17.10.10

Avião DC3 DAKOTA

Hoje vou falar-vos de um avião do tempo da segunda guerra mundial que foi usado pela aviação comercial em larga escala, dada a sua fiabilidade e eficiência em voar. Estou a referir-me ao Douglas DC-3 DAKOTA que foi o mais importante pelos seus grandes feitos durante a guerra e em tempo de paz. Na actividade militar era conhecido como C-47.
A história começa muitos anos antes quando, em 1921,Donald Douglas e seu pai iniciam a Sociedade Douglas para a construção de aeronaves para o transporte de correio e de um ou dois passageiros, nos EUA. No entanto, em 31 de Março de 1931 morre, num acidente de avião, Knute Rockne um famoso treinador de futebol americano. O avião acidentado foi um Fokker trimotor cuja estrutura era em madeira, facto muito vulgar na época, sendo o desastre devido a uma falha da estrutura. A reacção do público foi tal que a Aeronáutica Civil proibiu que os aviões de passageiros tivessem estruturas em madeira ,obrigando a que fossem em metal. Por este motivo, em 1932, a TWA convida cinco empresas construtoras a apresentar projectos para um monoplano todo em metal. A Douglas concorre com o seu DC1 (de que foi construído apenas um só aparelho) que passou brilhantemente nos testes. (ver foto abaixo)


O êxito leva a Douglas a construir vinte DC 2 para a TWA .Os DC 2 tinham motores mais potentes e levavam 14 passageiros, em oposição ao modelo apresentado pela Boeing que só transportava 10. A popularidade foi tal que a Douglas planeou logo um avião maior, o DC-3. O primeiro DC-3 começou a voar em Dezembro de 1935, resultado da evolução do DC-1 e dos DC-2. Possuía dois motores Pratt & Whitney de 1.200 HP cada. Com um peso bruto de 12.200 kg podia levar até 32 passageiros. Até terminar a sua produção, tinham sido construídas 803 unidades comerciais e 10.123 militares, não se sabendo ao certo quantos ainda estarão hoje a voar. Calcula-se que serão uns 200 em todo o mundo, voando ou aptos a voar, quase todos em mãos de particulares .O avião era fabricado pela McDonald Douglas, em Santa Mónica, na Califórnia, e ainda na cidade de Oklahoma. Originalmente o DC-3 foi concebido como um luxuoso avião comercial que oferecia camas para seus passageiros. O DC-2 que lhe antecedeu não era largo o suficiente para comportar tais beliches. Seriam sete camas superiores e sete camas inferiores, com uma cabine privada à frente. A empresa American Airlines encomendou os seus DC-3 com esta configuração porém, mais tarde, removeu os beliches e instalou três fileiras de sete assentos ( 21 passageiros). (abaixo foto de DC3 )



O sucesso foi imediato e o DC-3 entrou em serviço em Junho de 1936, fazendo a carreira New York - Chicago. A qualidade do DC3 era tal que outras companhias aéreas os encomendavam a uma tal cadência que a fábrica não podia satisfazer os pedidos. Por volta de 1938, o avião não era apenas o equipamento principal das maiores empresas aéreas dos Estados Unidos, como também já era operado por dezenas de países estrangeiros. Com a entrada dos USA na 2ª guerra mundial (1939-1945) são construídos aos milhares para as forças armadas.A popularidade do DC-3 era baseada em muitos factores: era maior, mais rápido e mais luxuoso que os aviões anteriores. Era também mais económico de operar e batia recordes de segurança. Neste aspecto vejamos alguns exemplos concretos:
-Era um avião que, com os motores parados, conseguia planar-

Um DC-3 da Capital Airlines perdeu quase dois metros da asa direita numa colisão aérea e continuou a voar sem maiores problemas.-

Durante a II Guerra Mundial, outro teve sua asa direita inteiramente destruída por um ataque, enquanto no solo. Adaptou-se ao mesmo uma asa de DC-2, que era 3,30m menor que a original. O avião voou esplendidamente e os autores da façanha baptizaram-no de DC-2 ½.-

Na mesma II Guerra, foi oficialmente creditado ao DC-3 ter abatido um caça inimigo, já que este colidira com o leme direccional do DC-3. O caça Zero japonês caiu e o DC-3 pousou com segurança. Após rápida reparação, voltou a voar.

Talvez nenhum avião tenha sido tão excedido nos seus limites e sempre se tenha saído tão bem e esta afirmação é baseada nos factos que a seguir relatamos:Durante a guerra, cruzava o Atlântico regularmente com sobrecarga de 1 a 2 toneladas. A capacidade original de 21 passageiros foi excedida muitas vezes como, por exemplo, durante a evacuação de Burma, em que um DC-3 descolou com 74 passageiros.

Outra façanha incrível documentada aconteceu em 21 de Abril de 1957, quando o resistente avião perdeu 4 metros de sua asa esquerda ao bater de raspão em árvores, devido a uma tempestade. O avião pousou com segurança no aeroporto de Phoenix, no Arizona.

Talvez a principal razão do DC-3 estar ainda hoje a voar é o facto de que nunca se ter desenhado um avião tão bom e tão adequado ao objectivo para o qual foi construído. Não se sabe ainda quando o DC-3 deixará os céus em definitivo: no fim dos anos 50 acreditava-se que ele só voaria por mais 5 anos, entretanto a previsão foi ultrapassada várias vezes e assim continua. Por isso, a única coisa que se sabe é que se o DC-3 um dia desaparecer dos céus, será saudosamente lembrado pelos milhões de admiradores que esta máquina conquistou em todo o mundo. A transportadora portuguesa TAP adquiriu em 1945 os seus dois primeiros aviões DC 3 Dakota de 21 lugares tendo esta frota atingido 8 unidades. O ultimo destes aviões é retirado de serviço no ano de 1959.( a foto abaixo mostra o último DC3 da TAP como peça de museu)



Para os amantes de aeronautica aqui deixo bibliografia sobre o DC3


Flintham, V. (1990) Guerras e avião do ar: Um registro detalhado do combate de ar, 1945 ao presente.
Francillon, René J. Avião de Mcdonnell Douglas desde 1920. Londres: Putnam & Company Ltd., 1979.
Pearcy Jnr., Arthur ARAeS. De “variants Douglas R4D (DC-3/C-47 da marinha dos E.U.)”. Avião no perfil, volume 14. Windsor, Berkshire, Reino Unido: Publicações Ltd. do perfil, 1974, P.
Yenne, conta. Mcdonnell Douglas: Um Tale de dois gigantes. Greenwich, Connecticut, EUA: Bisonte Livro, 1985.











12.10.10

ARCOBOTANTE

Porque eu gosto imenso das catedrais com arquitectura gótica e crer que muitas outras pessoas estarão na mesma linha de pensamento, sem contudo se aperceberem do jogo de forças físicas que permitem erguer estas maravilhas , falarei hoje do seu elemento essencial o ARCOBOTANTE.
Por definição, arcobotante é uma construção em forma de meio arco, erguida na parte exterior das catedrais góticas para repartir o peso da sua cobertura por vários pontos e não sobre toda a parede lateral.
A característica mais marcante da arquitectura gótica das grandes catedrais é o seu tipo de abóbada, feita em arcos cruzados que, em combinação com arcos transversais, se apoiam em colunas de alvenaria que suportam todo o peso dessa cobertura.Os arquitectos das catedrais góticas acharam que, como as enormes forças provocadas pelas abóbadas ficavam concentradas em pequenas áreas, estas forças poderiam ser suportadas por contrafortes e arcos externos, os chamados arcobotantes. Assim, as grossas paredes da anterior arquitectura românica poderiam , na sua grande maioria, ser substituídas por paredes finas, o que proporcionava a abertura de grandes janelas e favorecia a iluminação do interior dessas catedrais. Além disso, os espaços interiores também podiam alcançar alturas sem precedentes, permitindo também a construção de mais duas naves laterais, além da nave central das igrejas romãnicas. As novas catedrais mantiveram e ampliaram o formato da zona do altar-mor das catedrais românicas francesas, que inclui o corredor semicircular conhecido como o ambulatório, as capelas radiais, e a alta abside poligonal (às vezes quadrada) que cerca o altar-mor. A nave gótica central e o coro são igualmente de procedência românica. O uso de arcos ogivais em diagonal permitiu direccionar o peso das abóbadas para os contrafortes, que por sua vez descarregam estas pressões no solo. Para isso, como já dissemos, foi fundamental a adopção do arco em ogiva que recebe mais directamente as pressões exercidas pelo tecto. No estilo gótico, os contrafortes não são mais as colunas internas encostadas ás paredes, mas sim erguidos na parte exterior das naves laterais. O segmento de arco que recebe a pressão exercida pelo peso da abóbada e que a transmite ao contraforte, chama-se, como já referimos, arcobotante (ver foto seginte). Nesta arquitectura existe uma série de forças em equilíbrio, que se compensam umas às outras. As janelas com vitrais são tão grandes que reduziram o edifício a um simples esqueleto de pedra, fechado por essas janelas que , forçosamente, são também ogivais. Uma outra solução encontrada foi subdividir a abertura em dois arcos ogivais mais reduzidos, encimados por uma pequena rosácea. Nesta linha de ideias a fachada principal das igrejas góticas é delimitada por duas torres que partem da base das naves laterais. Estas torres são rasgadas por janelões e rematadas por campanários, normalmente terminados em agulha. No meio das duas torres situa-se a rosácea, imenso círculo que deixa passar a luz em sentido longitudinal, iluminando o altar-mor ao fundo da igreja.
Vamos agora tentar explicar melhor como funciona o arcobotante . Quando uma parede, devido ao seu peso, ameaça cair, não é verdade que um vigamento colocado obliquamente a segura? Da mesma forma a pressão que tendia a destruir o edifício gótico foi captada e conduzida por meio de arcobotantes até massas muito pesadas: os contrafortes, pilares tão sólidos, tão bem enterrados no solo que não correm o risco de ceder aos maiores pesos. E, para que houvesse maior certeza de que resistiriam, foram carregados com um peso complementar, uma espécie de torreão de pedra, o pináculo, da mesma forma que, para impedir que uma bengala escorregue ou se incline, basta apoiar fortemente a mão sobre o castão. (ver esquema a seguir)
Este sistema é um dos paradoxos da arquitetura gótica pois a impressão de um impulso para o céu deriva, na realidade, de que toda a sua estrutura corresponde a um movimento de cima para baixo, não esquecendoE, quando que esse fantástico arabesco repousa sobre alicerces de um volume enorme, enterrados a uma profundidade de quinze metros. Resolvido o problema da cobertura, as naves elevaram-se mais ainda, quase além do que era prudente e, por uma lei elementar das proporções, alongaram-se e ultrapassaram tudo o que até então fora feito. E também se multiplicaram: naves triplas e quíntuplas conduziam as multidões por avenidas triunfais até o altar do Deus presente. Os campanários, como que impelidos pela força ascendente que elevava todo o edifício, ergueram-se a alturas nunca atingidas: 82 metros em Reims, 123 em Chartres, 142 em Estrasburgo e 160 em Ulm.
Lista bibliográfica sobre o tema:GOZZOLI, M.C. Como Reconhecer a Arte Gótica. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
.RIBEIRO, F. História crítica da Arte – 5 volumes. Rio de Janeiro: Fundo Cultura, 1965.
RIBEIRO, H.P. A arte gótica. Bauru: Unesp, 1969.
.UPJOHN E.M., WINGERT, P.S., MAHLER, J.G. O Neoclassicismo e oRromantismo in História Mundial da Arte: do Barroco ao Romantismo. 3ª edição, Livraria Bertrand
GUINSBURG, J. O Romantismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 197
UPJOHN, E.M.; WINGERT, P.S.; MAHLER, J.G. História Mundial da Arte: Dos Etruscos ao Fim da Idade Média. 4.ed. São Paulo: Bertrand, 1975. DISCIPLIMA: HISTÓRIA E ESTÉTICA DA ARTE-PROF.: WILLIANS BAL HISTÓRIA DA ARTE: DO GÓTICO AO ROMANTISMO:Licínia de Freitas Iossi,Katherine Zuliani,Thaís GoldKorn,Fernando Ramos Geloneze,Vinícius Ramires Álvares,Lívia Cerqueira Leite,Guilherme AmaralSitiolorafia:

7.10.10

EVOLUÇÃO DA ALIMENTAÇÃO HUMANA


Perguntaram-me como teria evoluído a alimentação humana desde os tempos do Homo primitivo até aos nossos dias . A resposta , aparentemente fácil, é baseada no estudo dos fósseis do género Homo. Esse estudo paleontológico centra-se na forma e dentição dos maxilares, indo ao ponto de analisar a quantidade de esmalte dentário e a forma da coroa dos molares. Também se analisam os restos fossilizados de animais que serviram de alimento ao homem das cavernas . Neste último caso incluímos ossos e até conchas de animais marinhos e, neste caso, em Portugal são célebres os concheiros de Muge que datam do Mesolítico.
Como não podia deixar de ser, o homem primitivo, tal como qualquer outro animal, alimentava-se individualmente do que conseguia caçar e de plantas silvestres, vivendo só dos recursos naturais. Dependia das condições climatéricas, das secas e das inundações. Era um recolector puro. Com o passar de milénios, já no Neolítico, o homem aprendeu a domesticar os animais passando a depender da pastorícia, sem necessidade das longas e por vezes perigosas excursões de caça .Fazia já uma alimentação comunitária. Ao tornar-se sedentário e com a aparição da agricultura, a sua alimentação melhorou um pouco . Porém continuava dependente das calamidades naturais, normalmente climatéricas, por não saber armazenar e conservar os alimentos, daí que as fomes assolassem periodicamente as populações em qualquer parte do planeta.
A paleontologia humana mostra curiosamente que a melhoria na qualidade da alimentação acompanhou um crescimento evolutivo do cérebro. Todos os australopitecos estudados apresentavam características esqueléticas e dentais estruturadas para processar alimentos vegetais duros e de baixa qualidade energética. Certamente ingeriam carne ocasionalmente, tal como os chimpanzés de hoje, e estudos em membros mais antigos do gênero Homo sugerem que o Homo ancestral consumia menos matéria vegetal e mais animal.
Quando se estuda a evolução humana surge a pergunta :o que terá empurrado o Homo para uma maior qualidade dietética, necessária ao crescimento cerebral? Terá sido a mudança ambiental ? Ao que hoje se sabe, os Hominídeos surgiram em África e a crescente aridez da paisagem africana limitou a quantidade e variedade de alimentos vegetais comestíveis e também de animais Aqueles seres que na linha evolutiva deram origem aos robustos australopitecos desenvolveram modificações anatómicas que permitiram a subsistência com alimentos de mastigação mais difícil, porém em maior disponibilidade. O Homo erectus , desenvolveu a primeira economia caçador e recolector, em que animais de caça eram uma parte significativa da dieta com estes recursos a serem compartilhados entre os membros do grupo. A adição de pequenas porções de comida animal á dieta de frutos e outros vegetais , combinada com a divisão dos recursos que é peculiar dos grupos de caça e colecta, teria significantemente aumentado a qualidade e estabilidade da vida dos hominídeos. Uma melhor qualidade dietética, por si só, não explica por que os cérebros dos hominídeos cresceram, mas parece ter desempenhado um papel crítico na eclosão daquela mudança. Após um grande estímulo inicial no crescimento do cérebro, a dieta e a expansão desse órgão provavelmente interagiram em sinergia; cérebros maiores produziram comportamento social mais complexo, o que conduziu a outras estratégias em tácticas de obter alimento e a uma melhor alimentação que, por sua vez, fomentou a evolução adicional do cérebro. Como afirmam alguns estudiosos, a evolução do Homo erectus na África, hà 1,8 milhões de anos atrás, marcou a terceira viragem na evolução humana: o movimento inicial dos hominídeos para fora da África em busca de mais alimento. A evolução da alimentação provocada pelo êxodo foi muito lenta , e a prova do que afirmamos é que , milhares de anos depois, a população da Europa ainda não conseguia saciar a fome, para já não falar na China onde, até à primeira metade do século XX, raramente havia um ano sem fome. Ainda hoje ela não desapareceu da Ásia, da Indonésia, da África e de alguns países da América do Sul. Mas felizmente, excepto quando há calamidades ou guerras, as grandes fomes absolutas parecem estar em vias de desaparecimento, embora muitas populações sofram ainda de subalimentação, como acontece nos países subdesenvolvidos.
Ao invés, as crises de fome acabaram nos países considerados desenvolvidos, desde que as máquinas agrícolas fizeram a sua aparição e vieram permitir uma cultura intensiva do solo. Transportes rápidos, adubos químicos, irrigação, selecção de plantas e animais, combate aos parasitas agrícolas por meio de insecticidas químicos, criação da indústria das conservas, da indústria do frio, tudo isso transformou a alimentação humana. Esta transformação foi ainda acelerada pela industrialização da produção agrícola. Poucos produtos são hoje consumidos sem preparação industrial: legumes e frutos, carne, peixe, ovos, leite. A maior parte dos outros (e até parte destes) é preparada industrialmente, tratada por meios mecânicos, esterilizada pelo calor ou por raios ultravioleta, congelada, perfumada, colorida, purificada por produtos químicos, pasteurizada, destilada. A ciência química cria cada vez mais elementos de síntese, em particular produtos vitaminados. Mas não há bela sem um senão! A introdução da química na alimentação trouxe vários perigos com o uso dos adubos químicos, dos pesticidas e dos aditivos.
Se é verdade que os adubos químicos vieram possibilitar maior rendimento das colheitas , a verdade é que a qualidade dos alimentos piorou pois estes produtos alteram a qualidade dos alimentos, são incapazes de restaurar integralmente os solos e contribuem em grande escala para a poluição das águas, quando são arrastados pelas chuvas para os rios.
O DDT que em tempos foi muito usado como insecticida é hoje reconhecido como inconveniente. Este veneno absorvemo-lo nós juntamente com os legumes, o leite, a carne, os frutos, os cereais etc. Os insecticidas penetram na polpa dos vegetais e misturam-se na seiva. Os vegetais ao serem ingeridos pelos animais, acumulam-se na sua gordura e voltam a estar nos produtos alimentares de origem animal que nós ingerimos.
Muitos dos animais destinados ao talho recebem uma alimentação química que lhes eleva rapidamente o peso. Entre esses produtos, estão antibióticos e sulfamidas e, na criação industrial de aves de capoeira, hormonas femininas sintéticas. Estes produtos não são destruídos pela cozedura e muitas dessas hormonas vão dar origem às dioxinas, que são cancerígenas Também no número extremamente elevado de aditivos que são usados, alguns são cancerígenos. Até o alimento dos pobres, o pão, não foge às influências nefastas da modernização . Há ainda cem anos , o homem podia alimentar-se quase exclusivamente de pão. Hoje não o poderia fazer porque o seu valor alimentar diminuiu e ele já não é um alimento completo e fiável. Em primeiro lugar porque os trigos de grande rendimento que se cultivam agora são ricos em amido mas pobres em glúten e sais minerais, para já não falar no seu cultivo onde são usados adubos e pesticidas químicos. Até a substituição das velhas mós de pedra pelos cilindros de aço veio proporcionar uma produção maior e de uma farinha mais branca, sem as impurezas que coloriam ligeiramente a farinha e eram constituídas por substâncias nutritivas preciosas, (fósforo, cálcio, magnésio, ferro, silício, iodo, manganésio) e vitaminas B e E. Neste momento já nem quero falar nos alimentos transgénicos de que tanto se fala .
Creio que fui rápido demais na explicação histórica da evolução da alimentação humana e por isso voltemos atrás : Um dos momentos cruciais na evolução da alimentação do homem foi o controlo do fogo durante o período Paleolítico, há cerca de 2,5 milhões de anos . Não se sabe exactamente quando os precursores do Homo sapiens deixaram de consumir alimentos tal como ficavam quando os caçavam e recolectavam. Descobertas arqueológicas em cavernas da China fazem supor que o homem de Pequim,( 250 mil e 500 mil anos atrás), já utilizava o fogo para se aquecer e cozinhar carnes e vegetais . Esses são os primeiros sinais de que o homem procurava modificar os alimentos que consumia, sendo isso muito visível no período Neolítico . Ao perceber que carnes e vegetais cozidos duravam mais tempo, passou a usar o processo .Com a defumação, pela exposição das carnes e peixes à fumaça resultante da queima de madeira e carvão, fazia-se a desidratação, criando nos alimentos uma capa protectora para durar mais. Nós hoje sabemos, que há o risco das dioxinas, mas quem não vai ainda hoje procurar os “fumeiros”? Na Europa, a partir da Idade Média, criou-se o hábito de comer carne de porco e para a conservar , parte era salgada, parte defumada e o restante usado no preparo de enchidos. No nosso país interior, continuamos hoje a fazer o mesmo. Quem não conhece os presuntos caseiros? Supõe-se que a primeira forma de salga consistia em enterrar os produtos da caça na areia da praia, para que o sal do mar penetrasse nos alimentos. Na Antiguidade, fenícios, egípcios e gregos secavam peixes para poderem transportá-los com segurança. No entanto, a história mostra que o hábito do sal para preservar alimentos vem quase sempre combinado com a exposição ao sol e daí o hábito, presente até há poucos anos em Portugal, da salga do bacalhau realizada ao ar , ao sol e às moscas, nas nossas praias e linhas de costa .Na Mesopotâmia, por volta de 2000 a.C, os peixes eram abertos e conservados em salmoura a que por vezes se juntavam ervas aromáticas, tão ao gosto dos romanos . E quem fala de peixe, fala de carne, por exemplo a de bovino, ainda hoje assim preparada no Brasil, a célebre carne de sol. A utilização de baixas temperaturas para a conservação de alimentos também se perde na história. Foi no período Neolítico que o homem descobriu que a carne de caça e os vegetais guardados em locais frios se conservavam por mais tempo. Assim, o homem pré-histórico depositava seus alimentos nas partes mais escuras e frescas das cavernas. Hoje usamos os gigantescos armazéns frigoríficos , os porta contentores refrigerados e até aviões de carga com porões refrigerados pelas baixas temperaturas que existem nas altas zonas da atmosfera.
Suponho ter dado uma ideia do tema, reconhecendo que muito ficou por dizer.

3.10.10

O CASTELO DO PORTO


Tal como acontece em Coimbra , quem visita a cidade do Porto não encontra um castelo propriamente dito o que parece estranho numa cidade tão antiga. Os romanos referiram-se a um núcleo populacional junto ao rio Douro como Portuscale, na zona do morro da Pena Ventosa que é onde hoje se situa a Sé. Nesta zona encontraram-se vestígios romanos e pré romanos que atestam uma continua ocupação, logo deveria haver alguma edificação defensiva. ( Durante as décadas de 1980 e de 1990, as investigações arqueológicas realizadas nas traseiras da , nomeadamente na Casa da Rua de D. Hugo n.° 5, permitiram identificar um perfil estratigráfico que ilustra a evolução do núcleo primitivo da cidade. Destes estudos concluiu-se ter havido uma ocupação quase contínua do local desde os finais da Idade do Bronze.)
Continuando a atestar a ocupação da zona, diremos que no Itinerário Antonino ( sec II) aparece a designação de Cale ou Calem para o morro de Pena Ventosa e daí talvez Portuscale que, no primeiro quartel do século XII, era apenas citado como Portus , já que cale designava travessia ou passagem.
Mas houve ou não um castelo ? O que encontramos hoje são restos de dois muros defensivos , ambos medievais , a cerca velha ou sueva e a cerca nova mais conhecida por muralha fernandina. Terá sido sobre os alicerces da fortaleza sueva , arrasada no ano 825 pelo rei mouro Almançor que Moninho Viegas , trisavô de Egas Moniz ( aio de D. Afonso Henriques), teria mandado edificar a cerca velha no período da reconquista. Dentro desta cerca certamente haveria um castelo ou uma torre defensiva, mas dela não há vestígios.
Esta cerca velha existia ainda em 1120 já que , aquando da doação do burgo ao bispo D: Hugo, lê-se no documento mandado exarar por D.Teresa que além do burgo pertenciam ao bispo terrenos extra muros. logo havia uma muralha .Como a cerca velha se situa no morro da Pena Ventosa o castelo deveria situar-se dentro dessa cerca, onde hoje está a Sé.
No que respeita à cerca nova ( muralha Fernandina) diremos : A Muralha Fernandina começou a ser pensada em 1336, quando reinava em Portugal D.Afonso IV, devido à tentativa de invasão do rei castelhano D.Afonso XI.
Era necessário proteger uma cidade, que se tinha expandido para além da Cerca Velha .A muralha, que tinha uma altura de 30 pés (10 metros), ficou terminada no reinado de D.Fernando, daí a designação de Fernandina.O traçado seguia pela margem ribeirinha do Douro até ao limite com Miragaia, subia pelo Caminho Novo, pela Sé e descia pela escarpa dos Guindais até à Ribeira.( foto do texto) Esta muralha envolvia a cerca velha e os seus muros, reforçados por trinta torres, abriam para o exterior por várias portas e postigos. No interior da cerca nova outras cercas havia , delimitando a judiaria e os terrenos administrados pelas ordens religiosas. Em nome do progressivo desenvolvimento urbano a muralha Fernandina começou a ser derrubada no final do século XVII e os seus seculares muros foram sendo submersos pelo casario ou demolidos para a abertura de novas ruas. Para muitos dos edifícios públicos, que foram construídos a partir do séc. XVII, foram aproveitadas as pedras da muralha derrubada. No séc. XIX, a muralha sofreu a condenação final, sendo demolida na sua quase totalidade. O que hoje resta e vemos, é considerado monumento nacional.
Colocámos a hipótese de o castelo ou torre de defesa se ter situado onde hoje está a Sé. Não podemos esquecer que a Sé do Porto é um edifício de estrutura romano-gótica, dos séc. XII e XIII, tendo sofrido grandes remodelações no período barroco (séc. XVII-XVIII). No interior conserva ainda o aspecto de uma igreja-fortaleza com ameias, mas nada garante que a hipótese de ali ter sido a fortaleza .seja correcta

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