa parte da rede à superfície (à tona, como aqui se diz) ao mesmo tempo que as pedras ou chumbo (chumbeiros) que pesam na parte inferior da rede a puxam para baixo. Forma-se assim uma parede em cujas malhas os peixes, no seu contínuo deambular, se enredam e ficam presos.BOIRELRolo de cortiça presa com pinos de madeira que, pelas suas dimensões, tem muito maior capacidade de flutuação que as rodelas, e serve para manter na altura desejada as redes de pesca à sardinha. BÚSSOLA...Instrumento de orientação constituído por uma agulha magnetizada que gira num eixo e aponta sempre o "norte magnético".A versão mostrada no desenho foi um artífice poveiro (Eduardo Pinheiro) que a criou e lhe deu o nome de "agulha de marear", como é aqui designada. Trata-se da utilização da bússola (instrumento de orientação) metida numa caixa de madeira com tampa de correr que a protege da água.Inicialmente a agulha de marear, nesta sua versão com caixa –destinada a ser usada na faina da pesca - era utilizada exclusivamente pelos pescadores poveiros, tendo-se posteriormente divulgado o seu uso em outras comunidades.CUNHA.....Peça de madeira para calçar o mastro.O mastro é mantido ao alto porque apoia a sua base no fundo do barco depois de passar por um dos buracos existentes numa peça-suporte fortemente fixada à proa do barco, mais ou menos à altura da borda. Esta peça, chamada "galeota", contém uma série de buracos ao longo do seu comprimento, e cada um desses buracos determina a inclinação que se pretenda dar ao mastro conforme convenha ao andamento da embarcação.A cunha, colocada à pressão entre o rebordo do buraco da galeota e o mastro, ajuda a mantê-lo fixo. ESPETO....Haste de ferro, pontiaguda, que serve para fazer furos em cortiça.FUSO...Instrumento que serve para torcer o fio.GANHA-PÃO....Saco de rede, de forma afunilada, cosido a um aro de madeira colocado na extremidade duma vara, e que serve para apanhar o peixe que se solta da rede quando esta é alada.MURO...Pequena peça de madeira que serve de medida da malha da rede. ~´E usado em trabalhos de conserto.POITA...Espécie de âncora rudimentar, constituída por uma grande pedra entalada num dispositivo de madeira. A poita é usada quando, no local onde o barco se encontra, existem rochas no fundo do mar havendo, assim, o risco da âncora de ferro (mais valiosa em termos de custo) ficar presa de modo a não poder ser recuperada.POLÉ....Peça de madeira constituída por uma parte plana (leito) situada entre dois braços, um mais longo que outro e tendo na parte da frente um rolo, também de madeira, colocado horizontalmente também entre os braços.O braço mais curto assenta na borda do barco e o mais comprido assenta num banco. A polé serve para auxiliar o alar das redes, que ao serem puxadas a braço para dentro do barco, passam sobre o rolo (que rola sobre o seu eixo) e deslizam sobre o leito da peça facilitando-se assim a sua recolha.Como facilmente se imagina, as redes, molhadas, e ajoujadas pela carga do peixe, têm um grande peso que exige penoso esforço para ser recolhidas.RESSEGA,,,Peça de madeira eriçada com espigões que serve para "engatar" e arrastar redes perdidas no fundo do mar e assim são recuperadas.SARILHO...Instrumento para trabalhar meadas do fio que é utilizado nas redes.ROCA....Instrumento para fiar lã ou linho.TRADO.....Espécie de broca em metal com braço de madeira, para furar cortiça, madeira ou outro material.

( texto extraído do blogue GARATUJANDO com a devida autorização do seu administrador, a quem ficamos agradecidos )

20.1.10

ESCAPAR OU FICAR ?


" A liberdade , Sancho, é um dos bens mais preciosos que os céus nos deram; a ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra e os mares encobrem..." assim falava D. Quixote no conhecido romance de Miguel Cervantes. Desde a célebre prisão Marmetina dos romanos até aos ultramodernos presídios do século XXI, há registos de evasões ou de tentativas de evasão . A fuga mais conhecida da antiguidade é a de Espartacus , um escravo trácio que fugiu da cidade de Capua , no ano 73 antes de Cristo para acabar por reunir 100.000 homens que lutaram contra Roma. Ao longo da Idade Média numerosos personagens continuaram a elaborar fugas memoráveis mas a escassez de documentação faz com que só a partir do século XVI comecem a aparecer fugitivos, com nomes e apelidos. No século XIX aparece uma literatura romanceada de grandes fugas como, por exemplo, no romance " O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Se, neste romance, Edmond Dantès consegue fugir da prisão da ilha de If, ao fim de catorze anos , para se vingar da injustiça contra ele cometida, a realidade pode superar a ficção e as experiências de personagens de carne e osso assim o comprovam. As fugas reais foram praticadas com mestria consumada, onde o engenho, tenacidade e audácia foram requisitos indispensáveis para vencer os obstáculos ,à priori intransponíveis , das masmorras ,das celas solitárias no alto de torres ou sofisticadas prisões de aço e cimento armado. Criminosos, ladrões , prisioneiros de guerra, escravos, plebeus, reis, políticos, etc , todos eles retidos contra a sua vontade e vigiados de perto por outros seres humanos , efectuaram fugas inacreditáveis. São fugas individuais , de pequenos grupos, mas também em massa como a de 600 judeus do campo de extermínio de Sobibor. Outro exemplo é o do castelo de Colditz de onde, durante a 2ª guerra mundial, 32 oficiais aliados conseguiram fugir graças a artimanhas de todo o tipo, incluindo um planador caseiro. Quando o muro de Berlim começou a ser construído (1961) e ainda só era uma cerca de arame farpado, o soldado Conrad Schumann foi designado para guardar essa rede na rua Bernauer. O comunista Schumann, quando se viu sozinho montando guarda, não pensou duas vezes : deitou fora a sua espingarda e saltou a rede de arame farpado para o outro lado sendo esta, na verdade, a primeira fuga da RDA para a liberdade.




O muro cresceu em cimento e em armadilhas tecnológias mas ao longo dos seus 155 Kms, e 28 anos de existência, muitas fugas tiveram lugar . Em 1963, um grupo começou a escavar um túnel de 145 metros de comprimento e 80 cms de diâmetro sob o muro e por ele escaparam 57 pessoas nos dias 3 e 4 de Outubro de 1964. Anos mais tarde , duas famílias cruzaram a fronteira num balão de ar quente , na noite de 16 para 17 de Setembro de 1979. Qualquer evasão comporta riscos de vida , não só dentro do recinto prisional como fora dele. No exterior, o espaço e o tempo são primordiais pois em alguns casos o fugitivo só está a salvo ao fim de milhares de Kms. Em relação ao muro de Berlim nem todos tiveram sorte ; entre 1961 e 1989, 136 pessoas foram mortas, abatidas a tiro ou electrocutadas. Algumas outras fugas podem ter mudado a História. Vejamos alguns exemplos: Se Luis XVI e a sua família não tivessem sido recapturados em Varennes e tivessem passado a fronteira, teria havido a Revolução Francesa ? Haveria República ou teria a França sido sempre uma monarquia? Quando comandos de Hitler libertaram Mussolini da prisão de Abruzzos teriam alterado o rumo da guerra ? Se Winston Churchill, na altura um jovem oficial inglês prisioneiro dos Boers, não tivesse fugido, talvez nunca tivesse atingido o prestígio que o levou a 1º Ministro durante a 2ª Guerra Mundial. Sem ele como ministro a condução da guerra teria sido diferente . Se Álvaro Cunhal não se tivesse evadido do Forte de Peniche, com a conivência comprada de um guarda da GNR, a acção política do PCP teria sido a mesma ? Individuais ou em grupo, fortuitas ou meticulosamente preparadas, recordadas ou silenciadas, triunfantes ou malogradas , as evasões forjaram uma história própria que pode ter tido influência na história colectiva. Pelo que dissemos, podemos perceber que a fuga seja uma" questão de honra" entre os oficiais que se encontrem na situação de prisioneiros de guerra.

17.1.10

VIDA FORA DA TERRA




Durante muitos anos existiu a dúvida de se havia " marcianos " ou outros seres extra terrestres com quem se conseguisse comunicar ou vir a ter uma confrontação bélica. Quando se provou que os "homenzinhos verdes" não existiam, a dúvida virou noutra direcção : será que os outros planetas do nosso sistema solar têm condições para serem habitados pelo homem e haverá neles outras formas de vida ? As investigações ditaram a seguinte sentença : as condições atmosféricas e físicas dos planetas estudados mostram que a vida, tal como a conhecemos, é impossível neles. Alguns possuem temperaturas muito elevadas ou muito baixas, outros atmosferas ácidas ou sulfurosas, sem oxigénio, pressões atmosféricas tremendas.etc. Quando tudo parecia cientificamente provado eis que no nosso planeta Terra se descobrem, em ambientes considerados impróprios , microrganismos que os cientistas apelidaram de extremófilos. Alguns desses organismos hipertermófilos vivem em ambientes aquáticos cuja temperatura ronda os 140º centígrados ; outros habitam locais onde a salinidade é de 9 a 30%,como os halófitos do Mar Morto. Os acidófilos vivem em ambientes de Ph inferior a 3, como nas sulfataras ou em lagoas de antigas minas de pirites ; ao contrário destes os alcalófitos vivem em ambientes de Ph superior a 10. Por incrível que pareça há organismos vivendo dentro do gelo, os psicófilos. E que dizer de seres que vivendo em ambientes sem luz , fazem síntese de alimentos ?Estes ao contrário das plantas usam o H2S em vez da água para a síntese orgânica. Se no nosso planeta existe vida em locais tão adversos , por que não acreditar que ela possa existir em planetas que nos estão próximos? No entanto outro problema se coloca : uma coisa é haver seres vivos em planetas cujos meios ambientes nos são fatais, outra é esses seres terem inteligência para nos poder contactar. Será que em outros sistemas solares, seres como os nossos extremófilos sofreram uma evolução, de unicelulares para pluricelulares e criaram inteligência , como aconteceu entre nós ? Quanto aos célebres OVNI eles não são mais que fenómenos naturais , já explicados e documentados , na quase totalidade dos casos, como balões meteorológicos ,meteoros ou aviões militares de desenho secreto. As enormes distâncias a percorrer e gastos de energia envolvidos levam-nos a afastar a ideia de naves de outros mundos que nos viriam observar, pois do sistema solar mais próximo e viajando á velocidade da luz, demorariam 10 anos a cá chegar. Na hipótese mais que remota disso ter acontecido, o facto de não nos terem deixado provas da sua visita, seria por nos considerarem seres de inteligência inferior, relativamente á sua. Mas a ideia de procurar seres inteligentes no Universo ainda não parou e daí o programa SETI (search for extraterrestrial intelligense) que escuta todas as frequências de rádio vindas de fora da Terra, na certeza de que a rádio não é apenas uma forma barata de comunicação, mas também sinal de civilização tecnológica.



Se só dependessemos de viagens espaciais para averiguar a existência de inteligência ET, nunca o viríamos a saber mesmo que tivéssemos naves com motores de matéria - antimatéria,dadas as incomensuráveis distâncias entre as estrelas O programa SETI completou 10 anos em Maio de 2009 e embora tenha envolvido 140.000 participantes e 235.000 computadores em rastreio das frequências rádio, não se conseguiu encontrar um sinal que para nós seja interpretado como proveniente de uma inteligênca alienígena . Isto não invalida que existam no Universo formas de vida inteligente ; o que não podemos esperar é que sejam morfológica e metabolicamente iguais a nós, daí o medo irracional de um encontro frente a frente.

11.1.10

CORSÁRIOS



Começamos por dizer que corsários e piratas não são bem a mesma coisa , embora os efeitos nos navios mercantes fossem idênticos devido aos saques e mortandade cometidos. Já Nelson , o célebre almirante inglês do século XIX, assegurava que os corsários não eram melhores que os piratas, mostrando assim o desprezo que os marinheiros profissionais sentiam por estes marinheiros que saqueavam navios inimigos com autorização do rei do seu país. A razão da existência de corsários deve-se ao facto do corso ser mais rentável para um Estado do que ter uma força naval organizada que, a ser criada, seria sustentada permanentemente pelos cofres desse Estado. Espanha ,França e Inglaterra tiveram os seus corsários, para além da marinha de guerra. Os corsários, desde o início, foram uma arma barata e eficaz, não só pelos prejuízos que causavam no comércio rival mas também pelos ganhos que propiciavam os saques e os pedidos de resgate sobre os barcos aprisionados e suas tripulações . No entanto, tudo o que fosse para além de causar estragos no comércio rival era considerado pirataria e susceptível de ser castigado, inclusive com a forca. Como uma coisa é o que está acordado e outra é a realidade, muitas vezes as acções corsárias eram mais de pirataria , com destruição e barcos e crueldade escusada. Nos séculos XVI e XVII, os corsos nos mares Mediterrãnico, Cantábrico e Antilhas eram feitos por barcos pequenos, muitas vezes sem grande artilharia, muito úteis na procura e perseguição dos navios mercantes dos outros países, o que exigia barcos leves e velozes. Os corsários usavam como armamento pistolas, mosquetes, espadas e punhais e o seu único pensamento era o saque e posterior partilha. O grande problema de quem comandava estes barcos corsários era a disciplina , já que os tripulantes eram recrutados em meios problemáticos das grandes cidades de Londres e Marselha. Para combater a indisciplina , os capitães aplicavam uma lei não escrita mas por todos aceite. Vejamos alguns exemplos: se um marinheiro se amotinava devia ser isolado e emplumado antes de ser abandonado numa ilha deserta ;se um homem desembainhava um punhal com intuito de ameaçar um companheiro,eram-lhe cravadas as mãos no mastro com o dito punhal, esperando que ele se soltasse sozinho; se fumasse antes do pôr do sol levava três chicotadas ; o que assassinasse um companheiro era atado ao cadáver e atirado ao mar. Dentro deste código de conduta dos corsários, o que estava destinado aos tripulantes e passageiros dos barcos aprisionados? Os passageiros considerados ricos eram mantidos para resgate ,mas turcos, mouros e mouriscos podiam ser vendidos como escravos. O resto da tripulação deveria ser desembarcada num porto amigo, logo que possível . Só em caso de necessidade absoluta se podia completar a tripulação com prisioneiros. Os barcos corsários tinham um comandante absoluto ,o capitão, escolhido pelo armador; seguiam-se o imediato e o mestre da fragata que governava a marinhagem. Como postos intermédios existiam o mestre das rações, o mestre dos apetrechos, o piloto, o contra mestre e o condestável. Havia também artilheiros,carpinteiros ,cirurgiões e por vezes um padre, num universo de cerca de cinquenta pessoas.

Ressalvando a abordagem e a luta que se seguia , o momento mais delicado da vida de um corsário era o julgamento do corso . Era um julgamento autêntico de primeira instância ,com escrivão e assessores e que servia para avaliar se o barco corsário actuara segundo as leis do mar e, por tanto, se o espólio obtido podia dar-se como bom e ser repartido. O julgamento era efectuado em terra, com a presença do capitão corsário e dos prisioneiros a quem era atribuído um defensor. Todos eram ouvidos sob juramento e a sentença decretada em 24 horas . Qualquer das partes podia recorrer da sentença para um tribunal superior, o Conselho de Guerra , que ditava a sentença final com possibilidade de um só recurso, o que era muito raro. Se o resultado era a favor dos corsários eles repartiam entre si o espólio; se era a favor dos prisioneiros , estes tinham direito a receber o que lhes fora roubado e uma indemnização pelos danos sofridos.

Se bem que no final do século XIX o corso tenha terminado devido a acordos internacionais que regem a navegação, no início do nosso século, na região da Somália,ele existe, mais parecendo pirataria e por isso combatido pela marinha de guerra de vários países, incluindo Portugal.

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