31.5.10

A RÁDIO DIGITAL



Quem escuta uma estação de rádio, muitas vezes não se apercebe da grande evolução que este meio de comunicação sofreu nos últimos vinte anos. É vulgar termos as nossas estações de rádio favoritas, normalmente em FM, aquelas que programamos no rádio do carro e que escutamos enquanto vamos para o trabalho ou quando damos uma volta pela cidade. No entanto, quando se viaja para longe da emissora de rádio preferida, o sinal vai desaparecendo até virar apenas ruído. A maioria dos sinais de rádio FM alcança apenas uns cinquenta quilómetros a partir da antena. Do que acabamos de dizer resulta que em viagens longas, nas quais passamos por cidades diferentes, temos de mudar de estação a não ser que se esteja sintonizado numa emissora de âmbito nacional que tenha espalhados pelo país vários repetidores e que o rádio do carro tenha um sistema automático que os vá detectando e sintonizando ,isto é, um sistema (RDS) Agora imagine uma estação de rádio que pudesse transmitir sinais a milhares de quilómetros de distância e que chegassem até ao rádio do seu carro completamente limpos.
A XM Satellite Radio e a Sirius Satellite Radio nos Estados Unidos já lançaram um serviço deste tipo. É a rádio digital, também conhecida como rádio satélite, oferecendo música ininterrupta, próxima da qualidade de CD, e vinda do espaço. No entanto não é absolutamente necessário que ela venha de um satélite; pode ser oriunda de uma antena terrestre.

As empresas que usam rádio digital têm comparado a importância dos seus serviços ao impacto que a TV a cabo teve na televisão . A rádio digital permite, além de vários programas musicais distintos serem emitidos por um mesmo emissor , enviar simultaneamente também outros dados, como informações especializadas, GPS, etc.
Tentemos explicar melhor imaginando , por exemplo, uma ouvinte de nome Sofia daqui a dez anos :
. De manhã, o alarme do seu Rádio Digital acorda-a com música da sua rádio local favorita. Carrega no botão "boletim meteorológico" do seu rádio e este transmite, cortando a música, o mais recente boletim dos respectivos serviços. Empregada por uma grande empresa, Sofia trabalha a partir de sua casa, mas hoje tinha uma reunião marcada às 9 horas no centro da cidade. Para preparar a reunião, senta-se ao computador . Logo que começa a trabalhar clica no ícone de rádio no ecrã. Está sintonizado para a estação que ela mais gosta e a música, com qualidade CD, faz o ambiente enquanto ela começa a pesquisa. Às 8.30, Sofia entra para o seu carro, talvez eléctrico, e pergunta ao computador de bordo qual o melhor caminho para os escritórios da empresa. O computador está actualizado em tempo real com informação do trânsito enviada por uma rádio local. Com confiança, é aconselhada a seguir um percurso alternativo. Enquanto se aproxima do edifício, ela vê e revê o lugar para estacionar o automóvel – o parque mais próximo do edifício está cheio, mas existe um lugar no quarteirão seguinte. De novo, a informação em tempo real é fornecida via Rádio Digital. Quando Sofia regressa da reunião , liga o auto-rádio, para escutar música mas estando com fome e escutando um anúncio de um restaurante carrega no botão mais informações que lhe mostra o nome e endereço do restaurante no ecrã de cristais líquidos, bem como o menu do dia.
Agora que demos uma curta ideia das possibilidades da rádio digital vejamos outros aspectos ,como o que é o sistema DAB , já usado em Portugal. DAB é a sigla para “Digital Audio Broadcasting”, ou seja, a emissão digital do sinal analógico de áudio, tal como o conhecemos actualmente como meio de comunicação utilizando a FM (frequência modulada) ou a AM (amplitude modulada) . Mas como é que isto tudo funciona ?
A recepção de sinais analógicos da rádio convencional pode ser prejudicada pelas condições atmosféricas ou pode também ser interrompida nos vales profundos do terreno, em túneis ou proximidade de edifícios altos – especialmente nas cidades. Neste último caso o tipo de interferência no FM é provocado por “harmónicas”.resultantes do reflexo do sinal nos edifícios .(É o conhecido caso dos fantasmas na televisão ) O DAB evita este problema enviando uma série de bits que podem ser reconhecidos mesmo na presença de interferência. Essa interferência é praticamente ignorada pelos receptores DAB com a ajuda de um sistema chamado COFDM. (Coded Orthogonal Frequency Division Multiplex”). Este sistema usa uma relação matemática precisa para dividir o sinal rádio tanto por 1536 diferentes frequências condutoras como pelo seu atraso temporal. Isto faz com que, mesmo que alguns sinais sejam afectados por interferência ou o sinal seja perdido por um pequeno período, o receptor é capaz de o recuperar e reconstruir perfeitamente. O COFDM também permite que a mesma frequência seja usada por uma vasta área. Isto significa que não é necessário estar sempre a sintonizar a rádio quando se viaja de carro.
Nos nossos dias, as rádios nacionais, como a Antena 1 , a Rádio Comercial, e a Rádio Renascença utilizam até 20 frequências diferentes para serem escutadas em todo o país e o sistema RDS o que apenas faz é escolher automaticamente a frequência mais forte ,dando a sensação de que continuamos na frequência inicial, quando isso não é verdade. Com o DAB a mesma frequência é utilizada em todos os retransmissores ao longo do país e, em áreas de sobreposição, os sinais reforçam o sinal total recebido. Isto é uma maneira inteligente de utilizar o que antes era considerada uma interferência, como uma vantagem.
O som límpido e cristalino que o DAB produz é criado por uma compressão de som altamente eficiente, conhecida por MUSICAM que funciona deitando fora os sons que não são detectáveis pelo ouvido humano. Este sistema é semelhante à forma como os ficheiros de som são gravados num computador. Até agora apenas um simples texto pode ser associado à emissão FM e que resulta num RDS que mostra o nome da estação e permite a sintonia automática para o sinal mais forte e informação de trânsito.
O espectro adicional que o DAB oferece vai fazer que o RDS pareça básico. A BBC já está a utilizar um software que permite enviar para um ecrã LCD ligado ao receptor DAB o nome da música, artista e mesmo o nome do álbum
Várias ideias surgiram para utilização da componente de dados do DAB. Uma ideia é uma versão radiofónica de teletexto com melhores gráficos, outra ideia é permitir o download de ficheiros áudio e vídeo que seriam gravados em memória para ver mais tarde. Possíveis ficheiros seriam informação de trânsito, resultados desportivos ou meteorologia.
Em Portugal o panorama não tem evoluído muito nos últimos anos. Foi dada à RDP a função de gestão da rede Nacional de DAB em Portugal tendo sido atribuída uma frequência nacional, no canal 12B de VHF, nos 225,648 MHz. Desde 1998 que Portugal usufrui de rádio digital. O sistema Digital Audio Broadcast (DAB) foi o escolhido, mas passados doze anos tudo continua na mesma: a única estação a transmitir em digital continua a ser a RDP e os ouvintes que a escutam em DAB não serão muitos, porque um receptor ainda é caro e não se encontram no mercado. Além do mais os mesmos programas poderem ser escutados simultaneamente em qualquer receptor de FM, sem que se note diferença de qualidade sonora, o que leva a não procurar receptores DAB. .Os ensaios com a rádio digital sucedem-se por essa Europa fora, mas as experiências não têm tido os melhores resultados, havendo, inclusive, alguns países que têm abandonado as emissões em DAB sendo a única excepção a Inglaterra.A verdade é que o DAB não apresenta, como dissemos, muitas vantagens sonoras em relação à FM. O argumento esgrimido de um relativo melhor som tem sido rebatido na prática, com muitos ouvintes a afirmar que a rádio é essencialmente áudio, e num carro - o local onde, hoje em dia, a rádio é mais escutada - é o essencial. Tudo o resto - os serviços que o DAB pode oferecer em paralelo com o áudio - pode levar a uma desatenção por parte do condutor e colocar em perigo a segurança rodoviária.
Não podemos esquecer ou confundir que a quase totalidade das rádios locais emite programas digitais através da internet, para serem escutadas num PC em qualquer ponto do globo , mas isto não é a emissão em DAB de que estávamos a falar.
(texto compilado a partir de vários sites acessiveis na internet tais como: Depart.Engenharia Informática da UC; Rádio digital de Rui Melo ; www.gmcs.pt ; www.aminharadio)

22.5.10

Criação de uma CÉLULA ARTIFICIAL

Na passada quinta feira (20 de Maio) pesquisadores americanos anunciaram uma revolução na história da Ciência ao criarem uma célula artificial e dando origem também a uma preocupação no meio científico.

Após 15 anos de trabalho, os cientistas conseguiram algo extraordinário no laboratório: programaram com um computador a informação genética que passou a controlar a vida e a reprodução de células bacterianas.

Primeiro, os cientistas produziram em laboratório uma cópia sintética do genoma de uma bactéria, isto é, o conjunto de todo o material genético localizado no núcleo das células bacterianas. Em seguida, inseriram o novo genoma dentro de uma outra bactéria. O genoma sintético passou a funcionar normalmente.

Craig Venter,um dos decifradores do Genoma Humano e um dos inovadores desta biotecnologia nos Estados Unidos, disse que as células sintéticas poderão revolucionar o dia a dia do ser humano. Segundo ele, vacinas, como a da gripe, poderão ser feitas em horas. Hoje, elas demoram meses para ser produzidas.

A célula pode ser desenhada no computador para desempenhar uma função que não existe na natureza, por exemplo, capturar dióxido de carbono na atmosfera e transformar o que é poluição em combustível e esta célula vai reproduzir-se sozinha.

Craig Venter afirmou que células sintéticas podem iniciar uma nova revolução industrial dentro de dez ou 20 anos, produzindo alimentos baratos, novas formas de filtrar água e de produzir energia.
Tentemos explicar de outra maneira o que fez a equipa de Craig: No princípio tínhamos o genoma da bactéria Mycoplasma mycoides que os cientistas manipularam para criar ADN sintetizado em laboratório. Introduziram esse genoma manipulado num citoplasma vazio. A bactéria com o novo ADN cresceu comandada por ordens genéticas artificiais e diferentes do normal e reproduziu-se em milhões de células. É a primeira vez que a ciência se aproxima tanto da origem da vida. "É a primeira célula do planeta que tem como pai um computador", anunciou Graig Venter que insiste que não criou vida do zero, pois, apesar de o cromossoma ser artificial, a base foi uma célula já existente. Na realidade, o que fizeram foi a mistura de duas experiências que já tinham realizado antes: criar um genoma artificial (em 2008) e transplantar um genoma de uma bactéria para outra. Neste caso, tinham eliminado 14 genes da bactéria Mycoplasma mycoides, patogénicos nas cabras, e introduziram sequências de ADN que em vez de terem os aminoácidos típicos – adenina ,guanina ,citosina e timina - incluem outros. Mas as reacções não foram só de espanto: poucas horas após o anúncio, vários cientistas alertaram para a falta de legislação sobre organismos sintéticos e mostraram até algum cepticismo. Em declarações ao "Times", Pat Mooney, do ETC Group (activistas contra a biotecnologia) chamou-lhe o momento da caixa de Pandora.

Outros cientistas alertaram também, que as células artificiais poderiam ser usadas como armas biológicas. Por isso, pediram controle rígido do material genético usado para criar um genoma.

21.5.10

Santuário da Lapa

Quando se pretende escrever sobre antigos santuários de Portugal ficamos sempre enredados em lendas que passaram oralmente de geração em geração, sem que haja qualquer escrito que possa validar o seu conteúdo.
É o que acontece com o santuário de Nossa Senhora da Lapa , na freguesia de Quintela , concelho de Sernancelhe , distrito de Viseu. Diz uma das lendas que, em 1498, uma pastorinha de 12 anos, de nome Joana, muda de nascença, introduzindo-se por entre as fendas das rochas encimadas pela grande lapa (caverna), aí encontrou uma linda imagem da Virgem, que ali teria sido escondida há mais de quinhentos anos por umas religiosas fugindo a uma perseguição, possivelmente dos mouros.
O carinho que a menina dedicou à imagem, valeu-lhe uma especial protecção da Virgem que por milagre lhe concedeu o dom da fala.
Depressa se divulgou o milagre, originando uma crescente afluência de peregrinos, jamais interrompida até aos dias de hoje.
Os primeiros devotos prepararam uma gruta debaixo da lapa, onde entronizaram a imagem, construindo ao lado uma pequena ermida.
Uma variação da mesma lenda afirma que uma menina pastora, muda, encontrou uma imagem da Virgem nos montes e levou-a para casa. A mãe não ligou à estátua e lançou-a para a lareira. A menina, falando pela primeira vez na vida, pediu à mãe que não queimasse a imagem. Talvez por isso a estátua da Virgem que está no santuário apresente marcas de queimaduras. Outra história ligada a este santuário diz que uma menina entretinha-se a fiar lã enquanto pastoreava os rebanhos quando foi atacada por um enorme lagarto que aterrorizava a região. Para se salvar, atirou os novelos de lã para a boca do monstro tendo este ficado completamente "empanturrado". Levou-o então pela ponta de um fio até casa, onde foi morto e empalhado. E não há dúvida que, entre os muitos ex-votos de peregrinos, havia no tecto do santuário um grande "lagarto", embora os mais cépticos digam que ele foi lá posto por um homem para agradecer à Virgem tê-lo salvo de um crocodilo na Índia. (O animal muito estragado é um caimão. Foi parcialmente recuperado e está hoje numa caixa de vidro.)
Em 1576, a Lapa foi confiada aos Padres da Companhia de Jesus, sediados no Colégio de Coimbra. Estes construíram, então, o actual Santuário, abrigando a penedia no seu interior. Em 1685 iniciaram a construção do "Colégio da Lapa", contíguo ao Santuário. Daqui partiu a devoção para os mais variados pontos do país e do mundo, chegando à Índia e ao Brasil. Esta expansão foi facilitada pela actividade missionária dos mesmos Padres Jesuítas, aos quais estava confiado este Santuário. Mas histórias, lendas e milagres são o que não falta neste santuário com muitos ex-votos e com uma curiosa passagem entre rochas por onde só se consegue esgueirar quem não cometeu pecados graves ou já lhe foram perdoados. Como é lógico os obesos não passam e para se manter a lenda dizem que aqueles cometeram o pecado da gula. Agora que já falámos de lendas vejamos a parte arquitectónica; O Santuário abriga na capela-mor, onde está o altar do Menino Jesus da Lapa, o dito rochedo milagroso .Assim debaixo da rocha que forma a gruta onde apareceu a imagem de Nossa Senhora, está o altar da Senhora da Lapa, ladeando uma irregular e estreita passagem que vai dar ao presépio, de centenas de figurinhas, obra da escola de Machado de Castro. O altar deixa ver um painel de prata e os mármores de Carrara. A servir de altar-mor fica o altar do Menino Jesus, revestido de trajes napoleónicos, aferrolhado por forte gradeamento de ferro e ladeado por quadros de D. Josefa de Óbidos. Também, sob pequena estátua da Mater Dolorosa se divisa o mais pequeno mas significativo altar da Senhora da Boa Morte A aludida capela do Santíssimo, jazigo da família do primeiro Conde da Lapa, tem um rico altar de talha joanina e forma um espaço convidativo para reflectir.
Junto do arco-cruzeiro, do lado da Epístola, vê-se o altar de Stº António. Do lado do Evangelho, temos o altar da Crucifixão ou do Calvário . No altar de S. José está representada a passagem deste homem, que após o cumprimento da sua discreta missão, recebe a coroa da justiça. Resta o Altar da Senhora da Soledade, em que a Virgem, aos pés da cruz, contempla os instrumentos da Paixão.
Por detrás da capela-mor , no compartimento que rodeia a lapa, está a Casa do Peso, assim chamada por nela estarem as balanças onde as pessoas se dirigiam para as próprias pesagens, com vista à futura entrega do mesmo peso em trigo no cumprimento da promessa deste teor
Na sacristia pode apreciar-se belo paramenteiro e seis ex-votos de notável interesse e acentuado valor. A igreja, vista do exterior ostenta uma frontaria com o triângulo pretensamente apoiado em duas colunas embutidas no muro frontal; e, à cabeceira, por detrás do passadiço que dá para o colégio, o campanário com os dois sinos que encarrega de dar as horas e de chamar os devotos para os ofícios .
( Algumas fotografias inseridas são da autoria de Ana Ramon e encontram-se no seu blogue A Paixão dos Sentidos )

11.5.10

MP3 e o antigamente

Nos nossos dias, é vulgar ver os jovens a andar pelas ruas a “abanar o capacete” com uns micro auscultadores nos ouvidos e escutando música, horas seguidas, no formato MP3. As gerações dos anos trinta e quarenta ficam admiradas como um tão pequeno aparelho do tamanho de uma caixa de fósforos possa conter tanta música gravada. Vamos tentar explicar o mistério mas antes comecemos por ver como se iniciou a ideia de “congelar” os sons para mais tarde os voltar a escutar. Em 18 de Abril de 1877, Charles Cros entregou na academia das Ciências Francesa um projecto para um sistema de gravação e reprodução sonora, a que deu o nome de “Paléophone”.
Quatro meses mais tarde, o inventor americano Thomas A. Edison consegue melhorar a experiência de Cros e reproduzir o som gravado, chamando ao seu invento “Fonógrafo”.
O Fonógrafo era constituído por um cilindro giratório em torno do seu eixo, com um sistema de progressão horizontal e accionado por uma manivela. Thomas Edison melhora a sua invenção inicial substituindo o papel encerado do cilindro por uma folha de estanho, e separando ainda o estilete de gravar do de reproduzir.

Os cilindros de Edison tinham uma duração limitada de 3 a 4 utilizações, além de um mau som e curta duração das gravações, cerca de um minuto. Em 1886, Chichester Bell e Charles Sumner Tainer registaram a patente de um fonógrafo aperfeiçoado a que chamaram Gramofone, tendo substituído a folha de estanho por um cilindro de cera mineral, o ozocerito, e o estilete de aço por um de safira em forma de goiva. O passo seguinte é dado por Emile Berliner que em 1888,muda a forma dos cilindros para discos planos de 33 cm de diâmetro e 6,4 cm de espessura .
Na mesma época em que se gravavam os sons em cilindros e discos atrás citados, o dinamarquês Valdemar Poulsen patenteia o primeiro sistema de gravação magnética o “Telegraphone”. Estamos em 1898 mas seria preciso esperar várias décadas para o sistema se comercializar.
Na máquina original, a gravação era feita em fio de aço do género usado para as cordas dos pianos. O arame saía de um carreto onde estava enrolado e passava por um electroíman que o magnetizava segundo um padrão que variava de acordo com os sons captados por um microfone. O fio, à medida que ia sendo magnetizado, ia enrolando-se noutro cilindro.
Para reproduzir o som gravado era só passar o arame magnetizado pelo electroíman e, por indução magnética, geravam-se correntes eléctricas que eram transformadas em som original nos auscultadores. Este sistema, foi muito melhorado ao longo dos anos e era usado pelas estações de radiodifusão . Manteve-se até aos anos 40, quando foi substituído pela fita de plástico revestida a óxido de ferro. Mas voltemos atrás no tempo para termos uma sequência lógica nesta nossa história.
A concorrência entre os Cilindros e os Discos atingiu o auge na viragem do século XIX para o século XX, acabando o Cilindro por ser totalmente derrotado em 1905, quando os Irmãos Pathé adoptaram o Disco.
Nestes primeiros tempos as gravações eram muito demoradas pois cada cilindro ou disco era gravado individualmente, ou seja, para fazer dez discos o artista tinha de cantar dez vezes.
Esta situação terminou quando Emile Berliner passou a usar um disco original para fazer os outros. Com esta nova técnica os discos passaram a ser prensados, com o recurso a matrizes obtidas por galvanoplastia, num composto à base de goma-laca, o velho disco de 78 r.pm. que se manteria em uso até meados de 1948. (O aparecimento da microgravação surgiu experimentalmente em 1943). Recuemos uma vez mais no tempo, até início do século XX.
Em 1907, a Columbia Gramophone apresenta ao público, pela primeira vez, um disco de dupla face e com a espessura de um centímetro. Esta novidade era tão espectacular, que a Columbia deu ordens aos seus vendedores para atirarem os discos ao chão, para provarem que eram inquebráveis.
Os avanços técnicos sucedem-se e os discos vão aumentando de tamanho e diminuindo de espessura. Discos de 50 e 60 cm de diâmetro, com cerca de 15 minutos de duração, são já comuns em 1910.
Os laboratórios Bell experimentam em 1919 o registo eléctrico, gravações obtidas electricamente através de um microfone, isto é, o primeiro “pick-up”. O “pick-up” é a célula captadora de som composta por uma ponta, a agulha, e um sistema conversor que aproveita as variações introduzidas no campo magnético de uma bobine condutora, produzindo desta forma pequenas correntes eléctricas que,ao serem amplificadas, reproduzem o som original.
Por este facto os gramofones estiveram na moda apenas até finais dos anos 20, altura em que apareceram no mercado os primeiros gira-discos eléctricos.
A gravação em disco era prática comum mas ,paralelamente, a gravação magnética ia-se impondo para outros fins que não o de fazer discos. Desde que Poulsen inventou o “Telegraphone”, que as melhorias foram muitas, mas ao chegar a década de 30, ainda se gravava em fio de aço e este ainda se manteria em uso em muitas estações de Rádio até aos anos 40, como já havíamos referido anteriormente.
Em 1934, a BASF produzia na Alemanha a primeira fita de gravação magnética, para uma máquina da AEG Telefunken. A fita era de plástico revestido num dos lados com um pó de oxido de ferro, o que permitia uma diminuição no peso e no tamanho dos carretos e o aumento da fidelidade e duração da gravação.
Este invento era um avanço considerável na gravação sonora, já que as estações de rádio podiam já gravar os seus programas e manipulá-los em estúdio. Se houvesse um engano, podia ser corrigido a partir do ponto em que ocorrera o erro e não repetindo na totalidade, como acontecia com os discos. A guerra contudo atrasou todas as experiências . Após a II Guerra Mundial o Vinil iria sobrepor-se à goma-laca, o material de que eram feitos os discos há mais de 60 anos. Este novo material permitia que os sulcos dos discos fossem mais estreitos, o que permitia reduzir a velocidade e aumentar a duração dos mesmos ,tocando cerca de 23 minutos de cada lado a 33 1/3 rpm. Este novo disco que foi introduzido pela Columbia recebeu o nome de Long Playing ou simplesmente LP.
A gravação manteve-se praticamente inalterável durante uma década, com os estúdios a gravarem em bobines de fita magnética em Mono que depois passavam a uma matriz, que faria vários discos de vinil iguais, para serem vendidos ao público.
Só em 1958 é que o panorama musical muda de novo com a introdução de discos de 45 e 33 1/3 rpm, estereofónicos.

A gravação profissional avançava e, para os amadores, as empresas iam criando aparelhos mais pequenos de bobines. Nos anos 60, a empresa Philips introduziu no mercado a cassete, uma pequena caixa que continha os carretos e a fita magnética, transformando desta forma a gravação doméstica, e a profissional .

A década de setenta traz uma novidade à gravação: a quadrifonia. Este sistema grava quatro sinais de som independentes. Pretendia-se com esta solução criar um ambiente mais realista, colocando 4 altifalantes em torno do ouvinte (surround), mas esta solução só seria viável comercialmente em finais dos anos 90 com a introdução do DVD Vídeo, DVD Audio e Super Audio Compact Disc, numa versão de 5 colunas mais um sub woofer.
Devido aos altos custos de produção e das aparelhagens reprodutoras, o sistema foi abandonado sendo feitas só umas poucas gravações neste sistema.

Na década de 70, assiste-se ao aparecimento da gravação digital, usando a técnica “PCM”, Pulse Code Modulation, num gravador de vídeo profissional, isto conseguido pela “Nippon Columbia” .
Em finais da década a Sony e a Phillips aliaram-se para desenvolver um disco digital de apenas 11,5 cm de diâmetro e com a duração de uma hora de um só lado. Em 1983, começou a comercialização deste suporte digital com o nome de Compact Disc, ou simplesmente CD.

O CD era anunciado como o “som superior e eterno”, pois os fabricantes afirmavam que o disco não sofria desgaste, já que não era tocado por nenhuma agulha como no vinil, e por ser digital o som era de “superior qualidade”.
Mas dez anos depois, o CD, ainda não se tinha conseguido impor, pois a qualidade do som era inferior ao disco de vinil e sofria dos mesmos problemas de manuseamento: era preciso ter cuidado para não riscar a face gravada, e os leitores de CD sofriam de “microfonia”, ou seja captavam as vibrações da energia acústica emanada pelas colunas, tal e qual uma agulha de gira-discos.
O CD só acabou por se impor, não pelas suas “qualidades” mas porque era mais barato fabricar CDs do que discos de Vinil e assim os velhinhos LPs deixaram de ser fabricados em massa, no inicio dos anos 1990.
Paralelamente ao lançamento do CD, com a entrada na era da gravação digital, havia que pensar na substituição das velhas cassetes e bobines de fita analógica. Trabalhando agora em campos separados a Philips e a Sony, apresentam duas soluções de gravação doméstica digital.
A Philips apresenta a sucessora da cassete analógica , a“D.C.C”., Digital Compact Cassete. Este suporte era igual às cassetes analógicas mas de gravação digital e os gravadores de DCC até podiam ler as cassetes analógicas. Não teve sucesso comercial e a Philips deixou de comercializar este suporte em meados dos anos 90.
A Sony apresenta, em finais da década de 80, o “D.A.T.”, Digital Audio Tape, uma cassete totalmente diferente e de qualidade de som superior ao CD, mas devido ao seu preço e à falta de cassetes DAT pré-gravadas, apenas conheceu sucesso nos meios profissionais.

Após o fracasso comercial do DAT a Sony apresenta em 1993 um suporte digital novo, com uma qualidade próxima da de um CD: O Mini-Disc.
O Mini-Disc apresentou-se como uma alternativa viável à cassete analógica, que nos anos 90 era ainda o suporte mais popular, acesso directo a faixas, regravável um milhão de vezes sem perda de qualidade, digital, etc.. Este suporte depressa ganhou adeptos, até porque o CD gravável ainda não era uma opção ao alcance de todos. Naquela altura os CD-R só gravavam uma vez, eram caros, assim como o equipamento que os gravava. Os CD-RW, apareceram depois, mas ainda eram mais caros.
O CD em 1994, sofre uma melhoria, embora esta “melhoria” não seja consensual, com a introdução do “H.D.C.D.”, “High Definition Compatible Digital”, um sistema da americana “Pacific Microsonics, Inc.”. Quando os discos são gravados com este sistema soam melhor em leitores de CD convencionais, e os leitores HDCD tiram melhor partido das gravações em CDs normais, o ideal era o disco e o leitor serem HDCD.

Com o abandono da DCC, por parte da Philips, esta começou a comercializar gravadores de CDs, fazendo concorrência ao MD, mas ainda assim sem grande sucesso pois a gravação de CDs estava dominada pelos computadores. Por esta altura a cassete analógica ainda cá estava.
Em 1996, aparece um suporte novo de vídeo que traz uma novidade em som: o Surround.
O “D.V.D.”, Digital Versatile Disc, foi a tecnologia que mais rapidamente teve sucesso junto dos consumidores, enquanto o CD demorou cerca de quinze anos para se impor, o DVD apenas precisou de três.
O DVD-Video, trazia a novidade do surround, cinco canais de som independentes e mais um de baixas frequências, traziam para casa o som do cinema. Neste suporte três formatos de som eram concorrentes: o Doldy Digital; o DTS e o MPEG multichanel.
O MPEG multichanel depressa foi abandonado, mantendo-se o Doldy Digital e o DTS como formatos concorrentes.
O aparecimento do DVD-Video trouxe de novo à tona as deficiências do CD, numa altura em que os discos de vinil voltavam a aparecer nas prateleiras das discotecas, talvez por nostalgia ou porque ainda se fabricavam gira-discos. Isto fez com que Philips e Sony se juntassem outra vez para criar o sucessor do CD, já que se falava do DVD-Audio, para sucessor do CD ; esta “reunião” fez surgir o “S.A.C.D.”, Super Audio Compact Disc”.
O DVD-Audio é uma melhoria em relação ao CD, tem melhor som e é multicanal, mas a gravação ainda é em PCM, como há 30 anos.
O SACD é também um salto qualitativo em relação ao CD e um passo à frente do DVD-Audio, pois grava em “D.S.D.”, “Direct Stream Digital”, que é um avanço em relação ao PCM.
Enquanto os sistemas de alta definição tentam ganhar posição no mercado, formatos baseados em computador e fortemente comprimidos, como o mp3 , ganham terreno principalmente nos consumidores mais jovens. A Internet proporcionou isso mesmo. Mas afinal o que é o mp3 ?

O MP3 (MPEG-1/2 Audio Layer 3) foi um dos primeiros tipos de compressão de áudio com perdas imperceptíveis ao ouvido humano. O método de compressão usado no MP3 consiste em retirar do áudio tudo aquilo que o ouvido normalmente não conseguiria perceber, devido ás limitações da audição próprias do ser humano que tentaremos explicar mais à frente.
MP3 é a abreviatura de MPEG 1 Layer-3 (camada 3). As camadas referem-se ao esquema de compressão de áudio do MPEG-1. Foram projectadas em número de 3, cada uma com finalidades e capacidades diferentes. Enquanto a camada 1, que dá menor compressão, se destina a utilização em ambientes de áudio profissional (estúdios, emissoras de TV, etc) onde o nível de perda de qualidade deve ser mínimo devido à necessidade de reprocessamento, a camada 3 destina-se ao áudio que será usado pelo cliente final. Como se espera que esse áudio não sofra novos ciclos de processamento, isto é, não sirva para fazer mais cópias, a compressão pode ser menos exigente e aproveitar melhor as características psico acústicas do som limitando-se apenas às frequências que o ser humano detecta..
A compressão típica da camada 1 é de 4 para1 a camada 2 é de 8:1 enquanto a da camada 3 é de 11 para 1. É importante lembrar que essa diferença da compressão não tem nada a ver com uma camada ser mais avançado que a outra tecnologicamente
Após o êxito mundial da Internet, o MP3 causou grande revolução no mundo do entretenimento. Assim como o LP de vinil, a cassete de áudio ou o CD, o MP3 fortaleceu-se como um popular meio de distribuição de músicas. A questão chave para entender todo o sucesso do MP3 baseia-se no facto de que, antes dele ser desenvolvido, uma música no computador era armazenada no formato WAV, que é o formato padrão para arquivo de som em PCs, chegando a ocupar dezenas de megabytes no disco do computador
As taxas de compressão alcançadas pelo MP3 chegam a até 12 vezes, dependendo da qualidade desejada. Para fazer isso o MP3 utiliza, além das técnicas habituais de compressão, estudos das limitações e imperfeições da audição humana.
Como tínhamos prometido, vamos dar uma ideia do que significam as limitações do ouvido humano:
Faixa de frequência audível humana: O ouvido humano, devido às suas limitações físicas, é capaz de detectar sons numa faixa de frequência que varia de 20 a 20.000 Hz, Desta forma, não faz sentido armazenar dados referentes a sons fora desta faixa de frequência, pois ao serem reproduzidos, os mesmos não serão percebidos por um ser humano. Esta é a primeira limitação da audição humana do qual o sistema MP3 faz uso para alcançar altas taxas de compressão.
Limiar de audição na faixa de frequência audível: Outro factor utilizado pela codificação MP3 é a curva de percepção da audição humana dentro da faixa de frequências audíveis, ou limiar de audição. Apesar da faixa de audição humana variar entre 20 e 20.000 Hz, a sensibilidade para sons dentro desta faixa não é uniforme. Ou seja, a percepção da intensidade de um som varia com a frequência em que este se encontra. Desta forma, o MP3 utiliza-se desta propriedade para obter compressão em arquivos de áudios..
Mascaramento em frequência e mascaramento temporal: O mascaramento em frequência ocorre quando um som que normalmente poderia ser ouvido é mascarado por outro, de maior intensidade, que encontra-se em uma frequência próxima. Ou seja, o limiar de audição é modificado (aumentado) na região próxima à frequência do som que causa o ocorrência do mascaramento, sendo que isto se deve à limitação da percepção de frequências do ouvido humano. O mascaramento em frequência depende da frequência em que o sinal se encontra, podendo variar de 100Hz a 4 KHz. Em função deste comportamento, o que o método de compressão do MP3 faz é identificar casos de mascaramento em frequência e descartar sinais que não serão audíveis devido a este fenómeno.
E de electrónica já chega por hoje.

6.5.10

OS SEGREDOS DA CAPELA SISTINA

Na etiqueta “ enigmas da antiguidade” temos tratado de variados casos de civilizações antigas, sem nunca afirmar que somos detentores da verdade absoluta e será nessa linha de pensamento que abordamos “os segredos da Capela Sistina “, de acordo com o livro com o mesmo título, de Roy Doliner e Benjamin Blech e de uma entrevista dada pelos autores à revista de história Clio.
Entender Roma é perceber que ela é uma cidade repleta de segredos, com mais de três milénios de mistérios, e não há nenhuma parte de Roma que encerre mais segredos do que o Vaticano. O próprio nome “Vaticano” tem uma origem surpreendente : há mais de 28 séculos, antes mesmo da lendária fundação de Roma por Rómulo e Remo, vivia naquele local um povo chamado Etrusco. Tal como os hebreus e os romanos, os etruscos não enterravam os seus mortos dentro dos muros das cidades. Por este motivo, construíram um cemitério enorme numa encosta de uma colina local onde, mais tarde, se viria a edificar a cidade de Roma. O nome da deusa etrusca pagã que protegia a necrópole, ou cidade dos mortos, era Vatika.
Vatika tem vários outros significados em etrusco antigo. Era o nome de uma uva de gosto amargo que crescia naturalmente na encosta, usada pelos camponeses no fabrico do vinho que adquiriu a má fama de ser um dos piores e mais ordinários do mundo antigo. Era ainda o nome de uma erva estranha que crescia naturalmente na encosta do cemitério e que, quando ingerida, provocava alucinações e delírios. Mais tarde, nesse local foi construído o circo de Nero, o imperador louco. Foi neste circo, segundo a tradição da igreja, que São Pedro foi executado, crucificado de cabeça para baixo, e enterrado numa área próxima. Este local tornou-se o lugar de visitação de um número tão grande de peregrinos que o imperador Constantino, ao converter-se parcialmente ao cristianismo, fundou um santuário na zona que os romanos continuaram a chamar de colina Vaticana. Um século depois de Constantino, os papas começaram também a erguer neste lugar o palácio papal. Coincidências ou um lugar de atracção negativa?
O que significa “Vaticano” nos dias de hoje? Pode referir-se à Basílica de São Pedro; ao Palácio Apostólico dos Papas, com mais de 14 mil aposentos; ao complexo dos Museus Vaticanos com mais de 2 mil salas; à sede da hierarquia político-religiosa de cerca de um quinto da população humana ; ao menor país do mundo, a Cidade do Vaticano. É de facto estranho se pensarmos que o menor país do planeta, com uma área aproximada de um oitavo do Central Park de Nova York, abriga a maior e mais valiosa igreja do mundo, o maior e mais sumptuoso palácio do planeta e um dos maiores museus da Terra.
O local mais fascinante de todos, porém, está provavelmente situado dentro dos muros da antiga fortaleza da Cidade do Vaticano, cujo significado simbólico quase todos os visitantes ignoram. A sua importância teológica pode ser melhor compreendida se percebermos que esta realização católica era algo expressamente proibido aos judeus. No Talmude, é claramente proíbido a qualquer pessoa construir uma réplica, em tamanho real, do Templo Sagrado de Jerusalém , noutro local que não seja o próprio monte do Templo . Esta lei foi decretada para impedir sangrentos cismas religiosos, como os que aconteceram mais tarde no Cristianismo (entre o catolicismo romano, a ortodoxia oriental e grega e o protestantismo) e, no Islão, entre sunitas e xiitas. Porém,há seis séculos, um arquitecto católico que não estava sob o jugo das leis talmúdicas fez exactamente o que era proibido ; desenhou e construiu uma incrível cópia em tamanho real do compartimento mais recondito do Templo Sagrado do rei Salomão . Para chegar às medidas e proporções exactas, o arquitecto estudou os escritos do profeta Samuel da Bíblia Hebraica, nos quais ele descreve o primeiro Templo. Esta reprodução maciça do heichal, a parte posterior do primeiro Templo, ainda existe hoje e é chamada Capela Sistina, sendo o destino de mais de quatro milhões de visitantes por ano que vêm para ver os incríveis afrescos de Miguel Ângelo e reverenciar um local sagrado do cristianismo. Terá sido de propósito a construção desta capela ? É que antes da criação desta réplica do heichal do Templo Sagrado de Jerusalém existiu, durante a Idade Média, uma outra capela exactamente no mesmo local. Era chamada Capela Palatina, ou Capela Palaciana. A justificação para a nova construção foi a seguinte: como todos os governantes europeus tinham suas próprias capelas reais para rezar em privado , julgou-se necessário que o Papa também tivesse uma em seu próprio palácio. O objectivo era mostrar o poder da Igreja que tinha de ser visto como maior que o de qualquer soberano secular. A Igreja estava determinada a provar que era o novo poder reinante na Europa e esperava espalhar a cristandade, ou seja, o império do cristianismo, por todo o globo. Esta capela foi projectada para ser um indício da glória e do triunfo futuros, e por isso o Papa desejava que a sua opulência ofuscasse todas as outras capelas reais da Terra.
Além da magnífica capela Palatina, existia também a Niccolina, uma pequena capela particular estabelecida pelo papa Nicolau V, em 1450, decorada pelo grande pintor renascentista Frei Angelico. Esta é uma pequena sala numa das partes mais antigas do Palácio Papal, com a capacidade de abrigar o Papa e alguns de seus assessores pessoais. Voltemos á história da construção da Capela Sistina !
A história tem início com o pontífice Sisto IV que desejou que a capela fosse ainda maior e mais rica que a Capela Palatina, com a única finalidade do seu nome vir a ser recordado como Papa. O nome de baptismo de Sisto era Francesco della Rovere. Nascido numa família humilde do noroeste da Itália, numa cidade próxima a Génova,o sacerdócio foi o seu caminho natural, pois quando jovem tinha inclinação intelectual, mas nenhum dinheiro para frequentar uma universidade. Tornou-se monge franciscano e aos poucos galgou os degraus da escada administrativa e educacional da Igreja, e por fim chegou a ser cardeal em Roma, no ano de 1467. Foi eleito Papa sem muito alarde por um conclave de apenas 18 cardeais e adoptou o nome de Sisto IV.
Quando o papa Sisto IV iniciou seu reinado em 1471, a Capela Palatina corria o risco de desmoronar. Era uma construção pesada, assente em um local perigoso, o solo mole do antigo cemitério etrusco da encosta da colina Vaticana. Curiosamente, esta situação simbolizava perfeitamente a crise da própria igreja quando Sisto assumiu o poder pois ,apenas 18 anos antes, Constantinopla caíra nas mãos dos muçulmanos, marcando a morte do Império Cristão Bizantino. Muitos temiam que Roma pudesse sofrer o mesmo destino de Constantinopla.
Apesar de todas estas ameaças à existência do cristianismo, Sisto IV gastou grandes quantidades do ouro do Vaticano na revitalização dos esplendores de Roma, reconstruindo igrejas, pontes, ruas, fundando a Biblioteca Vaticana e começando uma colecção de arte que se tornaria no Museu Capitolino, hoje o mais antigo do mundo em funcionamento. O seu projecto mais famoso, porém, foi a reconstrução da Capela Palatina. Há muito sobre a história da Capela Sistina que parece obra do destino. Segundo as fontes mais confiáveis, o trabalho de renovação da capela teve início em 1475. Neste mesmo ano, na cidade toscana de Caprese, nascia Michelangelo Buonarroti, ou Miguel Ângelo. Seus destinos unir-se-iam ainda mais fortemente uns anos mais tarde. O papa Sisto IV decidiu não apenas reconstruir a capela papal decadente, mas aumentá-la e torná-la mais sumptuosa pois, como já dissemos, desejava que todos recordassem a sua passagem pela cadeira de S. Pedro. Para isso contratou um jovem arquiteto florentino de nome Bartolomeo(“Baccio”) Pontelli. A especialidade de Pontelli era a construção e o reforço de fortalezas. Isto era especialmente importante para Sisto IV, pois o pontífice tinha tanto medo dos muçulmanos turcos quanto das turbas católicas de Roma. Foi então desenhado o projecto de uma capela enorme, maior que a maioria das igrejas, com um bastião de fortaleza no topo para a defesa do Vaticano.
Talvez nunca saibamos ao certo de quem foi a idéia de construir a Capela Sistina como uma cópia do Templo Sagrado dos judeus mas Sisto IV, instruído nas Escrituras, conhecia as dimensões exactas, encontradas nos escritos sobre o profeta Samuel no segundo Livro dos Reis. Com isto em mente, talvez se tenha sentido ansioso para dar expressão concreta ao conceito teológico de “sucessionismo”, idéia que significa que uma fé pode substituir outra anterior que deixou de ter efeito . A crença, segundo o sucessionismo, era a de que as filosofias pagãs greco-romanas foram substituídas pelo judaísmo que, por sua vez, fora superado pela Igreja Católica, a fé verdadeira que invalidava todas as outras. O Vaticano pregava que os Judeus, por terem morto Jesus e rejeitado os seus ensinamentos, foram punidos com a perda de seu Templo Sagrado, da cidade de Jerusalém e também da sua terra natal. Além disso, teriam sido condenados a vaguear pela Terra para sempre, como um alerta divino a todos que se recusassem a obedecer a Igreja. ( Este ensinamento foi rejeitado e proibido categoricamente no Segundo Concílio do Vaticano de 1962)
Independentemente de quem teve a idéia, a nova Capela Palaciana foi elaborada para substituir o antigo templo judeu, na qualidade de novo Templo Sagrado da Nova Jerusalém que, a partir de então ,seria a cidade de Roma, a capital do cristianismo. Suas medidas são 40,93 metros de comprimento por 13,41 de largura e 20,70 de altura, exactamente como as da secção posterior retangular e longa do primeiro Templo Sagrado, completado pelo rei Salomão .Um facto ainda mais notável que a maioria dos visitantes não percebe, é que em conformidade com a intenção de reproduzir o local sagrado que existia na antiga Jerusalém, o santuário foi construído em dois níveis. A metade ocidental, que abriga o altar e a área particular destinada ao papa e seu séquito, tem cerca de 15 centímetros a mais de altura do que a metade oriental, originalmente reservada aos espectadores comuns. Esta secção mais alta corresponde ao recesso mais recôndito do Templo Sagrado original, o Kodesh Kodoshim, o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote podia entrar, e somente uma vez ao ano, no Yom Kippur, o Dia da Expiação ou Dia do Perdão. O sumo sacerdote passava simbolicamente pela parochet, a cortina espessa e decorada de linho torcido, chamada pelos evangelhos de véu, para fazer as orações de grande importância pelo perdão e pela redenção do povo. Para mostrar exactamente onde este véu era localizado no Templo de Jerusalém, foi construída na capela do Vaticano uma enorme parede divisória de mármore branco em forma de grade, com sete “chamas” de mármore no topo, para corresponder à menorá sagrada, o candelabro de sete braços que iluminava o santuário judeu nos templos bíblicos. Coincidência ou intenção ? Mas há mais !
O tecto original da capela Sistina era ilustrado com um tema simples, comum em muitas sinagogas: um céu nocturno pontilhado de estrelas douradas. A cena era uma alusão ao sonho que Jacob teve enquanto dormia sob as estrelas (Génesis 28: 11-19), logo após fugir da casa de seu pai. Ao fazer esta referência simbólica à história do sonho de Jacob, o tecto expressava outra ligação com o Templo Sagrado de Jerusalém.Para tornar a capela ainda mais singular, foi dada grande atenção também ao seu piso. Trata-se de uma obra-prima impressionante que geralmente passa despercebida aos olhos do visitante comum, pois a sua visão é encoberta pelos pés de milhares de turistas e ignorada por causa dos afrescos do tecto, mundialmente conhecidos. O piso é uma retoma, no século XV, do estilo medieval de mosaico cosmatesco.( A família Cosmati desenvolveu sua técnica inconfundível em Roma nos séculos XII e XIII.) Este estilo decorativo era uma criação imaginativa de formas geométricas e de espirais ,em peças cortadas de mármore e vidro colorido ,muitas delas retiradas de templos e palácios romanos pagãos. Há exemplos maravilhosos destas decorações e assoalhos cosmatescos autênticos em alguns dos conventos e das igrejas e basílicas mais antigas e belas em Roma e no sul da Itália. É de consenso geral que estes assoalhos muito especiais eram apreciados não apenas por sua beleza e riqueza de cores e materiais, que incluíam o pórfiro roxo, de valor inestimável, mas também por sua espiritualidade esotérica. Muito já se escreveu sobre estes mosaicos, e disso já se ocuparam teólogos, arquitectos e até mesmo matemáticos. Em parte, os mosaicos conferem a qualquer santuário uma sensação de espaço, ritmo e fluidez de movimento mas também servem como instrumento de meditação, de maneira semelhante aos labirintos comuns nas igrejas da Idade Média. O desenho do piso da Sistina foi elaborado para servir a quatro funções principais. Primeiro, embeleza a capela com uma graça toda especial ; Segundo, ajuda arquitectonicamente a definir o espaço, ao mesmo tempo em que o alonga e dá a sensação de fluidez de movimento. Em terceiro lugar, “dirige” os movimentos e a ordem dos ritos durante uma missa da corte papal, mostrando onde o papa deve se ajoelhar, onde a procissão deve parar durante o canto de certos salmos e hinos, onde os celebrantes do serviço religioso devem ficar, onde o incenso deve ser colocado, entre outras coisas. Por fim, a função menos conhecida de todas é de instrumento de meditação cabalística, que mais uma vez liga a capela às fontes judaicas antigas. Dentro dela, há uma gama variada de símbolos místicos: as esferas da Árvore da Vida, os caminhos da alma, as quatro camadas do universo e os triângulos de Filo de Alexandria.
Cabala significa literalmente em hebraico “aquilo que se recebe”, e refere-se às tradições místicas que compreendem os segredos da Torá, as verdades esotéricas que revelam o conhecimento mais profundo do mundo, da humanidade e do Todo-Poderoso. Filo era um místico judeu de Alexandria, no Egipto, que escreveu dissertações sobre a Cabala no século I da era cristã. Ele é normalmente considerado o elo central entre a filosofia grega, o judaísmo e o misticismo cristão. Seus triângulos apontam para cima ou para baixo para mostrar o fluxo de energia entre a acção e a recepção, o masculino e o feminino, Deus e a humanidade, o mundo inferior e o superior.
Uma outra ligação com o templo judeu é o facto notável de que o Selo de Salomão é um símbolo recorrente nos pisos cosmatescos, e encontrado nos desenhos do piso da Capela Sistina. Este símbolo era considerado a chave para a sabedoria esotérica antiga dos judeus. O selo, composto de uma combinação dos dois triângulos de Filo sobrepostos, apontando para cima e para baixo, é chamado hoje de Estrela de David. A estrela é praticamente um emblema universal do judaísmo, e foi escolhida para ser a figura central da bandeira do estado moderno de Israel. Porém, no final do século XV, ainda não era um símbolo representativo do povo judeu, mas de seu conhecimento místico arcaico.
O entendimento do significado mais profundo do selo enquanto parte da Capela Sistina requer uma contextualização. A evidência arqueológica mais antiga do uso judeu deste símbolo é a de uma inscrição atribuída a Josué ben Asayahu no final do século VII a.C. A lenda por detrás desta associação com o rei Salomão – e daí o seu outro nome, Selo de Salomão – é bastante fantasiosa e muito provavelmente falsa. Nas lendas medievais judaicas, muçulmanas e cristãs, assim como em um dos contos das Mil e Uma Noites, o Selo de Salomão, com seu formato hexagonal, era um anel-sinete mágico que supostamente pertencera ao rei e que lhe concedia o poder sobre os demónios (ou jinni), ou de falar com os animais. Segundo alguns pesquisadores, a razão pela qual este símbolo é mais comumente atribuído ao rei David é porque o hexagrama representa a carga astrológica da hora do nascimento de David ou de sua unção como rei. Porém, o significado mais profundo e certamente o mais correcto é a interpretação mística que o associa ao sete, o número sagrado, com suas seis pontas ao redor de seu centro.
O número sete tem uma importância religiosa especial no judaísmo. Na Criação, temos os seis dias seguidos do sétimo, o Sabát, o dia de descanso declarado santo por Deus e dotado de uma bênção singular. Todo o sétimo ano é um ano sabático, no qual a terra não pode ser cultivada, e após sete ciclos de sete anos, o ano Jubileu traz liberdade aos que tinham sido vendidos como escravos e aos que se tornaram escravos por causa de dívidas, e o retorno das propriedades aos seus donos originais. Porém, o facto mais importante de todos para a compreensão do significado do uso do número sete nos mosaicos do chão da Capela Sistina é a sua ligação com a menorá do antigo Templo, cujas sete lâmpadas de óleo se apóiam em três braços que saem de cada lado de uma haste central. Já foi sugerido que a Estrela de David se tornou um símbolo padrão nas sinagogas justamente por ser elaborada segundo o esquema 3+3+1: um triângulo para cima, um para baixo e o centro; e isto corresponde precisamente à estrutura da menorá..
Entretanto, graças a artistas, como os da família Cosmati e Michelangelo, o simbolismo judeu continuaria a ser conhecido cada vez mais, por meio de todas as suas obras mais famosas. O segredo mais estranho da capela mais católica do mundo é que o mosaico gigante de seu chão está repleto de Estrelas de David.
AS APARÊNCIAS ENGANAM nos afrescos originais do século XV
A atracção principal da Capela Sistina , porém, não é nem o seu chão nem o seu tecto, mas as suas paredes. Partindo da parede frontal do altar, começam duas séries de painéis – uma sobre a vida de Moisés e outra sobre a de Jesus, duas histórias bíblicas contadas de maneira semelhante ao formato de histórias em quadrinhos.
Para pintar tantos afrescos de execução tão trabalhosa, foi trazida uma equipe formada pelos principais pintores de afrescos do século XV. Se quisermos ser mais precisos, diríamos que a equipa foi enviada. É importante saber disso por causa de quem os enviou, ou seja, Lorenzo de Medici, o homem mais rico de Florença ,o mesmo homem que mais tarde descobriria Miguel Angelo e o criaria como um de seus filhos.
O papa Sisto IV odiava Lorenzo e sua família, e lutara contra eles durante muitos anos. Sisto desejava tomar o controle de Florença, capital do livre-pensamento, e de grande riqueza, para que pudesse então assumir o controlo de toda a Itália central. Em 1478, o papa tentou eliminar Lorenzo e todo o clã dos Medici de uma vez por todas,planeando assassinar Lorenzo e seu irmão Giuliano ,na Catedral de Florença, em frente ao altar principal, durante a missa de Páscoa. O elemento mais blasfemo do plano era o sinal escolhido para marcar o momento da matança: a elevação da hóstia. Até mesmo assassinos profissionais de sangue frio recusaram este trabalho, e o papa teve de contar com a ajuda de um padre e do arcebispo de Pisa. Estes dois trataram dos detalhes juntamente com Girolamo Riario, o sobrinho mais corrupto de Sisto. O papa se recusou a ouvir os pormenores, dizendo de maneira evasiva: “Façam o que for necessário, contanto que ninguém seja morto”. Entretanto, ele ordenou ao seu líder militar Federico da Montefeltro, o duque de Urbino, que reunisse 600 soldados nas colinas ao redor de Florença e esperasse pelo sinal da morte de Lorenzo. O ataque vergonhoso seguiu conforme o planeado… até certo ponto. Giuliano de Medici morreu no local, ferido com 19 punhaladas mas Lorenzo, embora ferido gravemente, conseguiu escapar por um túnel secreto e sobreviveu. O sinal para a invasão de Florença nunca foi dado. Os florentinos enfurecidos, ao invés de se levantar contra o clã Medici, como Sisto IV esperava, assassinaram os conspiradores. Foi necessário que o próprio Lorenzo intercedesse pessoalmente para que os cidadãos não matassem o cardeal Raffaele Riario, outro sobrinho do papa que não tivera nenhum envolvimento no golpe. Dois anos mais tarde, o papa cedeu e o Vaticano e Florença declararam uma trégua. Foi exactamente nesta ocasião que a nova capela estava pronta para ser redecorada.
Por que razão Lorenzo enviou então os seus pintores mais talentosos para decorar a capela, glorificando o homem que matara o seu irmão e tentara também assassiná-lo? Segundo as fontes oficiais, este gesto foi uma “oferta de paz”, um acto de perdão e reconciliação. Porém, a explicação oficial é talvez outra e é essencial para se entenderem as mensagens dos afrescos, de conteúdo nem um pouco conciliatório.
Lorenzo de facto enviou a elite artística: Sandro Botticelli, Cosimo Rosselli, Domenico Ghirlandaio, que mais tarde seria professor de Michelangelo por um breve período, e Perugino, pintor da Umbria, que posteriormente seria mestre de Rafael. Além de ter de revestir todas as quatro paredes da capela com as séries de painéis sobre a vida de Moisés e a de Jesus, eles foram encarregados de acrescentar uma faixa superior de pinturas retratando os primeiros trinta papas e também um grande afresco da Assunção da Virgem Maria ao Céu na parede frontal do altar, entre as duas janelas. Com tantos afrescos a executar, a equipe de artistas posteriormente trouxe Pinturicchio, Luca Signorelli, Biagio d’Antonio e alguns assistentes. Todos eles eram florentinos orgulhosos, com exceção de Perugino e seu pupilo Pinturicchio.
O papa planejara o seu próprio desenho com várias camadas de simbolismo para a capela. Este tinha o objectivo de ilustrar o sucessionismo para o mundo, como já afirmamos, provando que a Igreja era a herdeira legítima do monoteísmo, por substituir o judaísmo. Para atingir este intento, cada painel da história de Moisés foi emparelhado com um da história de Jesus. A série de painéis de afrescos da parte norte narra a vida de Jesus, da esquerda para a direita, na ordem cristã. A série da parte sul conta a história de Moisés, mas da direita para a esquerda, na ordem hebraica. Esta disposição resultou em oito “pares”:
A descoberta de Moisés bébé no Nilo O nascimento de Jesus na manjedoura
A circuncisão do filho de Moisés O baptismo de Jesus
A ira de Moisés e sua fuga do Egipto As tentações de Jesus
A separação das águas do mar Vermelho O milagre de Jesus caminhando sobre as águas
Moisés no monte Sinai O sermão da montanha de Jesus
A revolta de Coré Jesus entregando as chaves a Pedro
O último discurso e morte de Moisés A última ceia de Jesus
Anjos defendendo o túmulo de Moisés Jesus ressurgido do túmulo
Algumas das “ligações” requerem um esforço de imaginação, mas a idéia era demonstrar que a vida de Moisés serviu apenas para prenunciar a vida de Jesus.
Um outro objectivo do papa era promover o culto da Virgem Maria. Sisto IV queria dedicar a capela à Assunção de Maria ao Céu, celebrada todos os anos no calendário católico no dia 15 de Agosto. Por este motivo, Perugino pintou o afresco gigante da subida de Maria ao Céu na parede do altar, retratando o próprio papa Sisto IV ajoelhado diante dela.
O último desejo do papa – e provavelmente o mais caro ao seu coração – era glorificar e solidificar a sua própria autoridade suprema e a de sua família Rovère. O papado ainda se refazia de séculos de cismas, escândalos, antipapas, intrigas e assassinatos. Havia apenas cinquenta anos que a corte pontifícia retornara a Roma, após o assim chamado “exílio babilónico” dos papas em Avignon, na França. O papa Sisto estava ansioso para demonstrar não só a supremacia do cristianismo sobre o judaísmo e da autoridade divina dos papas sobre o mundo cristão, como também a sua superioridade pessoal sobre todos os papas que o precederam. Foi por esta razão que, por sua ordem, Aarão, o primeiro sumo sacerdote dos judeus, e Pedro, o primeiro papa, foram vestidos de roupas azuis e douradas, as cores heráldicas da família della Rovere. É por isso também que a capela está repleta de desenhos de carvalhos e bolotas em todos os cantos: “rovere” significa “carvalho”, e esta árvore é o símbolo do brasão da família. Pelo mesmo motivo, Sisto também colocou o seu próprio retrato acima da série de pinturas dos primeiros trinta papas, bem no centro da parede frontal, junto à Virgem Maria no Céu.
Com isto em mente, voltemos à nossa questão: por que Lorenzo enviou os seus melhores artistas a Roma para executar este trabalho de auto-engrandecimento do homem que tramara contra ele e sua família? Conforme alguém demonstrou, a resposta é simples: para sabotar a amada capela de Sisto IV.
Muito provavelmente, foi Botticelli o agitador e coordenador do grupo do projecto de pintura dos afrescos. Os textos oficiais sobre a Capela Sistina apontam Perugino como o líder, mas uma análise rápida demonstra que ele – o único que não era de Florença – não fazia parte da trama. Seu estilo e esquema de cores são completamente diferentes de todos os outros painéis, e o seu simbolismo não contém nenhuma mensagem antipapal; ao passo que, por toda a capela, os outros artistas parecem livres para dar vazão às suas críticas.
Cosimo Rosselli tinha um cachorrinho branco que se tornou o mascote dos artistas da Toscana. Não sabemos se permitiam que o cachorro brincasse dentro da capela enquanto os pintores trabalhavam, mas podemos vê-lo fazendo travessuras em todos os painéis de afrescos, exceto os de Perugino, da Umbria. Na Última Ceia, ele aparece saltando junto aos pés de seu dono. No afresco Adoração do Bezerro de Ouro, ele parece na verdade estar saindo do painel e entrando na capela.
Temos que admitir que a presença de um cachorro no santuário não é um grande insulto, e não é mais que uma possível impureza ritual. Porém, os florentinos inseriram imagens bem mais fortes em seus trabalhos para seu ajuste de contas com o papa. Botticelli era quem tinha o maior ressentimento. Após a execução dos conspiradores que atacaram os irmãos de’ Medici, Botticelli fizera um afresco mostrando seus cadáveres pendurados na catedral para exibição pública. Esta pintura continha legendas sarcásticas atribuídas ao próprio Lorenzo de Medici. Como parte do tratado de paz oficial entre o Vaticano e Florença em 1480, Sisto insistiu para que este afresco fosse totalmente destruído. Botticelli certamente não estava inclinado a esquecer ou perdoar isso. Por esta razão, em seu painel da Fuga de Moisés do Egipto, ele inseriu um carvalho – o símbolo da família della Rovere – acima das cabeças dos arruaceiros pagãos que Moisés afugenta. Perto dos carneiros inocentes e da visão sagrada da Sarça Ardente, colocou uma laranjeira com um cesto de laranjas, o símbolo da família florentina Medici. Na Revolta de Coré, Botticelli vestiu o rebelde Coré de azul e dourado, as cores do clã della Rovere, e bem ao fundo retratou dois barcos: um naufragado, representando Roma, e um outro navegando tranquilamente, com a bandeira de Florença orgulhosamente tremulando no seu topo. No quadro das Tentações de Cristo, ele inseriu o amado carvalho de Sisto em dois lugares: um junto a Satanás quando este é desmascarado, e outro cortado e pronto para ser queimado no Templo.
Biagio d’Antonio, outro filho orgulhoso de Florença, não queria ser deixado para trás. No seu painel, a Separação das Águas do Mar Vermelho, ele mostra o mau faraó usando as cores da família Rovere e uma construção de aparência suspeita, semelhante à própria capela, sendo tragada pelas águas vermelhas revoltas.
A nova capela, ainda chamada de Palatina, foi consagrada na festa da Assunção de Maria em 15 de agosto de 1483. O papa, orgulhoso, oficiou a cerimônia mas estava totalmente desconhecedor da grande quantidade de insultos secretos contra ele. Faleceu um ano mais tarde, feliz mas sem saber que Lorenzo conseguira ridicularizar a sua intenção de fazer da capela um serviço à egolatria papal.
Visto em retrospectiva, é surpreendente notar o quanto os primeiros artistas puderam agir livremente dentro da Capela Sistina. Entretanto, o verdadeiro mestre das mensagens ocultas surgiria uma geração mais tarde… Miguel Angelo e com muito mais a dizer.
Este mestre realizou uma grande obra na Capela Sistina com a ideia de transmitir uma mensagem de tolerância e amor universal e, ao mesmo tempo, vingar-se do papa Júlio II que fora sobrinho de Sisto IV. Assim, onde Júlio II queria uma imagem de Jesus Cristo, Miguel Ângelo pintou Zacarias, o homem que alertou para existência de sacerdotes corruptos e incentivou os judeus a reconstruir Jerusalém. O artista colocou a cara de Júlio II na figura de Zacarias e vestiu-o com um manto azul e ouro , cores da família do pontifice, e não resistiu a pintar por detrás da figura dois pequenos anjos fazendo um gesto obcesno na nuca do visado.
Na pintura de Adão e Eva no Pecado Original, quem apanha o fruto proibido é Adão e a serpente tem braços e pernas , tal como é descrito no Midrash hebreu. Na arca de Noé esta é representada como uma grande caixa e não como um barco, exactamente como é descrita na Tora ; estão ainda representados dois homens , de gatas, vestidos com as cores dos cidadãos de Roma ,numa forma pura de humilhação.
No grande mural do altar mor , conhecido como Juízo Final, Miguel Ângelo pinta a Virgem Maria como que incomodada com a atitude do Filho para com os pecadores.Neste enorme mural foram incluídos rostos de personagens conhecidos na época como opositores à classe dirigente da Igreja. Num acto de rebeldia , pintou-se a ele próprio na figura de S. Bartolomeu, numa espécie de assinatura que era proibida aos pintores da época. Podemos ainda dizer que para retratar o pecado da avareza pintou um homem com uma bolsa de dinheiro á cintura e junto dela duas chaves cruzadas imitando o emblema do Vaticano, numa crítica mordaz ao Papa Júlio II.
Recordamos haver uma mensagem neste blogue com o título JUIZO FINAL, na etiqueta arquitectura.

1.5.10

Filosofando ou talvez não.

A ÚLTIMA GOTA

Numa noite silenciosa em que o sono se recusava a chegar, ia escutando ,de tempos a tempos, o que me parecia ser o pingar de uma torneira . Reagindo contra o torpor, pensei no que seria da Humanidade se aquele pingo fosse a última gota de água potável existente na Terra.
Na Terra ?!- duvidou o meu ego –Se os humanos tivessem baptizado o planeta a partir de um olhar lançado do espaço , este ter-se-ia chamado Água, pois este elemento é o que se encontra em maioria, à sua superfície. Recordei que neste nosso mundo 97% da água é salgada e dos 3% restantes (de água dita doce) só 1% está á nossa disposição. À disposição não será bem assim, pois mais de metade encontra-se sob a forma de gelo nas zonas polares e a restante anda pelos aquíferos que estamos a esgotar a uma velocidade superior à da taxa natural de recarga.
Ouvi cair mais um pingo mas não me levantei pois o meu pensamento voou para a Química ; a água era apenas uma quantidade enorme de dois átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio. Também pensei que o volume de água do nosso planeta se mantivera sempre inalterado, embora sob várias formas, podendo dizer que a água que os dinossauros beberam é a mesma que hoje cai sob a forma de chuva. Continuei deitado pois não havia problemas!
Mas será ela suficiente para um mundo cada vez mais povoado e industrializado ? Em 2025, calcula-se que dois mil milhões de pessoas viverão em zonas onde a água escasseia. Olá! afinal há problemas.
Quando me ia a levantar para fechar melhor a torneira recordei Bárbara Kingsolver que afirmara: água é vida, é o caldo salgado da nossa origem, o sistema circulatório do planeta, mas o nosso maior medo é a possibilidade de escassez ou excesso de água. Excesso?! Mas isso é óptimo! Como 2/3 do nosso organismo são água e os líquidos vitais são salinos, tal como o oceano, está tudo bem. Além disso, os cientistas garantem que ela não faltará. Não me levantei.
Bárbara Kingsolver falara não só de escassez mas também de excesso de água; Qual seria o problema? De repente fez-se luz: cheias, degelo, furacões, subida do nível dos mares, deslizamentos de terras como na Madeira, tudo provocado pela alteração dos valores padrão da pluviosidade, consequência do aumento da temperatura média do planeta, desflorestação, etc. Voltei a raciocinar em termos de Física: se existem mais moléculas de água no ar quente do que no ar frio geram-se grandes tempestades sobre os oceanos pelo ar quente sobreaquecido pelo efeito de estufa, e uma forte evaporação e consequente seca em regiões interiores.
Já bem acordado pensei: Embora a água brote da terra em fontes e nascentes , o mesmo não acontece aos canos e bombas que a trazem até nós, filtrada e desinfectada e, por tal motivo, temos de a pagar. Ouvi cair mais um pingo. Levantei-me e fui fechar bem a torneira pois me lembrei desta última gota num mundo sedento com o das imagens que se seguem.


Crianças transportando água num solo completamente seco e estéril
Bebendo água de um charco,através de um filtro de impurezas

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