24.1.10

PESCADOR POVEIRO

AS"MARCAS"
E OS APETRECHOS QUE UTILIZA NA SUA FAINA
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"Marcas" (ou siglas), são sinais pintados ou gravados (com navalha ou com a faca da cortiça) nos objectos pertencentes a determinada família.
Cada família tem a sua Marca própria com que identifica os objectos que lhe pertencem, quer em casa quer no trabalho. Vejamos o que, sobre o assunto, nos diz o etnógrafo poveiro Santos Graça no seu livro "O POVEIRO" :
As marcas são a escrita do Poveiro
Têm muita analogia com a escrita egípcia porque constituem imagem de objectos: Sarilho, Coice (imagem de parte da quilha de um barco), Arpão, Pé de galinha, Grade, Lanchinha, Calhorda, Pêna, etc.
.As marcas estão nas redes, nas velas, nos mastros, nos paus de varar, nos lemes, nos bartidoiros, nos boireis, nas talas, nas facas da cortiça, nas mesas, nas cadeiras, em todos os objectos que lhe pertençam, quer no mar, na praia ou em casa.
A marca num objecto equivale ao registo de propriedade.
O Poveiro lê essas marcas com a mesma facilidade com que nós procedemos à leitura do alfabeto.
Não são marcas organizadas ao capricho de cada um, mas antes simbolismos ou brasões de famílias, que vão ficando por herança de pais para filhos e que só os herdeiros podem usar. Estes são, digamos, os brasões de família.
. Vejamos, agora, a forma engenhosa como essa marca serve de escrita a todos os membros duma família, com perfeito conhecimento de toda a comunidade.
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O Chefe usa a marca "brasão" ; o filho mais velho põe-lhe ao lado um pique; o outro a seguir dois piques; o outro três piques e assim sucessivamente até ao filho mais novo, que volta a usar a marca da família, porque é o seu legítimo herdeiro, ao contrário do que acontece com os fidalgos em que o herdeiro é o filho mais velho.
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Estes piques são agrupados de formas diferentes: umas vezes, são alinhados; outras vezes, formam cruzes e estrelas; outras vezes, grades, conforme o número de piques..
Para se conhecer a que filho pertence a marca que nos apresentem, basta contar-se os piques que estão alinhados ou que formas as estrelas, grades ou cruzes que rodeiam o tronco da marca familiar.
.E sendo isto a fórmula corrente, tradicional, fácil é, portanto, a quem conhece o tronco da marca saber a quem pertence o objecto ou apresto marítimo onde a mesma se encontre. .

Os actuais banheiros que atendem os veraneantes que aqui vêm passar a sua época de banhos, são naquase totalidade, descendentes de antigos pescadores ou a eles ligados for fortes laços familiares.
Muitos destes banheiros usam ainda, nos seus pertences da praia de banhos, as marcas que herdaram dos seus avós.
Admito que alguns dos leitores que vivem no Minho e em Trás-os-Montes e mesmo noutras regiões do país, e que optam por passar na Póvoa as suas férias, tenham com os seus banheiros que aqui os atendem, uma ligação que o tempo tornou afectiva, sendo certo que, de pais para filhos, esses veraneantes mantêm tal ligação .
Por mera curiosidade, para esses veraneantes aqui deixo as "marcas" que são os brasões de família desses prestimosos poveiros que aqui os recebem na época balnear:

Na descrição atrás transcrita, Santos Graça utiliza termos que, certamente, não serão do conhecimento de muitas pessoas, porque são nomes de aprestos marítimos usados pelos pescadores poveiros e, portanto, pouco conhecidos de quem não esteja ligado à classe.
.Neste quadro estão representados alguns desses objectos com a indicação dos respectivos nomes. Refiro alguns eventualmente menos conhecidos:ARPÃO....Dardo acerado e farpado, feito de ferro, destinado à pesca de peixes de maiores dimensões, como a toninha. BARTEDOIRO.....Instrumento de madeira, cavado e com asa, que serve para escunchar (esvaziar de água) o barco. Em barcos grandes esta tarefa é executada por bombas.BITOLA....Medida que serve para entralhar as redes.As redes são, obviamente, preparadas em terra. Ao longo de cordas são colocadas rodelas de cortiça, deixando-se entre elas espaços iguais; a bitola serve para marcar a largura desses espaços. Da mesma forma se procede quanto às pedras e chumbos. As cordas são então amarradas às bordas superiores e inferiores da rede por de meio entralhos (pedaços de fio grosso de linho).Lançada ao mar a rede mantém-se verticalmente estendida na água porque da parte de cima é suspensa pelas rodelas de cortiça (cortiçada) que, com o seu poder de flutuação sustentam essa parte da rede à superfície (à tona, como aqui se diz) ao mesmo tempo que as pedras ou chumbo (chumbeiros) que pesam na parte inferior da rede a puxam para baixo. Forma-se assim uma parede em cujas malhas os peixes, no seu contínuo deambular, se enredam e ficam presos.BOIRELRolo de cortiça presa com pinos de madeira que, pelas suas dimensões, tem muito maior capacidade de flutuação que as rodelas, e serve para manter na altura desejada as redes de pesca à sardinha. BÚSSOLA...Instrumento de orientação constituído por uma agulha magnetizada que gira num eixo e aponta sempre o "norte magnético".A versão mostrada no desenho foi um artífice poveiro (Eduardo Pinheiro) que a criou e lhe deu o nome de "agulha de marear", como é aqui designada. Trata-se da utilização da bússola (instrumento de orientação) metida numa caixa de madeira com tampa de correr que a protege da água.Inicialmente a agulha de marear, nesta sua versão com caixa –destinada a ser usada na faina da pesca - era utilizada exclusivamente pelos pescadores poveiros, tendo-se posteriormente divulgado o seu uso em outras comunidades.CUNHA.....Peça de madeira para calçar o mastro.O mastro é mantido ao alto porque apoia a sua base no fundo do barco depois de passar por um dos buracos existentes numa peça-suporte fortemente fixada à proa do barco, mais ou menos à altura da borda. Esta peça, chamada "galeota", contém uma série de buracos ao longo do seu comprimento, e cada um desses buracos determina a inclinação que se pretenda dar ao mastro conforme convenha ao andamento da embarcação.A cunha, colocada à pressão entre o rebordo do buraco da galeota e o mastro, ajuda a mantê-lo fixo. ESPETO....Haste de ferro, pontiaguda, que serve para fazer furos em cortiça.FUSO...Instrumento que serve para torcer o fio.GANHA-PÃO....Saco de rede, de forma afunilada, cosido a um aro de madeira colocado na extremidade duma vara, e que serve para apanhar o peixe que se solta da rede quando esta é alada.MURO...Pequena peça de madeira que serve de medida da malha da rede. ~´E usado em trabalhos de conserto.POITA...Espécie de âncora rudimentar, constituída por uma grande pedra entalada num dispositivo de madeira. A poita é usada quando, no local onde o barco se encontra, existem rochas no fundo do mar havendo, assim, o risco da âncora de ferro (mais valiosa em termos de custo) ficar presa de modo a não poder ser recuperada.POLÉ....Peça de madeira constituída por uma parte plana (leito) situada entre dois braços, um mais longo que outro e tendo na parte da frente um rolo, também de madeira, colocado horizontalmente também entre os braços.O braço mais curto assenta na borda do barco e o mais comprido assenta num banco. A polé serve para auxiliar o alar das redes, que ao serem puxadas a braço para dentro do barco, passam sobre o rolo (que rola sobre o seu eixo) e deslizam sobre o leito da peça facilitando-se assim a sua recolha.Como facilmente se imagina, as redes, molhadas, e ajoujadas pela carga do peixe, têm um grande peso que exige penoso esforço para ser recolhidas.RESSEGA,,,Peça de madeira eriçada com espigões que serve para "engatar" e arrastar redes perdidas no fundo do mar e assim são recuperadas.SARILHO...Instrumento para trabalhar meadas do fio que é utilizado nas redes.ROCA....Instrumento para fiar lã ou linho.TRADO.....Espécie de broca em metal com braço de madeira, para furar cortiça, madeira ou outro material.

( texto extraído do blogue GARATUJANDO com a devida autorização do seu administrador, a quem ficamos agradecidos )

20.1.10

ESCAPAR OU FICAR ?


" A liberdade , Sancho, é um dos bens mais preciosos que os céus nos deram; a ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra e os mares encobrem..." assim falava D. Quixote no conhecido romance de Miguel Cervantes. Desde a célebre prisão Marmetina dos romanos até aos ultramodernos presídios do século XXI, há registos de evasões ou de tentativas de evasão . A fuga mais conhecida da antiguidade é a de Espartacus , um escravo trácio que fugiu da cidade de Capua , no ano 73 antes de Cristo para acabar por reunir 100.000 homens que lutaram contra Roma. Ao longo da Idade Média numerosos personagens continuaram a elaborar fugas memoráveis mas a escassez de documentação faz com que só a partir do século XVI comecem a aparecer fugitivos, com nomes e apelidos. No século XIX aparece uma literatura romanceada de grandes fugas como, por exemplo, no romance " O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Se, neste romance, Edmond Dantès consegue fugir da prisão da ilha de If, ao fim de catorze anos , para se vingar da injustiça contra ele cometida, a realidade pode superar a ficção e as experiências de personagens de carne e osso assim o comprovam. As fugas reais foram praticadas com mestria consumada, onde o engenho, tenacidade e audácia foram requisitos indispensáveis para vencer os obstáculos ,à priori intransponíveis , das masmorras ,das celas solitárias no alto de torres ou sofisticadas prisões de aço e cimento armado. Criminosos, ladrões , prisioneiros de guerra, escravos, plebeus, reis, políticos, etc , todos eles retidos contra a sua vontade e vigiados de perto por outros seres humanos , efectuaram fugas inacreditáveis. São fugas individuais , de pequenos grupos, mas também em massa como a de 600 judeus do campo de extermínio de Sobibor. Outro exemplo é o do castelo de Colditz de onde, durante a 2ª guerra mundial, 32 oficiais aliados conseguiram fugir graças a artimanhas de todo o tipo, incluindo um planador caseiro. Quando o muro de Berlim começou a ser construído (1961) e ainda só era uma cerca de arame farpado, o soldado Conrad Schumann foi designado para guardar essa rede na rua Bernauer. O comunista Schumann, quando se viu sozinho montando guarda, não pensou duas vezes : deitou fora a sua espingarda e saltou a rede de arame farpado para o outro lado sendo esta, na verdade, a primeira fuga da RDA para a liberdade.




O muro cresceu em cimento e em armadilhas tecnológias mas ao longo dos seus 155 Kms, e 28 anos de existência, muitas fugas tiveram lugar . Em 1963, um grupo começou a escavar um túnel de 145 metros de comprimento e 80 cms de diâmetro sob o muro e por ele escaparam 57 pessoas nos dias 3 e 4 de Outubro de 1964. Anos mais tarde , duas famílias cruzaram a fronteira num balão de ar quente , na noite de 16 para 17 de Setembro de 1979. Qualquer evasão comporta riscos de vida , não só dentro do recinto prisional como fora dele. No exterior, o espaço e o tempo são primordiais pois em alguns casos o fugitivo só está a salvo ao fim de milhares de Kms. Em relação ao muro de Berlim nem todos tiveram sorte ; entre 1961 e 1989, 136 pessoas foram mortas, abatidas a tiro ou electrocutadas. Algumas outras fugas podem ter mudado a História. Vejamos alguns exemplos: Se Luis XVI e a sua família não tivessem sido recapturados em Varennes e tivessem passado a fronteira, teria havido a Revolução Francesa ? Haveria República ou teria a França sido sempre uma monarquia? Quando comandos de Hitler libertaram Mussolini da prisão de Abruzzos teriam alterado o rumo da guerra ? Se Winston Churchill, na altura um jovem oficial inglês prisioneiro dos Boers, não tivesse fugido, talvez nunca tivesse atingido o prestígio que o levou a 1º Ministro durante a 2ª Guerra Mundial. Sem ele como ministro a condução da guerra teria sido diferente . Se Álvaro Cunhal não se tivesse evadido do Forte de Peniche, com a conivência comprada de um guarda da GNR, a acção política do PCP teria sido a mesma ? Individuais ou em grupo, fortuitas ou meticulosamente preparadas, recordadas ou silenciadas, triunfantes ou malogradas , as evasões forjaram uma história própria que pode ter tido influência na história colectiva. Pelo que dissemos, podemos perceber que a fuga seja uma" questão de honra" entre os oficiais que se encontrem na situação de prisioneiros de guerra.

17.1.10

VIDA FORA DA TERRA




Durante muitos anos existiu a dúvida de se havia " marcianos " ou outros seres extra terrestres com quem se conseguisse comunicar ou vir a ter uma confrontação bélica. Quando se provou que os "homenzinhos verdes" não existiam, a dúvida virou noutra direcção : será que os outros planetas do nosso sistema solar têm condições para serem habitados pelo homem e haverá neles outras formas de vida ? As investigações ditaram a seguinte sentença : as condições atmosféricas e físicas dos planetas estudados mostram que a vida, tal como a conhecemos, é impossível neles. Alguns possuem temperaturas muito elevadas ou muito baixas, outros atmosferas ácidas ou sulfurosas, sem oxigénio, pressões atmosféricas tremendas.etc. Quando tudo parecia cientificamente provado eis que no nosso planeta Terra se descobrem, em ambientes considerados impróprios , microrganismos que os cientistas apelidaram de extremófilos. Alguns desses organismos hipertermófilos vivem em ambientes aquáticos cuja temperatura ronda os 140º centígrados ; outros habitam locais onde a salinidade é de 9 a 30%,como os halófitos do Mar Morto. Os acidófilos vivem em ambientes de Ph inferior a 3, como nas sulfataras ou em lagoas de antigas minas de pirites ; ao contrário destes os alcalófitos vivem em ambientes de Ph superior a 10. Por incrível que pareça há organismos vivendo dentro do gelo, os psicófilos. E que dizer de seres que vivendo em ambientes sem luz , fazem síntese de alimentos ?Estes ao contrário das plantas usam o H2S em vez da água para a síntese orgânica. Se no nosso planeta existe vida em locais tão adversos , por que não acreditar que ela possa existir em planetas que nos estão próximos? No entanto outro problema se coloca : uma coisa é haver seres vivos em planetas cujos meios ambientes nos são fatais, outra é esses seres terem inteligência para nos poder contactar. Será que em outros sistemas solares, seres como os nossos extremófilos sofreram uma evolução, de unicelulares para pluricelulares e criaram inteligência , como aconteceu entre nós ? Quanto aos célebres OVNI eles não são mais que fenómenos naturais , já explicados e documentados , na quase totalidade dos casos, como balões meteorológicos ,meteoros ou aviões militares de desenho secreto. As enormes distâncias a percorrer e gastos de energia envolvidos levam-nos a afastar a ideia de naves de outros mundos que nos viriam observar, pois do sistema solar mais próximo e viajando á velocidade da luz, demorariam 10 anos a cá chegar. Na hipótese mais que remota disso ter acontecido, o facto de não nos terem deixado provas da sua visita, seria por nos considerarem seres de inteligência inferior, relativamente á sua. Mas a ideia de procurar seres inteligentes no Universo ainda não parou e daí o programa SETI (search for extraterrestrial intelligense) que escuta todas as frequências de rádio vindas de fora da Terra, na certeza de que a rádio não é apenas uma forma barata de comunicação, mas também sinal de civilização tecnológica.



Se só dependessemos de viagens espaciais para averiguar a existência de inteligência ET, nunca o viríamos a saber mesmo que tivéssemos naves com motores de matéria - antimatéria,dadas as incomensuráveis distâncias entre as estrelas O programa SETI completou 10 anos em Maio de 2009 e embora tenha envolvido 140.000 participantes e 235.000 computadores em rastreio das frequências rádio, não se conseguiu encontrar um sinal que para nós seja interpretado como proveniente de uma inteligênca alienígena . Isto não invalida que existam no Universo formas de vida inteligente ; o que não podemos esperar é que sejam morfológica e metabolicamente iguais a nós, daí o medo irracional de um encontro frente a frente.

11.1.10

CORSÁRIOS



Começamos por dizer que corsários e piratas não são bem a mesma coisa , embora os efeitos nos navios mercantes fossem idênticos devido aos saques e mortandade cometidos. Já Nelson , o célebre almirante inglês do século XIX, assegurava que os corsários não eram melhores que os piratas, mostrando assim o desprezo que os marinheiros profissionais sentiam por estes marinheiros que saqueavam navios inimigos com autorização do rei do seu país. A razão da existência de corsários deve-se ao facto do corso ser mais rentável para um Estado do que ter uma força naval organizada que, a ser criada, seria sustentada permanentemente pelos cofres desse Estado. Espanha ,França e Inglaterra tiveram os seus corsários, para além da marinha de guerra. Os corsários, desde o início, foram uma arma barata e eficaz, não só pelos prejuízos que causavam no comércio rival mas também pelos ganhos que propiciavam os saques e os pedidos de resgate sobre os barcos aprisionados e suas tripulações . No entanto, tudo o que fosse para além de causar estragos no comércio rival era considerado pirataria e susceptível de ser castigado, inclusive com a forca. Como uma coisa é o que está acordado e outra é a realidade, muitas vezes as acções corsárias eram mais de pirataria , com destruição e barcos e crueldade escusada. Nos séculos XVI e XVII, os corsos nos mares Mediterrãnico, Cantábrico e Antilhas eram feitos por barcos pequenos, muitas vezes sem grande artilharia, muito úteis na procura e perseguição dos navios mercantes dos outros países, o que exigia barcos leves e velozes. Os corsários usavam como armamento pistolas, mosquetes, espadas e punhais e o seu único pensamento era o saque e posterior partilha. O grande problema de quem comandava estes barcos corsários era a disciplina , já que os tripulantes eram recrutados em meios problemáticos das grandes cidades de Londres e Marselha. Para combater a indisciplina , os capitães aplicavam uma lei não escrita mas por todos aceite. Vejamos alguns exemplos: se um marinheiro se amotinava devia ser isolado e emplumado antes de ser abandonado numa ilha deserta ;se um homem desembainhava um punhal com intuito de ameaçar um companheiro,eram-lhe cravadas as mãos no mastro com o dito punhal, esperando que ele se soltasse sozinho; se fumasse antes do pôr do sol levava três chicotadas ; o que assassinasse um companheiro era atado ao cadáver e atirado ao mar. Dentro deste código de conduta dos corsários, o que estava destinado aos tripulantes e passageiros dos barcos aprisionados? Os passageiros considerados ricos eram mantidos para resgate ,mas turcos, mouros e mouriscos podiam ser vendidos como escravos. O resto da tripulação deveria ser desembarcada num porto amigo, logo que possível . Só em caso de necessidade absoluta se podia completar a tripulação com prisioneiros. Os barcos corsários tinham um comandante absoluto ,o capitão, escolhido pelo armador; seguiam-se o imediato e o mestre da fragata que governava a marinhagem. Como postos intermédios existiam o mestre das rações, o mestre dos apetrechos, o piloto, o contra mestre e o condestável. Havia também artilheiros,carpinteiros ,cirurgiões e por vezes um padre, num universo de cerca de cinquenta pessoas.

Ressalvando a abordagem e a luta que se seguia , o momento mais delicado da vida de um corsário era o julgamento do corso . Era um julgamento autêntico de primeira instância ,com escrivão e assessores e que servia para avaliar se o barco corsário actuara segundo as leis do mar e, por tanto, se o espólio obtido podia dar-se como bom e ser repartido. O julgamento era efectuado em terra, com a presença do capitão corsário e dos prisioneiros a quem era atribuído um defensor. Todos eram ouvidos sob juramento e a sentença decretada em 24 horas . Qualquer das partes podia recorrer da sentença para um tribunal superior, o Conselho de Guerra , que ditava a sentença final com possibilidade de um só recurso, o que era muito raro. Se o resultado era a favor dos corsários eles repartiam entre si o espólio; se era a favor dos prisioneiros , estes tinham direito a receber o que lhes fora roubado e uma indemnização pelos danos sofridos.

Se bem que no final do século XIX o corso tenha terminado devido a acordos internacionais que regem a navegação, no início do nosso século, na região da Somália,ele existe, mais parecendo pirataria e por isso combatido pela marinha de guerra de vários países, incluindo Portugal.

10.1.10

ILUMINAÇÃO PÚBLICA


Quando hoje caminhamos de noite por qualquer rua urbana, não pensamos em como terá surgido a ideia de a iluminar. Alguns saberão que antes da electricidade se usou o gás , o petróleo e até mesmo o azeite, mas muito poucos saberão que a ideia foi de Luís XIV, o rei sol de França. Este rei, de 24 anos e grande amante de festas, em Outubro de 1662 decidiu converter em dia a noite parisiense, com um serviço público de iluminação. O primeiro passo foi criar o Centro de Portadores de Tochas e Lanternas, uma rede de empregados que se situavam em pontos estratégicos de Paris e eram portadores de luminárias a azeite ou a velas de cera e cebo . A sua função era acompanhar os noctívagos a suas casas, iluminando-lhes o caminho, mediante um preço estipulado e dependente da duração do percurso. O serviço teve tanto êxito que, cinco anos mais tarde, o rei encarregou o alcaide da cidade de criar um sistema fixo de iluminação. Foram assim instalados 2.736 candeeiros de vidro, presos às fachadas das casas e à razão de 2 a 3 por rua. Os habitantes de cada rua, em regime de rotatividade, deviam acender e apagar estes candeeiros a azeite e limpar os vidros sujos pelo fumo da chama . Para facilitar a tarefa, essas lanternas subiam e desciam por meio de uma roldana. Se a ideia despertou interesse em Paris , o que dizer de outras capitais onde reinava completa escuridão após o pôr do sol. A iluminação nocturna de Paris fez aumentar o número de pessoas a andar nelas ,com as lojas comerciais,tabernas e cafés abertos até às 22 horas .Podia-se sair para cear ou fazer compras , sem medo dos meliantes que antes actuavam na escuridão. Esta maravilha atraiu inúmeros visitantes a Paris entre 1680 e 1690, principalmente ingleses, tendo assim nascido a ideia de turismo. Se os parisienses , por causa da iluminação, já podiam andar mais tempo na rua, havia ainda o problema dos dias chuvosos que os retinham em casa. Embora em 1677 se tenha inventado o tecido impermeável, foi em 1705 que um fabricante de capas chamado Jean Marius encontrou a solução definitiva criando o guarda-chuva pregueado, muito parecido com os actuais. Como eram muito caros, cerca de 600 € ao câmbio actual, em 1769 a polícia de Paris criou um sistema de aluguer de guarda-chuvas e as pessoas continuavam a sair. Voltando á iluminação , a euforia era tal na luta contra a escuridão que ,nas casas mais abastadas e nos palácios, o número de velas e candieiros aumentou imenso fazendo a noite parecer dia.

9.1.10

TORNADOS


Em Portugal, os dois últimos registos de tornados datam de 7 de Outubro de 2009, em Ferreira do Zêzere, e 23 de Dezembro de 2009, em Torres Vedras, Lourinhã e Cadaval, havendo a contabilizar enormes danos em telhados , postes de alta tensão, estufas agrícolas e outras estruturas. Mas que fenómeno é este que surge inesperadamente em locais tão imprevisíveis ? Por definição, um tornado é um intenso redemoinho de vento, em forma de funil, originado por um centro de baixa pressão durante uma tempestade.Se o redemoinho atingir o solo pode provocar grandes estragos pois são ventos com velocidades de centenas de quilómetros por hora . Os tornados formam-se associados às super células de tempestade, condições atmosféricas que originam ventos fortes, chuva intensa e granizo que vai desde o tamanho de um berlinde até ao de uma bola de ténis. Normalmente a formação do tornado ocorre ao final da tarde, período em que a atmosfera está mais instável , com forte turbulência e nuvens do tipo cúmulo-nimbo. Também é possível o aparecimento de tornados durante a noite, quando as super células de tempestade ,formadas durante a tarde, foram ganhando força, ou amadurecendo como dizem os geofísicos. Embora não exista consenso sobre o mecanismo que desencadeia o tornado, aparentemente ele se deve a uma interacção entre fortes fluxos de ar, ascendentes e descendentes que originam um movimento intenso na zona das células de tempestade devido aos valores muito diferentes de pressão atmosférica e de temperatura. A super célula é , no fundo, uma tempestade severa com uma corrente ascendente contínua e rotativa, isto é, um mesociclone . O ar quente e húmido, ao subir em rotação horizontal, entra na zona de turbulência criando um vórtice em forma de funil que tudo aspira. Estes vórtices são visíveis porque, devido aos detritos e areias que transportam, tomam uma cor escura.
É conveniente ver a diferença entre tornados e furacões : um furacão tem centenas de quilómetros de diâmetro e forma-se sobre os oceanos , perdendo força ao aproximar-se de terra firme. Os tornados são mais violentos e apresentam a forma de funil cujo diâmetro é inferior a mil metros , tendo também curta duração, cerca de uma dezena de minutos. A intensidade dos tornados é avaliada na Escala de Fujita que varia de F-0 a F-6, sendo este último grau apenas teórico pois nunca foi atingido. Há vários tipos de tornados consoante o aspecto apresentado: o tornado de vórtice múltiplo é um tipo de tornado no qual duas ou mais colunas de ar giram ao redor de um centro comum. O tornado satélite é um tornado mais fraco que se forma muito perto de um tornado mais forte e que parece estar a orbitar o tornado maior, embora os funis sejam independentes. Uma tromba de água é oficialmente um simples tornado sobre a água de um lago ou de um grande rio com aspiração da dita água . Um landspout é um tornado cuja origem não é um mesociclone , sendo portanto muito mais fraco e de curta duração.
Os tornados , por vezes, dão origem a fenómenos curiosos como a chuva de animais . Os animais que costumam cair do céu são peixes e rãs, e por vezes pássaros . Embora os peixes possam sobreviver à queda, os outros animais morrem congelados e vêm encerrados em blocos de gelo, o que demonstra terem sido sugados até grandes alturas onde as temperaturas são negativas. O fenómeno deve ser muito violento já que a maioria das vezes o que cai são apenas pedaços de carne e não animais inteiros. Este fenómeno não é tão raro como se pode pensar pois está citado em papiros egípcios e também na Bíblia como intervenção celestial. Até Plínio, o velho, fala deste acontecimento. Esta chuva de peixes, ratos e outros pequenos animais é explicada pelo facto do tornado ter passado por um rio ou um charco e ter sugado os animais aí existentes juntamente com a água . Em terra pode sugar pequenos roedores e outros animais maiores que caem desfeitos.

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