8.11.09

ESTRADAS ROMANAS

Por certo já muitos terão ouvido dizer que quem tem boca vai a Roma ou todos os caminhos vão dar a Roma, querendo isto significar que pelas estradas se vai onde se deseja , basta ir perguntando ou estar atento às indicações das placas sinalizadoras. No entanto, a referência à cidade de Roma é devida ao facto dos Romanos terem construído ,por toda a velha Europa, estradas ligando a capital do seu império às cidades mais remotas ,isto 300 anos antes de Cristo. O complexo sistema viário por eles criado tinha mais de 90.000 Kms e permitia ligar, por exemplo, o norte da Escócia com o norte de África ou Scallabis (Santarém) com cidades do mar Negro, na Ásia. A primeira estrada romana a ser construída foi a célebre VIA APPIA ,no ano 312 antes de Cristo que ligava Roma a Brindes, perto de Pompeia. Se é certo que antes do Império Romano Negritojá existiam rotas, caminhos e trilhos pela Europa e Ásia , foram os romanos que os organizaram como rede viária coerente , interligando itinerários principais com secundários ,aperfeiçoando a sua construção e sinalização. No início ,o sistema foi desenhado com fins políticos e militares para manter um controlo sobre as zonas conquistadas. Legionários, funcionários, comerciantes ou populações locais usavam estas vias, normalmente empedradas que vertebravam todo o Império Romano, já que este necessitava de todo o tipo de matéria prima e produtos já elaborados. A construção das estradas era supervisionada por um director ( curator viarium ) que delegava no architectus (arquitecto) a sua execução. Este, por sua vez ,tinha sob as suas ordens um agrimensor e um nivelador (actuais topógrafos) cuja função era traçar estradas o mais planas e rectilíneas possível. Em tempo de paz eram os legionários que as iam construindo, pois os salários pagos não eram assim considerados um desperdício, daí que as Legiões tivessem os seus próprios agrimensores e niveladores. Em tempo de guerra eram usados escravos, presos de delitos comuns, criminosos e prisioneiros de guerra. Normalmente calcetadas( glareae stratae ), possuíam escoamento de águas pluviais e marcos miliários para marcar a distância percorrida de 1.000 passos (1.478 metros). Estes marcos podiam conter o nome e títulos do imperador que havia autorizado a construção, a data do início da construção ou o nome dos construtores (evergetas), ou ainda outras informações consideradas importantes . Eram de forma e tamanho variáveis ,normalente cilíndricos, como se vê na foto seguinte. Por vezes havia marcos mais pequenos indicando a meia milha.


As estradas tinham largura variável consoante o trânsito local, algumas chegando aos seis metros ,e eram desenhadas por forma a evitar zonas inundáveis , possuíndo pontes de pedra para atravessar os cursos de água, ou pontes de madeira em zonas onde a pedra era difícil de obter.Tentaremos agora dar uma ideia de como eram construídas estas estradas: depois da terraplanagem ,era aberto um cabouco profundo onde se colocava uma camada de pedras graúdas com a espessura de 30 a 60 cms, conhecida como statumem, sendo esta a parte mais importante da obra, pois sobre ela se faria a futura via. Sobre o statumem era colocada areia e gravilha (20 cms) camada conhecida como rudus e por cima desta outra de igual espessura constituída por pedra triturada misturada com cal , designada de nucleus.Finalmente todo este conjunto estrutural era coberto por lages talhadas e ajustadas, por forma a obter um pavimento uniformemente liso .




O pavimento ligeiramente abaulado. mais alto ao centro, permitia a drenagem da água das chuvas para as valetas.Para além da zona empedrada da estrada, era limpa de vegetação uma faixa de terreno com dois a três metros, em declive e com drenagem que constituía a zona de segurança e estabilidade da obra. Tal como hoje há marcas pintadas nos pavimentos ,ou passeios para peões, assinalando o limite lateral da via,naqueles tempos usavam-se os crepidines, muretes laterais com 45 cms de altura e 60 de largura.(A primeira figura ainda mostra restos deste murete). Ao longo das estradas principais encontravam-se locais de descanso para os soldados e viajantes, bebedouros para os animais que puxavam os carros , isto é, as modernas áreas de serviço das nossas estradas. Pelas estradas circulavam, por vezes, mensageiros rápidos do imperador usando um selo próprio para não serem detidos pela guarda das torres de vigilância que, em sítios estratégicos ,controlava o fluxo de passageiros e mercadorias. A figura seguinte mostra a ponte Trajano onde se pode ver um marco miliário.Esta ponte foi construída entre os séculos I e II depois de Cristo e ia dar entrada em Aquae Flaviae (Chaves)


Também em Ponte de Lima, sobre o rio do mesmo nome , está outra datada do século I, mas posteriormente modificda em 1370, pelo que é difícil ver o que foi construído pelos romanos.(foto seguinte)





Terminaremos mostrando uma réplica de um carro de transporte de mercadoria e passageiros da época romana.

5.11.09

Mosteiro de Coz


O mosteiro de Santa Maria de Cós (ou Coz), desconhecido da maioria da população portuguesa ,situa-se no concelho de Alcobaça, em zona campesina ou não fora ele, de início, uma granja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.Difícil de visualizar, situa-se a 4 kms de Maiorga, na estrada para o Juncal , passando-se por ele despercebidamente dada a sua simplicidade e semi abandono. Restaurado há pouco tempo no que concerne á igreja , encontra-se fechado, sem qualquer guia oficial ou oficioso (ano de 2009) , restando a boa vontade de uma familiar do pároco local para abrir a porta , fora das horas de culto.

Considerando o que citámos , resolvemos dar o nosso humilde contributo divulgando a sua riqueza de talha e azulejo. De origem muito antiga (1279), foi fundado por D. Fernando , abade de Alcobaça, servindo inicialmente para acolher as viúvas que optassem por se dedicar á vida religiosa. O que hoje é visitável data do século XVI e deveu-se ao abade comendatário de Alcobaça, D.Afonso, filho do rei D. Manuel I e destinava-se a albergar uma comunidade feminina da ordem de Cister.

O que hoje resta é a igreja,a sacristia ,e o que ficou de dois pisos dos grandes dormitórios( ver foto acima) estes com janelas esventradas a que foram arrancadas as cantarias para utilização em moradias , já que a parte do antigo convento tinha sido vendida a particulares. O interior da igreja revela as reconstruções dos séculos XVII e XVIII mantendo, do século XVI, um portal manuelino que dava entrada ,a nascente, para o coro. Os altares são de rica talha dourada como podemos apreciar na foto seguinte.


A nave da igreja foi dividida em duas zonas : a zona entre o altar mor e o coro destinada aos leigos e a zona do coro para as religiosas. Estas duas zonas estão separadas por um gradeamento em madeira, actualmente restaurado e de que apresentamos um pormenor.(foto seguinte) Através desse gradeamento vemos o cadeiral e os azulejos que cobrem as paredes do coro.O cadeiral teria originalmente 106 assentos , o que mostra o número de freiras e daí poder ter-se uma ideia do número de celas e tamanho dos dormitórios bem como do resto das instalações ,hoje desaparecidas.



O tecto da nave é formado por 80 caixotões de madeira com pinturas , também restauradas mas mantendo a cor envelhecida. Por este tecto e azulejos vale a pena procurar esta maravilha do século XVII.


Interessantes também os azulejos da sacristia, anexo relativamento baixo em relação á nave da igreja, mas de valor incalculável por serem do século XVII.Por falha da nossa máquina fotográfica não os podemos fixar em pormenor pelo que recorremos , com a devida vénia, a uma foto de um blog designado Fleming de Oliveira.

(vista parcial da sacristia,com o lavatório e porta de acesso ao interior da igreja).

Terminamos este apontamento com uma pergunta : que anda a fazer o pelouro da cultura da câmara de Alcobaça que não permite estar aberto, fora da hora de culto,este tesouro arquitectónico sempre com a desculpa de falta de verba? Se tanto foi gasto num longo restauro profissional, por que manter esta joia escondida de turistas que " dão com o nariz na porta" por não saberem a quem se dirigir para fazer uma visita?

1.11.09

LUTÉCIA


Lutécia foi nome romano de um pequeno povoado piscatório situado numa ilha do rio , a que hoje chamamos Sena, e que evoluiu até dar a grande cidade de Paris. Parece que o nome deriva do facto da ilha sofrer frequentemente com as cheias do rio e ficar coberta de lama .(lutum= lama) Rigord , um monge da abadia de Saint-Denis, na sua obra Gesta Philippi Augusti, escrita em finais do século XII, afirmava que vinte e três mil troianos sob as ordens do duque Ybor tomaram a cidade de Sycambria , nas margens do Danúbio, em 895 a.C. . Esse exército atravessara o que é hoje a Alemanha e fixara-se em Lutécia , onde Ybor e os seus seguidores tomaram para si o nome de parisienses em homenagem ao lendário Páris. Há outras versões para a origem do nome como aquela que refere ter sido Pharamond ou Faramund , o legendário primeiro rei dos Francos, que baptizou o local de Lutécia Páris.

Qualquer que seja a verdade, Lutécia ou a futura Paris sempre estiveram ligadas ao rio que um dia se viria a chamar Sena. As suas águas escuras , correndo lentamente pela planície foram formando meandros , mudando muitas vezes de traçado e criando no seu leito ilhotas de natureza aluvionar.Algumas delas desapareceram ou uniram-se consoante o capricho da erosão e sedimentação fluviais , como é o caso da île de la cité , que é considerada o berço de Paris. Se Lutécia começou por ser um pequeno povoado, cresceu com a ocupação romana para a margem esquerda do rio com largas ruas esquadriadas e belas habitações , templos e palácios.



Algumas ruas da Paris de hoje resultam do traçado de ruas romanas; é o caso da rua de Saint-Jacques a antiga cardo maximus , o mesmo acontecendo com o Boulevard Saint-Michel e rua Vallet. Pensa-se que onde é hoje o nº 172 da rua de Saint.Jacques terá sido o ponto zero da cidade romana , isto é, o epicentro da construção pelos romanos. O maior dos edifícios públicos , o Forum, situava-se não muito longe do actual Panteão. Como a romanização de um local não descurava o uso de banhos termais , Lutécia dispunha de três balneários sendo o maior na actual zona de Cluny. A água corria a jorros nas fontes, balneários e latrinas dado que a cidade era abastecida de água potável através de um longo aqueduto alimentado por três nascentes localizadas nos vales de Chilly, Wissoas e Rungis. Junto da rua Monge está o que resta do anfiteatro romano. Pela foto que se segue nota-se que as bancadas desapareceram para dar lugar á rua e a pedra utilizada na construção das casas.



Lutécia romana desapareceu há muito pois o seu enorme desenvolvimento,conquistas e reconquistas ao logo dos séculos , fizeram com que os materiais das casas romanas dessem origem a outro tipo de edificação urbana , perdendo-se grande parte do legado histórico. Mesmo assim, no museu Carnavalet, que é municipal, é apresentada a história da cidade de Paris desde a pré-história até aos nossos dias , pelo que deve ser visitado numa próxima visita á cidade luz.






25.10.09

EDUCAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA

Olhando para o que se passa actualmente nas nossas escolas com os professores, desmotivados e sem autoridade, a serem agredidos física e verbalmente por alunos e encarregados de educação, recordo tempos em que , por essas aldeias e vilas, o professor era pessoa tão respeitada como o vigário ou o médico. Veio-me também à memória uma cena cómica escrita por Herondas , no século III antes de Cristo, em que uma mãe grega desabafa sobre o filho pelas suas travessuras e desinteresse nos estudos :"....as tabuinhas que todos os meses me afadigo a cobrir de cera estão para ali atiradas entre a cama e a parede.... nunca escreve nada nelas! ....nem sequer conhece a letra alfa , a não ser que lha repitam cinco vezes." A mãe que levara o filho à escola e ali tivera o desabafo, ouve o mestre exclamar : "Onde está o coiro duro, o meu rabo de boi com que açoito os vadios ? Tragam-mo antes que rebente de cólera !" O rapaz suplica: ..."Não, por favor, mestre Lamprisco, pelas Musas e vida da tua esposa , não me batas com o duro, escolhe um mais macio para o fazer". Esta comédia motivou-me a contar como era o ensino na Grécia antiga. Os rapazes, a partir dos seis ou sete anos de idade, começavam uma instrução não somente profissional, mas também cultural, por forma a fazer deles cidadãos perfeitos que saberiam literatura e retórica, ciência e filosofia, a par de educação física e artística. Os pais colocavam as crianças sob os cuidados de um escravo ,o paidagogos ( pedagogo),O ensino primário era chamado paideia, palavra derivada de paidós que significa criança. A missão do pedagogo era acompanhar a criança à escola , ajudá-la a memorizar as lições e a ensinar-lhe moral e bom comportamento. As raparigas eram educadas em casa.(A excepção era em Esparta) As escolas, todas privadas , tinham à sua frente o grammatistes que ensinava as primeiras letras , ocupando-se das crianças até aos doze anos .Era uma profissão pouco valorizada que não requeria qualificação especial, com um salário modesto, um pouco superior ao de um operário qualificado. O professor sentava-se num lugar elevado, frente aos alunos e pedagogos ; os alunos escreviam nas suas pranchas de madeira cobertas de cera com um estilete que tinha uma ponta afiada e outra romba. Esta última servia para apagar os erros. A prancheta era apoiada nos joelhos como se pode ver numa pintura da época.O professor podia usar outros materiais para o ensino da escrita, como placas de barro cozido ou ardósia, mas quase nunca o papiro por ser muito caro.A leitura era muito difícil dada a inexistência de espaços entre as palavras ou de sinais de pontuação. Os alunos liam em voz alta e decoravam textos poéticos , obras de Homero, máximas dos Sete Sábios , poemas de Hesíodo e preceitos de Quíron. Nesta primeira fase a matemática limitava-se ao cálculo, por vezes com a ajuda de um ábaco. Aprendiam a tocar lira ou flauta para acompanhar o recitar dos poemas.


Neste pedaço de vaso grego vê-se , da esquerda para a direita, o aluno (em pé)a aprender a tocar flauta, depois a aprender a escrever. A figura à direita é o pedagogo; penduradas na parede uma flauta e uma lira. Tal como hoje ,a ida à escola era uma obrigação pouco grata para os jovens, pois se deslocavam para ela muito cedo, no inverno ainda de noite, com o pedagogo a iluminar o caminho com uma candeia. De tarde havia nova sessão de estudo, isto todos os sete dias da semana , excluindo os raros dias festivos .A metodologia era quase inexistente sem atender à idade e mal aprendiam a conhecer as letras já eram obrigados a decorar textos. O ensino secundário, dos 14 aos 18 anos, desfrutava de maior consideração, com o professor (gramanatikos)a ensinar literatura de Antifonte, Demóstenes, Eurípedes,etc. Aprendiam também matemática , geometria, aritmética . música e astronomia . Estes professores eram muito considerados e solicitados por todas as cidades. Além das disciplinas atrás citadas era dada pelo paidotribos a educação física que incluía a luta ,a corrida, o salto e o lançamento do disco e do dardo. Isto tudo correspondia ao ideal de uma educação integral ou universal, aquilo a que os gregos chamavam enkyklios paideia . Finalmente, aos 18 anos ,o adolescente atingia a idade de efebos e começava a formação de cidadão grego .Esta consistia numa espécie de serviço militar que durava dois anos, a efebia, durante a qual os efebos viviam em comunidade e aprendiam o manejo de armas e estratégia para defesa da sua cidade.Também assistiam às palestras e conferências de sofistas, leitores , oradores e professores. Aos vinte e um anos atingiam a idade adulta.Em Esparta as raparigas praticavam ginástica e, mais tarde, no período helenístico, em cidades como Quios e Teos, podiam assistir às palestras e aprendiam a ler e a escrever.

15.10.09

ENERGIA VINDA DO PAPEL

Se eu tivesse escrito esta mensagem há uma dúzia de anos, diriam que estava maluco ou que era visionário ; a verdade é que o avanço da nanotecnologia ( ver este título na etiqueta cultura geral ) nos permite hoje afirmar que o papel pode ser a futura fonte de energia para a enorme quantidade de produtos electrónicos usados no dia a dia. Tal como os plásticos desencadearam uma revolução no fabrico de materiais ,uma nova fonte de energia ,obtida por nanotubos de carbono separados por celulose ,está a revolucionar a alimentação de equipamentos que vão dos iPhones aos marca-passos para as pessoas cardíacas. Robert Linhardt do Rensselaer Polytechnic Institute (RPI), em Nova YorK , afirma : Já construímos uma bateria de papel, um super condensador e um dispositivo híbrido, que poderiam ser usados numa variedade de aplicações de armazenamento de energia . Esses dispositivos são leves e flexíveis e compostos por papel celulósico , um material biocompatível e que não agride o ambiente. Foi produzido em colaboração com três outros laboratórios do RPI e funciona ao utilizar a celulose para separar nanotubos de carbono , alinhados uns com os outros e funcionando como eléctrodos. Fabricados os nanotubos de carbono , a celulose é dissolvida num electrólito, conhecido como sal líquido, e derramado na bateria de papel. Após a secagem o resultado é uma fina folha de papel nanocomposto que pode ser enrolado, torcido, dobrado . Além da flexibilidade, a bateria de papel também pode ser cortada ou empilhada , diminuindo ou aumentando a capacidade de carga. Separar nanotubos de carbono com celulose dá origem a um papel preto que funciona como super condensador de escala comercial ; se os nanotubos forem separados de uma camada de lítio laminado, obtém-se uma bateria de longa duração, num papel negro de um lado e cinzento do outro. Linhardt continua a explicar : os nanotubos de carbono onde a celulose é colocada fazem um contacto com o papel ao nível molecular e numa enorme área , permitindo que o dispositivo armazene e liberte energia com eficiência ;e já estamos interessados na possibilidade de criar desfibriladores em papel , tipo descartável , como suporte médico imediato. Como a imaginação humana não fica parada, pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, descobriram como fabricar baterias muito leves utilizando as nano estruturas de celulose de uma alga do género Cladophora , já que estas algas tem uma enorme área superficial na sua nano estrutura porosa, comparativamente com a celulose das plantas terrestres usadas no fabrico do papel. Esta nova bateria é constituída por uma nano estrutura de celulose das ditas algas ,recoberta por uma camada de polipirrol, com 50 nanómetros de espessura. Estas baterias armazenam 600 mA por centímetro cúbico e devido ao seu reduzido peso, comparativamente às baterias de lítio, talvez venham a ser a solução para armazenar a energia dos automóveis totalmente eléctricos.

7.10.09

CIDADES MEDIEVAIS

Se tivéssemos a possibilidade de assistir ao nascimento e crescimento de uma cidade medieval veríamos o seguinte: um grupo de pessoas que se fixa num local e cria um pequeno casario para, pouco depois ,instalar uma pequena igreja na zona central. À medida que a população cresce, o número de casas aumenta, e em torno do núcleo original começam a instalar-se mercadores e artesãos que se agrupam de acordo com a sua religião, proveniência ou profissão ( ferreiros ,carniceiros, curtidores, oleiros,arneiros, alfaiates,etc) Junto a estes bairros surge o largo do mercado e, a partir do século XIII, os conventos e suas igrejas. Se uma igreja se transforma em catedral, temos uma cidade e o incremento rápido de outras construções como sejam: a casa do bispo, a residência de religiosos, o hospital, as escolas,os fontanários . o pelourinho e a forca ,e um espaço aberto para celebrações. Na época medieval cidades e vilas não se distinguiam pelo tamanho,apenas pela existência de catedral. As cidades tinham catedral e eram, por isso, sede de bispado. Cada bispo administrava uma província sentado numa cadeira ou cátedra e a igreja onde estava essa cadeira denominava-se catedral. Era uma organização territorial que vinha dos tempos da ocupação romana. No século IV, quando surgem as invasões bárbaras , as pessoas deixam os grandes aglomerados populacionais e instalam-se em pequenos núcleos campesinos. No entanto as sedes de bispado mantiveram-se habitadas e rodearam-se de fortes muralhas para resistir aos ataques inimigos.À medida que o tempo passava o reduzido espaço dentro das muralhas levava a que as casas se aproximassem umas das outras , as ruas se estreitassem e as pedras dos edifícios antigos fossem usadas na elevação das muralhas. A estrutura romana de ruas largas e cruzando-se em ângulo recto dera origem, por falta de espaço, á estrutura medieval que tentaremos descrever a seguir. A cidade medieval cheirava a fumo de lenha, a carne e peixe. a pão e guisados, a vinho, a dejectos, tintas e curtumes, a serradura e ervas aromáticas. As ruas, de terra e lama, tinham as casas tão próximas com os andares superiores mais largos que, em alguns locais , mal entrava o sol. A maior parte do ruído provinha da zona do mercado com os gritos dos comerciantes , a conversa das pessoas , o alvoroço de patos e galinhas e o mugir do gado. Este tipo de cidade manteve-se nos séculos XI e XII crescendo sempre em torno da catedral românica.



A partir do século seguinte tomam peso na sociedade os artesãos e os comerciantes , formando-se novos agregados populacionais fora das muralhas e com eles a construção de novas catedrais. Estas agora crescem em altura e enchem-se de luz e cor através de grandes janelas e espectaculares vitrais . Estas catedrais góticas continuam a ser o centro da cidade e a competir com os palácios e edifícios públicos.


Já que estamos a falar de catedrais góticas , algumas demorando três séculos a construir, elas nem sempre foram lugares de paz e silêncio. Durante o dia eram animadas por gentes que ali pernoitavam, pelos que a atravessavam para encurtar o caminho, ou pelos que dentro das suas paredes comerciavam de tudo .As paredes laterais estavam ocupadas por capelas que eram espaços privados e fechados, de gente rica que ali queria ser sepultada.Também nas naves laterais se instalavam escolas . O que ficava exclusivamente para o culto era o altar e o coro ,com o espaço que os unia, cor respondendo ao cruzeiro, fechado por paredes . Nos espaços abertos das naves podia-se circular livremente , normalmente não cumprindo as normas que o cabido tentava impor. Numa dessas normas que chegaram até aos nossos dias , constava a proibição de realizar representações teatrais cómicas ou contendo frases de duplo sentido, canções lascivas ,etc, pois a casa de Deus fora feita para orar e não para escarnecer. Ricos e pobres ,autoridades locais , nobres e reis , participavam na construção das catedrais , uns com mão de obra ,outros com dádivas. Quase sempre os mecenas desejavam ser recordados e ,por isso, faziam-se representar nos vitrais, nos afrescos , nos relevos e , como já referimos, nas capelas funerárias com estátuas jacentes. Algumas cidades medievais chegaram aos nossos dias quase intactas e são hoje lugares turísticos com vida própria.

26.9.09

SANTA CLARA -A-VELHA

O convento que foi fundado em 1283, pela abadessa D. Mor Dias, na margem esquerda do rio Mondego, frente á antiga cidade de Coimbra e entregue a uma comunidade de freiras clarissas, teve uma edificação de volumetria modesta. Durou pouco tempo esta comunidade de freiras pois um longo litígio com os frades crúzios de Coimbra levou-a à extinção .em 1311.. Em 1314, D.Isabel de Aragão (Raínha Santa) casada com o Rei D. Dinis, solicitou ao Papa autorização para, naquele local, construir um mosteiro onde desejava vir a ser sepultada. As obras começarem no ano seguinte sob a orientação do arquitecto Domingos Domingues, o mesmo do mosteiro de Alcobaça. A arquitectura era um misto de romanico e gótico, com predominância deste último. Possuia uma planta de três naves de altura semelhante , sem transepto e com as naves divididas em sete tramas ; a cobertura das naves era inteiramente de pedra .(ver foto abaixo de João Gomes Mota)A iluminação era realizada por duas rosáceas, uma em cada topo da nave central, e por janelas duplas nas paredes laterais. Posteriormente foi acrescentado á igreja um claustro e uma sala capitular , além de outras dependências. A igreja foi sagrada em 1330, mas o local da sua implantação fora uma má escolha por ser terreno de aluvião. Logo em 1331 , uma cheia do rio Mondego invadiu o recinto, tendo começado o lento afundamento do edifício devido ao próprio peso. Para compensar este afundamento um novo plano de chão foi construído a meia altura da igreja , o que obrigou à elevação das naves primitivas. Muito embora ao longo dos séculos que se seguiram se tenham feito trabalhos de drengem e conservação, o mosteiro e a igreja foram abandonados em 29 de Outubro de 1677. As freiras , o espólio e o corpo incorrupto da Raínha Santa foram transferidos para um novo mosteiro,no cimo do monte da Esperança, a actual igreja de Santa Clara-a-Nova. Com este abandono , o antigo edifício este foi-se enterrando cada vez mais e assim permaneceu durante séculos, com água até meia altura como se pode observar na foto de J.G. Mota.
Em 1991 começaram as obras de recuperação e resgate , obras que só terminaram neste ano de 2009 , com um custo de 7,5 milhões de euros , mas que permite vê-lo hoje em toda a sua beleza arquitectónica.Embora a base do mosteiro esteja a uma cota muito inferior à do rio, uma grande ensecadeira e um sistema de bombagem para retirar a água que se acumule por escorrência , é possível visitá-lo na totalidade, bem como a um moderno centro de interpretação deste legado histórico onde se expõem artefactos de há três séculos, encontrados durante os trabalhos de recuperação. Nas paredes exteriores ( fotografias acima) é visível a marca do nível das águas antes dessa recuperação.As fotos que se seguem mostram o segundo piso que foi construído, em 1333 ,por cima das colunas primitivas e que era suposto solucionarem o problema das cheias.A fotografia acima ,de Pascale Van Landuyt, mostra que parte do referido 2º piso abateu com o andar dos séculos.Em 1954 , o aspecto de Santa Clara -a-Velha era como está documentado pela objectiva de Mário Novais.Actualmente está como se segue podendo-se verificar a diferença.O antigo túmulo da Raínha Santa , foi obra de mestre Pero ,executada em meados do século XIV .No coro baixo da Igreja de Santa Clara -a- Nova, está o velho túmulo, bem como os retábulos maneiristas do antigo convento se encontram nas paredes laterais da nova igreja. Quanto ao corpo incorrupto da Raínha Santa foi transladado , em 3 de Julho de 1696, para um túmulo de prata colocado sobre o altar mor, por vontade do povo da cidade de Coimbra que o custeou na íntegra e elegeu esta Santa como padroeira da cidade.

A foto acima é do túmulo primitivo da Raínha Santa .Feito em estilo gótico,é da autoria de mestre Pero . Uma visita a todo o conjunto, incluíndo a parte museológica, demora cerca de 1 hora e meia , de terça feira a domingo no horário seguinte :Maio a Setembro das 10,00 h às 19.00 h ; Outubro a Abril 10h00 às 17h00 . Entrada gratuíta aos Domingos e feriados até às 14h00.Facilidade de estacionamento automóvel.

24.9.09

LISBOA arqueológica

Que Lisboa é uma cidade muito antiga todos o afirmam; mas muito poucos saberão que, por baixo das ruas e prédios da baixa pombalina, estão vestígios arqueológicos das sucessivas ocupações da cidade por cartagineses , romanos , mouros e portugueses do período anterior ao terramoto de1775.

Os diferentes cataclismos como os incêndios, invasões , maremotos, terramotos e também inundações que, ciclicamente, se abateram sobre a cidade e a posterior acção humana de reconstrução e adaptação do que ficou, deixaram um registo pouco claro, direi mesmo confuso ,dessa ocupação. Esses achados encontram-se na zona do Carmo e também na Baixa Pombalina , podendo ser visitados graças a mecenas como é o caso do Banco Comercial Português. Nas caves da sede deste Banco ( no nº 9 da rua dos Correeiros) existe um núcleo arqueológico que vai desde o ano 700 antes de Cristo até ao terramoto de 1775, passando pelos períodos romano e islâmico . Logo à entrada,um pavimento em vidro,sustentado por estrutura metálica, deixa ver as grandes lages de calcário do que foi uma via romana que se dirigia para o rio e para a zona de salga de peixe. Numa sala, diversas montras guardam ânforas, cântaros,taças, potes, pratos ,tigelas , escudelas, frigideiras ,bilhas ,panelas , púcaros e moedas dos períodos atrás citados.

Mais além, outro piso de vidro permite observar restos de muros anteriores ao terramoto de 1755 que foram postos a descoberto pelas escavações arqueológicas patrocinadas pelo BCP. Descendo para as caves , podem observar-se as bases rectangulares de pedra e argila das casas fenícias , com o local onde acendiam o fogo para cozinhar limitado por seixos rolados . Ao lado destas casas surgem vestígios romanos , numa mistura de solos e épocas causada pelos cataclismos e reconstruções já referidos. Estes vestígios romanos são cetárias ,isto é, tanques de salga de peixe que foram construídos sobre as estruturas fenícias , mais antigas. Noutra sala alinham-se cinco tanques de salga e onde se observam vasos romanos que serviam para preparar iguarias à base de peixe moído, marisco, sal e ervas aromáticas. A zona de salga deveria ser muito grande pois se estende até à actual Rua Augusta . Como se tudo isto não fosse já um riquíssimo espólio arqueológico, podemos ainda observar um conjunto de três piscinas romanas para os banhos quentes,frios e tépidos.As piscinas dão para um átrio central onde é visível um grande mosaico de figuras geométricas, possivelmente do sec.III da nossa era. Por cima deste mosaico assentam silos árabes e um forno de ferro do período reconstrução pombalina, esta amálgama resultante das sucessivas reconstruções. Deixando as caves do BCP , podemos encontrar mais cetárias romanas na Casa Napoleão ( nº 70 da rua dos Fanqueiros) e na célebre Casa dos Bicos Nesta última podemos ainda ver partes da muralha mourisca da cidade e um pavimento árabe de tijoleira em espinha. Também na rua da Prata , com entrada por um alçapão entre os carris do carro eléctrico, se pode visitar, uma vez por ano,devido ás dificuldades de acesso, galerias do período romano e cuja função é ainda hoje discutida pelos especialistas . Deste último caso mostramos as fotos seguintes.






Esta curta resenha mostra-nos uma Lisboa ainda desconhecida para a maioria dos Lisboetas e de certeza haverá muito mais a desvendar noutros pontos da cidade de Ulisses.

15.9.09

O PODER DAS PEDRAS

Confesso que, como geólogo, me sinto atraído pelas redes moleculares dos cristais das pedras preciosas e semipreciosas que fui obrigado a estudar em disciplina ministrada pelo já falecido professor doutor José Custódio de Morais. Nada me leva a negar que, como elementos da natureza, os cristais não possuam capacidades energéticas que possam vir a ser utilizadas a nosso favor. Basta pensar no quartzo, cujos átomos podem oscilar numa dada frequência , certa e precisa, quando excitados por uma fraca corrente eléctrica. Se assim não fosse e não teríamos os modernos e vulgares relógios que usamos. Correndo o risco de aparecer por aí um qualquer "zé ferino" a duvidar de tudo o que está para além da sua imediata e sensorial percepção do mundo, tentarei desenvolver o tema proposto. Recordo para já que há rochas a emitir energia e esta, embora não sentida pelo homem, existe, como foi comprovado já no início do século XX. É o caso do radão, gás radioactivo libertado pelos granitos e que, sendo prejudicial ao homem, é considerado uma " energia negativa". Será com um espírito de total abertura a fenómenos ora inexplicáveis que pesquisarei sobre o asunto nas fontes disponíveis .
Desde sempre o Homem se sentiu atraído por locais onde se faziam sentir energias cósmicas e poderes mágicos , bastando para o corroborar, a leitura dos relatos , em todas as épocas e culturas, de factos neles ocorridos. Esses locais foram considerados sagrados ou mágicos e neles se construíram templos e monumentos. O professor Jorg Purner, da universidade de Innsbruck, verificou que esses locais exercem uma forte acção sobre as varas dos radioestesistas , provando haver alí correntes energéticas de origem geológica, embora ainda não descodificadas na sua essência.Também não podemos esquecer que a nossa saúde e até os nossos sentimentos são influenciados por energias. Ninguém hoje põe em dúvida a influência sobre a saúde do campo magnético das linhas de muito alta tensão, das antenas dos telemóveis e das lâmpadas de baixo consumo ; também está provado que a duração da luminosidade solar altera o biorrítmo dos humanos e de outros seres vivos. Já não se duvida que o tempo meteorológico age sobre a psico de certos indivíduos. Se estas energias são hoje conhecidas e estudadas, por que duvidar da existência de outras ,ainda não detectadas laboratorialmente e vindas dos minerais? Haverá na Terra zonas de grandes concentrações de magnetite que criem um campo magnético próprio, susceptível de influenciar o comportamento humano ? As suas linhas de força estender-se-ão como e até onde? James Lovelock (1919-?), ecologista britânico e autor da teoria da Geia , diz-nos que as fotografias tiradas pelos astronautas mostram este planeta como uma ilha de vida , um superorganismo ,vestido de azul ,capaz de regular os seus processos metabólicos tendo, como complemento á sua estrutura e formas visíveis, um padrão invisível de distribuição de energia. Será este padrão invisível de distribuição de energias gerado pelos cristais das rochas? Não o posso afirmar ,nem o posso negar. Se nos tempos primitivos os cristais eram usados como ferramentas de cura, hoje também participam nessas curas enquanto componentes vitais da tecnologia médica. É difícil acreditar o quanto os cristais influenciam a nossa vida; sem eles não teríamos computadores , modernos equipamentos de comunicação ou a cirurgia laser. Se os cristais desempenharam papel importante na antiga arte médica , continuaram a fazê-lo nos nossos dias sob os aspectos já referidos. Graças aos cristais o milagre da alquimia foi possível; mais de 1500 rádio isótopos foram sintetizados, por acção de partículas atómicas aceleradas sobre os cristais. No entanto,não precisamos de ter um acelerador de partículas para mostrar as propriedades energéticas dos cristais ; se batermos com um martelo na extremidade de um macro cristal de quartzo veremos , em plena escuridão, aparecer uma pequena faísca no outro extremo do referido cristal. Magia ? Hoje diremos que não. O que aconteceu foi apenas isto: a energia cinética da pancada foi alterada, pelo cristal, em energia eléctrica. Outro exemplo: se aproximarmos um cristal de turmalina da chama de uma vela , veremos que o cristal atrai a chama e depois a repele. Hoje sabe-se que o fenómeno é devido ás cargas eléctricas que se formam á superfície do cristal mas, no passado, era "magia". E os fenómenos piezo eléctricos dos cristais ,hoje utilizados no dia a dia , não são uma maravilha e mistério da natureza? De tudo isto fica claro que a principal característica dos cristais será a transformação de energia , pois a que sai deles é diferente da que entrou. Será que eles podem transformar energias físicas em biológicas e vice-verso ou, dito de outra maneira: será que as propriedades dos cristais se aplicam em níveis mais subtis da mente, como os nossos antepassados acreditavam ? Muitos cientistas modernos pensam que sim , embora os efeitos, ditos espirituais, não possam ser medidos mecânicamente , apenas sentidos pelos utilizadores crentes . Chegado a este ponto ,deixo para os curiosos e crentes a pesquisa de numerosos "sites" sobre os poderes mágicos das pedras sem que, com esta atitude, esteja a defender a veracidade das afirmações neles contidos. Como exemplo do que por lá se lè , transcrevemos : Quartzo verde é a pedra da energia e protege a saúde;Olho de Tigre é a pedra da luz e previne o mau olhado;Ametista , acalma a mente ;Quartzo rosa a pedra do amor . É uma lista enorme ! Será verdade ou crendice ? Coloco-me na posição daqueles que afirmam: Não acredito em bruxas, mas que as há,...há!. Se no início do século XX alguém dissesse que as casas totalmente de granito possuíam uma "atmosfera maléfica " (radão) e necessitavam de bom arrejamento chamar-lhe-iam crendeiro ,supersticioso ou charlatão. e no entanto é verdade! Deixo-vos com uma afirmação de Jean Rostand : NÃO TENHO VERDADES, APENAS CONVICÇÕES.

2.9.09

ABELARDO o filósofo poeta

Pedro foi o seu nome de baptismo a que mais tarde acrescentou o de Abelardo , de habelardus que quer dizer abelha, em homenagem ao historiador grego Xenofonte a quem chamavam de abelha ática. O jovem Pedro nasceu, em 1079, na localidade de Le Pallet, próximo de Nantes , na Bretanha. Por ser filho primogénito de um cavaleiro ao serviço do duque da Bretanha , aprendeu artes militares pois estava destinado a vir a ser o senhor da sua aldeia . A sua vida, no entanto, tomou um rumo diferente pois, naquela época , a Europa vivia em paz e em desenvolvimento económico e demográfico. A prosperidade material e o renascimento cultural que se viviam no final do século XI, levaram o jovem Pedro a descobrir que os livros o atraíam mais que as armas e a política , tendo-se dedicado a estudar filosofia. Aos dezassete anos muda-se para Loches, na França central, onde Roscelino Compiégne ensinava filosofia . Em breve enfrentava dialécticamente este mestre, derrotando-o em debate , ao rebater as teorias nominalistas sobre a Trindade. Dois anos mais tarde (1098) vai para Paris onde assiste às aulas de Guilherme Champeaux, afamado filósofo e dialéctico. Também aqui o jovem Pedro enfrenta o mestre Guilherme e leva este a admitir que o seu discípulo lhe é muito superior em argumentação . Em 1102 completa o trivium que era o estudo da gramática , retórica e dialéctica , ficando assim habilitado a ensinar em colégios menores Entretanto volta a Le Pallet por motivos de doença e aí continua a ler os clássicos gregos e latinos. Seis anos depois volta a Paris para estudar aritmética, astronomia , geometria e música que constituíam o quadrivium. Obtém assim o grau de mestre que lhe permite ensinar na universidade de Paris, o que vem a acontecer em 1114, com imensos alunos estrangeiros a assistir ás suas aulas e onde chegou a ser reitor. Tudo muda por volta de 1115. Naquele tempo os homens casados não podiam ser professores pois se dizia que o casamento retirava tempo ao estudo e à reflexão. Abelardo, com 35 anos ,continuava solteiro mas conhecera uma jovem de 15 anos , Heloísa, sobrinha de Fulbert o poderoso cónego de Paris . Como as mulheres não podiam frequentar as escolas e a jovem tinha rara inteligência, Abelardo prontificou-se a dar-lhe aulas particulares em casa do tio , onde foi convidado a hospedar-se. Desta aproximação veio um louco amor que viria a ser fatal. Quando Heloísa apareceu grávida de Abelardo ,o tio Fulbert ficou fulo pois tinha consentido nas aulas mas estando a pupila acompanhada de uma criada. Heloísa foge para casa da irmã de Abelardo, em Le Pallet, onde dá à luz um filho a que deram o nome de Astrolábio. Para não prejudicar a carreira académica de Abelardo, e Heloísa deixar de ser mãe solteira, o tio Fulbert faz-lhes um casamento secreto em Notre Dame. Fulbert que aceitara este estratagema , desconfiou contudo de uma posterior proposta de Abelardo para que Heloísa se refugiasse num convento, pensando que seria esta ideia uma maneira de Abelardo repudiar a sobrinha. Resolve então vingar-se pagando a sicários para castrar Abelardo, o que veio a acontecer. Pelas leis da época um castrado já não podia dar aulas e , por tal motivo, Abelardo deixa o ensino na universidade de Paris e refugia-se na escola-mosteiro de St.Denis , acabando por aí morrer em 1121.Durante muitos anos o casal viu-se algumas vezes mas sem se falar. Cada um em seu convento , trocavam cartas amorosas das quais transcrevemos duas , as mais conhecidas:
Abelardo para Heloísa Fujo para longe de ti , evitando-te como a um inimigo, mas incessantemente te procuro em meu pensamento. Trago tua imagem em minha memória e assim me traio e contradigo,eu te odeio, eu te amo. De Heloisa para Abelardo : É certo que quanto maior é a causa da dor , maior se faz a necessidade de para ela encontrar consolo, e este ninguém me pode dar, além de ti . Tu és a causa da minha pena e só tu me podes proporcionar conforto. Só tu tens o poder de me entristecer,de me fazer feliz ou trazer consolo. Quando Abelardo faleceu Heloísa, então superiora do convento de Argentauil, mandou erigir um mausoléu de estilo gótico para o marido, deixando ordens escritas de que quando ela falecesse fosse enterrada junto dele . È desse monumento que apresentamos as fotos seguintes:

No aspecto filosófico destacamos de Abelardo o seguinte : reformulou o conceitualismo, posição intermédia entre o idealismo e o materialismo. O idealismo nega a realidade individual das coisas distintas do "eu " e só delas admite a ideia , enquanto o materialismo reduz tudo , incluindo a alma, à unidade da matéria . O Conceitualismo defende que o universal existe nas próprias coisas e que, separado delas, não é uma realidade em si própria como queriam os realistas , nem uma simples palavra como queriam os nominalistas , mas um conceito do espírito. As obras de Abelardo abrangiam três áreas:lógica, teologia e ética . No seu primeiro e mais famoso livro SIC ET NON já demontrava uma personalidade polémica pois as questões filosóficas e teológicas nele contidas levaram a diversos pontos de vista entre os académicos. O seu escrito mais polémico intitulava-se Dialéctica , mas teve outros como : Glosas literais, Lógica nostrorum, Logica ingredientibus , Theologia summi boni , além de uma autobiografia Historia calamitatum ou História das minhas desventuras onde conta os amores e as desgraças do seu casamento com Heloísa. Nas cartas que escreve á sua amada surge o Abelardo professor e o Abelardo homem, carregado de dúvidas e de paixões, estimulado por um desejo de busca que põe a razão ( a dialética ) como instrumento chave da formação humana.Esta história de amor de Heloísa e Abelardo foi recriada, séculos mais tarde, com "Romeu e Julieta" para já não falar de Pedro e Inês no nosso país, cujo amor é recordado em Coimbra na velha Quinta das Lágrimas e na moderníssima e bela ponte pedonal sobre o Mondego.

1.9.09

DIVAGANDO

Sentado num banco de jardim, ao cair da tarde de um dia soalheiro de Agosto, escutava, mas sem prestar atenção, o meu antigo companheiro da escola que recordava coisas de há muitos anos . A certa altura o meu espírito reteve esta frase: "....actualmente esta malta nova é muito ignorante; não sabe nada de nada e só fala de futebol e telenovelas ..." Deixei de ouvir o velho companheiro e o meu pensamento voou para os tempos do liceu e para algumas das coisas que por lá aprendera. Recordei Euclides que , 3.000 anos antes de Cristo , elaborara os princípios gerais da geometria plana que se mantiveram inalterados até ao século XIX. Esfumou-se o Euclides e revi Pitágoras, o autor do célebre teorema do triângulo rectângulo que ninguém refuta . Olhei o sol que se punha por detrás das altas serras circundantes e de novo o meu pensamento foi cair no passado longínquo, em Aristarco que, muitos séculos antes de Copérnico, afirmara ser a Terra que girava em torno do Sol. Voltei a cair na realidade quando escutei o meu colega a dizer :...."este eczema até parece bruxedo, pois ora aparece ora desaparece ." Pois pois , bruxedo! respondi eu, pensando em Hipócrates que com o seu saber fez os Gregos deixarem de culpar os deuses pelas suas dores. Quando o meu pensamento já voava para Arquimedes, o tal que dizia que se lhe dessem um ponto de apoio levantava o mundo, o mesmo que calculara o valor de Pi e as bases do cálculo integral, oiço o meu colega a resmungar: ..." não estás a escutar nada do que eu digo. Estás na lua como os filósofos !" Na lua como os filósofos ? - pergunto eu agastado - Achas que o nosso professor de filosofia, o Martins de Carvalho, era lunático ? Pelo contrário, sempre nos ensinou a sermos racionalistas. -Está bem, desculpa-se o meu amigo, eu estava apenas a filosofar.
O meu ego interroga-se : a filosofar....o que é que ele quer dizer com isto ? Filosofar é uma operação que ajuda a elucidar as interpretações da realidade ; será que ele queria dizer estar numa de filosofice ? ; estará ele a ser filosofante ou filomático? Filógino eu sei que ele é e que também estudou filogenia. De repente dei-me conta que o meu amigo tinha razão : a malta nova não sabe nada ! Se eu disser a um jovem universitário que ele não precisa de ser filosofante (no sentido pejorativo) nem filomático, para ser filógino , será que ele entende as pequenas nuances das palavras que contêm conceitos tão diversos ? Penso que não, e se forem os nossos governantes a serem inquiridos , irão pedir a um assessor jurídico para verificar se há matéria para me incriminar.

28.8.09

FUSÃO NUCLEAR e a crise energética


Sempre que há um problema económico a nível mundial, com o consequente aumento de preço dos combustíveis fósseis ( petróleo e carvão), levantam-se as vozes dos defensores das energias renováveis como solução para o problema do excesso de CO2 na atmosfera e o efeito de estufa. Se é certo que se está a evoluir no aproveitamento das energias renováveis como a eólica, a geotérmica e a solar, a energia assim obtida é ainda uma ínfima parte da necessária a um mundo em crescente industrialização. Infelizmente, tem-se verificado que a construção de grandes barragens hidroeléctricas provocam graves problemas ambientais pelo que também não será esta a solução do problema energético. Alguns defendem que o futuro da humanidade está na energia solar, no fundo, a origem dessa mesma humanidade. Se esta opção parece sensata nos países ditos ensolarados , há ainda muitos problemas a resolver, como o da tecnologia de armazenamento dessa energia em zonas pouco soalheiras. Surgem então os defensores da energia nuclear , já que um desenvolvimento realmente sustentável da energia solar ainda não existe nos nossos dias . Se é certo que as centrais nucleares actuais que funcionam por fissão nuclear,isto é, quebra de núcleos de átomos pesados, como o urânio, geram muita energia e não libertam gases de efeito de estufa , têm como factores negativos o risco de acidentes como o de Chernobyl, na Ucrânia , e a produção de lixo radioactivo difícil de armazenar. Os defensores do nuclear dizem que muito mais energia pode ser obtida pelo processo oposto, isto é, pela fusão nuclear em que núcleos de átomos leves se reunem para dar átomos mais pesados , libertando muita energia , como acontece nas estrêlas. A matéria prima a usar poderia ser o Lítium , muito abundante no nosso planeta, só que ainda não se conseguiram construir reactores de fusão eficientes e baratos.O que impede a sua construção é apenas isto : para ocorrer fusão nuclear é necessária uma temperatura muito elevada da ordem dos 10 milhões de graus centígrados como acontece no Sol. Este astro é uma imensa bola de Hidrogénio e a sua enorme temperatura permite a fusão de átomos de hidrogénio originando átomos mais pesados, os isótopos deutério e trítio que , ao fundirem-se entre si, produzem Hélio e uma enorme quantidade de energia. Na Terra, o hidrogénio poderia ser obtido a partir da água do mar a baixo preço. O rendimento energético seria alto e o lixo resultante bem menos perigoso que o da fissão , pois haveria apenas o trítio como nuclídeo radioactivo. Não esqueçamos que na fissão, o urânio usado, para além de finito, produz Plutónio nos reactores ditos "reprodutores" e este novo elemento é excelente para o fabrico de bombas atómicas. Quem já não ouviu falar do receio de que os reactores nucleares energéticos do Irão e Coreia do Norte estejam também a produzir plutónio com fins militares? Estes reactores usam urânio 235 ou 233 como material físsel , água como como fluído de troca de calor, grafite como moderador da reacção diminuindo a velocidade dos neutrões e barras de cádmio ou boro como controlo, já que estas substâncias absorvem os neutrões.

O esquema acima mostra que um átomo de Urânio 235 ao ser bombardeado por neutrões ,quebra em átomos de Bário e Cripton, com libertação de mais neutrões e muita energia. Voltemos á fusão: se este processo necessita de muita energia térmica para se iniciar ( milhões de graus ) ele não é possível ? É , e já foi usado militarmente com a bomba de hidrogénio. Em laboratório, existem já reactores de fusão nuclear, classificados em dois tipos consoante a tecnologia :os de confinamento magnético e os de confinamento inercial. Estas estratégias são ditadas pelo facto de as temperaturas envolvidas para o arranque da fusão serem tão altas que nenhum material as pode aguentar, pois volatilizaria. A estratégia de confinamento magnético baseia-se em manter um plasma , onde se dará a reacção nuclear, sempre afastado das paredes do reactor por intermédio de fortes campos magnéticos ; o plasma manter-se-à em constante movimento em torno do eixo do toro da câmara . Este tipo de reactor denomina-se TOKAMAK ,sigla da frase grega câmara toroidal em enrolamentos magnéticos e é o mais promissor para aplicação comercial. Já a estratégia de um reactor de confinação inercial é a de colocar uma enorme concentração de energia num pequeno ponto do combustível nuclear por forma a provocar a ignição , sem que os elementos da reacção toquem as paredes do reactor. Vários tokamak foram já construídos na Europa,USA, Rússia e Japão mas a energia libertada é quase igual á fornecida, excepção feita ao reactor japonês que, em 1998, obteve um cociente de 1 para 1,25. Se o problema da fusão reside na colossal quantidade de energia necessária para o arranque, os cientistas estão a pensar na possibilidade da fusão a frio, isto é, fusão que ocorresse em condições de baixa temperatura, em vez dos milhões de graus exigidos nos tokamak . O primeiro relato de uma fusão a frio foi dado, em 1989, por Martin Fleichman e Stanley Pons da universidade de Utah. Se bem que a comunidade científica tivesse duvidado do facto, outros cientistas observaram , em experiências posteriores, o aparecimento de excesso de calor, de trítio e de hélio e mutações nucleares. Em Março deste ano de 2009, cientistas de um laboratório da marinha dos USA comunicaram resultados promissores de fusão nuclear a frio. Pamela Mosier-Boss do SPAWAR afirmou :" de acordo com o nosso conhecimento, é a primeira vez que neutrões de alta energia são produzidos a partir de reacções nucleares com energia fraca; se há fusão devem observar-se neutrões e foi o que aconteceu, a não ser que esses neutrões se devam a outra espécie de reacção nuclear desconhecida ". Steven Krivit que acompanha há vinte anos as actividades de pesquisa de fusão a frio , considera importantes os trabalhos de Pamela e que se os neutrões observados não são resultado de uma fusão a frio e sim de um processo nuclear desconhecido, este deve ser investigado pois se situa entre a física e a química. Esperemos para ver .

17.8.09

ARQUITECTURA GRANDIOSA

Os templos de colunas gigantescas e as pirâmides no antigo Egipto testemunham um conhecimento perfeito da arquitectura grandiosa realizada com ferramentas mais que rudimentares , há cinco mil anos . Tudo começava com estacas cravadas no chão ás quais se ligavam cordas que materializavam ,no terreno, a orientação e as dimensões do monumento a construir. De seguida, entravam em acção os operários que abriam as fundações com enxadas de madeira , sendo a terra e pedras transportadas em cestas de vime entrançado, como se pode ver na foto abaixo de uma pintura mural que representa esse trabalho.Tudo era pensado por forma a optimizar o trabalho no estaleiro : um canal de navegação a partir do rio Nilo e um cais de acostagem eram abertos para, através deles, os materiais chegarem mais rapidamente à obra. O estaleiro tinha zonas distintas de trabalho como locais de armazenamento dos blocos de pedra, outros de aparelhamento dessa pedra e ainda outros para fabrico de tijolos , argamassa ,etc. Desta forma todas as distintas equipas podiam trabalhar no estaleiro sem se estorvar umas às outras e esta metodologia e organização, optimizadas ao máximo,contrariavam o fraco rendimento das rudimentares ferramentas. A alguma distância do estaleiro outros operários trabalhavam na pedreira usando rudimentares percutores em pedra (diorito ou pegmatito) , alguns deles com um cabo de madeira acoplado por forma a obter uma picareta ou uma enxó.Por vezes usavam um cinzel de cobre já que o ferro só foi usado mais tarde. Uma vez aparelhados os blocos de pedra eram transportados em trenós de madeira puxados à corda por dezenas de operários . Não eram usados troncos de árvores como rolos para deslocar melhor os trenós , porque estas eram raras na zona . Para facilitar o deslizamento eram utilizadas misturas de água e lodo do rio Nilo, em concentrações perfeitas consoante a hora do dia e a evaporação, pois água a mais ,ou a menos, poderia comprometer o deslocamento. Se é verdade que as pedreiras se situavam perto do estaleiro, o calcário de Thurah e o granito
de Assuão vinham em barcaças pelo Nilo. Abertas as fundações ,os blocos trazidos das pedreiras eram assentes , em duas ou três camadas, sobre areia ou argamassa de estuque o que permitia que esses blocos deslizassem até à posição correta. Além disso, a areia melhorava a repartição de cargas evitando fissuras nesses blocos. Uma vez completadas as fundações procediam à colocação das lajes do pavimento do edifício formando assim uma grande plataforma horizontal. Nesta eram marcadas a escopro o contorno das paredes, o local das portas e das colunas. Para a elevação das paredes um estaleiro duplo era montado; de um lado da parede, uma equipa de operários instalava os pesados blocos de pedra enquanto, do outro lado, uma segunda equipa se afadigava a construir rampas inclinadas de cascalho com suporte lateral em tijolo. Quando uma rampa ficava pronta faziam uma troca: a equipa da rampa passava para o outro lado da parede para fazer nova rampa enquanto os assentadores das pesadas pedras construiam a parede do lado contrário. Trabalhando ora de um lado ora do outro as paredes iam sendo elevadas obrigando a rampas cada vez mais compridas pois a inclinação das mesmas não podia variar por causa dos trenós.


Fácil será assim perceber porque as rampas eram destruídas e reconstruídas vezes sem conta. Á medida que as paredes iam sendo concluídas começavam a ser erguidas as colunas com pedras aparelhadas e também transportadas em trenó pelas rampas. Como as pedras das colunas nem sempre encaixavam na perfeição eram utilizados os tijolos das paredes das rampas para colmatar essas imperfeições. Finalmente as paredes e colunas eram revestidas de estuque onde se aplicavam as pinturas e decorações. Os decoradores trabalhavam sobre andaimes de bambu como ilustramos a seguir.

Templos e palácios ricamente mobilados e decorados eram possíveis devido ao aprovisionamento feito no estaleiro já que os reis tinham o monopólio sobre a exploração dos recursos. Desta forma o deserto era passado a pente fino para encontrar a pedra com a qualidade requerida e outras expedições eram enviadas além fronteiras na busca de madeiras nobres ou exóticas. Desta forma ,calcário, grés e granito eram materiais de construção; basalto, quartzito ,travertino, gesso, granodiorito, grauvaque, andesite ,serpentina serviam para fabricar objectos de luxo; turqueza, ametista e lápis-lazuli, ouro e prata serviam para adornos tudo em nome da religião pois o faraó era um deus e fazia a ligação entre os homens e as centenas de divindades.

9.8.09

TELEVISÃO resumo histórico

Há quem diga que os antecedentes da televisão terão sido a fotografia e o cinema mas outros afirmam que terá sido a rádio ao popularizar a transmissão á distância da voz e da música por meio de ondas electromagnéticas. Se a voz e a música eram transmitidas, por que não tentar a imagem fixa e depois a movimentada? A televisão não surgiu facilmente e teve de socorrer-se de outros inventos que estavam a desenvolver-se no fim do século XIX e que passo a citar: em 1884 , o alemão Paul Nipkow, com 24 anos de idade, inventa e regista a patente de um disco com orifícios em espiral,distanciados igualmente entre si e que, ao rodar velozmente , decompunha em vários pontos claros e escuros uma imagem bastante iluminada. O somatório desses pontos refazia a imagem.

Aproveitando a propriedade do Selénio de variar a sua condutibilidade eléctrica consoante a intensidade luminosa a que é submetido , ao decompor-se uma imagem em pontos claros e escuros , estes corresponderiam a emissões e pausas de corrente eléctrica contínua.Estes seriam transmitidos á distância por meio de um cabo condutor e aí a imagem observável por um processo inverso. As primeiras transmissões de imagem devem-se ,no entanto, ao inglês John L. Baird que achava ser possível transmitir ,através de ondas electromagnéticas , os sinais eléctricos de um disco de Nipkow; em 1924 só transmitia contornos de objectos a 3 metros de distância mas, um ano depois, já eram fisionomias de pessoas . Em 1926 Baird assina um contracto com a BBC para transmissões experimentais entre Glasgow e Londres. O padrão de definição da imagem era de apenas 30 linhas usando o sistema mecãnico de Nipkow . Voltemos no entanto aos inventos do início do século XX que ajudaram a desenvolver a televisão: Boris Rosing desenvolve um sistema de televisão por rios catódicos ; segue-se, em 1923, a invenção do iconoscópio por Vladimir Zworykin que seria a base para as futuras câmaras de imagem Se Philo Earsworth patenteou, em 1927, um sistema analisador de imagem por raios catódicos foi, no entanto, Zworykin que ,ao serviço da RCA, produziu o primeiro tubo de televisão denominado ORTICON , industrializado a partir de 1945. Com máquinas rudimentares de captação de imagens já em Maio de 1935 a Alemanha inicia as emissões regulares com a França a fazer o mesmo em Novembro. A BBC inicia-as em 1936 mas com uma definição de imagem de 405 linhas. Na URSS as emissões têm início em 1938 e nos USA em 1939 , usando a definição de 340 linhas e trinta quadros por segundo. Excluindo a Alemanha, todos estes países interromperam emissões em 1939, devido á segunda guerra mundial. Paris voltou a emitir em Outubro de1944 e Moscovo em Dezembro de 1945 para transmitir o desfile da victória . Em síntese ,a televisão é constituída por uma câmara que capta a imagem, decompondo-a em sinais eléctricos que são enviados a um centro electrónico, o modulador, onde estes sinais são misturados com as ondas de um oscilador. Estas ondas hertzianas moduladas são amplificadas em potência e levadas à antena que as irradia . Estas ondas são recebidas por uma antena do receptor, onde são desmoduladas e o sinal resultante enviado para um écran de raios catódicos onde a imagem é refeita aproveitando o facto de o olho humano as reter durante uma fracção de segundo e não se aperceber que ela é composta por sucessivas linhas de pontos claros e escuros. O dispositivo electrónico utiliza os pontinhos ao longo das linhas conseguindo desenhar o frame (imagem) inteiro a cada 1/25 do segundo,isto na Europa, onde a frequência da corrente eléctrica é de 50 ciclos por segundo. Como as ondas hertzianas da TV se propagam em linha recta é necessário que as antenas emissora e receptora estejam em linha de vista uma da outra, daí o grande número de antenas repetidoras do sinal e sempre colocadas em locais muito altos. Hoje com o avanço da técnica algumas dessas antenas repetidoras estão em satélites geoestacionários, o que aconteceu pela primeira vez em 23 de Julho de 1962.(a foto mostra um dos primeiros televisores a preto e branco)Temos estado a referir à televisão a preto e branco mas que se passou com a cor? As primeiras experiências datam de 1929 quando Hebert Ives conseguiu enviar por fio, imagens coloridas com 50 linhas a 18 frames por segundo ,mas só se pode falar de televisão a cores quando os USA começam a emitir em 1954. Vários sistemas foram criados , mas todos iam de encontro a uma forte barreira : se um sistema novo surgisse, que fazer dos aparelhos antigos a preto e branco que já eram cerca de 10 milhões no início dos anos 50? Foi então criada uma comissão para colocar a cor no sistema preto e branco. Essa comissão, National Television Standards Committee , acabou por dar o nome ao sistema escolhido NTSC. O sistema desenvolvido baseava-se em utilizar o padrão a preto e branco que trabalhava com níveis de luminância (Y) a que se acrescentaram a cromância (C),ou seja a cor.O princípio de captar e receber imagens coloridas baseia-se na decomposição da luz branca em três cores primárias que são o vermelho (R ) (red=vermelho), o verde(G) (green) e o azul (B) blue ,numa proporção de nivel de 30% de vermelho,59% de verde e 11% de azul, emitidas estas cores em separado e em simultânio Na recepção o processo é inverso: a imagem é composta pelo somatório das cores, ou seja dos pontos de cor da tela do televisor. Se observarmos de perto um écran de um televisor a cores veremos que é constituído por minúsculos pontinhos verdes azuis e vermelhos que serão activados pelos sinais R.S e G emitidos.Os nossos olhos e cérebro misturam as tres imagens emitidas e parece-nos só uma a cores. Em 1967 , entra em funcionamentovna Alemanha uma variação do sistema americano a que se deu o nome de PAL e que é usado em Portugal em emissão analógica e frequências de VHF e UHF. No mesmo ano em França entra o sistema SECAM que no entanto não era compatível com o velho sistema a preto e branco. Até agora temos estado a referir a televisão de ondas hertzianas analógicas , como as da rádio em onda média ou curta , mas tal como a rádio evoluiu para emissões digitais em RDS também a televisão o está a fazer. O que recebemos através do cabo é TV digital! Esta usa um processo de modulação e compressão digital para enviar imagem de alta qualidade e som, bem como outras informações , simultaneamente numa única frequência . Para ter uma ideia da evolução televisiva diremos em resumo : a televisão iniciou-se com 30 linhas de imagem, passou a 240 e actualmente tem 480 e 525. A televisão digital chega a 1080 linhas. No que se refere ao formato de imagem passou-se de 4:3 para o 16:9 próximo do tipo panorâmico. Quanto ao som começou com o mono, passou ao estéreo de dois canais (esquerdo e direito) para actualmente ter seis canais .A televisão digital possibilita a sintonia do sinal sem fantasmas nem interferências , além da possibilidade de armazenar programas para os ver mais tarde ou um programa desde o início mesmo que ele já esteja a meio. Se até agora isto estará disponível a curto prazo para as emissões por cabo vem aí a TDT (televisão digital terrestre) em que o sinal que agora só temos por cabo virá por ondas hertzianas ,como agora chega o analógico. Portugal desligará totalmente o sinal analógico em 2012, passando só ao TDT, havendo a possibilidade de captar essas emissões nos antigos televisores desde que lhes sejam acoplados caixas descodificadoras.

26.7.09

CASTELO DE PENEDONO

Este castelo roqueiro é uma soberba obra de arte com torres bem lançadas numa base de penedos encavalitados e construído mais como residência do que como fortaleza aproveitando, no entanto, as fundações e silharias de anteriores fortificações. Não se sabe ao certo a data do nascimento do povoado onde se insere ,nem a origem do nome , possivelmente islamita , pois a única documentação conhecida data do sec X. Um documento redigido e firmado no ano 960 aponta para o facto deste castelo ter sido mandado restaurar por Rodrigo Teodoniz que o deixou, por testamento, a sua filha Chamoa tendo esta, mais tarde, doado este e outro castelo à ordem religiosa fundada por sua tia materna Mumadona . Passa-se isto no período da reconquista cristã da Península Ibérica , com as fronteiras sempre a variar , vilas e povoados perdidos e reconquistados, arrasamentos , destruições , batalhas e mortes, numa lenta progressão para sul dos cristãos . Desta forma, o castelo mudou de mãos várias vezes até a reconquista final pelo rei de Leão , Fernando Magno. D. Sancho I de Portugal, o rei povoador, para além de incentivar a fixação de gentes manda restaurar os castelos de Numão,Penedono,Longroiva , Marialva, Trancoso, Pinhel, Guarda e outros, para manter o Reino de Portugal independente dos de Leão e Castela., principalmente deste último. A vila de Penedono gozou os privilégios das cartas forais de D. Sancho I, em 1195, e de D. Afonso II em 1217. A guerra da independência entre Portugal e Castela , provocada pela morte de D. Fernando , já que a sua filha D: Beatriz era casada com o Rei de Castela , leva a que o alcaide do castelo,Gonçalo Vasques Coutinho, combata ao lado do Mestre de Avis pela causa de D. João I como rei de Portugal.

A planta do castelo é triangular com lados recurvados para fora.Na parede sul elevam-se dois finos torreões com ameias ressaltadas funcionando como reforços da porta principal. Esta, por sua vez, é encimada por um arco que liga as duas torres. Na parte traseira do castelo ,dois outros fortes torreões completam este conjunto. De modestas dimensões o seu interior é rico em sinais de pavimentos, amplas janelas quadradas com bancos laterais em cantaria e uma cisterna elevada .



Arquivo do blogue