7.10.09

CIDADES MEDIEVAIS

Se tivéssemos a possibilidade de assistir ao nascimento e crescimento de uma cidade medieval veríamos o seguinte: um grupo de pessoas que se fixa num local e cria um pequeno casario para, pouco depois ,instalar uma pequena igreja na zona central. À medida que a população cresce, o número de casas aumenta, e em torno do núcleo original começam a instalar-se mercadores e artesãos que se agrupam de acordo com a sua religião, proveniência ou profissão ( ferreiros ,carniceiros, curtidores, oleiros,arneiros, alfaiates,etc) Junto a estes bairros surge o largo do mercado e, a partir do século XIII, os conventos e suas igrejas. Se uma igreja se transforma em catedral, temos uma cidade e o incremento rápido de outras construções como sejam: a casa do bispo, a residência de religiosos, o hospital, as escolas,os fontanários . o pelourinho e a forca ,e um espaço aberto para celebrações. Na época medieval cidades e vilas não se distinguiam pelo tamanho,apenas pela existência de catedral. As cidades tinham catedral e eram, por isso, sede de bispado. Cada bispo administrava uma província sentado numa cadeira ou cátedra e a igreja onde estava essa cadeira denominava-se catedral. Era uma organização territorial que vinha dos tempos da ocupação romana. No século IV, quando surgem as invasões bárbaras , as pessoas deixam os grandes aglomerados populacionais e instalam-se em pequenos núcleos campesinos. No entanto as sedes de bispado mantiveram-se habitadas e rodearam-se de fortes muralhas para resistir aos ataques inimigos.À medida que o tempo passava o reduzido espaço dentro das muralhas levava a que as casas se aproximassem umas das outras , as ruas se estreitassem e as pedras dos edifícios antigos fossem usadas na elevação das muralhas. A estrutura romana de ruas largas e cruzando-se em ângulo recto dera origem, por falta de espaço, á estrutura medieval que tentaremos descrever a seguir. A cidade medieval cheirava a fumo de lenha, a carne e peixe. a pão e guisados, a vinho, a dejectos, tintas e curtumes, a serradura e ervas aromáticas. As ruas, de terra e lama, tinham as casas tão próximas com os andares superiores mais largos que, em alguns locais , mal entrava o sol. A maior parte do ruído provinha da zona do mercado com os gritos dos comerciantes , a conversa das pessoas , o alvoroço de patos e galinhas e o mugir do gado. Este tipo de cidade manteve-se nos séculos XI e XII crescendo sempre em torno da catedral românica.



A partir do século seguinte tomam peso na sociedade os artesãos e os comerciantes , formando-se novos agregados populacionais fora das muralhas e com eles a construção de novas catedrais. Estas agora crescem em altura e enchem-se de luz e cor através de grandes janelas e espectaculares vitrais . Estas catedrais góticas continuam a ser o centro da cidade e a competir com os palácios e edifícios públicos.


Já que estamos a falar de catedrais góticas , algumas demorando três séculos a construir, elas nem sempre foram lugares de paz e silêncio. Durante o dia eram animadas por gentes que ali pernoitavam, pelos que a atravessavam para encurtar o caminho, ou pelos que dentro das suas paredes comerciavam de tudo .As paredes laterais estavam ocupadas por capelas que eram espaços privados e fechados, de gente rica que ali queria ser sepultada.Também nas naves laterais se instalavam escolas . O que ficava exclusivamente para o culto era o altar e o coro ,com o espaço que os unia, cor respondendo ao cruzeiro, fechado por paredes . Nos espaços abertos das naves podia-se circular livremente , normalmente não cumprindo as normas que o cabido tentava impor. Numa dessas normas que chegaram até aos nossos dias , constava a proibição de realizar representações teatrais cómicas ou contendo frases de duplo sentido, canções lascivas ,etc, pois a casa de Deus fora feita para orar e não para escarnecer. Ricos e pobres ,autoridades locais , nobres e reis , participavam na construção das catedrais , uns com mão de obra ,outros com dádivas. Quase sempre os mecenas desejavam ser recordados e ,por isso, faziam-se representar nos vitrais, nos afrescos , nos relevos e , como já referimos, nas capelas funerárias com estátuas jacentes. Algumas cidades medievais chegaram aos nossos dias quase intactas e são hoje lugares turísticos com vida própria.

26.9.09

SANTA CLARA -A-VELHA

O convento que foi fundado em 1283, pela abadessa D. Mor Dias, na margem esquerda do rio Mondego, frente á antiga cidade de Coimbra e entregue a uma comunidade de freiras clarissas, teve uma edificação de volumetria modesta. Durou pouco tempo esta comunidade de freiras pois um longo litígio com os frades crúzios de Coimbra levou-a à extinção .em 1311.. Em 1314, D.Isabel de Aragão (Raínha Santa) casada com o Rei D. Dinis, solicitou ao Papa autorização para, naquele local, construir um mosteiro onde desejava vir a ser sepultada. As obras começarem no ano seguinte sob a orientação do arquitecto Domingos Domingues, o mesmo do mosteiro de Alcobaça. A arquitectura era um misto de romanico e gótico, com predominância deste último. Possuia uma planta de três naves de altura semelhante , sem transepto e com as naves divididas em sete tramas ; a cobertura das naves era inteiramente de pedra .(ver foto abaixo de João Gomes Mota)A iluminação era realizada por duas rosáceas, uma em cada topo da nave central, e por janelas duplas nas paredes laterais. Posteriormente foi acrescentado á igreja um claustro e uma sala capitular , além de outras dependências. A igreja foi sagrada em 1330, mas o local da sua implantação fora uma má escolha por ser terreno de aluvião. Logo em 1331 , uma cheia do rio Mondego invadiu o recinto, tendo começado o lento afundamento do edifício devido ao próprio peso. Para compensar este afundamento um novo plano de chão foi construído a meia altura da igreja , o que obrigou à elevação das naves primitivas. Muito embora ao longo dos séculos que se seguiram se tenham feito trabalhos de drengem e conservação, o mosteiro e a igreja foram abandonados em 29 de Outubro de 1677. As freiras , o espólio e o corpo incorrupto da Raínha Santa foram transferidos para um novo mosteiro,no cimo do monte da Esperança, a actual igreja de Santa Clara-a-Nova. Com este abandono , o antigo edifício este foi-se enterrando cada vez mais e assim permaneceu durante séculos, com água até meia altura como se pode observar na foto de J.G. Mota.
Em 1991 começaram as obras de recuperação e resgate , obras que só terminaram neste ano de 2009 , com um custo de 7,5 milhões de euros , mas que permite vê-lo hoje em toda a sua beleza arquitectónica.Embora a base do mosteiro esteja a uma cota muito inferior à do rio, uma grande ensecadeira e um sistema de bombagem para retirar a água que se acumule por escorrência , é possível visitá-lo na totalidade, bem como a um moderno centro de interpretação deste legado histórico onde se expõem artefactos de há três séculos, encontrados durante os trabalhos de recuperação. Nas paredes exteriores ( fotografias acima) é visível a marca do nível das águas antes dessa recuperação.As fotos que se seguem mostram o segundo piso que foi construído, em 1333 ,por cima das colunas primitivas e que era suposto solucionarem o problema das cheias.A fotografia acima ,de Pascale Van Landuyt, mostra que parte do referido 2º piso abateu com o andar dos séculos.Em 1954 , o aspecto de Santa Clara -a-Velha era como está documentado pela objectiva de Mário Novais.Actualmente está como se segue podendo-se verificar a diferença.O antigo túmulo da Raínha Santa , foi obra de mestre Pero ,executada em meados do século XIV .No coro baixo da Igreja de Santa Clara -a- Nova, está o velho túmulo, bem como os retábulos maneiristas do antigo convento se encontram nas paredes laterais da nova igreja. Quanto ao corpo incorrupto da Raínha Santa foi transladado , em 3 de Julho de 1696, para um túmulo de prata colocado sobre o altar mor, por vontade do povo da cidade de Coimbra que o custeou na íntegra e elegeu esta Santa como padroeira da cidade.

A foto acima é do túmulo primitivo da Raínha Santa .Feito em estilo gótico,é da autoria de mestre Pero . Uma visita a todo o conjunto, incluíndo a parte museológica, demora cerca de 1 hora e meia , de terça feira a domingo no horário seguinte :Maio a Setembro das 10,00 h às 19.00 h ; Outubro a Abril 10h00 às 17h00 . Entrada gratuíta aos Domingos e feriados até às 14h00.Facilidade de estacionamento automóvel.

24.9.09

LISBOA arqueológica

Que Lisboa é uma cidade muito antiga todos o afirmam; mas muito poucos saberão que, por baixo das ruas e prédios da baixa pombalina, estão vestígios arqueológicos das sucessivas ocupações da cidade por cartagineses , romanos , mouros e portugueses do período anterior ao terramoto de1775.

Os diferentes cataclismos como os incêndios, invasões , maremotos, terramotos e também inundações que, ciclicamente, se abateram sobre a cidade e a posterior acção humana de reconstrução e adaptação do que ficou, deixaram um registo pouco claro, direi mesmo confuso ,dessa ocupação. Esses achados encontram-se na zona do Carmo e também na Baixa Pombalina , podendo ser visitados graças a mecenas como é o caso do Banco Comercial Português. Nas caves da sede deste Banco ( no nº 9 da rua dos Correeiros) existe um núcleo arqueológico que vai desde o ano 700 antes de Cristo até ao terramoto de 1775, passando pelos períodos romano e islâmico . Logo à entrada,um pavimento em vidro,sustentado por estrutura metálica, deixa ver as grandes lages de calcário do que foi uma via romana que se dirigia para o rio e para a zona de salga de peixe. Numa sala, diversas montras guardam ânforas, cântaros,taças, potes, pratos ,tigelas , escudelas, frigideiras ,bilhas ,panelas , púcaros e moedas dos períodos atrás citados.

Mais além, outro piso de vidro permite observar restos de muros anteriores ao terramoto de 1755 que foram postos a descoberto pelas escavações arqueológicas patrocinadas pelo BCP. Descendo para as caves , podem observar-se as bases rectangulares de pedra e argila das casas fenícias , com o local onde acendiam o fogo para cozinhar limitado por seixos rolados . Ao lado destas casas surgem vestígios romanos , numa mistura de solos e épocas causada pelos cataclismos e reconstruções já referidos. Estes vestígios romanos são cetárias ,isto é, tanques de salga de peixe que foram construídos sobre as estruturas fenícias , mais antigas. Noutra sala alinham-se cinco tanques de salga e onde se observam vasos romanos que serviam para preparar iguarias à base de peixe moído, marisco, sal e ervas aromáticas. A zona de salga deveria ser muito grande pois se estende até à actual Rua Augusta . Como se tudo isto não fosse já um riquíssimo espólio arqueológico, podemos ainda observar um conjunto de três piscinas romanas para os banhos quentes,frios e tépidos.As piscinas dão para um átrio central onde é visível um grande mosaico de figuras geométricas, possivelmente do sec.III da nossa era. Por cima deste mosaico assentam silos árabes e um forno de ferro do período reconstrução pombalina, esta amálgama resultante das sucessivas reconstruções. Deixando as caves do BCP , podemos encontrar mais cetárias romanas na Casa Napoleão ( nº 70 da rua dos Fanqueiros) e na célebre Casa dos Bicos Nesta última podemos ainda ver partes da muralha mourisca da cidade e um pavimento árabe de tijoleira em espinha. Também na rua da Prata , com entrada por um alçapão entre os carris do carro eléctrico, se pode visitar, uma vez por ano,devido ás dificuldades de acesso, galerias do período romano e cuja função é ainda hoje discutida pelos especialistas . Deste último caso mostramos as fotos seguintes.






Esta curta resenha mostra-nos uma Lisboa ainda desconhecida para a maioria dos Lisboetas e de certeza haverá muito mais a desvendar noutros pontos da cidade de Ulisses.

15.9.09

O PODER DAS PEDRAS

Confesso que, como geólogo, me sinto atraído pelas redes moleculares dos cristais das pedras preciosas e semipreciosas que fui obrigado a estudar em disciplina ministrada pelo já falecido professor doutor José Custódio de Morais. Nada me leva a negar que, como elementos da natureza, os cristais não possuam capacidades energéticas que possam vir a ser utilizadas a nosso favor. Basta pensar no quartzo, cujos átomos podem oscilar numa dada frequência , certa e precisa, quando excitados por uma fraca corrente eléctrica. Se assim não fosse e não teríamos os modernos e vulgares relógios que usamos. Correndo o risco de aparecer por aí um qualquer "zé ferino" a duvidar de tudo o que está para além da sua imediata e sensorial percepção do mundo, tentarei desenvolver o tema proposto. Recordo para já que há rochas a emitir energia e esta, embora não sentida pelo homem, existe, como foi comprovado já no início do século XX. É o caso do radão, gás radioactivo libertado pelos granitos e que, sendo prejudicial ao homem, é considerado uma " energia negativa". Será com um espírito de total abertura a fenómenos ora inexplicáveis que pesquisarei sobre o asunto nas fontes disponíveis .
Desde sempre o Homem se sentiu atraído por locais onde se faziam sentir energias cósmicas e poderes mágicos , bastando para o corroborar, a leitura dos relatos , em todas as épocas e culturas, de factos neles ocorridos. Esses locais foram considerados sagrados ou mágicos e neles se construíram templos e monumentos. O professor Jorg Purner, da universidade de Innsbruck, verificou que esses locais exercem uma forte acção sobre as varas dos radioestesistas , provando haver alí correntes energéticas de origem geológica, embora ainda não descodificadas na sua essência.Também não podemos esquecer que a nossa saúde e até os nossos sentimentos são influenciados por energias. Ninguém hoje põe em dúvida a influência sobre a saúde do campo magnético das linhas de muito alta tensão, das antenas dos telemóveis e das lâmpadas de baixo consumo ; também está provado que a duração da luminosidade solar altera o biorrítmo dos humanos e de outros seres vivos. Já não se duvida que o tempo meteorológico age sobre a psico de certos indivíduos. Se estas energias são hoje conhecidas e estudadas, por que duvidar da existência de outras ,ainda não detectadas laboratorialmente e vindas dos minerais? Haverá na Terra zonas de grandes concentrações de magnetite que criem um campo magnético próprio, susceptível de influenciar o comportamento humano ? As suas linhas de força estender-se-ão como e até onde? James Lovelock (1919-?), ecologista britânico e autor da teoria da Geia , diz-nos que as fotografias tiradas pelos astronautas mostram este planeta como uma ilha de vida , um superorganismo ,vestido de azul ,capaz de regular os seus processos metabólicos tendo, como complemento á sua estrutura e formas visíveis, um padrão invisível de distribuição de energia. Será este padrão invisível de distribuição de energias gerado pelos cristais das rochas? Não o posso afirmar ,nem o posso negar. Se nos tempos primitivos os cristais eram usados como ferramentas de cura, hoje também participam nessas curas enquanto componentes vitais da tecnologia médica. É difícil acreditar o quanto os cristais influenciam a nossa vida; sem eles não teríamos computadores , modernos equipamentos de comunicação ou a cirurgia laser. Se os cristais desempenharam papel importante na antiga arte médica , continuaram a fazê-lo nos nossos dias sob os aspectos já referidos. Graças aos cristais o milagre da alquimia foi possível; mais de 1500 rádio isótopos foram sintetizados, por acção de partículas atómicas aceleradas sobre os cristais. No entanto,não precisamos de ter um acelerador de partículas para mostrar as propriedades energéticas dos cristais ; se batermos com um martelo na extremidade de um macro cristal de quartzo veremos , em plena escuridão, aparecer uma pequena faísca no outro extremo do referido cristal. Magia ? Hoje diremos que não. O que aconteceu foi apenas isto: a energia cinética da pancada foi alterada, pelo cristal, em energia eléctrica. Outro exemplo: se aproximarmos um cristal de turmalina da chama de uma vela , veremos que o cristal atrai a chama e depois a repele. Hoje sabe-se que o fenómeno é devido ás cargas eléctricas que se formam á superfície do cristal mas, no passado, era "magia". E os fenómenos piezo eléctricos dos cristais ,hoje utilizados no dia a dia , não são uma maravilha e mistério da natureza? De tudo isto fica claro que a principal característica dos cristais será a transformação de energia , pois a que sai deles é diferente da que entrou. Será que eles podem transformar energias físicas em biológicas e vice-verso ou, dito de outra maneira: será que as propriedades dos cristais se aplicam em níveis mais subtis da mente, como os nossos antepassados acreditavam ? Muitos cientistas modernos pensam que sim , embora os efeitos, ditos espirituais, não possam ser medidos mecânicamente , apenas sentidos pelos utilizadores crentes . Chegado a este ponto ,deixo para os curiosos e crentes a pesquisa de numerosos "sites" sobre os poderes mágicos das pedras sem que, com esta atitude, esteja a defender a veracidade das afirmações neles contidos. Como exemplo do que por lá se lè , transcrevemos : Quartzo verde é a pedra da energia e protege a saúde;Olho de Tigre é a pedra da luz e previne o mau olhado;Ametista , acalma a mente ;Quartzo rosa a pedra do amor . É uma lista enorme ! Será verdade ou crendice ? Coloco-me na posição daqueles que afirmam: Não acredito em bruxas, mas que as há,...há!. Se no início do século XX alguém dissesse que as casas totalmente de granito possuíam uma "atmosfera maléfica " (radão) e necessitavam de bom arrejamento chamar-lhe-iam crendeiro ,supersticioso ou charlatão. e no entanto é verdade! Deixo-vos com uma afirmação de Jean Rostand : NÃO TENHO VERDADES, APENAS CONVICÇÕES.

2.9.09

ABELARDO o filósofo poeta

Pedro foi o seu nome de baptismo a que mais tarde acrescentou o de Abelardo , de habelardus que quer dizer abelha, em homenagem ao historiador grego Xenofonte a quem chamavam de abelha ática. O jovem Pedro nasceu, em 1079, na localidade de Le Pallet, próximo de Nantes , na Bretanha. Por ser filho primogénito de um cavaleiro ao serviço do duque da Bretanha , aprendeu artes militares pois estava destinado a vir a ser o senhor da sua aldeia . A sua vida, no entanto, tomou um rumo diferente pois, naquela época , a Europa vivia em paz e em desenvolvimento económico e demográfico. A prosperidade material e o renascimento cultural que se viviam no final do século XI, levaram o jovem Pedro a descobrir que os livros o atraíam mais que as armas e a política , tendo-se dedicado a estudar filosofia. Aos dezassete anos muda-se para Loches, na França central, onde Roscelino Compiégne ensinava filosofia . Em breve enfrentava dialécticamente este mestre, derrotando-o em debate , ao rebater as teorias nominalistas sobre a Trindade. Dois anos mais tarde (1098) vai para Paris onde assiste às aulas de Guilherme Champeaux, afamado filósofo e dialéctico. Também aqui o jovem Pedro enfrenta o mestre Guilherme e leva este a admitir que o seu discípulo lhe é muito superior em argumentação . Em 1102 completa o trivium que era o estudo da gramática , retórica e dialéctica , ficando assim habilitado a ensinar em colégios menores Entretanto volta a Le Pallet por motivos de doença e aí continua a ler os clássicos gregos e latinos. Seis anos depois volta a Paris para estudar aritmética, astronomia , geometria e música que constituíam o quadrivium. Obtém assim o grau de mestre que lhe permite ensinar na universidade de Paris, o que vem a acontecer em 1114, com imensos alunos estrangeiros a assistir ás suas aulas e onde chegou a ser reitor. Tudo muda por volta de 1115. Naquele tempo os homens casados não podiam ser professores pois se dizia que o casamento retirava tempo ao estudo e à reflexão. Abelardo, com 35 anos ,continuava solteiro mas conhecera uma jovem de 15 anos , Heloísa, sobrinha de Fulbert o poderoso cónego de Paris . Como as mulheres não podiam frequentar as escolas e a jovem tinha rara inteligência, Abelardo prontificou-se a dar-lhe aulas particulares em casa do tio , onde foi convidado a hospedar-se. Desta aproximação veio um louco amor que viria a ser fatal. Quando Heloísa apareceu grávida de Abelardo ,o tio Fulbert ficou fulo pois tinha consentido nas aulas mas estando a pupila acompanhada de uma criada. Heloísa foge para casa da irmã de Abelardo, em Le Pallet, onde dá à luz um filho a que deram o nome de Astrolábio. Para não prejudicar a carreira académica de Abelardo, e Heloísa deixar de ser mãe solteira, o tio Fulbert faz-lhes um casamento secreto em Notre Dame. Fulbert que aceitara este estratagema , desconfiou contudo de uma posterior proposta de Abelardo para que Heloísa se refugiasse num convento, pensando que seria esta ideia uma maneira de Abelardo repudiar a sobrinha. Resolve então vingar-se pagando a sicários para castrar Abelardo, o que veio a acontecer. Pelas leis da época um castrado já não podia dar aulas e , por tal motivo, Abelardo deixa o ensino na universidade de Paris e refugia-se na escola-mosteiro de St.Denis , acabando por aí morrer em 1121.Durante muitos anos o casal viu-se algumas vezes mas sem se falar. Cada um em seu convento , trocavam cartas amorosas das quais transcrevemos duas , as mais conhecidas:
Abelardo para Heloísa Fujo para longe de ti , evitando-te como a um inimigo, mas incessantemente te procuro em meu pensamento. Trago tua imagem em minha memória e assim me traio e contradigo,eu te odeio, eu te amo. De Heloisa para Abelardo : É certo que quanto maior é a causa da dor , maior se faz a necessidade de para ela encontrar consolo, e este ninguém me pode dar, além de ti . Tu és a causa da minha pena e só tu me podes proporcionar conforto. Só tu tens o poder de me entristecer,de me fazer feliz ou trazer consolo. Quando Abelardo faleceu Heloísa, então superiora do convento de Argentauil, mandou erigir um mausoléu de estilo gótico para o marido, deixando ordens escritas de que quando ela falecesse fosse enterrada junto dele . È desse monumento que apresentamos as fotos seguintes:

No aspecto filosófico destacamos de Abelardo o seguinte : reformulou o conceitualismo, posição intermédia entre o idealismo e o materialismo. O idealismo nega a realidade individual das coisas distintas do "eu " e só delas admite a ideia , enquanto o materialismo reduz tudo , incluindo a alma, à unidade da matéria . O Conceitualismo defende que o universal existe nas próprias coisas e que, separado delas, não é uma realidade em si própria como queriam os realistas , nem uma simples palavra como queriam os nominalistas , mas um conceito do espírito. As obras de Abelardo abrangiam três áreas:lógica, teologia e ética . No seu primeiro e mais famoso livro SIC ET NON já demontrava uma personalidade polémica pois as questões filosóficas e teológicas nele contidas levaram a diversos pontos de vista entre os académicos. O seu escrito mais polémico intitulava-se Dialéctica , mas teve outros como : Glosas literais, Lógica nostrorum, Logica ingredientibus , Theologia summi boni , além de uma autobiografia Historia calamitatum ou História das minhas desventuras onde conta os amores e as desgraças do seu casamento com Heloísa. Nas cartas que escreve á sua amada surge o Abelardo professor e o Abelardo homem, carregado de dúvidas e de paixões, estimulado por um desejo de busca que põe a razão ( a dialética ) como instrumento chave da formação humana.Esta história de amor de Heloísa e Abelardo foi recriada, séculos mais tarde, com "Romeu e Julieta" para já não falar de Pedro e Inês no nosso país, cujo amor é recordado em Coimbra na velha Quinta das Lágrimas e na moderníssima e bela ponte pedonal sobre o Mondego.

1.9.09

DIVAGANDO

Sentado num banco de jardim, ao cair da tarde de um dia soalheiro de Agosto, escutava, mas sem prestar atenção, o meu antigo companheiro da escola que recordava coisas de há muitos anos . A certa altura o meu espírito reteve esta frase: "....actualmente esta malta nova é muito ignorante; não sabe nada de nada e só fala de futebol e telenovelas ..." Deixei de ouvir o velho companheiro e o meu pensamento voou para os tempos do liceu e para algumas das coisas que por lá aprendera. Recordei Euclides que , 3.000 anos antes de Cristo , elaborara os princípios gerais da geometria plana que se mantiveram inalterados até ao século XIX. Esfumou-se o Euclides e revi Pitágoras, o autor do célebre teorema do triângulo rectângulo que ninguém refuta . Olhei o sol que se punha por detrás das altas serras circundantes e de novo o meu pensamento foi cair no passado longínquo, em Aristarco que, muitos séculos antes de Copérnico, afirmara ser a Terra que girava em torno do Sol. Voltei a cair na realidade quando escutei o meu colega a dizer :...."este eczema até parece bruxedo, pois ora aparece ora desaparece ." Pois pois , bruxedo! respondi eu, pensando em Hipócrates que com o seu saber fez os Gregos deixarem de culpar os deuses pelas suas dores. Quando o meu pensamento já voava para Arquimedes, o tal que dizia que se lhe dessem um ponto de apoio levantava o mundo, o mesmo que calculara o valor de Pi e as bases do cálculo integral, oiço o meu colega a resmungar: ..." não estás a escutar nada do que eu digo. Estás na lua como os filósofos !" Na lua como os filósofos ? - pergunto eu agastado - Achas que o nosso professor de filosofia, o Martins de Carvalho, era lunático ? Pelo contrário, sempre nos ensinou a sermos racionalistas. -Está bem, desculpa-se o meu amigo, eu estava apenas a filosofar.
O meu ego interroga-se : a filosofar....o que é que ele quer dizer com isto ? Filosofar é uma operação que ajuda a elucidar as interpretações da realidade ; será que ele queria dizer estar numa de filosofice ? ; estará ele a ser filosofante ou filomático? Filógino eu sei que ele é e que também estudou filogenia. De repente dei-me conta que o meu amigo tinha razão : a malta nova não sabe nada ! Se eu disser a um jovem universitário que ele não precisa de ser filosofante (no sentido pejorativo) nem filomático, para ser filógino , será que ele entende as pequenas nuances das palavras que contêm conceitos tão diversos ? Penso que não, e se forem os nossos governantes a serem inquiridos , irão pedir a um assessor jurídico para verificar se há matéria para me incriminar.

28.8.09

FUSÃO NUCLEAR e a crise energética


Sempre que há um problema económico a nível mundial, com o consequente aumento de preço dos combustíveis fósseis ( petróleo e carvão), levantam-se as vozes dos defensores das energias renováveis como solução para o problema do excesso de CO2 na atmosfera e o efeito de estufa. Se é certo que se está a evoluir no aproveitamento das energias renováveis como a eólica, a geotérmica e a solar, a energia assim obtida é ainda uma ínfima parte da necessária a um mundo em crescente industrialização. Infelizmente, tem-se verificado que a construção de grandes barragens hidroeléctricas provocam graves problemas ambientais pelo que também não será esta a solução do problema energético. Alguns defendem que o futuro da humanidade está na energia solar, no fundo, a origem dessa mesma humanidade. Se esta opção parece sensata nos países ditos ensolarados , há ainda muitos problemas a resolver, como o da tecnologia de armazenamento dessa energia em zonas pouco soalheiras. Surgem então os defensores da energia nuclear , já que um desenvolvimento realmente sustentável da energia solar ainda não existe nos nossos dias . Se é certo que as centrais nucleares actuais que funcionam por fissão nuclear,isto é, quebra de núcleos de átomos pesados, como o urânio, geram muita energia e não libertam gases de efeito de estufa , têm como factores negativos o risco de acidentes como o de Chernobyl, na Ucrânia , e a produção de lixo radioactivo difícil de armazenar. Os defensores do nuclear dizem que muito mais energia pode ser obtida pelo processo oposto, isto é, pela fusão nuclear em que núcleos de átomos leves se reunem para dar átomos mais pesados , libertando muita energia , como acontece nas estrêlas. A matéria prima a usar poderia ser o Lítium , muito abundante no nosso planeta, só que ainda não se conseguiram construir reactores de fusão eficientes e baratos.O que impede a sua construção é apenas isto : para ocorrer fusão nuclear é necessária uma temperatura muito elevada da ordem dos 10 milhões de graus centígrados como acontece no Sol. Este astro é uma imensa bola de Hidrogénio e a sua enorme temperatura permite a fusão de átomos de hidrogénio originando átomos mais pesados, os isótopos deutério e trítio que , ao fundirem-se entre si, produzem Hélio e uma enorme quantidade de energia. Na Terra, o hidrogénio poderia ser obtido a partir da água do mar a baixo preço. O rendimento energético seria alto e o lixo resultante bem menos perigoso que o da fissão , pois haveria apenas o trítio como nuclídeo radioactivo. Não esqueçamos que na fissão, o urânio usado, para além de finito, produz Plutónio nos reactores ditos "reprodutores" e este novo elemento é excelente para o fabrico de bombas atómicas. Quem já não ouviu falar do receio de que os reactores nucleares energéticos do Irão e Coreia do Norte estejam também a produzir plutónio com fins militares? Estes reactores usam urânio 235 ou 233 como material físsel , água como como fluído de troca de calor, grafite como moderador da reacção diminuindo a velocidade dos neutrões e barras de cádmio ou boro como controlo, já que estas substâncias absorvem os neutrões.

O esquema acima mostra que um átomo de Urânio 235 ao ser bombardeado por neutrões ,quebra em átomos de Bário e Cripton, com libertação de mais neutrões e muita energia. Voltemos á fusão: se este processo necessita de muita energia térmica para se iniciar ( milhões de graus ) ele não é possível ? É , e já foi usado militarmente com a bomba de hidrogénio. Em laboratório, existem já reactores de fusão nuclear, classificados em dois tipos consoante a tecnologia :os de confinamento magnético e os de confinamento inercial. Estas estratégias são ditadas pelo facto de as temperaturas envolvidas para o arranque da fusão serem tão altas que nenhum material as pode aguentar, pois volatilizaria. A estratégia de confinamento magnético baseia-se em manter um plasma , onde se dará a reacção nuclear, sempre afastado das paredes do reactor por intermédio de fortes campos magnéticos ; o plasma manter-se-à em constante movimento em torno do eixo do toro da câmara . Este tipo de reactor denomina-se TOKAMAK ,sigla da frase grega câmara toroidal em enrolamentos magnéticos e é o mais promissor para aplicação comercial. Já a estratégia de um reactor de confinação inercial é a de colocar uma enorme concentração de energia num pequeno ponto do combustível nuclear por forma a provocar a ignição , sem que os elementos da reacção toquem as paredes do reactor. Vários tokamak foram já construídos na Europa,USA, Rússia e Japão mas a energia libertada é quase igual á fornecida, excepção feita ao reactor japonês que, em 1998, obteve um cociente de 1 para 1,25. Se o problema da fusão reside na colossal quantidade de energia necessária para o arranque, os cientistas estão a pensar na possibilidade da fusão a frio, isto é, fusão que ocorresse em condições de baixa temperatura, em vez dos milhões de graus exigidos nos tokamak . O primeiro relato de uma fusão a frio foi dado, em 1989, por Martin Fleichman e Stanley Pons da universidade de Utah. Se bem que a comunidade científica tivesse duvidado do facto, outros cientistas observaram , em experiências posteriores, o aparecimento de excesso de calor, de trítio e de hélio e mutações nucleares. Em Março deste ano de 2009, cientistas de um laboratório da marinha dos USA comunicaram resultados promissores de fusão nuclear a frio. Pamela Mosier-Boss do SPAWAR afirmou :" de acordo com o nosso conhecimento, é a primeira vez que neutrões de alta energia são produzidos a partir de reacções nucleares com energia fraca; se há fusão devem observar-se neutrões e foi o que aconteceu, a não ser que esses neutrões se devam a outra espécie de reacção nuclear desconhecida ". Steven Krivit que acompanha há vinte anos as actividades de pesquisa de fusão a frio , considera importantes os trabalhos de Pamela e que se os neutrões observados não são resultado de uma fusão a frio e sim de um processo nuclear desconhecido, este deve ser investigado pois se situa entre a física e a química. Esperemos para ver .

17.8.09

ARQUITECTURA GRANDIOSA

Os templos de colunas gigantescas e as pirâmides no antigo Egipto testemunham um conhecimento perfeito da arquitectura grandiosa realizada com ferramentas mais que rudimentares , há cinco mil anos . Tudo começava com estacas cravadas no chão ás quais se ligavam cordas que materializavam ,no terreno, a orientação e as dimensões do monumento a construir. De seguida, entravam em acção os operários que abriam as fundações com enxadas de madeira , sendo a terra e pedras transportadas em cestas de vime entrançado, como se pode ver na foto abaixo de uma pintura mural que representa esse trabalho.Tudo era pensado por forma a optimizar o trabalho no estaleiro : um canal de navegação a partir do rio Nilo e um cais de acostagem eram abertos para, através deles, os materiais chegarem mais rapidamente à obra. O estaleiro tinha zonas distintas de trabalho como locais de armazenamento dos blocos de pedra, outros de aparelhamento dessa pedra e ainda outros para fabrico de tijolos , argamassa ,etc. Desta forma todas as distintas equipas podiam trabalhar no estaleiro sem se estorvar umas às outras e esta metodologia e organização, optimizadas ao máximo,contrariavam o fraco rendimento das rudimentares ferramentas. A alguma distância do estaleiro outros operários trabalhavam na pedreira usando rudimentares percutores em pedra (diorito ou pegmatito) , alguns deles com um cabo de madeira acoplado por forma a obter uma picareta ou uma enxó.Por vezes usavam um cinzel de cobre já que o ferro só foi usado mais tarde. Uma vez aparelhados os blocos de pedra eram transportados em trenós de madeira puxados à corda por dezenas de operários . Não eram usados troncos de árvores como rolos para deslocar melhor os trenós , porque estas eram raras na zona . Para facilitar o deslizamento eram utilizadas misturas de água e lodo do rio Nilo, em concentrações perfeitas consoante a hora do dia e a evaporação, pois água a mais ,ou a menos, poderia comprometer o deslocamento. Se é verdade que as pedreiras se situavam perto do estaleiro, o calcário de Thurah e o granito
de Assuão vinham em barcaças pelo Nilo. Abertas as fundações ,os blocos trazidos das pedreiras eram assentes , em duas ou três camadas, sobre areia ou argamassa de estuque o que permitia que esses blocos deslizassem até à posição correta. Além disso, a areia melhorava a repartição de cargas evitando fissuras nesses blocos. Uma vez completadas as fundações procediam à colocação das lajes do pavimento do edifício formando assim uma grande plataforma horizontal. Nesta eram marcadas a escopro o contorno das paredes, o local das portas e das colunas. Para a elevação das paredes um estaleiro duplo era montado; de um lado da parede, uma equipa de operários instalava os pesados blocos de pedra enquanto, do outro lado, uma segunda equipa se afadigava a construir rampas inclinadas de cascalho com suporte lateral em tijolo. Quando uma rampa ficava pronta faziam uma troca: a equipa da rampa passava para o outro lado da parede para fazer nova rampa enquanto os assentadores das pesadas pedras construiam a parede do lado contrário. Trabalhando ora de um lado ora do outro as paredes iam sendo elevadas obrigando a rampas cada vez mais compridas pois a inclinação das mesmas não podia variar por causa dos trenós.


Fácil será assim perceber porque as rampas eram destruídas e reconstruídas vezes sem conta. Á medida que as paredes iam sendo concluídas começavam a ser erguidas as colunas com pedras aparelhadas e também transportadas em trenó pelas rampas. Como as pedras das colunas nem sempre encaixavam na perfeição eram utilizados os tijolos das paredes das rampas para colmatar essas imperfeições. Finalmente as paredes e colunas eram revestidas de estuque onde se aplicavam as pinturas e decorações. Os decoradores trabalhavam sobre andaimes de bambu como ilustramos a seguir.

Templos e palácios ricamente mobilados e decorados eram possíveis devido ao aprovisionamento feito no estaleiro já que os reis tinham o monopólio sobre a exploração dos recursos. Desta forma o deserto era passado a pente fino para encontrar a pedra com a qualidade requerida e outras expedições eram enviadas além fronteiras na busca de madeiras nobres ou exóticas. Desta forma ,calcário, grés e granito eram materiais de construção; basalto, quartzito ,travertino, gesso, granodiorito, grauvaque, andesite ,serpentina serviam para fabricar objectos de luxo; turqueza, ametista e lápis-lazuli, ouro e prata serviam para adornos tudo em nome da religião pois o faraó era um deus e fazia a ligação entre os homens e as centenas de divindades.

9.8.09

TELEVISÃO resumo histórico

Há quem diga que os antecedentes da televisão terão sido a fotografia e o cinema mas outros afirmam que terá sido a rádio ao popularizar a transmissão á distância da voz e da música por meio de ondas electromagnéticas. Se a voz e a música eram transmitidas, por que não tentar a imagem fixa e depois a movimentada? A televisão não surgiu facilmente e teve de socorrer-se de outros inventos que estavam a desenvolver-se no fim do século XIX e que passo a citar: em 1884 , o alemão Paul Nipkow, com 24 anos de idade, inventa e regista a patente de um disco com orifícios em espiral,distanciados igualmente entre si e que, ao rodar velozmente , decompunha em vários pontos claros e escuros uma imagem bastante iluminada. O somatório desses pontos refazia a imagem.

Aproveitando a propriedade do Selénio de variar a sua condutibilidade eléctrica consoante a intensidade luminosa a que é submetido , ao decompor-se uma imagem em pontos claros e escuros , estes corresponderiam a emissões e pausas de corrente eléctrica contínua.Estes seriam transmitidos á distância por meio de um cabo condutor e aí a imagem observável por um processo inverso. As primeiras transmissões de imagem devem-se ,no entanto, ao inglês John L. Baird que achava ser possível transmitir ,através de ondas electromagnéticas , os sinais eléctricos de um disco de Nipkow; em 1924 só transmitia contornos de objectos a 3 metros de distância mas, um ano depois, já eram fisionomias de pessoas . Em 1926 Baird assina um contracto com a BBC para transmissões experimentais entre Glasgow e Londres. O padrão de definição da imagem era de apenas 30 linhas usando o sistema mecãnico de Nipkow . Voltemos no entanto aos inventos do início do século XX que ajudaram a desenvolver a televisão: Boris Rosing desenvolve um sistema de televisão por rios catódicos ; segue-se, em 1923, a invenção do iconoscópio por Vladimir Zworykin que seria a base para as futuras câmaras de imagem Se Philo Earsworth patenteou, em 1927, um sistema analisador de imagem por raios catódicos foi, no entanto, Zworykin que ,ao serviço da RCA, produziu o primeiro tubo de televisão denominado ORTICON , industrializado a partir de 1945. Com máquinas rudimentares de captação de imagens já em Maio de 1935 a Alemanha inicia as emissões regulares com a França a fazer o mesmo em Novembro. A BBC inicia-as em 1936 mas com uma definição de imagem de 405 linhas. Na URSS as emissões têm início em 1938 e nos USA em 1939 , usando a definição de 340 linhas e trinta quadros por segundo. Excluindo a Alemanha, todos estes países interromperam emissões em 1939, devido á segunda guerra mundial. Paris voltou a emitir em Outubro de1944 e Moscovo em Dezembro de 1945 para transmitir o desfile da victória . Em síntese ,a televisão é constituída por uma câmara que capta a imagem, decompondo-a em sinais eléctricos que são enviados a um centro electrónico, o modulador, onde estes sinais são misturados com as ondas de um oscilador. Estas ondas hertzianas moduladas são amplificadas em potência e levadas à antena que as irradia . Estas ondas são recebidas por uma antena do receptor, onde são desmoduladas e o sinal resultante enviado para um écran de raios catódicos onde a imagem é refeita aproveitando o facto de o olho humano as reter durante uma fracção de segundo e não se aperceber que ela é composta por sucessivas linhas de pontos claros e escuros. O dispositivo electrónico utiliza os pontinhos ao longo das linhas conseguindo desenhar o frame (imagem) inteiro a cada 1/25 do segundo,isto na Europa, onde a frequência da corrente eléctrica é de 50 ciclos por segundo. Como as ondas hertzianas da TV se propagam em linha recta é necessário que as antenas emissora e receptora estejam em linha de vista uma da outra, daí o grande número de antenas repetidoras do sinal e sempre colocadas em locais muito altos. Hoje com o avanço da técnica algumas dessas antenas repetidoras estão em satélites geoestacionários, o que aconteceu pela primeira vez em 23 de Julho de 1962.(a foto mostra um dos primeiros televisores a preto e branco)Temos estado a referir à televisão a preto e branco mas que se passou com a cor? As primeiras experiências datam de 1929 quando Hebert Ives conseguiu enviar por fio, imagens coloridas com 50 linhas a 18 frames por segundo ,mas só se pode falar de televisão a cores quando os USA começam a emitir em 1954. Vários sistemas foram criados , mas todos iam de encontro a uma forte barreira : se um sistema novo surgisse, que fazer dos aparelhos antigos a preto e branco que já eram cerca de 10 milhões no início dos anos 50? Foi então criada uma comissão para colocar a cor no sistema preto e branco. Essa comissão, National Television Standards Committee , acabou por dar o nome ao sistema escolhido NTSC. O sistema desenvolvido baseava-se em utilizar o padrão a preto e branco que trabalhava com níveis de luminância (Y) a que se acrescentaram a cromância (C),ou seja a cor.O princípio de captar e receber imagens coloridas baseia-se na decomposição da luz branca em três cores primárias que são o vermelho (R ) (red=vermelho), o verde(G) (green) e o azul (B) blue ,numa proporção de nivel de 30% de vermelho,59% de verde e 11% de azul, emitidas estas cores em separado e em simultânio Na recepção o processo é inverso: a imagem é composta pelo somatório das cores, ou seja dos pontos de cor da tela do televisor. Se observarmos de perto um écran de um televisor a cores veremos que é constituído por minúsculos pontinhos verdes azuis e vermelhos que serão activados pelos sinais R.S e G emitidos.Os nossos olhos e cérebro misturam as tres imagens emitidas e parece-nos só uma a cores. Em 1967 , entra em funcionamentovna Alemanha uma variação do sistema americano a que se deu o nome de PAL e que é usado em Portugal em emissão analógica e frequências de VHF e UHF. No mesmo ano em França entra o sistema SECAM que no entanto não era compatível com o velho sistema a preto e branco. Até agora temos estado a referir a televisão de ondas hertzianas analógicas , como as da rádio em onda média ou curta , mas tal como a rádio evoluiu para emissões digitais em RDS também a televisão o está a fazer. O que recebemos através do cabo é TV digital! Esta usa um processo de modulação e compressão digital para enviar imagem de alta qualidade e som, bem como outras informações , simultaneamente numa única frequência . Para ter uma ideia da evolução televisiva diremos em resumo : a televisão iniciou-se com 30 linhas de imagem, passou a 240 e actualmente tem 480 e 525. A televisão digital chega a 1080 linhas. No que se refere ao formato de imagem passou-se de 4:3 para o 16:9 próximo do tipo panorâmico. Quanto ao som começou com o mono, passou ao estéreo de dois canais (esquerdo e direito) para actualmente ter seis canais .A televisão digital possibilita a sintonia do sinal sem fantasmas nem interferências , além da possibilidade de armazenar programas para os ver mais tarde ou um programa desde o início mesmo que ele já esteja a meio. Se até agora isto estará disponível a curto prazo para as emissões por cabo vem aí a TDT (televisão digital terrestre) em que o sinal que agora só temos por cabo virá por ondas hertzianas ,como agora chega o analógico. Portugal desligará totalmente o sinal analógico em 2012, passando só ao TDT, havendo a possibilidade de captar essas emissões nos antigos televisores desde que lhes sejam acoplados caixas descodificadoras.

26.7.09

CASTELO DE PENEDONO

Este castelo roqueiro é uma soberba obra de arte com torres bem lançadas numa base de penedos encavalitados e construído mais como residência do que como fortaleza aproveitando, no entanto, as fundações e silharias de anteriores fortificações. Não se sabe ao certo a data do nascimento do povoado onde se insere ,nem a origem do nome , possivelmente islamita , pois a única documentação conhecida data do sec X. Um documento redigido e firmado no ano 960 aponta para o facto deste castelo ter sido mandado restaurar por Rodrigo Teodoniz que o deixou, por testamento, a sua filha Chamoa tendo esta, mais tarde, doado este e outro castelo à ordem religiosa fundada por sua tia materna Mumadona . Passa-se isto no período da reconquista cristã da Península Ibérica , com as fronteiras sempre a variar , vilas e povoados perdidos e reconquistados, arrasamentos , destruições , batalhas e mortes, numa lenta progressão para sul dos cristãos . Desta forma, o castelo mudou de mãos várias vezes até a reconquista final pelo rei de Leão , Fernando Magno. D. Sancho I de Portugal, o rei povoador, para além de incentivar a fixação de gentes manda restaurar os castelos de Numão,Penedono,Longroiva , Marialva, Trancoso, Pinhel, Guarda e outros, para manter o Reino de Portugal independente dos de Leão e Castela., principalmente deste último. A vila de Penedono gozou os privilégios das cartas forais de D. Sancho I, em 1195, e de D. Afonso II em 1217. A guerra da independência entre Portugal e Castela , provocada pela morte de D. Fernando , já que a sua filha D: Beatriz era casada com o Rei de Castela , leva a que o alcaide do castelo,Gonçalo Vasques Coutinho, combata ao lado do Mestre de Avis pela causa de D. João I como rei de Portugal.

A planta do castelo é triangular com lados recurvados para fora.Na parede sul elevam-se dois finos torreões com ameias ressaltadas funcionando como reforços da porta principal. Esta, por sua vez, é encimada por um arco que liga as duas torres. Na parte traseira do castelo ,dois outros fortes torreões completam este conjunto. De modestas dimensões o seu interior é rico em sinais de pavimentos, amplas janelas quadradas com bancos laterais em cantaria e uma cisterna elevada .



20.7.09

PIRILAMPOS

O pirilampo é um insecto da família coleóptera da qual existem cerca de 2.000 espécies conhecidas . A sua característica mais observável é a bioluminiscência, melhor dizendo, a emissão de luz própria de tipo fosforescente, visível a grande distância na escuridão. É uma luz fria , por oposição á luz quente de uma lâmpada onde há libertação de luz e calor. Numa lâmpada a energia consumida é 1o% luminosa e 90 % calórica, enquanto no pirilampo 99% da energia libertada é luminosa. Esta luz é devida a uma sustância denominada luceferina que, em contacto com o ar ou com a água, produz oxiluceferina e uma luz amarela esverdeada. Alguns cientistas pensam que na espécie primitiva , de onde derivaram todas as outras , só as larvas possuíam esta luminiscência como sinal de aviso para os predadores as não comerem por serem tóxicas. Com a evolução, algumas espécies passaram também a ter esta luminosidade na fase de insecto adulto , na zona inferior do abdómen. De espécie para espécie varia a cor da luminosidade, bem como o fluxo luminoso que pode ser contínuo ou em alternância com pausas de escuridão. A frequência das emissões luminosas também varia com a espécie. Assim os machos voadores da espécie Photinus green mostram clarões duplos a cada 3 segundos , enquanto a espécie Photinus ignius tem os relâmpagos a cada 5 segundos. Também a espécie Pyractomena angulata pisca com uma luminosidade alaranjada diferente da vulgar amarelo esverdeada. Estes diferentes sinais dos machos voadores, alertam as fêmeas poisadas nas ervas para um possível acasalamento, mas estas só respondem se a frequência do sinal luminoso emitido pelo macho corresponder ao padrão da sua espécie. O mais curioso é que uma fêmea pode manter esta "conversa luminosa "com vários machos simultaneamente até se decidir por um que ache seja o melhor para fecundar os seus ovos. Os cientistas ainda não descobriram como as fêmeas fazem essa escolha. Em Portugal o período de acasalamento decorre de Maio a Agosto de acordo com a temperatura e a humidade do ar. O único centro português de estudo dos pirilampos situa-se no Parque Biológico de Gaia .

Terminaremos dizendo que este fenómeno da bioluminiscência não é exclusivo dos pirilampos pois também aparece em algas, crustáceos , mexilhões e peixes. e os japoneses já o introduziram em vertebrados geneticamente modificados.

19.7.09

HISTÓRIA DO RELÓGIO

Desde muito cedo que o Homem teve a necessidade de contar o tempo, primeiro a sequência do dia e da noite , depois a das fases da Lua , talvez a das marés e, mais tarde, a sequência das estações do ano. Terão decorrido 6.000 anos para o Homem se aperceber da passagem das horas . Estas eram contadas com o auxílio da sombra de uma vara , de um obelisco, isto é, de um relógio de sol rudimentar que acabou por evoluir para os que , embora antigos, hoje conhecemos e que mostramos de seguida. Seguiu-se o relógio de água constituído por um vaso cheio com água que se ia escoando devido a um pequeno orifício. Nas paredes do vaso estavam marcados traços indicadores do nível da água e correspondentes á passagem das horas. Este aparelho chamava-se clépsidra e difundiu-se por toda a Europa até ao sec XVI, sendo o mais exacto medidor do tempo na ausência de sol. A clépsidra mais antiga que foi encontrada em KarmaK data do reinado de Amenhotep III. Na China ,o astrónomo Y Hang inventou a clépsidra que mostrava a passagem do tempo através de um ponteiro embora a primasia do invento seja atribuída a Arquimedes. A medição do tempo neste aparelho era feita por intermédio de uma boia que elevava consigo uma barra dentada e esta, por sua vez, movia um ponteiro indicador das horas. Também eram usados as ampulhetas de fina areia e os relógios de fogo, estes sob diversas formas, como velas marcadas que se iam consumindo, ou cordas com nós que iam ardendo. Foram os povos do antigo Egipto e Mesopotâmia que dividiram o dia em 24 horas tendo construído os primeiros obliscos (gnomons) que colocados em locais estratégicos projectavam no terreno uma sombra móvel ao longo do dia, criando desta forma uma espécie de quadrante onde eram lidas as horas. Os relógios mecânicos de pesos surgem só no século XIV, aperfeiçoados depois no sec. XVI com a utilização do pêndulo de Galileu. Do sec XVII ao sec XIX introduziram-se mais melhorias nos mecanismos anteriores por forma a obter maior precisão. O relógio de bolso, como o que a seguir se mostra ,surge no séc XVIII , para no princípio do sec XX aparecer o de pulso e no final do século os de quartzo e os atómicos.Mas voltemos um pouco atrás :a medição mecânica do tempo teve origem nos conventos onde havia necessidade de regular o tempo de oração com o de trabalho. Os primeiros relógios mecânicos não mostravam as horas num quadrante ,limitando-se a tocar uma sineta a espaços regulares. Eram máquinas movidas por pesos e situavam-se na cela do monge guardião do relógio. Quando este monge ouvia a sineta tocar, dirigia-se ao sino da torre e fazia neste os toques para as diferentes orações diárias. Mais tarde, ao fazerem-se relógios maiores, estes foram montados nas torres fazendo soar os sinos, dispensando assim o monge guardião do tempo.Estes mecanismos chegaram a ser movidos por pesos de várias dezenas de quilos , o que obrigava a um enorme esforço físico para os elevar diariamente. Até se chegar ao relógio que mostrava as horas com um ponteiro num quadrante, muito teve que evoluir o relógio de soar. Damos como exemplo o sistema de escape que interrompe regularmente a queda dos pesos , como um interruptor que alternadamente trava e solta a força da máquina. Todavia,se a roda de escape girasse livremente , o peso desceria todo de uma só vez desenrolando toda a "corda" e os ponteiros girariam também muito rapidamente. Foi por isso inventado um regulador constante que cadencia o movimento da roda de escape. Esse regulador é a âncora que ligada a um pêndulo vai libertando, a espaços de tempo precisos, uma roda de escape dentada que, por sua vez, movimenta toda uma engrenagem de rodas dentadas e diferenciais ligados ao ponteiro das horas e ao dos minutos. A aplicação do pêndulo fez reduzir um erro diário de 15 minutos para10 segundos. Mais tarde o mecanismo de pesos foi substituído por uma cinta de aço que tinha a mesma função mas que permitia a redução do tamanho das máquinas , até que se chegou ao relógio de bolso, onde não há pêndulo, ou melhor, há um balanceiro que o substitui e que provoca o conhecido tic-tac.. No relógio de quartzo criado ,em 1928, por dois americanos e que se atrasava apenas um segundo a cada dez anos o seu funcionamento pode ser assim resumido: uma pilha fornece energia eléctrica a um circuito electrónico. Este circuito faz com que um cristal de quartzo, talhado de forma precisa, vibre 32.768 vezes por segundo . O circuito detecta esta vibração e transforma-a numa corrente eléctrica alternada de 1 hertz. ( equivale ao balanceiro mecânico)Esta corrente alimenta um pequeno motor e as rodas dentadas que estão ligadas aos ponteiros. Nas novas versões os ponteiros foram substituídos por algarismos de cristais líquidos. Criado como dissemos , em 1928 , só teve uso generalizado a partir de 1970. No que respeita ao relógio atómico o seu funcionamente é parecido ao anterior utilizando a frequência de oscilação da energia de um átomo. Como um pêndulo de relógio ,o átomo pode ser estimulado externamente por micro-ondas e ondas electromagnéticas, utilizando-se normalmente um isótopo do átomo de um elemento chamado Césio -133. Este tipo de átomo oscila 9.192.631.770 vezes por segundo. Desta forma , o Sistema Internacional de Unidades de Pesos e Medidas equiparou um segundo a 9.192.631.770 ciclos de radiação entre dois niveis de energia de um átomo de Césio133. Claro que alguns relógios atómicos podem usar como oscilação os átomos de Hidrogénio ou os de Rubídio. Considerado como o supra sumo da precisão mesmo assim atrasa um segundo a cada 65.ooo anos , ou seja atrasa 0,0000153 do segundo por ano. O primeiro relógio atómico foi construído nos Estados Unidos em 1949. Portugal também possui um relógio deste tipo no Observatório Nacional da Ajuda , em Lisboa, cuja variação ou êrro permitido é de 0,000.000.001 segundo por dia ou seja um bilionésimo de segundo por cada 24 horas.


( Relógio Atómico digital trabalhando com átomo de césio )

14.7.09

A GUERRA DAS CORRENTES ELECTRICAS

Foi em meados do século XIX que na América se teve a ideia de utilizar a electricidade para substituir a energia do vapor nas fábricas e o gás na iluminação das casas. Em breve surgiria também a dúvida se usar a corrente contínua de Edison ou a corrente alternada de Tesla.

Podemos dizer que a história da electricidade começa muito antes quando, em 1570 , William Gilbert demonstra a existência de forças atractivas e repulsivas do magnetismo e sugere que a Terra é um enorme íman. Stephen Gray, em 1729, consegue transmitir cargas eléctricas através de um condutor e em 1800 , Alexandre Volta inventa a pilha , a primeira fonte de corrente contínua funcional. O dínamo é inventado por Thomas Alva Edison em 1882, pondo em funcionamento a primeira central de distribuição de corrente contínua de Nova York para iluminação das habitações.A ideia de Edison foi bem acolhida pelos norte americanos já que o cientista gozava de certa popularidade devido aos seus anteriores inventos mas em breve começaram a surgir problemas: a energia fluía num só sentido e os cabos muitas vezes derretiam com a passagem da corrente, bem como não era possível transportá-la a mais de 2 kms o que obrigava a montar geradores por toda a cidade. Outro inconveniente resultava do facto da corrente contínua não poder alterar a sua voltagem o que obrigava a montagem de linhas separadas para a iluminação e para a indústria.. Dado os factos apontados, o céu de Nova York parecia uma gigantesca teia de aranha tantos eram os cabos transportadores de energia mas pior que isso era a segurança das pessoas . Durante o ciclone de 1888 os cabos partiram e caíram nas ruas matando mais de 400 pessoas e ateando incêndios.

Entretanto chegara a Nova York um jovem sérvio de nome Nikola Tesla que tinha muitas ideias para melhorar o sistema eléctrico da cidade . Edison aceitou-o como técnico e ofereceu-lhe um prémio de 50.000 dólares se conseguisse melhorar o sistema. mas ,pouco tempo passado , começaram os conflitos pois Edison tinha apenas conhecimentos dados pela experimentação, enquanto Tesla possuía uma sólida formação em matemática, mecânica ,física e engenharia sendo capaz de resolver problemas técnicos sem recorrer ao método experimental , o que irritava Edison. Quando um ano após o seu trabalho Tesla afirmou ter a solução para o transporte da energia Edison não acreditou e até desdenhou da solução recusando o pagamento do prémio. O que Tesla tinha inventado era um sistema de corrente alternada que era transportada em alta voltagem e sem perdas a grandes distâncias e que ,por meio de transformadores ,podia diminuir a voltagem no destino, consoante as necessidades .Zangado com Edison, Tesla demitiu-se passando a trabalhar para Western Union Company que o apoiou economicamente na investigação e construção de um grande alternador. Começa então uma guerra entre os dois sistemas eléctricos que durou uma década e que opunha a General Electric (Edison) á Westinghouse Corporation onde trabalhava Tesla.

Com o intuito de manter o monopólio da distribuição , Edison inicia uma campanha de difamação da corrente alternada cobrindo a cidade de cartazes que advertiam para o perigo da corrente alterna, chegando ao cúmulo de electrocutar em público cavalos e porcos para provar a sua perigosidade. Esta guerra só terminou com a Exposição Universal de Chicago, em 1893, na qual participaram 19 países e contou com 27 milhões de visitantes. Os dois sistemas foram testados, tendo-se concluído que o sistema de Tesla para além de ficar por metade do preço, não necessitava de tantos cabos e conseguia alimentar cem mil lâmpadas incandescentes sem quebra de potência , o que não aconteceu com o de Edison que ao ligar o sistema fez baixar a intensidade luminosa da cidade. Perante tal resultado ,as pessoas passaram a aceitar a corrente alterna e a cidade de Búfalo foi a primeira a ser iluminada por corrente alterna que era produzida a 32 Kms numa central hidroeléctrica das cataratas do Niagara. A corrente contínua não desapareceu por completo das cidades de todo o mundo, onde ainda é usada em transportes colectivos e outras pequenas aplicações específicas , na maioria das vezes a partir da corrente alterna rectificada

2.7.09

ESTILO GÓTICO

A passagem do estilo românico de catedrais sólidas e escuras do século VIII para o estilo gótico de linhas leves e de grande luminosidade, não está ainda bem explicada. Sabe-se que as ideias de arquitectura sólida e desprovida de ornamentos , defendida até então pelas ordens religiosas, foram contrariadas pela Ordem de Cister no início do século XII. Os cistercienses opinavam que as igrejas deveriam ser templos de luz , já que esta estava intimamente ligada com a divindade.O abade de Saints Denis aplicou esta teoria na construção da sua basílica, começando assim o estilo gótico que rapidamente se espalhou por toda a Europa. A casa de Deus, como já referimos, deveria ser o templo de luz e, para tal, era necessário aligeirar as paredes e abrir-lhes janelas com vitrais coloridos o que só era realizável com abóbadas de arcos cruzados, arcosbotantes e arcos em ogiva. Se no início, para este tipo de arquitectura , só os monges tinham os conhecimentos necessários, em breve apareceriam os mestres de obra e os operários especializados como pedreiros, ferreiros, carpinteiros, vidreiros e outros que ,agrupados em diferentes grémios , trabalhavam como uma só equipa . Mas este tema pode ser abordado por outro ângulo : o termo catedral vem do latim cathedra que quer dizer cadeira ou trono de quem ensina, tendo sido depois aplicado ás sedes episcopais ,no tempo de Carlos Magno. Com a morte deste imperador, o poder político fragmenta-se, passando do rei para a nobreza. Esta aumenta a sua força refugiando-se nos seus castelos em detrimento das cidades, não havendo neles espaço para construir catedrais. No sec XII, o crescimento espetacular da agricultura , ensinada pelas ordens de Cluny e Cister, criou excedentes e abriu portas ao comércio e ao renascimento de grandes cidades. Os bispos abandonam os castelos dos senhores feudais que os protegiam e regressam aos núcleos urbanos , onde as catedrais voltam a ter sentido. O financiamento para as novas catedrais pertencia aos bispados que, para além de fundos próprios, contava com o patrocínio dos monarcas , dos donativos dos peregrinos e dos grémios dos operários , no fundo toda a gente contribuía . Para além das funções religiosas, a catedral pretendia ser a casa de todos: as naves laterais serviriam de lugar de reunião, de sala de aula para os estudantes e de dormitório para os peregrinos . O interesse era tanto que as cidades rivalizavam entre si para construir a melhor catedral. .Também os incêndios, saques e guerras que tinham levado á destruição das velhas catedrais eram incentivo á construção de novas igrejas. Mal sabiam porém os operários dos séculos XII e XIII que construiram essas catedrais da Europa Central que, dois ou três séculos depois, a sua obra seria repudiada por uma nova sociedade e os grandes edifícios , pagos pela piedade da gente humilde, ficariam fechados, escuros e silenciosos, inúteis para a prática religiosa. Tal aconteceu com as reformas Luterana e Calvinista que se opunham ao catolicismo e ao culto e veneração de imagens, de relíquias , de procissões, isto é, a qualquer tipo de manifestação externa que impedisse uma religiosidade individual e íntima. Hoje esses templos , nos países de religião protestante , são usados como escolas ou mantidos como monumentos histórico-artísticos para turista visitar. O esquema das catedrais góticas pouco difere do das anteriores ,como se pode ver pela figura ao lado: mantém a forma de cruz com a nave (9), os transeptos (7) e o coro (4). A nave central era circundada por naves laterais (10) e na faixa horizontal dos transeptos encontrava-se o cruzeiro (6). O deambulatório (2) dava acesso ás capelas radiais (1) e servia para procissões interiores dos peregrinos .No fundo da nave situava-se a fachada da entrada ricamente cinzelada (11) Os alicerces destas catedrais tinham oito a nove metros de profundidade e eram constituídos por camadas de pedras ligadas por argamassa á base de areia ,cal e água.. Quanto aos andaimes eram simples pranchas o que constituía perigo de vida para os operários quando as paredes atingiam razoável altura. O telhado era colocado antes da construção das abóbadas e servia de apoio á rudimentar maquinaria de roldanas usada para içar a pedra para essas abóbadas. Com o telhado pronto , as pedras talhadas que formariam as nervuras dos arcos eram colocadas sobre cimbros de madeira e firmadas pelos pedreiros com argamassa. Entre os cimbros eram instaladas tábuas de madeira que serviam de cofragem ás pedras, durante o processo de secagem da argamassa. Quando esta estava seca aplicava-se nova camada de argamassa com 10 cm de espessura, e quando esta também estava seca eram retiradas as madeiras de cofragem e os cimbros (moldes curvos de madeira).
(construção dos alicerces e do telhado como se explicou no texto)
Os arcosbotantes (ver esquema acima) serviam de amparo ás altas e finas paredes da nave da catedral. Terminaremos este curto apontamento com a foto de uma gárgula, que mais não era que uma boca de escoamento de águas pluviais , e ainda a fotografia de uma fachada.

9.6.09

Castelo de ARNOIA

Este castelo roqueiro situa-se perto de Celorico de Basto, onde a penedia alterna com o arvoredo. Possui uma volumosa torre virada a sul ,com uma porta alteada dois metros em relação á base do terreiro e uma muralha pentagonal , ondeada de acordo com a sapata natural onde se apoia . Ainda virada a sul e sob a protecção imediata da torre, abre-se a singela porta da muralha. Bastante mutilado por absurdas crenças de "tesouros mouriscos ", este castelo merecia a atenção do poder local, pese embora nunca ter servido para defesa de uma povoação pois foi implantado em local quase inexpugnável e afastado de qualquer burgo , fazendo parte de um vasto plano estratégico de defesa regional. Fundado antes de existir Portugal, terá sido erguido pelos muçulmanos no século VIII. As primeiras investidas da reconquista cristã , no mesmo século , te-lo-ão danificado, sofrendo restauro já sob o domínio dos libertadores leoneses e potucalenses. De pouco interesse depois da reconquista cristã ,foi caindo no esquecimento. Não havendo grandes pormenores arquitectónicos para referir, falaremos de uma lenda.Conta a história que, no tempo do rei D. Dinis, era alcaide do castelo Martim Vasques da Cunha, partidário de D. Afonso , irmão do rei, que com este disputava o trono desde a morte de D: Afonso III .o Bolonhês. Por tal decisão partidária, pedira o alcaide a sua exoneração ao rei, mas D. Dinis recusava-a sempre. Para resolver a situação de maneira honrosa o alcaide ordenou a evacuação do castelo, trancou a porta por dentro, incendiou simbolicamente uma das casas e desceu da muralha dentro de um cesto preso a uma ameia. Como mandavam as regras da cavalaria abandonou o castelo deixando no interior tudo o que era preciso :" galo, galinha, gato, cão, sal, vinagre, azeite , pão, farinha, vinho, água, carne. peixe, ferraduras, cravos, bestas, flechas, ferro, corda, lenha, mós, alhos, cebolas, escudo, lança, espada,carvão, forja, funil, isca, pederneira, e pedras em cima das muralhas." Saíra com honra. O castelo foi , alguns meses depois, entregue a um novo alcaide Pêro Menedez que, segundo a lenda, morreu dentro do forno de cozer o pão da vila, pois se metera com uma jovem padeira viúva e esta , com a ajuda do irmão, assim se vingara. Em meados do século XX o castelo foi classificado como monumento nacional (decreto lei de 15/3/1946). O IPPAR concluiu obras de restauro e consolidação em Janeiro de 2004.


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