24.1.10

PESCADOR POVEIRO

AS"MARCAS"
E OS APETRECHOS QUE UTILIZA NA SUA FAINA
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"Marcas" (ou siglas), são sinais pintados ou gravados (com navalha ou com a faca da cortiça) nos objectos pertencentes a determinada família.
Cada família tem a sua Marca própria com que identifica os objectos que lhe pertencem, quer em casa quer no trabalho. Vejamos o que, sobre o assunto, nos diz o etnógrafo poveiro Santos Graça no seu livro "O POVEIRO" :
As marcas são a escrita do Poveiro
Têm muita analogia com a escrita egípcia porque constituem imagem de objectos: Sarilho, Coice (imagem de parte da quilha de um barco), Arpão, Pé de galinha, Grade, Lanchinha, Calhorda, Pêna, etc.
.As marcas estão nas redes, nas velas, nos mastros, nos paus de varar, nos lemes, nos bartidoiros, nos boireis, nas talas, nas facas da cortiça, nas mesas, nas cadeiras, em todos os objectos que lhe pertençam, quer no mar, na praia ou em casa.
A marca num objecto equivale ao registo de propriedade.
O Poveiro lê essas marcas com a mesma facilidade com que nós procedemos à leitura do alfabeto.
Não são marcas organizadas ao capricho de cada um, mas antes simbolismos ou brasões de famílias, que vão ficando por herança de pais para filhos e que só os herdeiros podem usar. Estes são, digamos, os brasões de família.
. Vejamos, agora, a forma engenhosa como essa marca serve de escrita a todos os membros duma família, com perfeito conhecimento de toda a comunidade.
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O Chefe usa a marca "brasão" ; o filho mais velho põe-lhe ao lado um pique; o outro a seguir dois piques; o outro três piques e assim sucessivamente até ao filho mais novo, que volta a usar a marca da família, porque é o seu legítimo herdeiro, ao contrário do que acontece com os fidalgos em que o herdeiro é o filho mais velho.
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Estes piques são agrupados de formas diferentes: umas vezes, são alinhados; outras vezes, formam cruzes e estrelas; outras vezes, grades, conforme o número de piques..
Para se conhecer a que filho pertence a marca que nos apresentem, basta contar-se os piques que estão alinhados ou que formas as estrelas, grades ou cruzes que rodeiam o tronco da marca familiar.
.E sendo isto a fórmula corrente, tradicional, fácil é, portanto, a quem conhece o tronco da marca saber a quem pertence o objecto ou apresto marítimo onde a mesma se encontre. .

Os actuais banheiros que atendem os veraneantes que aqui vêm passar a sua época de banhos, são naquase totalidade, descendentes de antigos pescadores ou a eles ligados for fortes laços familiares.
Muitos destes banheiros usam ainda, nos seus pertences da praia de banhos, as marcas que herdaram dos seus avós.
Admito que alguns dos leitores que vivem no Minho e em Trás-os-Montes e mesmo noutras regiões do país, e que optam por passar na Póvoa as suas férias, tenham com os seus banheiros que aqui os atendem, uma ligação que o tempo tornou afectiva, sendo certo que, de pais para filhos, esses veraneantes mantêm tal ligação .
Por mera curiosidade, para esses veraneantes aqui deixo as "marcas" que são os brasões de família desses prestimosos poveiros que aqui os recebem na época balnear:

Na descrição atrás transcrita, Santos Graça utiliza termos que, certamente, não serão do conhecimento de muitas pessoas, porque são nomes de aprestos marítimos usados pelos pescadores poveiros e, portanto, pouco conhecidos de quem não esteja ligado à classe.
.Neste quadro estão representados alguns desses objectos com a indicação dos respectivos nomes. Refiro alguns eventualmente menos conhecidos:ARPÃO....Dardo acerado e farpado, feito de ferro, destinado à pesca de peixes de maiores dimensões, como a toninha. BARTEDOIRO.....Instrumento de madeira, cavado e com asa, que serve para escunchar (esvaziar de água) o barco. Em barcos grandes esta tarefa é executada por bombas.BITOLA....Medida que serve para entralhar as redes.As redes são, obviamente, preparadas em terra. Ao longo de cordas são colocadas rodelas de cortiça, deixando-se entre elas espaços iguais; a bitola serve para marcar a largura desses espaços. Da mesma forma se procede quanto às pedras e chumbos. As cordas são então amarradas às bordas superiores e inferiores da rede por de meio entralhos (pedaços de fio grosso de linho).Lançada ao mar a rede mantém-se verticalmente estendida na água porque da parte de cima é suspensa pelas rodelas de cortiça (cortiçada) que, com o seu poder de flutuação sustentam essa parte da rede à superfície (à tona, como aqui se diz) ao mesmo tempo que as pedras ou chumbo (chumbeiros) que pesam na parte inferior da rede a puxam para baixo. Forma-se assim uma parede em cujas malhas os peixes, no seu contínuo deambular, se enredam e ficam presos.BOIRELRolo de cortiça presa com pinos de madeira que, pelas suas dimensões, tem muito maior capacidade de flutuação que as rodelas, e serve para manter na altura desejada as redes de pesca à sardinha. BÚSSOLA...Instrumento de orientação constituído por uma agulha magnetizada que gira num eixo e aponta sempre o "norte magnético".A versão mostrada no desenho foi um artífice poveiro (Eduardo Pinheiro) que a criou e lhe deu o nome de "agulha de marear", como é aqui designada. Trata-se da utilização da bússola (instrumento de orientação) metida numa caixa de madeira com tampa de correr que a protege da água.Inicialmente a agulha de marear, nesta sua versão com caixa –destinada a ser usada na faina da pesca - era utilizada exclusivamente pelos pescadores poveiros, tendo-se posteriormente divulgado o seu uso em outras comunidades.CUNHA.....Peça de madeira para calçar o mastro.O mastro é mantido ao alto porque apoia a sua base no fundo do barco depois de passar por um dos buracos existentes numa peça-suporte fortemente fixada à proa do barco, mais ou menos à altura da borda. Esta peça, chamada "galeota", contém uma série de buracos ao longo do seu comprimento, e cada um desses buracos determina a inclinação que se pretenda dar ao mastro conforme convenha ao andamento da embarcação.A cunha, colocada à pressão entre o rebordo do buraco da galeota e o mastro, ajuda a mantê-lo fixo. ESPETO....Haste de ferro, pontiaguda, que serve para fazer furos em cortiça.FUSO...Instrumento que serve para torcer o fio.GANHA-PÃO....Saco de rede, de forma afunilada, cosido a um aro de madeira colocado na extremidade duma vara, e que serve para apanhar o peixe que se solta da rede quando esta é alada.MURO...Pequena peça de madeira que serve de medida da malha da rede. ~´E usado em trabalhos de conserto.POITA...Espécie de âncora rudimentar, constituída por uma grande pedra entalada num dispositivo de madeira. A poita é usada quando, no local onde o barco se encontra, existem rochas no fundo do mar havendo, assim, o risco da âncora de ferro (mais valiosa em termos de custo) ficar presa de modo a não poder ser recuperada.POLÉ....Peça de madeira constituída por uma parte plana (leito) situada entre dois braços, um mais longo que outro e tendo na parte da frente um rolo, também de madeira, colocado horizontalmente também entre os braços.O braço mais curto assenta na borda do barco e o mais comprido assenta num banco. A polé serve para auxiliar o alar das redes, que ao serem puxadas a braço para dentro do barco, passam sobre o rolo (que rola sobre o seu eixo) e deslizam sobre o leito da peça facilitando-se assim a sua recolha.Como facilmente se imagina, as redes, molhadas, e ajoujadas pela carga do peixe, têm um grande peso que exige penoso esforço para ser recolhidas.RESSEGA,,,Peça de madeira eriçada com espigões que serve para "engatar" e arrastar redes perdidas no fundo do mar e assim são recuperadas.SARILHO...Instrumento para trabalhar meadas do fio que é utilizado nas redes.ROCA....Instrumento para fiar lã ou linho.TRADO.....Espécie de broca em metal com braço de madeira, para furar cortiça, madeira ou outro material.

( texto extraído do blogue GARATUJANDO com a devida autorização do seu administrador, a quem ficamos agradecidos )

20.1.10

ESCAPAR OU FICAR ?


" A liberdade , Sancho, é um dos bens mais preciosos que os céus nos deram; a ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra e os mares encobrem..." assim falava D. Quixote no conhecido romance de Miguel Cervantes. Desde a célebre prisão Marmetina dos romanos até aos ultramodernos presídios do século XXI, há registos de evasões ou de tentativas de evasão . A fuga mais conhecida da antiguidade é a de Espartacus , um escravo trácio que fugiu da cidade de Capua , no ano 73 antes de Cristo para acabar por reunir 100.000 homens que lutaram contra Roma. Ao longo da Idade Média numerosos personagens continuaram a elaborar fugas memoráveis mas a escassez de documentação faz com que só a partir do século XVI comecem a aparecer fugitivos, com nomes e apelidos. No século XIX aparece uma literatura romanceada de grandes fugas como, por exemplo, no romance " O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Se, neste romance, Edmond Dantès consegue fugir da prisão da ilha de If, ao fim de catorze anos , para se vingar da injustiça contra ele cometida, a realidade pode superar a ficção e as experiências de personagens de carne e osso assim o comprovam. As fugas reais foram praticadas com mestria consumada, onde o engenho, tenacidade e audácia foram requisitos indispensáveis para vencer os obstáculos ,à priori intransponíveis , das masmorras ,das celas solitárias no alto de torres ou sofisticadas prisões de aço e cimento armado. Criminosos, ladrões , prisioneiros de guerra, escravos, plebeus, reis, políticos, etc , todos eles retidos contra a sua vontade e vigiados de perto por outros seres humanos , efectuaram fugas inacreditáveis. São fugas individuais , de pequenos grupos, mas também em massa como a de 600 judeus do campo de extermínio de Sobibor. Outro exemplo é o do castelo de Colditz de onde, durante a 2ª guerra mundial, 32 oficiais aliados conseguiram fugir graças a artimanhas de todo o tipo, incluindo um planador caseiro. Quando o muro de Berlim começou a ser construído (1961) e ainda só era uma cerca de arame farpado, o soldado Conrad Schumann foi designado para guardar essa rede na rua Bernauer. O comunista Schumann, quando se viu sozinho montando guarda, não pensou duas vezes : deitou fora a sua espingarda e saltou a rede de arame farpado para o outro lado sendo esta, na verdade, a primeira fuga da RDA para a liberdade.




O muro cresceu em cimento e em armadilhas tecnológias mas ao longo dos seus 155 Kms, e 28 anos de existência, muitas fugas tiveram lugar . Em 1963, um grupo começou a escavar um túnel de 145 metros de comprimento e 80 cms de diâmetro sob o muro e por ele escaparam 57 pessoas nos dias 3 e 4 de Outubro de 1964. Anos mais tarde , duas famílias cruzaram a fronteira num balão de ar quente , na noite de 16 para 17 de Setembro de 1979. Qualquer evasão comporta riscos de vida , não só dentro do recinto prisional como fora dele. No exterior, o espaço e o tempo são primordiais pois em alguns casos o fugitivo só está a salvo ao fim de milhares de Kms. Em relação ao muro de Berlim nem todos tiveram sorte ; entre 1961 e 1989, 136 pessoas foram mortas, abatidas a tiro ou electrocutadas. Algumas outras fugas podem ter mudado a História. Vejamos alguns exemplos: Se Luis XVI e a sua família não tivessem sido recapturados em Varennes e tivessem passado a fronteira, teria havido a Revolução Francesa ? Haveria República ou teria a França sido sempre uma monarquia? Quando comandos de Hitler libertaram Mussolini da prisão de Abruzzos teriam alterado o rumo da guerra ? Se Winston Churchill, na altura um jovem oficial inglês prisioneiro dos Boers, não tivesse fugido, talvez nunca tivesse atingido o prestígio que o levou a 1º Ministro durante a 2ª Guerra Mundial. Sem ele como ministro a condução da guerra teria sido diferente . Se Álvaro Cunhal não se tivesse evadido do Forte de Peniche, com a conivência comprada de um guarda da GNR, a acção política do PCP teria sido a mesma ? Individuais ou em grupo, fortuitas ou meticulosamente preparadas, recordadas ou silenciadas, triunfantes ou malogradas , as evasões forjaram uma história própria que pode ter tido influência na história colectiva. Pelo que dissemos, podemos perceber que a fuga seja uma" questão de honra" entre os oficiais que se encontrem na situação de prisioneiros de guerra.

17.1.10

VIDA FORA DA TERRA




Durante muitos anos existiu a dúvida de se havia " marcianos " ou outros seres extra terrestres com quem se conseguisse comunicar ou vir a ter uma confrontação bélica. Quando se provou que os "homenzinhos verdes" não existiam, a dúvida virou noutra direcção : será que os outros planetas do nosso sistema solar têm condições para serem habitados pelo homem e haverá neles outras formas de vida ? As investigações ditaram a seguinte sentença : as condições atmosféricas e físicas dos planetas estudados mostram que a vida, tal como a conhecemos, é impossível neles. Alguns possuem temperaturas muito elevadas ou muito baixas, outros atmosferas ácidas ou sulfurosas, sem oxigénio, pressões atmosféricas tremendas.etc. Quando tudo parecia cientificamente provado eis que no nosso planeta Terra se descobrem, em ambientes considerados impróprios , microrganismos que os cientistas apelidaram de extremófilos. Alguns desses organismos hipertermófilos vivem em ambientes aquáticos cuja temperatura ronda os 140º centígrados ; outros habitam locais onde a salinidade é de 9 a 30%,como os halófitos do Mar Morto. Os acidófilos vivem em ambientes de Ph inferior a 3, como nas sulfataras ou em lagoas de antigas minas de pirites ; ao contrário destes os alcalófitos vivem em ambientes de Ph superior a 10. Por incrível que pareça há organismos vivendo dentro do gelo, os psicófilos. E que dizer de seres que vivendo em ambientes sem luz , fazem síntese de alimentos ?Estes ao contrário das plantas usam o H2S em vez da água para a síntese orgânica. Se no nosso planeta existe vida em locais tão adversos , por que não acreditar que ela possa existir em planetas que nos estão próximos? No entanto outro problema se coloca : uma coisa é haver seres vivos em planetas cujos meios ambientes nos são fatais, outra é esses seres terem inteligência para nos poder contactar. Será que em outros sistemas solares, seres como os nossos extremófilos sofreram uma evolução, de unicelulares para pluricelulares e criaram inteligência , como aconteceu entre nós ? Quanto aos célebres OVNI eles não são mais que fenómenos naturais , já explicados e documentados , na quase totalidade dos casos, como balões meteorológicos ,meteoros ou aviões militares de desenho secreto. As enormes distâncias a percorrer e gastos de energia envolvidos levam-nos a afastar a ideia de naves de outros mundos que nos viriam observar, pois do sistema solar mais próximo e viajando á velocidade da luz, demorariam 10 anos a cá chegar. Na hipótese mais que remota disso ter acontecido, o facto de não nos terem deixado provas da sua visita, seria por nos considerarem seres de inteligência inferior, relativamente á sua. Mas a ideia de procurar seres inteligentes no Universo ainda não parou e daí o programa SETI (search for extraterrestrial intelligense) que escuta todas as frequências de rádio vindas de fora da Terra, na certeza de que a rádio não é apenas uma forma barata de comunicação, mas também sinal de civilização tecnológica.



Se só dependessemos de viagens espaciais para averiguar a existência de inteligência ET, nunca o viríamos a saber mesmo que tivéssemos naves com motores de matéria - antimatéria,dadas as incomensuráveis distâncias entre as estrelas O programa SETI completou 10 anos em Maio de 2009 e embora tenha envolvido 140.000 participantes e 235.000 computadores em rastreio das frequências rádio, não se conseguiu encontrar um sinal que para nós seja interpretado como proveniente de uma inteligênca alienígena . Isto não invalida que existam no Universo formas de vida inteligente ; o que não podemos esperar é que sejam morfológica e metabolicamente iguais a nós, daí o medo irracional de um encontro frente a frente.

11.1.10

CORSÁRIOS



Começamos por dizer que corsários e piratas não são bem a mesma coisa , embora os efeitos nos navios mercantes fossem idênticos devido aos saques e mortandade cometidos. Já Nelson , o célebre almirante inglês do século XIX, assegurava que os corsários não eram melhores que os piratas, mostrando assim o desprezo que os marinheiros profissionais sentiam por estes marinheiros que saqueavam navios inimigos com autorização do rei do seu país. A razão da existência de corsários deve-se ao facto do corso ser mais rentável para um Estado do que ter uma força naval organizada que, a ser criada, seria sustentada permanentemente pelos cofres desse Estado. Espanha ,França e Inglaterra tiveram os seus corsários, para além da marinha de guerra. Os corsários, desde o início, foram uma arma barata e eficaz, não só pelos prejuízos que causavam no comércio rival mas também pelos ganhos que propiciavam os saques e os pedidos de resgate sobre os barcos aprisionados e suas tripulações . No entanto, tudo o que fosse para além de causar estragos no comércio rival era considerado pirataria e susceptível de ser castigado, inclusive com a forca. Como uma coisa é o que está acordado e outra é a realidade, muitas vezes as acções corsárias eram mais de pirataria , com destruição e barcos e crueldade escusada. Nos séculos XVI e XVII, os corsos nos mares Mediterrãnico, Cantábrico e Antilhas eram feitos por barcos pequenos, muitas vezes sem grande artilharia, muito úteis na procura e perseguição dos navios mercantes dos outros países, o que exigia barcos leves e velozes. Os corsários usavam como armamento pistolas, mosquetes, espadas e punhais e o seu único pensamento era o saque e posterior partilha. O grande problema de quem comandava estes barcos corsários era a disciplina , já que os tripulantes eram recrutados em meios problemáticos das grandes cidades de Londres e Marselha. Para combater a indisciplina , os capitães aplicavam uma lei não escrita mas por todos aceite. Vejamos alguns exemplos: se um marinheiro se amotinava devia ser isolado e emplumado antes de ser abandonado numa ilha deserta ;se um homem desembainhava um punhal com intuito de ameaçar um companheiro,eram-lhe cravadas as mãos no mastro com o dito punhal, esperando que ele se soltasse sozinho; se fumasse antes do pôr do sol levava três chicotadas ; o que assassinasse um companheiro era atado ao cadáver e atirado ao mar. Dentro deste código de conduta dos corsários, o que estava destinado aos tripulantes e passageiros dos barcos aprisionados? Os passageiros considerados ricos eram mantidos para resgate ,mas turcos, mouros e mouriscos podiam ser vendidos como escravos. O resto da tripulação deveria ser desembarcada num porto amigo, logo que possível . Só em caso de necessidade absoluta se podia completar a tripulação com prisioneiros. Os barcos corsários tinham um comandante absoluto ,o capitão, escolhido pelo armador; seguiam-se o imediato e o mestre da fragata que governava a marinhagem. Como postos intermédios existiam o mestre das rações, o mestre dos apetrechos, o piloto, o contra mestre e o condestável. Havia também artilheiros,carpinteiros ,cirurgiões e por vezes um padre, num universo de cerca de cinquenta pessoas.

Ressalvando a abordagem e a luta que se seguia , o momento mais delicado da vida de um corsário era o julgamento do corso . Era um julgamento autêntico de primeira instância ,com escrivão e assessores e que servia para avaliar se o barco corsário actuara segundo as leis do mar e, por tanto, se o espólio obtido podia dar-se como bom e ser repartido. O julgamento era efectuado em terra, com a presença do capitão corsário e dos prisioneiros a quem era atribuído um defensor. Todos eram ouvidos sob juramento e a sentença decretada em 24 horas . Qualquer das partes podia recorrer da sentença para um tribunal superior, o Conselho de Guerra , que ditava a sentença final com possibilidade de um só recurso, o que era muito raro. Se o resultado era a favor dos corsários eles repartiam entre si o espólio; se era a favor dos prisioneiros , estes tinham direito a receber o que lhes fora roubado e uma indemnização pelos danos sofridos.

Se bem que no final do século XIX o corso tenha terminado devido a acordos internacionais que regem a navegação, no início do nosso século, na região da Somália,ele existe, mais parecendo pirataria e por isso combatido pela marinha de guerra de vários países, incluindo Portugal.

10.1.10

ILUMINAÇÃO PÚBLICA


Quando hoje caminhamos de noite por qualquer rua urbana, não pensamos em como terá surgido a ideia de a iluminar. Alguns saberão que antes da electricidade se usou o gás , o petróleo e até mesmo o azeite, mas muito poucos saberão que a ideia foi de Luís XIV, o rei sol de França. Este rei, de 24 anos e grande amante de festas, em Outubro de 1662 decidiu converter em dia a noite parisiense, com um serviço público de iluminação. O primeiro passo foi criar o Centro de Portadores de Tochas e Lanternas, uma rede de empregados que se situavam em pontos estratégicos de Paris e eram portadores de luminárias a azeite ou a velas de cera e cebo . A sua função era acompanhar os noctívagos a suas casas, iluminando-lhes o caminho, mediante um preço estipulado e dependente da duração do percurso. O serviço teve tanto êxito que, cinco anos mais tarde, o rei encarregou o alcaide da cidade de criar um sistema fixo de iluminação. Foram assim instalados 2.736 candeeiros de vidro, presos às fachadas das casas e à razão de 2 a 3 por rua. Os habitantes de cada rua, em regime de rotatividade, deviam acender e apagar estes candeeiros a azeite e limpar os vidros sujos pelo fumo da chama . Para facilitar a tarefa, essas lanternas subiam e desciam por meio de uma roldana. Se a ideia despertou interesse em Paris , o que dizer de outras capitais onde reinava completa escuridão após o pôr do sol. A iluminação nocturna de Paris fez aumentar o número de pessoas a andar nelas ,com as lojas comerciais,tabernas e cafés abertos até às 22 horas .Podia-se sair para cear ou fazer compras , sem medo dos meliantes que antes actuavam na escuridão. Esta maravilha atraiu inúmeros visitantes a Paris entre 1680 e 1690, principalmente ingleses, tendo assim nascido a ideia de turismo. Se os parisienses , por causa da iluminação, já podiam andar mais tempo na rua, havia ainda o problema dos dias chuvosos que os retinham em casa. Embora em 1677 se tenha inventado o tecido impermeável, foi em 1705 que um fabricante de capas chamado Jean Marius encontrou a solução definitiva criando o guarda-chuva pregueado, muito parecido com os actuais. Como eram muito caros, cerca de 600 € ao câmbio actual, em 1769 a polícia de Paris criou um sistema de aluguer de guarda-chuvas e as pessoas continuavam a sair. Voltando á iluminação , a euforia era tal na luta contra a escuridão que ,nas casas mais abastadas e nos palácios, o número de velas e candieiros aumentou imenso fazendo a noite parecer dia.

9.1.10

TORNADOS


Em Portugal, os dois últimos registos de tornados datam de 7 de Outubro de 2009, em Ferreira do Zêzere, e 23 de Dezembro de 2009, em Torres Vedras, Lourinhã e Cadaval, havendo a contabilizar enormes danos em telhados , postes de alta tensão, estufas agrícolas e outras estruturas. Mas que fenómeno é este que surge inesperadamente em locais tão imprevisíveis ? Por definição, um tornado é um intenso redemoinho de vento, em forma de funil, originado por um centro de baixa pressão durante uma tempestade.Se o redemoinho atingir o solo pode provocar grandes estragos pois são ventos com velocidades de centenas de quilómetros por hora . Os tornados formam-se associados às super células de tempestade, condições atmosféricas que originam ventos fortes, chuva intensa e granizo que vai desde o tamanho de um berlinde até ao de uma bola de ténis. Normalmente a formação do tornado ocorre ao final da tarde, período em que a atmosfera está mais instável , com forte turbulência e nuvens do tipo cúmulo-nimbo. Também é possível o aparecimento de tornados durante a noite, quando as super células de tempestade ,formadas durante a tarde, foram ganhando força, ou amadurecendo como dizem os geofísicos. Embora não exista consenso sobre o mecanismo que desencadeia o tornado, aparentemente ele se deve a uma interacção entre fortes fluxos de ar, ascendentes e descendentes que originam um movimento intenso na zona das células de tempestade devido aos valores muito diferentes de pressão atmosférica e de temperatura. A super célula é , no fundo, uma tempestade severa com uma corrente ascendente contínua e rotativa, isto é, um mesociclone . O ar quente e húmido, ao subir em rotação horizontal, entra na zona de turbulência criando um vórtice em forma de funil que tudo aspira. Estes vórtices são visíveis porque, devido aos detritos e areias que transportam, tomam uma cor escura.
É conveniente ver a diferença entre tornados e furacões : um furacão tem centenas de quilómetros de diâmetro e forma-se sobre os oceanos , perdendo força ao aproximar-se de terra firme. Os tornados são mais violentos e apresentam a forma de funil cujo diâmetro é inferior a mil metros , tendo também curta duração, cerca de uma dezena de minutos. A intensidade dos tornados é avaliada na Escala de Fujita que varia de F-0 a F-6, sendo este último grau apenas teórico pois nunca foi atingido. Há vários tipos de tornados consoante o aspecto apresentado: o tornado de vórtice múltiplo é um tipo de tornado no qual duas ou mais colunas de ar giram ao redor de um centro comum. O tornado satélite é um tornado mais fraco que se forma muito perto de um tornado mais forte e que parece estar a orbitar o tornado maior, embora os funis sejam independentes. Uma tromba de água é oficialmente um simples tornado sobre a água de um lago ou de um grande rio com aspiração da dita água . Um landspout é um tornado cuja origem não é um mesociclone , sendo portanto muito mais fraco e de curta duração.
Os tornados , por vezes, dão origem a fenómenos curiosos como a chuva de animais . Os animais que costumam cair do céu são peixes e rãs, e por vezes pássaros . Embora os peixes possam sobreviver à queda, os outros animais morrem congelados e vêm encerrados em blocos de gelo, o que demonstra terem sido sugados até grandes alturas onde as temperaturas são negativas. O fenómeno deve ser muito violento já que a maioria das vezes o que cai são apenas pedaços de carne e não animais inteiros. Este fenómeno não é tão raro como se pode pensar pois está citado em papiros egípcios e também na Bíblia como intervenção celestial. Até Plínio, o velho, fala deste acontecimento. Esta chuva de peixes, ratos e outros pequenos animais é explicada pelo facto do tornado ter passado por um rio ou um charco e ter sugado os animais aí existentes juntamente com a água . Em terra pode sugar pequenos roedores e outros animais maiores que caem desfeitos.

22.12.09

AEMINIUM

Aeminium é o nome romano de um povoado situado na colina sobranceira ao rio Mondego na sua margem direita, vinte quilómetros a norte de uma vila romana designada por Conímbriga. Com o passar dos séculos e talvez por influência do nome Conimbriga , Aeminium acabou por ser Conimbria e depois Coimbra.. Da ocupação romana de Aeminium já pouco resta, a não ser parte de um aqueduto e um grande criptopórtico do século I antes de Cristo, situado sob o que é hoje o Museu Machado de Castro, na zona alta da cidade. Um criptopórtico é uma galeria abobadada subterrânea, cujos arcos serviam para sustentar uma estrutura à superfície que, neste caso, era o fórum de Aemínium , praça pública e lugar de reunião dos diferentes habitantes da urbe. A construção do criptopórtico deveu-se ao facto de, naquele local, o declive do terreno ser muito grande e, por esta forma , se conseguir uma extensa área plana para um edifício grande e respectiva praça. A referida estrutura tem dois pisos, formados por grandes celas e galerias, sendo o piso superior de maior área. Pensa-se que durante a ocupação romana e árabe terá servido como armazem de víveres dado as celas serem lugares frescos e escuros que permitiam a conservação de alimentos. Durante a idade média o fórum foi transformado em palácio episcopal e as galerias do criptopórtico entulhadas com materiais de outros edifícios, possivelmente islâmicos ou romanos . No século XX, o paço episcopal foi transformado no Museu Machado de Castro , as galerias romanas desentulhadas e todo o material e espaço estudados. Durante os trabalhos de escavação , na zona anexa ao antigo fórum, foram descobertas redes de água e de esgotos construídas pelos romanos . A grande conduta de água ligava-se ao aqueduto que vinha de Celas e que hoje é conhecido como Arcos do Jardim.

(aqueduto ou arcos do jardim ,isto é, do Jardim Botânico ali ao lado)

O esgoto romano encontrado funcionava ainda como vazadouro de águas sujas a habitações circundantes dos séculos XIX e XX, isto a quando do início dos trabalhos de arqueologia. Foi ainda descoberta uma fonte monumental que estaria implantada na fachada do fórum , bem como alguns bustos. Outros raros vestígios de Aeminium estarão na Igreja de S.João de Almedina e na zona da porta com o mesmo nome , bem como nas caves da Livraria Almedina a ela colada. Lamentamos não ter encontrado qualquer documento público sobre os trabalhos de recuperação do criptopórtico já que tendo eles demorado mais de uma dezena de anos, certamente terão trazido á luz objectos de grande interesse histórico que aqui poderíamos citar. (foto mostrando as galerias e celas do criptopórtico )

13.12.09

CASTELO DE COIMBRA

Quem visita Coimbra fica admirado por não encontrar um castelo ou um pano de muralha , sendo esta uma cidade tão antiga com vestígios romanos e árabes . Será que nunca teve um castelo? Os documentos antigos provam a sua existência e, como não podia deixar de ser, localizava-se na zona mais alta da cidade, mais ou menos onde hoje está a Praça D. Dinis. Era neste local que se encontrava o castelo propriamente dito, com torres de defesa e de menagem, e dele partiam muralhas cercando o casario e descendo até ao rio,como mostra esta gravura de CONINBRIA.O castelo,cuja planta conhecida data do século XVIII, foi reconstruído no reinado de D.Afonso Henriques, sendo que D. Sancho I o mandou reforçar, aumentando o número de torres defensivas, uma delas em forma de quina junto á torre de menagem, chamada Torre de Hércules ou torre quinada. No século XVI começou a destruição da cintura de muralhas , quer pelo seu estado de ruína , quer porque a cidade crescia para fora delas e era necessária pedra para a construção dos grandes colégios universitários. A machadada final veio com a Reforma Pombalina da Universidade, na década de 1770. A construção de novos edifícios escolares e a beneficiação de outros, levou à destruição da área circundante à torre de menagem, tendo esta também começado a ser derrubada em 1773 para, a partir da sua base quadrangular, ser construído um novo observatório astronómico. Quando, dois anos mais tarde, se verificou que o local não era o melhor para as observações , as obras pararam, mas a torre de menagem já não existia . O novo observatório foi construído no extremo do pátio da universidade ,entre o Colégio de S.Pedro e a Biblioteca Joanina, tendo aí ficado até 1951, data em que foi demolido por haver já um outro moderno no alto de Santa Clara. Na segunda metade do século XIX, com a reforma dos Hospitais da Universidade, as inacabadas e abandonadas obras do primitivo observatório são aproveitadas para fazer a lavandaria e rouparia do hospital. Em 1944 estas instalações são desactivadas e demolidas expondo, pela última vez, a base da torre de menagem,como é documentado na fotografia que se segue.(A foto foi retirada do blog de Sérgio Namorado). Atrás está o Hospital de S.Lázaro que funcionou como hospital de doenças infecto -contagiosas. Neste local situam-se hoje as novas instalações da faculdade de Matemáticas.

Os vestígios mais conhecidos das antigas muralhas e portas que a cidade possuiu são a Torre de Anto e a Porta de Almedina, modificadas há muito
como habitação, o que mostramos a seguir.Em 1945, existia ainda no local onde terminava o aqueduto que abastecia o castelo um arco denominado ARCO DO CASTELO mas que nada tinha a ver com ele . Foi construído como suporte aos edifícos anexos,após o terramoto de 1755
(foto do aqueduto ,do arco do castelo e da porta de entrada do antigo Banco de Urgências dos Hospitais da Universidade ) Aqui fica um breve resumo do que foi um grande castelo e de como este foi desaparecendo, aos poucos e poucos , pelo aumento da cidade e da própria instalação universitária.
A muito custo conseguimos copiar uma planta do castelo cuja legenda é a seguinte : 1-Torre quinada ou de Hércules 2- Torre de Menagem 3- Porta do Castelo 4- Aqueduto A porta do castelo ficava a umas dezenas de metros do que é hoje a Porta Férrea da Universidade.

12.12.09

MOSTEIRO DE SANTA CRUZ -Coimbra

O Mosteiro de Santa Cruz , localizado na baixa de Coimbra , foi fundado em 1131 por D. Telo (São Teotónio) e mais onze religiosos da ordem de Santo Agostinho. Sob a égide de D. Afonso Henriques, foi uma das melhores instituições de ensino no Portugal medieval ,chegando a ter uma grande biblioteca e um scriptorium. O espólio dessa antiga biblioteca encontra-se hoje na Biblioteca Municipal do Porto. Como ilustres alunos desta escola conventual destacamos Fernando Martins de Bulhões, o célebre Santo António de Lisboa, em 1220 , e Luis Vaz de Camões em 1540 (?). Do edifício primitivo, construído em estilo românico entre 1122 e 1223 , já pouco resta. A fachada tinha uma torre central avançada , dotada de um portal encimado por uma grande janela , parecendo-se muito com a Sé Velha da cidade. Alguns aspectos da fachada românica ainda são visíveis por detrás de toda a decoração posterior.

Foi D. Manuel I quem ordenou a modificação da arquitectura externa e interna do mosteiro por o achar pouco digno de albergar os restos mortais dos dois primeiros reis de Portugal. Assim, a fachada românica ganhou duas torres laterais com pináculos e uma platibanda ,obra iniciada em 1507. (ver foto acima )Cerca de uma dezena de anos mais tarde, entre 1522 e 1526,foi-lhe acrescentado um portal cenográfico, em pedra de Ançã. obra de Diogo de Castilho e de Nicolau de Chanterenne. Esta obra escultórica está muito degradada pelas chuvas ácidas que corroeram a pedra. As modificações no interior da igreja foram também enormes e desta feita toda a nave foi coberta por uma abóbada manuelina. Junto à entrada foi construído um coro alto, também obra de Diogo de Castilho, tendo este coro um magnífico cadeiral, de madeira esculpida e dourada, obra do mestre entalhador flamengo Machim. No sec.XVIII foi instalado um orgão novo, estilo barroco ,e as paredes foram cobertas de azulejos com motivos bíblicos. ( ver foto seguinte)

No lado esquerdo da nave única está um belo púlpito esculpido em calcário, datado de 1521 , também obra de Nicolau de Chanterenne. Das alterações mandadas efectuar pelo rei D. Manuel I constam a mudança dos restos mortais de D. Afonso Henriques e de seu filho D. Sancho I, das antigas arcas tumulares junto á fachada românica, para novos túmulos na capela -mor. Estes túmulos, um de cada lado, são parecidos , de estilo gótico-renascentista, concluídos em 1520 e mais uma vez obra de Nicolau Chanterenne e seus discípulos.Mostramos a seguir o túmulo de D. Sancho I que se encontra do lado direito da capela-mor.
A sacristia é de estilo maneirista está decorada com azulejos seiscentistas e tem quadros a óleo de Grão Vasco, entre outros. O Claustro do Silêncio (1517-1522) tem uma decoração manuelina, possuindo anexo uma sala do capítulo com uma capela datada de 1588 , onde se encontram os restos do do fundador do mosteiro.( ver fotos sguintes de Daniel Tiago)

Fora do espaço físico do mosteiro e paralelo ao claustro do Silêncio, está um outro claustro designado da Manga , construído na década de 1530 e obra de João de Ruão. Hoje é um jardim público, entre edifícios modernos que nada têm a ver com o mosteiro,como se pode observar na foto seguinte.

Podemos dizer que os primitivos terrenos agrícolas do mosteiro continuavam para o lado direito da foto anterior, por onde hoje estão os CTT e o Mercado Municipal, continuando pela avenida Sà da Bandeira até ao Jardim da Sereia ou Parque de Santa Cruz. Quem visita a igreja não encontra torre sineira mas ela situava-se em frente ao Claustro da Manga, do outro lado da rua Olimpio Nicolau Fernandes.
A torre estava entre o antigo celeiro do mosteiro (hoje esquadra da PSP) e a enfermaria do referido mosteiro(hoje escola Jaime Cortezão, ex-Escola Comercial e Industrial Avelar Brotero) Em 3 de Janeiro de 1935 a torre foi derrubada pelos bombeiros, com jactos de água nas suas fundações , pois havia muito tempo que ameaçava ruína. A foto a seguir mostra o momento da queda .
No seu lugar ,e só passados cinquenta anos , foram ali construídas uma escadas para dar acesso á rua de Montarroio. Estas escadas têm uma fonte , denominada Fonte dos Judeus que estava originalmente junto ao mercado , no início da av. Sá da Bandeira.
Outras secções do mosteiro há muito tinham sido demolidas para dar lugar ao Edifício da Câmara e outras dependências. No que respeita ao actual Café Santa Cruz,colado ao mosteiro e parecendo fazer parte dele a história resumida é a seguinte: no ano de 1530 frei Brás Braga foi nomeado ,por D.João III ,reformador dos colégios existentes na cidade. Frei Brás Braga decidiu que Santa Cruz ficaria só para os frades crúzios e que para igreja paroquial se construiria ao lado uma nova igreja conhecida como S. João de Santa Cruz, o que veio a acontecer. Com a supressão das ordens religiosas (1834) a paróquia é de novo transferida para Santa Cruz e a igreja de S. João ficou inactiva e meio abandonada. Conheceu muitas funções comerciais, foi quartel de bombeiros,esquadra de polícia, até que em 8 de Maio de 1923 se transforma em café com o piso elevado.

6.12.09

O fim do mundo em 2012 ?


A notícia continua a percorrer o mundo em jornais e revistas, bem como ,no Google, o número de pesquisas sobre este tema já vai nos seis milhões , repartidos pelos sites que não param de crescer. Todo este alvoroço por causa de um calendário Maia que termina numa data correspondente a 21 de Dezembro de 2012 da nossa era. Parece que ,naquela data,um corpo celeste irá surgir repentinamente no nosso sistema solar e produzir o caos que destruirá a Terra ; gigantescas erupções solares produzirão enormes abalos sísmicos e forte vulcanismo. Pelo meio , um alinhamento perfeito de vários planetas do nosso sistema solar com o centro da galáxia ,produzirá uma fatal atracção para o planeta Terra. Tudo a conspirar para que 21 de Dezembro de 2012 seja o último dia da humanidade , mas nenhumas provas científicas são apresentadas.Isto para já não falar das inúmeras vezes que citando Nostradamus e outros que tais , nos foram reveladas datas, já passadas, para o fim da Terra. Os Maias , como outros povos antigos, estavam ligados a uma ideia cíclica do tempo e 2012 correspondia,no seu calendário, ao fim de um ciclo começado a 11 de Agosto do ano 3113 antes de Cristo. Este ciclo deveria durar 1.872.000 dias ,logo a data de 21 de Dezembro de 2012 para terminar o calendário.Findo este calendário seria construído outro. Toda esta confusão que por aí vai, foi alimentada pelo filme catastrófico de Emmerich designado " 2012 aquilo que os Maias previram" e onde são apresentados fenómenos geológicos e geofísicos que acabariam na destruição da Terra, o que nós tentaremos desmontar. Nos últimos milhões de anos a Terra registou cinco inversões de polaridade magnética (como está provado pelos magmas dos fundos oceânicos). sem que a vida tivesse desaparecido. A Terra,na sua órbita, acompanha a rotação do Sol à volta do centro da galáxia e, por causa disso, está todos os anos num plano de alinhamento galáctico,sem que isso tivesse tido qualquer consequência nefasta . O sol sempre teve fases de actividade mais ou menos intensas e desde 2007 que está num período de acalmia; mesmo que ele se encontre em actividade máxima em 2012, os registos mostram que esses picos nunca interferiram letalmente com a vida. Quem se pode queixar serão talvez os radioamadores com as interferências.Quanto á colisão de um corpo celeste desgarrado,vindo provavelmente da cintura de Kulper, nenhum deles seria capaz de destruir a Terra na totalidade e nem os astrónomos , sempre atentos, previram qualquer colisão num futuro próximo. Não podemos esquecer as inúmeras profecias do fim da Terra , nunca concretizadas, senda a última na passagem do milénio ,em 2000. Posto isto ,desejo a todos um bom filme "2012" e um bom Natal nesse ano futuro de 2012, com a crise económica e desemprego resolvidos e sem situações de guerra ou guerrilha.

4.12.09

INVISIBILIDADE


Quem nunca pensou em ficar invisível para espiar a casa do vizinho ou poder escapar aos olhares dos outros? Esta fantasia , tão velha como a humanidade, já tinha sido abordada por Platão no seu livro A República, ao atribuir a um anel o poder de fazer desaparecer o pastor Gygès. Vinte e cinco séculos depois o desejo de invisibilidade mantém-se ,embora o anel de Gygès, ou mais recentemente a capa do Harry Potter, tenham cedido o lugar a materiais compósito e à magia da ciência. O professor Xiang Zhang da universidade de Berkeley (USA) anunciou em Abril passado : Pela primeira vez conseguimos tornar invisível um objecto , utilizando frequências luminosas próximas dos infravermelhos. Para olhos sensíveis à luz infravermelha a invisibilidade é agora um facto. A invisibilidade está relacionada com a transparência . Se um objecto é visível aos nossos olhos é porque reflecte a luz que nele incide ;se tal não acontecer apresenta-se como transparente, como é o caso do ar que é invisível aos nossos olhos por não reflectir a luz visível que nele incide. Para fazer um objecto invisível é pois necessário tornà-lo transparente e se isto é fácil em teoria , na prática é muito complicado.

Pesquisadores da universidade de Jilin(China) conseguiram tornar transparente uma amostra de sódio que normalmente tem uma cor cinzenta baça , embora para isso tivessem de submeter a referida amostra a uma pressão enorme, dois milhões de vezes superior à atmosférica. A essa pressão o Sódio modificou as suas propriedades ópticas e tornou-se não reflector da luz . Em meados da década de 90 o físico John Pendry admitia que, mais do que agir sobre a matéria, era preferível obrigar a luz a contornar um objecto e depois seguir de novo em frente, contrariando o princípio universalmente aceite de que a luz só se propaga em linha recta. Esta ideia de Pendry foi experimentada , em 2006, com a ajuda de David Smith que estava a estudar as propriedades de refracção dos metamateriais, isto é, materiais artificiais. Uma característica chave dos metamateriais é possuírem um índice de refracção negativo, desviando a luz de forma inversa á dos materiais naturais. Todos já verificamos que uma vara mergulhada na água com uma certa inclinação , parece estar quebrada e a aproximar-se da superfície devido ao conhecido fenómeno de refracção da luz . Se a água tivesse um índice de refracção negativo veríamos a parte mergulhada da vara como que saltando para fora dela . Como os metamateriais podem apresentar refracção negativa de campos electromagnéticos , Prendy e David Smith construíram um cilindro onde gravaram a cobre um complexo desenho de anéis em base de fibra de vidro. Verificaram que o objecto se tornava invisível para as frequências próximas dos infravermelhos. Isto levou-os a pensar numa capa de invisibilidade,tal como a do Harry Potter que funcionasse para frequências visíveis do olho humano. Ora uma capa destas teria de ter um desenho com um traço dez vezes fino que os comprimentos de onda da luz visível, ou seja os riscos desse desenho deveriam ter apenas 40 nanómetros de espessura, coisa actualmente impossível de construir sobre uma superfície flexível. Esperemos o que o futuro nos reserva, mas os militares já estão atentos a estas experiências pois desejam fabricar uma tinta que torne aviões e outras armas invisíveis à vista humana. Esta invisibilidade que os militares desejam nada tem a ver com a dos aviões que não são detectados pelo radar, pois aqui é a forma do avião que desvia as ondas do radar para longe do aparelho emissor que assim não recebe o eco e não detecta o avião além de uma tinta, renovada a cada voo, que absorve parte das ondas do radar, sendo o eco quase nulo.

21.11.09

SACERDOTES EGIPCIOS

A civilização egípcia ,uma das mais antigas, sempre mostrou práticas religiosas, primeiro animistas (5.000 anos antes de Cristo) tendo depois evoluído para uma espiritualidade repleta de deuses. Esta nova espiritualidade mantinha vestígios anímicos, uma vez que esses deuses eram divindades antropomórficas , ou seja, tinham elementos humanos e animais As primeiras referências a sacerdotes do Egipto datam da Primeira e Segunda Dinastias, 3.000 anos antes de Cristo, embora as inscrições que a eles aludem sejam meros títulos honoríficos que não permitem determinar, em rigor, as suas funções. Do Império Antigo existem já mais informações , sabendo-se que os sacerdotes principais eram escolhidos entre os familiares do Rei (Faraó) ou pessoas muito próximas dele. Os sacerdotes constituíam uma casta previligiada que ia obtendo cada vez mais poder mas não chegando a acumular grandes riquezas. A partir da quinta dinastia (2494- 2345 aC) com a construção de grandes templos consagrados a Rá, o deus Sol, a classe sacerdotal ganhou independência e influência.Esta influência foi aumentando nas dinastias que se seguiram, chegando a haver 80.000 sacerdotes no templo de Amon, em Karnak, no tempo de Ramsés III. Devemos esclarecer que eram consideradas sacerdotes todas as pessoas que trabalhavam no templo e que a sua actividade nada tinha de semelhante com a dos clérigos das actuais religiões ocidentais. Aquelas pessoas eram, na realidade, servos do Deus e, consoante as habilitações que possuíam , assim estavam destinadas a tarefas específicas. Se sabiam ler e escrever, iriam interpretar textos, escrever documentos etc; outros praticavam observação astronómica e definiam calendários de colheitas; outros ainda dedicavam-se á medicina preparando medicamentos,fazendo sangrias ,criando elixires ,exorcismos etc; outros eram guardas e assim por diante. Os servidores do Deus podiam casar e ter outras profissões sem incompatibilidade com o serviço do templo. Existia entre esses sacerdotes ou servidores uma hierarquia que determinava a que lugares no templo poderiam ter acesso. O clero egípcio estava organizado segundo uma rígida estrutura piramidal em que no vértice estava o Faraó como sumo-sacerdote de todo o país e de todos os deuses. Dele dependiam os corpos sacerdotais dos diferentes templos e deuses. Os corpos sacerdotais eram chefiados pelos sumo sacerdotes que tomaram designações diferentes ao longo dos tempos e consoante os lugares de culto. Como exemplo citamos o que se passava com o templo de Amon ,em Karnak,com os seus 80.ooo servidores: O Sumo-sacerdote ou Primeiro Servidor era nomeado pelo Faraó que delegava nele o privilégio de ser o Deus encarnado, isto depois de ouvido o oráculo. Não esqueçamos que o Faraó era considerado o Deus encarnado. O Primeiro Servidor do Deus era assistido por um Alto Clero que com ele podia aceder às zonas mais sagradas do templo. Este Alto Clero era ainda constituído por um Segundo,Terceiro e Quarto Servidores do Deus e tinha por missão o governo do templo, dirigir os trabalhadores e controlar todas as propriedades e terras que o santuário possuísse. Estes quatro dignitários eram apoiados por numeroso pessoal auxiliar tal como mordomos,secretários,escribas,guardas ,criados e serviçais indiferenciados. Existia também um Baixo Clero formado por sacerdotes puros, ou uab que se ocupavam do ritual diário e carregavam a "Barca Divina" nas procissões .Tinham também uma hierarquia que passava pelo Director, Supervisor e Grande Sacerdote Uab, a que se acrescentavam os sacerdotes horários ,sacerdotes horóscopos , sacerdotes músicos e sacerdotes auxiliares com diferentes funções no templo. Neste imenso pessoal existiam também mulheres cuja actividade era a música e a dança para deleite do Deus, leia-se do Faraó. À cabeça deste clero feminino estava a Raínha ou uma filha solteira do Faraó,consideradas a Esposa do Deus ou Divina Adoradora ; seguiam-se a Supervisora do Harém (equivalendo ao 2º Servidor do Deus) que verdadeiramente dirigia a área feminina ; a Mãe do Deus e a Ama do Deus , formando todas elas o Alto Clero Feminino. No Baixo Clero encontravam-se as sacerdotisas puras , as cantoras de Amon, as músicas, as bailarinas e as leigas. Na foto abaixo vemos a raínha Nefertite (1ª Servidora) em ritual de oferenda ao Deus .Os Sacerdotes não pregavam os dogmas religiosos entre a população e os templos não eram lugares de culto público ,sendo o acesso a eles reservado ao clero. O culto ao Deus era realizado três vezes ao dia : ao amanhecer, ao meio dia e ao anoitecer. O Faraó ou o Sumo Sacerdote , por sua delegação, quebrava o selo da capela e abria o armário sagrado onde se encontrava a imagem mais sagrada do Deus , iniciando-se o ritual de a alimentar,lavar, vestir. pintar e adornar com jóias , como se fosse um ser vivo. É isto que podemos observar abaixo, na pintura de um papiro que passamos a descrever: O Sacerdote, com a máscara de Deus chacal Anúbis , segura a múmia enquanto , do outro lado,um outro vestindo a pele de leopardo e acolitado por mais dois , realizam os rituais atrás citados.



Os Sacerdotes Puros , antes de iniciarem o serviço diário, deviam banhar-se em água fria do Nilo e depilar cuidadosamente todo o corpo para evitar transportar os piolhos para o templo. Como se pode ver na foto de uma estela em madeira estucada e pintada , o sacerdote músico apresenta a cabeça rapada.


Como já referimos os templos não eram locais de livre acesso público pois o povo não era digno de ter contacto directo com a divindade. As procissões, quando a barca com o sacrário era carregada aos ombros dos sacerdotes puros , constituíam o único momento em que a população poderia admirar a imagem da divindade. Em geral os templos tinham como acesso a avenida processional ladeada de esfinges,com cabeças humanas ou de carneiros, tendo junto ao peito a imagem do faraó construtor.Na entrada do templo sobressaíam duas altas torres, de paredes inclinadas . Passadas estas chegava-se a um pátio aberto, cercado de colunas, cujo formato era inspirado em motivos vegetais como feixes de papiros e flores de lótus , claramente visíveis nos capiteis. Desse pátio passava-se a uma sala de colunas , totalmente coberta que dava acesso ao santuário principal do templo. Os templos compreendiam áreas contíguas com um lago sagrado usado nos rituais, casas dos servos do Deus , oficinas de artistas e artesãos , escritórios dos escribas e dos mordomos, celeiros ,etc, tudo isto cercado por uma muralha , fazendo do templo e anexos uma cidade autêntica. Os templos que, como já tinhamos dito, eram detentores de vastas propriedades onde trabalhavam agricultores e pastores, garantiam assim os víveres necessários para a sobrevivência de todo o pessoal. Os alimentos (carnes,leite,cerveja, vinho, pão diverso,óleo, fruta, legumes,vestuário ,etc)eram dados como ofertas que depois de consagradas nos altares laterais do templo iam para as dispensas para posterior distribuição pelos servos do Deus num processo chamado "reversão das oferendas".Estes celeiros eram tão grandes que podiam alimentar anualmente cerca de 30000 pessoas.

16.11.09

ANTIGRAVIDADE Realidade ou ficção?

Se há anos atrás nos perguntassem de que era feito o Universo ,teríamos respondido que era de matéria a que hoje acrescentamos :de energia e matéria negras. Os físicos, à força de cálculos matemáticos, chegaram à seguinte conclusão : a matéria vulgar do universo , aquela de que são feitos os seres vivos , as galáxias ou as estrelas, é apenas 5% do total. O que serão os 95% restantes ? É aqui que as coisas se complicam : 25% serão de uma matéria a que os cosmologistas , à falta de melhor, classificam de matéria negra, matéria nunca observada mas imposta pelas equações matemáticas que explicam os fenómenos gravitacionais à escala das galáxias. Os restantes 70% serão constituídos por energia negra , a energia que explica a aceleração e expansão do Universo. Se este é o modelo aceite pela maioria dos físicos ,outros há a afirmar que o Cosmos é composto , em partes iguais , de matéria e de antimatéria , estando esta última a ser estudada em grandes aceleradores de partículas. Pensam estes físicos que a cada partícula elementar da matéria ( electrão, protão,quark, etc) está associada uma partícula de antimatéria que lhe é semelhante, mas de carga eléctrica oposta.Definiu-se antipartícula como sendo aquela que reagindo com a partícula "espelho", se aniquilaria.Este conceito baseia-se na Física Quântica Relativa que leva a associar a cada partícula uma outra, com a mesma massa e o mesmo spin, mas em que a carga eléctrica , os números bariónico e leptónico , têm igual valor absoluto, mas sinal contrário. É o caso do neutrão e do antineutrão, partículas de carga eléctrica neutra com o mesmo spin , mas que se distinguem por terem os números bariónicos e leptónicos simétricos. (Não vamos aqui entrar em explicações matemáticas e físicas do que são estes números , pois não seriam acessíveis á maioria dos leitores deste blog ) Embora alguns positrões ( partículas espelho dos electrões) tenham sido já observados em laboratório com potentes aceleradores de partículas , eles nunca foram detectados na natureza. Voltemos ao nosso tema : se a gravidade é a força atractiva entre duas massas de matéria , será que existe antigravidade entre duas massas de antimatéria ? Se no tempo de Isac Newton existisse uma macieira (de antimatéria) com maçãs(anti matéria) ele não veria as maçãs a cair para o solo , mas sim a afastarem-se dele por antigravidade.

Mas existe ou não esta força ? Em 1993, Eugene Podkletnov, físico russo a trabalhar na Universidade de Tecnologia da Finlândia , desenvolveu um mecanismo que parecia conseguir anular parcialmente a lei da gravidade de Newton e diminuir o peso dos corpos , mecanismo este que foi analisado exaustivamente pela NASA e pelo instituto MAX PLANCK da Alemanha. O mecanismo consistia num pequeno anel de 20 cms de diâmetro que girava a 3.000 totações por minuto ,a uma temperatura próxima do zero absoluto. Fora construído para testar a capacidade de super condutibilidade do material cerâmico. Podkletnov conta o que acontecera : " Nós estávamos a trabalhar de noite quando fomos visitados por um amigo que usa cachimbo, pelo que a sala rapidamente ficou muito cheia de fumo do tabaco. Reparámos, por acaso, que o fumo parecia ser repelido junto ao nosso equipamento que estava a funcionar , como se encontrasse uma barreira invisível. Estudámos o assunto e verificámos que na zona de ar que correspondia à projecção do nosso equipamento, havia um abaixamento da pressão atmosférica. Experiências posteriores mostraram que objectos , colocados sobre o equipamento, perdiam peso e essa perda era porporcional ao número de equipamentos que se punham a funcionar". Nos nossos dias ,os estudos de Podkletnov a que se juntaram os do italiano Modanese e do norte americano J. Schuwer foram catalogados e reunidos pela Gravity Society, tendo a NASA feito experiências com equipamentos maiores no Centro Espacial Marshall,em Huntsville. O projecto da NASA é o "delta G" e visa construir uma nave espacial cuja aceleração fosse dada pela antigravidade sem que ela interferisse no corpo dos tripulantes. Curioso é que a construtora de aviões Boeing anda interessada em estudar este assunto para reduzir o peso dos aviões e reduzir o consumo dos mesmos.

8.11.09

ESTRADAS ROMANAS

Por certo já muitos terão ouvido dizer que quem tem boca vai a Roma ou todos os caminhos vão dar a Roma, querendo isto significar que pelas estradas se vai onde se deseja , basta ir perguntando ou estar atento às indicações das placas sinalizadoras. No entanto, a referência à cidade de Roma é devida ao facto dos Romanos terem construído ,por toda a velha Europa, estradas ligando a capital do seu império às cidades mais remotas ,isto 300 anos antes de Cristo. O complexo sistema viário por eles criado tinha mais de 90.000 Kms e permitia ligar, por exemplo, o norte da Escócia com o norte de África ou Scallabis (Santarém) com cidades do mar Negro, na Ásia. A primeira estrada romana a ser construída foi a célebre VIA APPIA ,no ano 312 antes de Cristo que ligava Roma a Brindes, perto de Pompeia. Se é certo que antes do Império Romano Negritojá existiam rotas, caminhos e trilhos pela Europa e Ásia , foram os romanos que os organizaram como rede viária coerente , interligando itinerários principais com secundários ,aperfeiçoando a sua construção e sinalização. No início ,o sistema foi desenhado com fins políticos e militares para manter um controlo sobre as zonas conquistadas. Legionários, funcionários, comerciantes ou populações locais usavam estas vias, normalmente empedradas que vertebravam todo o Império Romano, já que este necessitava de todo o tipo de matéria prima e produtos já elaborados. A construção das estradas era supervisionada por um director ( curator viarium ) que delegava no architectus (arquitecto) a sua execução. Este, por sua vez ,tinha sob as suas ordens um agrimensor e um nivelador (actuais topógrafos) cuja função era traçar estradas o mais planas e rectilíneas possível. Em tempo de paz eram os legionários que as iam construindo, pois os salários pagos não eram assim considerados um desperdício, daí que as Legiões tivessem os seus próprios agrimensores e niveladores. Em tempo de guerra eram usados escravos, presos de delitos comuns, criminosos e prisioneiros de guerra. Normalmente calcetadas( glareae stratae ), possuíam escoamento de águas pluviais e marcos miliários para marcar a distância percorrida de 1.000 passos (1.478 metros). Estes marcos podiam conter o nome e títulos do imperador que havia autorizado a construção, a data do início da construção ou o nome dos construtores (evergetas), ou ainda outras informações consideradas importantes . Eram de forma e tamanho variáveis ,normalente cilíndricos, como se vê na foto seguinte. Por vezes havia marcos mais pequenos indicando a meia milha.


As estradas tinham largura variável consoante o trânsito local, algumas chegando aos seis metros ,e eram desenhadas por forma a evitar zonas inundáveis , possuíndo pontes de pedra para atravessar os cursos de água, ou pontes de madeira em zonas onde a pedra era difícil de obter.Tentaremos agora dar uma ideia de como eram construídas estas estradas: depois da terraplanagem ,era aberto um cabouco profundo onde se colocava uma camada de pedras graúdas com a espessura de 30 a 60 cms, conhecida como statumem, sendo esta a parte mais importante da obra, pois sobre ela se faria a futura via. Sobre o statumem era colocada areia e gravilha (20 cms) camada conhecida como rudus e por cima desta outra de igual espessura constituída por pedra triturada misturada com cal , designada de nucleus.Finalmente todo este conjunto estrutural era coberto por lages talhadas e ajustadas, por forma a obter um pavimento uniformemente liso .




O pavimento ligeiramente abaulado. mais alto ao centro, permitia a drenagem da água das chuvas para as valetas.Para além da zona empedrada da estrada, era limpa de vegetação uma faixa de terreno com dois a três metros, em declive e com drenagem que constituía a zona de segurança e estabilidade da obra. Tal como hoje há marcas pintadas nos pavimentos ,ou passeios para peões, assinalando o limite lateral da via,naqueles tempos usavam-se os crepidines, muretes laterais com 45 cms de altura e 60 de largura.(A primeira figura ainda mostra restos deste murete). Ao longo das estradas principais encontravam-se locais de descanso para os soldados e viajantes, bebedouros para os animais que puxavam os carros , isto é, as modernas áreas de serviço das nossas estradas. Pelas estradas circulavam, por vezes, mensageiros rápidos do imperador usando um selo próprio para não serem detidos pela guarda das torres de vigilância que, em sítios estratégicos ,controlava o fluxo de passageiros e mercadorias. A figura seguinte mostra a ponte Trajano onde se pode ver um marco miliário.Esta ponte foi construída entre os séculos I e II depois de Cristo e ia dar entrada em Aquae Flaviae (Chaves)


Também em Ponte de Lima, sobre o rio do mesmo nome , está outra datada do século I, mas posteriormente modificda em 1370, pelo que é difícil ver o que foi construído pelos romanos.(foto seguinte)





Terminaremos mostrando uma réplica de um carro de transporte de mercadoria e passageiros da época romana.

5.11.09

Mosteiro de Coz


O mosteiro de Santa Maria de Cós (ou Coz), desconhecido da maioria da população portuguesa ,situa-se no concelho de Alcobaça, em zona campesina ou não fora ele, de início, uma granja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.Difícil de visualizar, situa-se a 4 kms de Maiorga, na estrada para o Juncal , passando-se por ele despercebidamente dada a sua simplicidade e semi abandono. Restaurado há pouco tempo no que concerne á igreja , encontra-se fechado, sem qualquer guia oficial ou oficioso (ano de 2009) , restando a boa vontade de uma familiar do pároco local para abrir a porta , fora das horas de culto.

Considerando o que citámos , resolvemos dar o nosso humilde contributo divulgando a sua riqueza de talha e azulejo. De origem muito antiga (1279), foi fundado por D. Fernando , abade de Alcobaça, servindo inicialmente para acolher as viúvas que optassem por se dedicar á vida religiosa. O que hoje é visitável data do século XVI e deveu-se ao abade comendatário de Alcobaça, D.Afonso, filho do rei D. Manuel I e destinava-se a albergar uma comunidade feminina da ordem de Cister.

O que hoje resta é a igreja,a sacristia ,e o que ficou de dois pisos dos grandes dormitórios( ver foto acima) estes com janelas esventradas a que foram arrancadas as cantarias para utilização em moradias , já que a parte do antigo convento tinha sido vendida a particulares. O interior da igreja revela as reconstruções dos séculos XVII e XVIII mantendo, do século XVI, um portal manuelino que dava entrada ,a nascente, para o coro. Os altares são de rica talha dourada como podemos apreciar na foto seguinte.


A nave da igreja foi dividida em duas zonas : a zona entre o altar mor e o coro destinada aos leigos e a zona do coro para as religiosas. Estas duas zonas estão separadas por um gradeamento em madeira, actualmente restaurado e de que apresentamos um pormenor.(foto seguinte) Através desse gradeamento vemos o cadeiral e os azulejos que cobrem as paredes do coro.O cadeiral teria originalmente 106 assentos , o que mostra o número de freiras e daí poder ter-se uma ideia do número de celas e tamanho dos dormitórios bem como do resto das instalações ,hoje desaparecidas.



O tecto da nave é formado por 80 caixotões de madeira com pinturas , também restauradas mas mantendo a cor envelhecida. Por este tecto e azulejos vale a pena procurar esta maravilha do século XVII.


Interessantes também os azulejos da sacristia, anexo relativamento baixo em relação á nave da igreja, mas de valor incalculável por serem do século XVII.Por falha da nossa máquina fotográfica não os podemos fixar em pormenor pelo que recorremos , com a devida vénia, a uma foto de um blog designado Fleming de Oliveira.

(vista parcial da sacristia,com o lavatório e porta de acesso ao interior da igreja).

Terminamos este apontamento com uma pergunta : que anda a fazer o pelouro da cultura da câmara de Alcobaça que não permite estar aberto, fora da hora de culto,este tesouro arquitectónico sempre com a desculpa de falta de verba? Se tanto foi gasto num longo restauro profissional, por que manter esta joia escondida de turistas que " dão com o nariz na porta" por não saberem a quem se dirigir para fazer uma visita?

1.11.09

LUTÉCIA


Lutécia foi nome romano de um pequeno povoado piscatório situado numa ilha do rio , a que hoje chamamos Sena, e que evoluiu até dar a grande cidade de Paris. Parece que o nome deriva do facto da ilha sofrer frequentemente com as cheias do rio e ficar coberta de lama .(lutum= lama) Rigord , um monge da abadia de Saint-Denis, na sua obra Gesta Philippi Augusti, escrita em finais do século XII, afirmava que vinte e três mil troianos sob as ordens do duque Ybor tomaram a cidade de Sycambria , nas margens do Danúbio, em 895 a.C. . Esse exército atravessara o que é hoje a Alemanha e fixara-se em Lutécia , onde Ybor e os seus seguidores tomaram para si o nome de parisienses em homenagem ao lendário Páris. Há outras versões para a origem do nome como aquela que refere ter sido Pharamond ou Faramund , o legendário primeiro rei dos Francos, que baptizou o local de Lutécia Páris.

Qualquer que seja a verdade, Lutécia ou a futura Paris sempre estiveram ligadas ao rio que um dia se viria a chamar Sena. As suas águas escuras , correndo lentamente pela planície foram formando meandros , mudando muitas vezes de traçado e criando no seu leito ilhotas de natureza aluvionar.Algumas delas desapareceram ou uniram-se consoante o capricho da erosão e sedimentação fluviais , como é o caso da île de la cité , que é considerada o berço de Paris. Se Lutécia começou por ser um pequeno povoado, cresceu com a ocupação romana para a margem esquerda do rio com largas ruas esquadriadas e belas habitações , templos e palácios.



Algumas ruas da Paris de hoje resultam do traçado de ruas romanas; é o caso da rua de Saint-Jacques a antiga cardo maximus , o mesmo acontecendo com o Boulevard Saint-Michel e rua Vallet. Pensa-se que onde é hoje o nº 172 da rua de Saint.Jacques terá sido o ponto zero da cidade romana , isto é, o epicentro da construção pelos romanos. O maior dos edifícios públicos , o Forum, situava-se não muito longe do actual Panteão. Como a romanização de um local não descurava o uso de banhos termais , Lutécia dispunha de três balneários sendo o maior na actual zona de Cluny. A água corria a jorros nas fontes, balneários e latrinas dado que a cidade era abastecida de água potável através de um longo aqueduto alimentado por três nascentes localizadas nos vales de Chilly, Wissoas e Rungis. Junto da rua Monge está o que resta do anfiteatro romano. Pela foto que se segue nota-se que as bancadas desapareceram para dar lugar á rua e a pedra utilizada na construção das casas.



Lutécia romana desapareceu há muito pois o seu enorme desenvolvimento,conquistas e reconquistas ao logo dos séculos , fizeram com que os materiais das casas romanas dessem origem a outro tipo de edificação urbana , perdendo-se grande parte do legado histórico. Mesmo assim, no museu Carnavalet, que é municipal, é apresentada a história da cidade de Paris desde a pré-história até aos nossos dias , pelo que deve ser visitado numa próxima visita á cidade luz.






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